Apresentação

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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Estrela Solitária




         

          Ela nem sabe mais o dia em que colocou aquele vestido azul; sapatos de salto fino, prontos para dançar... Taças de vinho, aniversário de casamento. Perfume e batom de suave brilho e sabor. Alice foi ao salão e cuidou-se de maneira graciosa. Tinha uma sensação promissora de aflições, embora houvesse estrelas cintilantes dentro dos olhos. Ah! A esperança é a última que morre... Alice permaneceu quieta no sofá, pensando no tempo em que não sofria. Nesse tempo o amor era sempre tão quente. Ela sonhava e sonhava... Muitos passos encadeados, dedos entrelaçados, cabeça repousando no ombro dele, para sentir o cheiro da pele quente, logo depois da “pelada”. O braço dele contornava a sua cintura fina e a rodopiava no pátio do colégio, pela avenida, pelo estacionamento, pelo corredor, pela sala até o sofá. Todo lugar era bom para estreitá-la nos braços vigorosos e seguros e girar, girar, girar... Dançar... Um Fogo. Que fogo! Sim! Quanto tempo não o via ir-se, depois da horinha de namoro sob o olhar atento da mãe de Alice. O namoro tinha hora marcada, mas ele e Alice prorrogavam os encontros. Na hora de ir embora, ele saía acelerando o carro, queimando pneu, depois de uma longa despedida; Alice ainda sentindo o mais recente beijo de labaredas e o calor da camisa listrada de preto e branco. Os dois eram tão jovens. Dois estudantes guiados por uma brilhante estrela emoldurada no tempo em que bastava um pequeno aceno suplicante dela, para ele voltar voando. Um fogo!... O hábito de dar marcha ré, só para dizer novamente, mil vezes: meu amor, eu te adoro, eu te quero para sempre, volto logo, não me esqueça, I Love you e me espere minha vida, senão eu morro; minha estrela da vida inteira!... Ah! Quanto tempo o telefone não fica ocupado, arrastando o: desliga você, eu não tenho coragem, vou morrer de saudades, não me deixe um segundo, vamos desligar juntinhos, dorme bem meu amor, está quente, sonhe comigo, até amanhã; beijos queimando em brasas, num gestual de românticas criaturas que temem se perder... Ah! Quanto tempo ele não a olha pelo espelho retrovisor do carro, só para enquadrar o balanço das suas coxas, o volteio da cintura fina e a inspiração para viver feliz o dia inteiro... Ah! “O amor é fogo que arde...” Para onde aponta o seu amor, agora tão distante, que deixou de ser amante, que deixou de amar e o transformou num homem ausente, sem o fulgor da estrela?
          Agora Alice só fala, fala e fala. E ele se cala, cala e cala. Ela quente. Ele gelo. Mas, que pena; ela acordou com pensamentos inoportunos, dizendo para si mesma que hoje é difícil viver com ele. Mudou tanto! Para ele o mundo se resume a: sim, não, talvez. Para Alice, o mundo é um labirinto de palavras labaredas, que não se apagam. Alice se queixa de segunda a segunda, porque ele não cumpre as promessas que faz: ele jura para ela que na segunda-feira termina o trabalho demasiadamente árduo, a tempo de ter o divertimento com ela, que está sempre pronta a amar. E ela espera que ele chegue, até cair adormecida. E ela aguarda, enquanto o coração acorda e ele nem contempla a beleza desnudada nos lençóis. Do mesmo jeito ele promete que verão um filme a cada terça-feira, mas é incapaz de cumprir essa jura também. Depois destas desaprovações que seu coração denuncia, ele explica que na quarta-feira virá jantar e vai fugir da rotina do escritório. Na quinta, com toda certeza, deixará o chope e o “Comida di Boteco” depois do expediente, só para ter com ela aquele tempo passado de namoro. Na sexta-feira, quem sabe, será um dia especial; ele tenta se justificar.
         No entanto, a rotina de seu relacionamento é demasiada para ela, estrela solitária e apagada no amor com ele, há tanto tempo, que o romance perdeu o destino de sua casa. Nem sexta-feira. Nem sábado. Nem domingo... Esfriou. O coro de anjos na sua cabeça alerta para a desafinação e desarmonia da sua vida; a tristeza continua, tornando-se aparente no rosto brasa. Ela queima, queima.
          Alice, mais dia, menos dia, vai deixar de... Vai deixar de... Vai deixar de... É uma questão só de definir o dia da semana.
          Ele não se dá conta de nada... Nunca a vê do jeito que Alice queria ser vista. Nunca a ouve como gostaria de ser ouvida. E, se ouvisse, não adiantaria, porque ele não entende o que ela quer. Não entende uma só palavra do que ela diz... Porque ela fala tanto? Não a vê, nem escuta e nem sente o seu perfume. Sim, não se dá conta de nada, porque a vida é mesmo uma droga, uma porcaria, um inferno: o trânsito, o chefe, o salário, o cartão de crédito, a rotina, a hora extra, a crise, as passeatas, a confusão, os filhos, a política, o governo. E por que ainda não prenderam aquele corrupto e safado? O que está faltando?Política! Filhos! Ah! Os filhos!... Tem mais: os blás, blás, blás de Alice. Insuportáveis!
      - Estou morto! Entra em casa, monossilábico e sem entusiasmo. Passos de autômato. Músculos enferrujados. Calva... Barriga. Impaciência. Cansaço. Morno. Larga os sapatos na entrada. Liga a televisão. Vai ao banheiro. Chuveiro! Água gelada. Toalha. Bermuda. Chinelos. Cigarro. Volta à sala. Joga-se no sofá. Grita para ela: - Minha cerveja!... Deixa claro que não vai jantar; já comeu qualquer coisa na rua. Uma paradinha no Caneco Gelado. Azia, má digestão. Boca amarga. Grita: - Pega o controle remoto! Alice guarda a comida feita com cuidado para tratar da dor de estômago do marido; agora o avental esconde o vestido azul. Ela arruma a cozinha e a pele perfumada vai se perdendo no aroma do detergente. A maquiagem desliza arrastada pelas lágrimas, descompondo a esperança de uma noite diferente. Perde-se na água que escorre em redemoinhos pelo ralo. Perde-se na solidão morna. Perde-se nas bolhas coloridas de sabão.
          Ele se acomoda no sofá, moldado com as suas formas e suor. Agora sim... Um profundo suspiro e a entrega solene ao futebol. Ternura em seu olhar, só quando seu time entra em campo e a bola rola no gramado... O coração esquenta. Põe a mão no peito e canta o hino do time. Sente-se bem, sorri. A bola em campo traz a mesma alegria e vigor da juventude.
          - Juiz ladrão! Safado! Foi falta! Está cego? Marca! Marca! Seu corno! Vagabundo! Segura! Passa a bola! Falta! Chuta, passa a bola! Fecha a retaguarda! Corre atrás da bola! É pênalti! Juiz ladrão!... Cartão vermelho! Cartão vermelho! Expulsa este perna-de-pau!... Está cego? Vai, vai, vai! É gol... É gol... É gol! E o grito vibra na sala. FOOO GOOO!... Fooo Gooo!... Fooo Gooo! Fooo Gooo! Hoje ele vai dormir feliz. Ela não.     Alice chora.
          O futebol é a verdadeira prorrogação da vida e da esperança. Alegria e prazer, só mesmo quando ele liga a televisão. No campo não tem patrão, não tem horário, não tem pressa. Não tem cobrança e falatório. Ah! Não tem os blás, blás, blás de Alice. Se a vida é um jogo, quem sabe ela melhora no segundo tempo? Prazer?... Só com o Botafogo e a sua imorredoura Estrela Solitária. Ah! O amor é eterno. O amor é fogo...
          Vai chegar o dia em que ela...
      Entre outros desatinos que passam pela cabeça de Alice ela pensa em botar fogo na televisão, na sala, na casa, na rua, na cidade inteira. Ela, mais dia, menos dia, vai deixar de... Vai deixar de... É uma questão só de definir o dia da semana.
  Domingo: sirene, bombeiros, gritos... Socorro!... Fogo! Fogo! Fogo! 

          “O amor é fogo que arde”...


Autora: Valéria Áureo
In. Conjugando o Amor Líquido
  
           




segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Por conta da terra a semente



                                     
          Sempre aconteciam coisas com todo mundo e a toda hora, não importava nada que se fizesse: o país e sua política; as pessoas e o quanto tinham comido; o tempo e se chovia, ou que estação do ano era perfeita para se viver melhor. Aconteciam coisas, simplesmente. Com Anna não seria diferente, porque a vida tem seus feitiços, seus contragostos e esquisitices. Só para se tornar tão importante, a vida, depois de apagados os anos na memória ávida, se faria recordar, toda importante, sob um holofote de luz azul. Então ela poderia dizer: sim, se me recordo bem, foi naquele ano...
          Ontem era o dia em que a menina acordava esquisita, prestes a... Não sabia a que. Prestes a ter um treco, um troço... As costelas arriadas para frente só para acomodar os dois pequenos peitos em duas gavetas de ossos. Pura cautela para que não vissem as novidades que se anunciavam aos olhos. Beleza de menina nascendo nas estações das chuvas, para dar um tom de narciso naqueles olhos cinza d’água. Beleza aflorando de duas caixetas de carnes minguadas... Achava estranho aquilo que nascia dando-lhe condição de animal  feminino de espécie mamífera. Fera, como todos os animais desde que notou o motorista apalpando-lhe as tímidas formas nascentes com olhos tendenciosos e perdidos naquela inocência de ainda brincar com os meninos sem os pais se afligirem. Pois era mesmo criança, de querer doces fora de hora e fazer muito barulho e inconveniências ( para ela algazarras tão lindas e leves como embalos das gangorras e para os mais velhos zoeiras desagradáveis). Ia assim se fazendo corpo inteiro em meio às dúvidas da avó e das tias... Mas quando será mesmo que ela vai crescer?
          Anna não sabia quando iria crescer; nem mesmo queria, porque não podia comandar aquilo que acontecia com os ossos das faces, deixando distantes as formas arredondadas para imagens de antigos espelhos estrategicamente pendurados na parede e onde se via de relance, só de vez em quando. Ia adquirindo ângulos. A menina resvalava os olhos um pouco pelos espelhos, para apreciar o que via; outro tanto para lamentar o desgosto que lhe davam os brinquedos e as conversas dos meninos. Tinham ficado bobos, tão infantis que queria era fugir para casa e deixar as brincadeiras de lado. No espelho, de soslaio, porque não queria se ver plenamente, ela pressentia: os amigos se distanciariam aos gritos da mãe já muito aflita com as meninas maiores que não podiam mais sair. Deixava-se por conta do destino dar pelos claríssimos às minúcias mais impensadas e recônditas do corpo; fazia-se numa exatidão de curvas delicadas e alvas, um molejo nas cadeiras, que agora sabiam dançar quando ela andava. Nascia apesar de ela desejar o contrário, uma atrevida escultura na arquitetura até então vazia de ondas, sempre atada ao quadrilátero exato de braços paralelos ao tronco. Irrompia pelos limites das linhas uma demarcação de formas novas e alvoroços, que saíam de dentro da alma outrora tão quieta. Nem se reconhecia mais nas antigas alegrias de amanhecer pensando em seus brinquedos e livros de histórias. Para onde mesmo tinham ido as fadas?...
          A mãe aflita de uns tempos para cá, a saber, onde e com quem estava, guardando os passos de Anna que dizia não querer crescer, mas mesmo assim ia, ia, ia... Ia se fazendo parte por parte. Mas quem podia com a vida? Ela e os seus desatinos de comandar tudo que vai pela frente e fazer da pedra o pó, da fruta a semente, do novo o velho, do alimento o que se expele. Nada, nada como era antes... Era assim mesmo a vida. Anna se encantava com o que via na natureza e dizia que folhas eram cabelos desarranjados de árvores despenteadas. Anna que deixava vazios os galhos da goiabeira, devolvendo aos passarinhos o que suas invenções roubaram. Anna que tirava os pobrezinhos dos ninhos pelo prazer de atiçar as mães, ou colaborar com elas, enfiando-lhes goela abaixo miolos de pão com leite. Agora a árvore, os pássaros, as folhas ressentiam-se das ausências dela, porque a infância ia ficando sem graça. Onde mesmo foi aquela menina?
           Anna engendrou-se enigmática no hábito de deixar as coisas como estavam e como eram. Isso desde o dia em que morreu em suas mãos a andorinha coberta de piolhos que tentava alimentar. Enfiava-lhe, em vão, pão e leite na desproporcional goela entre seus dedos que tendiam a apertar, embora ela desejasse afagar. Salvar e estrangular eram duas disposições simultâneas e incontroláveis que se misturavam no gesto franciscano de recolher os animais aos seus cuidados. Não houve jeito e a ave acabou-se inerte depois de devolver a papa embutida no afã de salvação. Daí em diante sabia que semente era para ser semente, já que era para isto que tinha sido feita. Tudo, enfim, era para o que tinha sido feito, apesar dela. E, apesar dela, dali por diante, o que acontecesse seria por conta da terra, caso se considerasse a semente. Era destino se fazer brotar em vida ou extinguir-se em infertilidade, mas nada que dissesse respeito à menina. Nada mais teria sua ajudazinha; nem mesmo jogar a semente na cova, pois isto era já coisa de Deus e, “se Deus quisesse.” Se Ele quisesse que ela, a semente, brotasse planta. Se não quisesse, aquela semente de laranja iria direto do prato para a sacola de lixo. O caminho dali por diante de encontrar leito ou cova, já não era da sua conta; não era para Anna interferir, a menos que quisesse uma laranjeira plantada no xaxim de samambaia, bem no canto da janela que dá para a rua. Por conta da morte do passarinho, sem sua vontade, tinha perdido por completo as aventuranças de interferir, fazendo coisas que não eram de seu domínio. Não podia, nem mesmo em benefício próprio, continuar menina no mesmo corpo, pois nada mais obedecia a seus desígnios; nem o corpo e nem a alma...
          Com o coração fazia o mesmo. Deixava pra lá... Deixava-o posto dentro do peito, que é seu lugar e onde devia estar. Se quisesse alguma coisa, ela não interferia, não escolhia, não dava palpites... É... Não palpitava o coração... Ele que se aventurasse entre conhecidos e desconhecidos, porque a razão não dava sinais de vida nessas horas. Assim mesmo, nunca aconteceu de ela se apaixonar. Mesmo assim ela esperava ansiosamente por surpresas, pois estranhamente começou a apreciar os meninos.
          Hoje cresceu como tudo cresce nesta vida Crescer foi um salto no tempo de cinquenta anos, recheado de escolas, matemáticas, línguas, piano, namoro, promessas e muitos desencontros. Casou-se, porque a ela cabia seguir a fortuna das moças... Nem escolheu muito, ocupada que estava em ler seus livros de culinária e o de inteligência emocional. Os primeiros para sustentarem o corpo e o segundo para estabilizar a cabeça. Escapava da falta de amor e do acre destino de servir mesa, como bem podia; mas a fatalidade podia mais. Assim, sem que pudesse muito interferir, lá estava ela na bifurcação Rio-Juiz de Fora, de duas cidades da zona da mata mineira, gerenciando os negócios e a vida, sem o encantamento e o prazer de estar na sua sala.
          Anna engendrou-se novamente enigmática no hábito de tentar descobrir o prazer da vida. Com o tempo acostumou-se ao homem calvo, gordo e estrábico que fazia companhia à sua solidão. Com ele pouco ria. Era melhor imaginar que a vida pudesse ser muito diferente. Era melhor deixar tudo correr na BR 101, sem intrometer-se na destinação do que veio para ser comum e pequeno, fosse à ida ou na vinda dos automóveis. É... O horizonte acabava bem ali, entre Juiz de Fora e a estrada cheia de possibilidades. Se ousasse, seria capricho e fuga; retirada estratégica pelo mar... Mar de Espanha!
          Anna tinha perdido por completo as aventuranças de interferir aqui e ali, fazendo coisas que não eram de seu domínio. Que se dedicasse às empadas, aos sorrisos pálidos dos clientes em trânsito. Estaria bom assim, para o marido... Que contivesse seus devaneios e plantasse os pés no bar à beira da estrada. Sim... Enquanto milhares de carros corriam dia e noite diante de seus olhos, melhor ficar com os pés fincados no chão, à espreita do que ia em direção ao Rio de Janeiro. Era preciso deixar-se estar, para sobreviver, quando perdidas as ilusões... Fera, como todos os animais, desde que notou o motorista apalpando-lhe as formas poentes com olhos tendenciosos e perdidos naquela maturidade de amargura. Que fosse assim absurdo. Vivia, morria, mas salvava-se amealhando esparsos galanteios, enquanto servia para o esbelto moço um café colonial. Com certeza ela  teria a lembrança dos sorrisos, ao final do dia para sonhar...
 
          Seria bem mais feliz sim, a bordo de um navio, ou no coração de certo rapaz que a viu com mais ternura que os outros. Oh! Uma viagem a Cancun, ou a Paris... Quantas possibilidades! Não importaria muito o destino. Qualquer lugar poderia salvar sua vida do balcão daquele restaurante à beira da estrada, onde preparava o café uma dezena de vezes! Mas, apesar dela, dali por diante, o que acontecesse seria por conta da terra, caso se considerasse a semente.
          A felicidade poderia salvar a Terra. Salvar-se... Mas, quem pode com o destino daquilo que veio para ser tão pequeno? Pois ela decidiu tomar o primeiro ônibus, rumo à liberdade, considerando que podia ter outro mundo em sua vida.




sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Coisa de Afeição ou Amor à Primeira Vista


Era apenas um menino da fazenda vizinha, visto aqui e ali, numa aprumação franzina, escanelado por falta de apreço aos doces e resistência à comida. Falta de apetite e aspiração. Perna fina. Porte de menino que ia crescendo desjeitado no prumo de duas vigas inclinadas para frente feito bambu, arqueado de peso e responsabilidade. Foi sempre miúdo no crescimento; assim mesmo era sujeito bom de tarefas. Difícil explicar a força que saía daqueles dois braços quebradiços de gravetos. É que já se tinha por chefe da casa desde que o pai se embrenhou mundo afora, deixando a mãe e a roça pra Deus cuidar. Dizem que foi coisa de amor desconsiderado por uma mulher casada e que disso só recolheu estrago pra vida. Deixou pra trás a casa e os filhos sem qualquer consideração ou piedade. Declarava que o amor havia corrompido os sentimentos pela família e precisou seguir seu destino. O menino, até então, não podia compreender tal sentimento. Sobrou ódio pelo pai. De tão pequeno, de tão sem pai, virou Zé Dadaia; Zé, filho da Dária, embora também fosse filho do Dirceu. Decidiu pela orfandade paterna, de tanto rancor que guardou.
          De repente o moleque miúdo deu uns volteios, uns rodopios no tamanho das pernas, os braços estirando a pele e os ossos num arrebatamento só. O pescoço encompridando para cima, o queixo alargando e arrastando os dentes; e do nada se deu arrancado no crescimento. Ficou moço de traços esguios. Já rapaz foi se empregar na fazenda do Seu Teixeira, por consideração ao padrinho e afeição à menina que, de soslaio acompanhava crescer como flor de manacá. Deu de sonhar acordado, acometido de mal que afeta os desavisados... O amor o perturbou tanto que de dia se perdia em devaneios e à noite não dormia. Ficou cativo das nuvens e tormentos que pontilhavam a alma que não era dela; não sendo dela, doía tanto que de mais ninguém seria. A alma ora ficava, ora fugia, meio sofrer, meio esperar. Mais que o amor, a alma morria... Iniciado rapaz já se perdia em dançar com a moça de cintura fina; ao menos em sonhos, quando se estirava no capinzal seco. Deu também de contar as estrelas, hábito que tinha com a rês no pasto. Uma, duas, dez... Cem, mil... Com as estrelas se perdia em número e ordenamento no céu, tentando alinhar os distantes pontos emaranhados no infinito, como se fosse o rebanho. Ora para a esquerda, ora para a direita, os olhos não tinham destino certo, nem sabia ele a que distância a vista teria que ir... Dos números fugia para as palavras, os cheiros, o vento. Quem procura estrelas sempre está perto do céu; mas não era ali que a moça vivia. O rapaz, no baile da festa de Reis, tencionava tomar tento pra vigilância daquela formosura, como se houvesse destinação de ela ser sua e de mais ninguém... Na imaginação deu-se por avexado diante do vestido rosa dela, graça cheia de fitas nos cabelos. Ele tão simples; ela, capricho e cabedal! Viu pelo salão gente embesteirada de manias, muitos empertigados em roupa de qualidade. Ele tímido, reduzido no orgulho e vaidade, sempre de olho nela. Pensava muito pouco de si: muita sela para pouca montaria. Desavisado do destino, não custava nada sonhar...
          Zé Dadaia dormiu no mormaço do dia, no intervalo da refeição e o eito, estirado no capinzal... Na imaginação desenvolveu a dança, respeitoso, aprumando o pescoço para cima dos ombros dela, só para sentir o aroma de flor nos cabelos. Eta devaneio presunçoso, meu Deus! Acordado tinha conta de que era ninguém perto dela e nem em sonho a alcançava...
          De longe, agachado na estrada, um caboclo toma pinga, as pernas leves e a consciência pesada, porque bebe demais, peca em pensamento e espicha os olhos pra moça que anda toda levezinha no chão batido de terra. Outro, agarrado na viola, consola uma lua de parto de madrugada quase perdida e suspira só por conta da solidão. Outro ainda olha para todas que vêm do campo e não se perde em nenhuma. Lá longe, onde antes se ouviu a toada de bois, segue a vida na rotina, na luta no campo, no corte do capim; e mais um dia se encaixou no crepúsculo.
          Agora é noite nascente de poucos sons. Um caboclo acocorado repousa nas pernas dobradas por canseira e desilusão. Canseira, copo e golada de bagaceira. E vai chegando de olhos perdidos nos olhos e pernas de todas elas que voltam para casa. O rosto reflete uma cor cinza fumarenta no luminar do candeeiro e elas arriando as pestanas pra encobrir a vergonha e pra noite alumiar o sonho. A noite encobre a passagem e leva cada um ao seu destino...

          A velha gaita choraminga fazendo a moça dormir. O pai percebe os suspiros e o perigo de se ter donzela em casa com tanto caboclo rondando. Ele envelheceu viúvo, cuidando da brasa na fornalha, fazendo às vezes da mãe; atento com a filha.  Paciente... Cuida para o alimento ir chegando ao sabor do frango com quiabo. Apaga a chama e deixa a brasa para a panela não queimar. Dia sim, outro também manda tirar o cisco da tapera velha, cuida de ajeitar a lenha. Pouco tem que fazer quando a solidão se acomoda junto do coração. O que pode é se embalar com as cantorias do rádio na voz de Nelson Gonçalves e algumas recordações da mocidade. Toda manhã repete a vidinha assim: vê o padrão das vacas novas, decide o que matar e o que vender; o que plantar e o que colher. Dá direção da lida... Opina, atende, responsabiliza, reforça e cobra.
          Na roça o rapagão que conta as estrelas é quem trabalha, enquanto o velho decide. Solta os bezerros no barracão. Cuida dos matos, ajeita a lavoura: roça, capina, cavouca, colhe, seca, bate, recolhe, queima, amontoa. O velho não aguenta mais a tirança de leite. No mais é conversar e pensar na filha que vai ficar sozinha naquelas lonjuras; preocupa porque Deus não lhe deu filho homem. Deus também foi lhe tirando os dias de vida devagarzinho, devagarzinho, um segundo depois do outro... Foi também lhe definhando os músculos como se esvaziasse um latão de leite. Foi lhe retirando os dentes, os cabelos, a alegria... Ficou desenhado em magreza de pele e osso quase, quando Deus lhe tirou a mulher.
          De longe o velho vislumbra o fogo que come todas as matas das cercanias. Queimada consumindo tudo. Conclui que o cabra que faz isso com o mundo não é humano.
          Um dia surge um mancebo engravatado. Chegando mansinho de curioso, conversinha e bigodinho fino ocupando a boca ardilosa. O pai arreliado com aquela chegança de forasteiro não se mostra satisfeito. É que a moça da vizinhança já sentia a dor de menino novo apontando pra nascer e confirmando a desonra. O sujeito autor da desgraceira nem era das redondezas. Pois fugiu a passos largos pra se afastar ligeiro da justiça de garrucha. Coitado do compadre Setembrino! Queria isso não!

          O velho queria isso pra filha não! Melhor abreviar com a situação arriscada de dar tempo ao tempo e deixar moça em casa, encadeirada  e de boniteza crescente. Flor exposta ao enxame, ele pensava.
          Zeloso sabia que honra de donzela carece de constante sentinela. Uma piscadela e a desonra entravam pela porta ou pela janela. Porta, janela, tudo carece de tramela. Ainda mais... A garrucha sempre debaixo do travesseiro era meio de prevenção e cuidado que podia ter. O dado mais relevante é que já se sentia vivido demais pra tanta prevenção, sabendo que não ia durar para sempre. Deu de ficar cansado no peito e pouca respiração. Não aguentava escada e nem latão de leite.
          Tudo passava pela cabeça do velho enquanto livrava a filha dos moços que chegavam de mansinho. Vinham rasteiros que nem cobra peçonhenta.
  
Do seu lado o sujeito de fala mansa, doutor, de própria declaração pensava: - vai ser do jeitinho que estou com vontade! Mas a menina é arisca, meio pra aqui, meio pra ali; parte criança, parte moça. E nem se deixa avistar na varanda. Resguarda no quarto a boniteza da idade. O doutorzinho arredou até a Igreja, assuntando, tirando uma olhada de longe, nas formas, na boca com o desenho do riso dela sob o véu. Tocaiou na hora da missa, sondou aqui e ali e decidiu confiscado de fome e desejo falar com o pai dela. Era bonita demais... Precisão de ser conquistada com muito jeitinho e astúcia.
          Criou coragem e por isto foi derrubar a resistência do velho: - Quero a mão dela, Seu Teixeira... Levo daqui engatada no lombo do cavalo, mas antes trato de casamento. Garanto na papelada o nome, família, abastança. As diferenças “têm”, é verdade, mas faz mal não, que eu cuido de fazer ela feliz!
          O pai já encanecido foi logo desarmado na iniciativa da proposta; de pronto assuntou com o sujeito conversa séria e de muita clareza, duração e honestidade e nem argumentou com a menina para conhecer do seu querer. Ao jovem jeitoso no falatório declarou:- Garrou na minha mão pro aperto é mais valioso que juramento; já que do documento de papel assinado o senhor cuida! Leva a “fia” consigo!... Pra mim oceis tá casado. Cuida da moça, que já tô véio e fatigado; leva com o senhor antes que o caso ganhe grandiosidade!
          Ela se foi, casadinha de novo, sem lamúria ou riso, porque tinha os pés fincados no chão e não tinha querer. Nunca deu de saber a ninguém seus desejos e sentimentos. Acatou com frieza e boca calada a sua destinação de seguir o tal doutor, no lombo do burro. Levou pouca roupa e sonho nenhum. Mesmo porque nunca se deu conta de olhar para o lado, onde pudesse perceber que o rapaz sonhava e sofria. Também nunca olhou para o firmamento e jamais contou estrelas...
          Zé Dadaia, o rapaz que cuidava da roça e sonhava com a moça, deu-se por agastado. Olhos entristecidos de quem ama sem ser amado. Emagreceu, definhou, sofreu e quase morreu. Disso compreendeu o arrebatamento a que o homem está sujeito e perdoou o abandono do pai. Sentiu-se um pouco Zé do Dirceu... Do seu mal nunca teve cura; viveu a vida inteirinha a olhar para o céu a contar estrelas. No chão contava os bois todos os dias. Ê boi... Ê boi. Ê boi na estrada.



          
Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amor Líquido




Beijo Na Boca


                                   Ilustração: Internet


         Ivan Ferreira da Silva, mas o povo me conhece por Tico, por causa da minha miudeza de ossos e músculos. Um tico de gente, dizia minha avó. Mas meu nome é Ivan, confirmado pelo Espírito Santo na pia batismal. Cidadão de tez escura, atualmente chamado de afrodescendente pelos intelectuais. Sou negro, neguinho, negão e não me envergonho quando me chamam assim. Acho até bonito quando a moça me chama de meu neguinho, ou de meu negão, porque para mim é elogio. Sou o nego, para os meus amigos. Portelense enquanto fui liberado para aquele arrocho na Escola de Samba; mas depois deu ciúmes na minha neguinha e deixei de frequentar, para não cair em tentação. Carioca, do Rio Comprido, por nascimento e aptidão; nasci com a veia de sambista e bom de bico, pois uma conversa boa eu sempre tive. É que Deus compensa uma coisa com outra: tira a beleza, mas dá a astúcia. Botafoguense, porque a gente tem que amar incondicionalmente alguma coisa nesta vida, custe o que custar. Tem que ter uma paixão! Eu tenho a estrela solitária no meu peito. E eu amo aquela estrela, ali sozinha, da camisa de meu time. Sou do sexo masculino, com muita segurança e definição disso; não tenho meio termo, sou nascido, criado e conservado macho. Para mim não há nada mais acertado no mundo que mulher. Também não recrimino quem não goste. O amor cabe em todo lugar. A pintura da vida perfeita que me impingem no carnaval não me comove nem um pouco. Não vou virar alegoria para turista que vem visitar favela... Já não tenho nem mais os meus dentes e nem me iludo com mais nada nesta vida. Perdi a inocência.
 
          Insensíveis! Eu dou essa conta do estrago em minha boca aos governantes, já que não tive chance de me defender; já nasci em desvantagem no afeto e no leite. Já nasci devendo. Por que eu não sei, mas já vim devendo. Sem pai para me defender, sem mãe para me criar. Uns já nascem sem sorte; é o meu caso. Sem astúcia e resignados, muitos dos meus vizinhos se consolam em novelas; a ironia é que, no intervalo delas há propagandas de comida e de cremes dentais branqueadores. Tenho muito pouco do primeiro e não me serve de nada o segundo. Em resumo, barriga e boca vazias... Ainda me mandam sorrir para a câmera, porque estou sendo filmado, os covardes.
 
          Milhões de olhos mortos diante da TV habitam meu país e não veem o que se passa bem aqui. Sou de pouco estudo, mas observo. Não nasci burro, não. Quanta coisa por fazer e milhares de homens acomodados no sofá da sala e nos gabinetes em Brasília. O livre arbítrio deles está num comando portátil que os controla e no painel de votação secreta. Cultivam uma apatia de consciência tranquila e se consolam com o final feliz. Onde já se viu?... Final feliz!... Quando querem mais emoções, costumam mudar de canal que é igual no passado, no presente, no futuro. Tudo no controle remoto, para não desgastar o corpo.

          Hoje ouvi que para fazer concurso para policial é preciso ter, ao menos, vinte dentes na boca. Ri, ri muito até passar mal... Já viu uma boca sem dentes rindo? Pois não tem graça. Ah! Concurso público para policial. Ah!... Se eu tivesse vinte dentes... Primeiro iria tirar um retrato 3x4 para fazer uma nova identidade:- Tico com vinte dentes, sorrindo... Foto de frente e de perfil. Depois iria comer rapadura, chupar cana, morder um pedaço de carne. Fazia uma extravagância e comprava meio quilo de alcatra. Improvisava um churrasco. E, finalmente, iria beijar minha namorada na boca, que nem isso eu faço. Ah! Se eu tivesse vinte dentes, seu moço!...


Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amos Líquido






segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A Praça



Novo dia! A vida girando na cabeça encanecida dele, como um caleidoscópio quebrado, de cores vivas. Os passinhos e a fala dele são imprecisos e cansados. O lugar, em que vai todas as manhãs, é sempre uma surpresa. Uma surpresa, uma surpresa!... Na sua mente, aquele homem estranho o leva a passear em um lugar diferente todas as manhãs. Diferente! Diferente!... A mão firme em seu braço o mantém de pé e em segurança, até que possa se assentar no banco da praça. Ele só não entende porque todos os dias tem que ir a um lugar novo, acompanhado de um homem desconhecido. Por que não podem deixá-lo com aquele rapaz de ontem? Sim, aquele rapaz de ontem, tão engraçado e espirituoso, de quem gostou muito e com quem pôde conversar tudo, até mesmo falar de seus segredos mais íntimos? Ah! O rapaz de ontem sim, era feliz e divertido! O rapaz de ontem, de ontem, de ontem...
Tudo no parque é novidade para um pai idoso, ao lado de um homem estranho e tão triste, tão triste, tão triste, (que bem poderia ser o seu filho).
O rapaz de ontem, esse sim, era tão alegre e feliz!
Autora Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O Almoço




Ela não deveria cozinhar em dias difíceis, 
enquanto estivesse tão magoada com ele, 
pois acabava salgando a comida e abusava da acidez do vinagre. 
Pior, 
quando preparava o peixe, 
tinha ímpetos de lhe deixar as espinhas (as mais finas e invisíveis), 
para que elas pudessem atravessar a garganta do marido. 
Nesses dias ele não deveria almoçar em casa...

Autora: Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações
   





segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O Namoro


O que os dois conheciam do amor era a inocência de duas mãos dadas, suadas e trêmulas no cinema; era o frio do sorvete derretendo pelas bordas da casquinha de biscuit; era vê-la na praia, de biquíni, no final de semana; era andar de bicicleta na ciclovia de Copa e passar a tarde lanchando no Bob's. 
No momento em que a viu, ele compreendeu que deveria lutar; assim foi capaz de tudo, até estudar alemão, para decifrá-la mais.
Já na primeira lição de ousadia e confiança, ele dizia enrubescido, enquanto andavam na areia:
” Willst du meine Freundin sein?” Quer ser minha namorada? Ela ria...
No segundo encontro foram ao Bob's. Ele já tinha terminado e ela continuava comendo, rindo enquanto conversavam. Finalmente ela proferiu aquelas três palavras mágicas, capazes de preencher um pequeno espaço vazio que havia dentro dele:
– Não quero mais.  Ich will nicht mehr. Ele riu!

Ele olhou sorridente, pegou o prato dela e comeu o finalzinho. Lentamente comeu as doze batatinhas fritas de puro amor. "Ich liebe Dich! Küss mich!

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Cerimônia




Ana passou pela última vez a calça de linho branco do marido; tinha as faces rubras em duas brasas incandescentes... O calor do ferro de engomar descongelava aquela dor no peito cheio de mágoas, apesar do nó rente na garganta apertando-a; finalmente estava livre do espectro da primeira namorada do marido. Será? Ela e sua presença inefável que ocupava toda a existência. 
Aliviada, de certa maneira feliz, fez o vinco da calça, até o tecido soltar fumaça, como ele exigia. Então percebeu que as bainhas estavam levemente puídas, tanto ele tinha dançado, com a outra; mas ninguém iria perceber aquele detalhe encardido em sua vestimenta e em sua vida. Agora, nada mais importava.
Os amigos buscaram o terno de linho branco e ajudaram o companheiro de bailes e farra a se vestir. Àquelas horas todos já estavam atrasados. Ana também vestiu-se, sem nenhum adorno, sem maquiagem e sem nenhuma pressa. Só um alívio. A cerimônia na igreja não deveria tardar, mas não podiam começar o ritual sem ela.
A Igreja estava enfeitada e cheia. Não demorou e o espectro da rival entrou vestido de um branco levíssimo e fulgurante como um raio de luz; ela era tão leve e diáfana, que ninguém percebeu sua entrada; ninguém a viu chegar, como uma escultura de cristal e se deter ao lado do altar; ela parecia uma noiva, mas ninguém se ergueu diante dela. Mas, o morto logo sorriu e se levantou. Sacudiu as flores e deu o braço à imagem translúcida. Ela saiu radiante, abraçada com aquele que lhe fora prometido na eternidade. Os dois saíram a trocar caricias, dançando uma valsa levíssima que nem seus pés tocavam o chão. Ambos flutuavam sobre as nuvens, sem que alguém, além de Ana, se desse conta daquele raio de luz de tamanha felicidade.

Autora: Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações

A Corrida





Eles estavam sempre felizes, conversando e rindo. Quando ele dirigia seu carro, sua mão esquerda segurava firmemente o volante, enquanto a outra prendia suavemente os dedos da mão esquerda dela (tão pequena e macia), dando-lhe a direção de seu amor perene e a textura de seus carinhos. Ele conduzia todos os sentimentos com a expertise de um piloto de fórmula 1, audacioso e competitivo. Sempre ele, o campeão a traçar as coordenadas das corridas, a dizer o momento de se verem, ou não. Sempre ele, a erguer a taça da vitória, da pole position e do vinho. Tudo foi bem até o dia em que ele perdeu drasticamente a direção dentro de uma galeria subterrânea de seu coração e capotou com o carro. A partir disso nunca mais se viram. Não havia sequer uma luz no fim do túnel para nenhum dos dois.

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

domingo, 22 de setembro de 2019

Os Desenhos de Maitê




... Ela poderá saber desenhar no futuro, tão bem como o bisavô Zoberto.  Quem saberá dizer dos dons que traz em sua bagagem? Talvez ela possa ser uma brilhante desenhista, que possua em sua tinta o poder da síntese, a discreta autoridade da crítica e a arte do encantamento. Talvez ela possa desenhar assim, como tem feito em seus primeiros traços, riscos e rabiscos, com o seu olhar de criança recém-chegada no mundo, onde tudo é novidade. Ela, que parece conseguir ver além das primeiras formas e cores, insiste dizer que a cor é lilás, o céu é rosa, a baleia é verde e a tartaruga é roxa. Ela, sempre atenta, intervém no papel, concebendo muito além dos tons e nomes que criamos para as coisas, e das aparências indecifráveis que criamos para as pessoas. Ela intervém peremptória com suas mãos céleres e cobre em rabiscos todo o papel com a tinta azul.
Ela poderá fazer tudo isso e muito mais que concebemos em nosso mundo de razões, porém, se não tivesse em quantidade transbordante o amor, o desenho seria tão relevante como uma mancha de nanquim entornado em uma toalha branca. Ao contrário, ela é uma graciosa arte.
Tudo bem não saber desenhar, por enquanto... Ou saber muito além de minhas limitadas percepções... Quem poderá dizer que quando rabisca o papel, já não sabe desenhar misteriosa e precocemente os fractais resplandecentes, que recolheu no caminho de sua viagem espiritual para a Terra, porque, como anjo atento, veio memorizando o caminho de luz, até a barriga de sua mãe. 
Eu conheço você e o seu amor, quando está ao meu lado. E, pelo tamanho dele, esse amor imenso, dentro do coração vermelho (zemelho/memelho), tenho certeza que a fé e a esperança estarão sempre juntas de nós. Seu coração será permanentemente a ponte mais firme, segura e resistente para a nossa alma, que nos levará para todos os lugares do universo.
Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mente e Corações
22/09/2019