- A senhora já escolheu a cor do esmalte?
- Vamos fazer a unha francesinha. Já usei todas as cores, ao longo da vida. Leir, a minha amiga e exímia podóloga sabia de minhas preferências. Uma pena que tivesse ido para os Estados Unidos! Bem! ... Vamos ver se nós nos entendemos tão bem! Nada de cores!
- Já usou todas as cores do mundo, é o modo de dizer, não é? Já usou todas as cores, entre ásperas!
- Entre ásperas? O que vem a ser isso a sufocar meu pleonasmo? Não seria entre aspas?
- Entre ásperas! A senhora não sabe o que é? Aqueles rabisquinhos antes das palavras! Parecem duas chuvinhas.
Fechei os ouvidos para a reticente explicação do que seria “entre ásperas”, como se sorvesse sabedoria, para que ela me abrisse os olhos para o saber. Preferi confiar mais em minhas aulas antigas de português, embora eu já estivesse me ressentindo de meus esquecimentos e deslizes sobre a gentil " Flor do Lacio"... Vejamos: “as aspas têm sido usadas, como um sinal gráfico que delimita uma citação, um título de obra, uma denominação, ou para realçar palavras ou expressões em sentido figurado” ... Seria suficiente se eu desse tal explicação à jovem, para elucidar a divergência, mas me calei com a certeza de que nada adiantaria. A manicure dava-me múltiplos exemplos "entre ásperas" e eu voltava às minhas reservadas e intimas reflexões linguísticas, temendo pela escassez de meus conhecimentos. Entre esmaltes, lixas, alicates, unhas e dedos; entre considerações e análises eu concluía que a profundidade das explicações da moça sobre “as ásperas” surgiu na oralidade acelerada de um doutor em línguas, acompanhada de um gesto com os dedos indicadores fletidos. Eis todos os dedos (das mãos, dos pés, artelhos e joelhos e os seus tendões a serem considerados na possível explicação muscular). Pensei que a manicure pudesse ter achado as minhas mãos ásperas, mas logo mudei de ideia, porque as tenho macias e delicadas e ela não entenderia o sarcasmo. Não ousei, respeitosamente, fazer um comentário. Apenas me perdia nas considerações sobre o tema. Os dedos fletidos estariam ou não cutilados com o carinho que eu desejo aos meus dedos e ao gracioso idioma? As associações de ideias me arrastaram além do salão, pois eu me sentia entre parêntesis, entre colchetes e chaves, amordaçada e algemada, como uma palavra aprisionada, ou uma sentença matemática em seu cárcere privado. Eu segui minuciosamente o raciocínio frenético da mocinha... E era tamanha a utilização concreta das aspas, ratificada com os gestos dos dedinhos segurando o estilete, o alicate e a lixa, que tenho ouvido “entre ásperas” corriqueiramente, como em um pesadelo. Claro que isso me leva às raízes da questão com doses de alegoria e bom humor (sem mencionar artrites e artroses, rupturas de tendões e fraturas, como cai bem aos satíricos cronistas mais velhos, como eu). A grafia das aspas se fundamenta nas vírgulas dobradas; mas não caberia a mim dizer isso agora. Deu-se a elas, às aspas, a mímica, a rígida pantomina dos indicadores, apontando ao caminho da elucidação, entre a vizinhança e o circo.
Entre ásperas! Sim! Talvez eu acabasse concordando com a eloquente e teatral jovenzinha com seu alicate cego e sua língua afiada. (Estou admirada da senhora não conhecer entre ásperas! Como pode? Eu aprendi no primário...) ... Eu também estava admirada! Como pode? Ásperas, ásperas, ásperas, então vejamos! Dois espinhos da Coroa de Cristo, um de cada lado, a delimitar os domínios da dor que Ele suportou. Entre ásperas! Uma rispidez, um aprisionamento entre palavras que possam trazer a morte e a destruição. Palavras entre ásperas (pessoas, circunstâncias e eventos), entre as duas pequenas farpas gráficas, encilhando com minúcias os sarcasmos, os descuidos ortográficas, as cacofonias, as ironias, os pleonasmos e as invenções. A retórica nos discursos de violência, morte, assassinato, estupro, pedofilia, inveja, rancor, corrupção, aborto, incesto e tantas atrocidades mais, deveriam sempre vir em destaque entre ásperas garras da justiça.
Entre ásperas, sim, em contundentes medidas em negrito, para a destruição da engrenagem de todo o mal; duas algemas de aço, para os braços e para os pés do malfeitor. O que há, de verdade? Dois extremos do arame farpado cercando os bois no pasto, e a nós também e nossos olhos melancólicos, marejados ao entardecer. Duas garras, duas travas, duas espadas cortantes! Entre ásperas, entre cacos de vidros pontiagudos, cravados no rosto da vítima do final de festa, duas gotas de ácido sulfúrico, a cada canto dos olhos tristes das mães que perdem seus filhos.
Como era bom conversar com a Leir! Volta logo, menina!
Autora: Valéria Áureo
{In: Entre Mentes e Corações}
