Apresentação

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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Arquivos e Dispositivos


 Quando meus filhos me ofereceram um celular novo, foi a pretexto de eu ficar mais conectada com o mundo, e para que eu saísse do marasmo. Para me convencer, disseram-me que se se tratava de um aparelho que prometia milagres e tornaria a minha vida mais divertida. Eu, que sou boa de rezas, conversas e prodígios, aceitei na hora a ideia de andar conectada com um apêndice poderoso, que se encarregaria de todas as minhas preocupações. Eles diziam que a tal geringonça iria compensar a minha perda de memória, fato que os deixava bem inquietos e eu poderia recarregar a minha bateria de energias. Eu ficaria mais segura, disseram. Argumentei: se é para o meu bem, pensei, que mal tem? Aceitei!

         Eu tentei viver muito bem e em harmonia com um desses milagrosos aparelhos de última geração, colado ao meu corpo. Era um luminoso multimídia e tão diferente dos velhos e ultrapassados telefones, que eu me encantei. E eu esperava tudo dele e nada menos do que tudo mesmo. Eu o carregava de energia (e chamegos e boas vibrações, como passes de mágica) e o deixava dormir ao lado de meu travesseiro. Cor-de-rosa prateado, uma graça! Ali ele me embalava com vídeos de barulho de chuva, para estimular o meu sono e me fazia companhia. Mais perfeito? Eu queria! Que me despertasse com uma sinfonia clássica. Eu pretendia mais... Que ele fizesse café e torrasse pãozinho pela manhã, além de me acordar com um beijo na testa, depois de um emoji risonho. Narcísico, o aparelho assumiu autonomia e adorava fazer selfies; indiscreto, me acompanhava até mesmo no banheiro e se conectava a outros dispositivos em infiel Bluetooth. Não podia ver um espelho, que disparava um flash. Tocava música, me cumprimentava com um sonoro bom-dia e me enchia de mensagens otimistas e de autoajuda. Ele abria a minha agenda e me traçava a rota do dia. Falava em religião, e prometia milagres em correntes e mais correntes. Ele contava piadas, divulgava os encontros e programas de família, buscava os amigos distantes e reunia todos em conversas. Dava-me aula de inglês, francês, italiano e até latim. Aliás, qualquer idioma, até mesmo o mandarim, além de discutir política e me atualizar com todos os noticiários. Ele me avisava a hora dos remédios, a chuva, a temperatura, as condições do trânsito, a tempestade de areia em Dubai, quem casou e quem descasou. O celular me avisava quantos passos eu tinha dado no dia e me elogiava como ninguém enaltecendo a regularidade de meus batimentos cardíacos. Organizava as fotos de família, fazia álbuns, vídeos e divulgava eventos. Contava fofocas de celebridades e resumia novelas, marcava e desmarcava encontros e dizia quem traía e quem era traído.

          O celular tomou conta de mim, a tal ponto que eu parei de me preocupar com tudo que dizia respeito a mim mesma. Não anotava mais nada. Larguei tudo por conta dele. Descartei lápis, caneta, papel. Não me ocupava com mais nada. Esqueci-me de datas, nomes, pessoas, lugares, fatos. Bastava um clique e o mundo descortinava-se na tela luminosa e me oferecia todas as respostas. Tudo agora era por conta dele, transmutado na minha memória artificial e meu íntimo amigo. Um leve toque, um dedo arrastado na tela e a minha vida estava lá. Era um perfeito assessor de imprensa, um personal stylist, um fisioterapeuta a me indicar a postura na cadeira, um cardiologista a medir a minha pressão e a contar os meus batimentos. Era conselheiro, psicanalista, orientador. Minha vida, meus passos, meus gostos, meus risos, meus segredos, tudo ficou aprisionado no celular, ou melhor, nas nuvens. Se eu quisesse saber alguma coisa de mim teria que consultar o celular. Assim eu passei a viver nas nuvens!

          Um dia, sem qualquer aviso respeitoso para o meu espírito, recebi a seguinte sentença: desculpe! Este arquivo não existe em seu dispositivo! Tentei entender aquela mensagem trágica, que me deixou sem rumo e destruiu o meu mundo perfeitinho. Tive que desligar e reconectar. Nova mensagem: não é possível baixar os arquivos, pois não há espaço suficiente na sua memória interna. Por favor, remova-os da memória de seu telefone e tente novamente. Fiquei desesperada. Em vão! O aparelho não suportou a carga da vida real e sucumbiu.

          O melhor que consegui foi rir de meus filhos, tão preocupados comigo, ao constatar que a máquina também tinha perdido a memória. Confortei-me em saber que todos nós, homens ou máquinas, temos o nosso prazo de validade. Estou pronta para me reprogramar. Voltei ao lápis e papel.



Autora Valéria Áureo

In Docilidade de Sobreviventes

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Abrigo


                        

Ilustração: Internet


          
A menina não se lembrava de muitos eventos da infância. Entretanto, o que marcara sua alma foi a simplicidade de um presente. Ela havia ganhado de sua mãe uma bolsinha cor-de-rosa, com alças de fita de seda. Na mesma hora o objeto delicado se transformou em um cofre, cheio de preciosidades; um broquel de aço, embora fosse feito de cetim, que passou a ficar grudado em sua pele. Tinha o cheiro, a maciez das mãos da mãe. A bolsinha era um ninho tenro do lado de fora do corpo da menina. Dentro havia complementos para seu exterior: escova de cabelos, batom incolor, pó de arroz, rouge, esmalte e lencinhos de papel. Coisas de menina pequena. Havia ainda uma surpresa: na bolsa se escondia o coração da criança: muitas emoções misturadas, um espírito brilhante, esperanças embrulhadas em papel de balas de hortelã. E as duas, menina e bolsinha, não mais se separaram.

Ali dentro, quando a menina saía, podia levar consigo pertences que a faziam se sentir segura. Levava chaves, muitas delas, que colecionava como medida de precaução. Assim, afastava de si a possibilidade de perder-se ou ficar do lado de fora da casa. Se fosse o caso, então, de alguém conseguir desgrudá-la das saias da mãe e levá-la para passear longe de casa, colocava seu ninho no colo e o abria de tempos em tempos, para se assegurar de que estava ali tudo o que lhe era essencial. Bastava abrir a bolsinha e lá de dentro podia ouvir a voz de seu interior, mandando-a se acalmar. Ela via as suas coisinhas, as chaves de gavetas e portas, a maquiagem e os lencinhos. O papel prateado de bala de hortelã refrescava-lhe o hálito e uma luz intensa, esverdeada, irradiava de dentro, chamando sua calma de volta. Ventos de hortelã eram calmantes e diluíam o amargor do medo.

Ainda hoje ela carrega nas bolsas da maturidade, os suprimentos de primeira necessidade, além do terço, ao qual dava destaque primordial nesse farnel de apoio do corpo e do espírito. Tudo naquela bolsa tinha o poder de fazê-la acreditar que sobreviveria se fosse pega no caminho por uma situação de emergência. Mas aquele sentimento de proteção eterna nunca mais foi igual, como no tempo em que viveu sua mãe.






Autora Valéria Áureo

In: Docilidade de Sobreviventes


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O Jogo


                                          Ilustração:  Internet
Por que ele olha assim, desse jeito direto e quente? A quadra, a rede, a raquete cabiam dentro dos olhos espertos. Por que ele olha assim? Assim ela pensava, enquanto ajeitava o saiote e os cabelos amarrados por uma fita. Sentia-se observada de forma especial. Ela podia jurar que pressentia o hálito de clorofila na nuca durante a partida. Nunca se enganava. Ela imaginava que a aula de tênis faria o instrutor notá-la de maneira única. A bola era rebatida sem direção, da mesma forma que os seus pensamentos e seus olhos não tinham rumo. Os competidores novatos desconheciam os recursos que estavam disponíveis na quadra. O sucesso, a falha, o fracasso faziam parte do jogo. O propósito era dar o melhor de si, naquela saia plissada, branca, curta. Ela se exibia e a equipe não dava espaço na rede. Todos se divertiam na dinâmica tarefa de atacar e defender. Apenas ela não compreendia as regras da busca destemida por Roland Garros, porque só lhe bastava a íntima proximidade com o corpo do instrutor. Ela sabia tudo de ataque; na sua cabeça o jogo já estava ganho.


Autora: Valéria Áureo
In: Docilidade de Sobreviventes

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Recato mais-que-perfeito



 

Ela nunca usara calças compridas, pois as saias, tão apropriadas para o seu recato, eram de imediata valia para enxugar as lágrimas dos filhos. Nunca deixara nenhum trabalho por fazer, muito menos para o dia seguinte; o acúmulo seria repleto de outros afazeres, também inadiáveis. 

Ela fora exímia em trazer o amor de volta, fosse de um jeito, fosse de outro. Na maioria das vezes fora com brandura de afagos e palavras gentis, que ela aplacara as constantes mágoas de irmãos e corações. Pedido feito por um, dois, três, ela logo concentrara-se em atendê-los, para que não se pedisse outra vez. Nunca fora uma abelha rainha. (Quando se punha em ação, laboriosa como uma  operária - muito mel e raras ferroadas-, ela já sabia exatamente quais evocações engendraria para ter sucesso e organizar a sua colmeia). Tivera clareza de saber onde deveria caber um santuário, muitas camas, a mesa, bancos e livros. O ritual começava com uma sacudidela: acorda, filha, está na hora! ... (Servia o café, cortava o pão em muitas fatias. E o pão que ela tocava vinha cheio de bênçãos, como uma hóstia solene muitas vezes repartida na madrugada).

E assim, no rito matutino servira todos da família. Comunicara-se, sempre silenciosa com o invisível e voilà: em três tempos de urdidura (nunca mais que três), o alvo daquele amor desmedido estava de volta e restaurado. Sabiamente aconselhara, ensinara, educara com poucas palavras e olhares fulminantes de torpedos azuis. A cada dia ela se comprometera com a humildade e o perdão.

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             Ah! Que pena! Ela perdera a mãe, ganhara a madrasta que aos poucos fora se livrando dela e dos inúmeros irmãos, enquanto envolvera seu pai em outra família. Sem a mãe, todos sobraram. Ela sobrara! Era criança pequena quando sentira o que, depois - viria entender- era um clima de dor, pesar, perplexidade e separação. 

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          Enquanto as suas crianças cresciam ela se perdera nas suas lembranças de orfandade prematura. Não fora uma recordação qualquer e nem superficial; fora dolorosa e profunda, de travo na garganta. Talvez disso viera a origem de seu silêncio. Houvera uma lembrança ainda mais importante associada àquela vida taciturna, enquanto se ouvia ao lado, o soar de um piano sob dedos de um aprendiz. As músicas não foram para um dia qualquer. Foram melodias de um tempo em que ela tivera laços sanguíneos confiáveis como os pais e os irmãos. 

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            De que adiantara tanta gente, se crescera tão só? Faltara-lhe a mãe. Faltaram-lhe os irmãos. Aquela que amara, como possivelmente todos deveriam amar e foram amados, a deixara muito cedo. Aquela inesquecível mãe, de imagem quase apagada, estivera incrustada, habitando o seu frágil coração. Aquela que em tudo lembrara suas origens, nos traços, nos olhos muito azuis, na pele pálida, na altivez, na casa em que vivia, nas mentirinhas de massa de pastel que fizera para a filharada, também se ressentira da perda do amor materno. 

 

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A constante lembrança da perda prematura, não se tornara um arquivo qualquer, mas sim no mais precioso e marcante registro de memórias: o grande livro das reminiscências sagradas e suas liturgias. E assim a sua vida de mãe recatada e zelosa, fora pautada no sacro missal romano - a única relíquia deixada pela mãe sobre a escrivaninha. Sim! Com Deus ela sabia que podia contar sempre.

Autora: Valéria Áureo

In: Entrementes Corações

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Geometria






          Poderíamos pensar que o amor é facilmente decifrável, exato e geométrico. Poderia ser feito de espelhos, linhas, curvas e sinuosas; uma sucessão de pontos a se perseguirem nos enlevados toques e carícias de montanhas e ventos. Poderia ser problemático, matemático, calculável, resolvível, como uma equação de segundo grau. Poderia ser removível, decifrável? Impossível?
 Ah! O amor tem muito mais do que os traços e embaraços de muitos fios elétricos enredados pela cidade eletrocutando corações. O amor é pane! Sim, “é fogo que arde” ... Lava incandescente descendo o morro. O amor pede socorro!O amor é aflito!
O amor começa com um ponto, dois, três, reticentes e, ao se darem conta, duas almas embriagadas correm tangenciando o infinito. Dois pontos extremos extrapolam o desenho só para se encontrarem e, ao se verem, um grito! Ah! Afinal! Um beijo. Fugaz abandono do plano exato, do fino traço arquitetônico e, então enamorados, dois rabiscos assumem forma, volume e se compõem no sólido e no insólito. Ocupam finalmente o espaço e vão da linha reta às mandalas no Egito..
Dúvidas, dúvidas, dúvidas e, desastradamente, outros pontos desconectados perseguem os dois pontos originais, amantes e afins, outrora felizes, ora ameaçados por mais um ponto fraco, que interfere nessa dualidade monolítica e sacramentada. O que era para ser um projeto (de vida) de duas forças iguais, em um esboço equilátero, equidistante, equivalente, na perspectiva de um afetuoso milênio, passa a ser, miseravelmente, para os dois, um triângulo desengonçado, esquizoide e neurastênico. Ah! A geometria do amor...

Autora: Valéria Áureo
In: Entrementes Corações

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Transposição de sílabas ( Dia da Língua Pátria)



Quando o professor voltou a acessar o celular, para enviar uma mensagem de socorro, a tela apagou-se repentinamente, como se ele estivesse na escuridão de um túmulo. Havia um último registro de mensagem anterior, recortada em fragmentos, como um tímido: vá com Deus! Sentiremos sua falta, mestre!
O professor sentiu-se sem ar, como se uma hipértese estrangulasse seu peito. Claramente estava sofrendo a transposição de fonema de uma sílaba para outra, como se fizesse a transposição de um plano a outro. O coração acelerou, mas logo alternou-se em batidas lentas. Ele avançou o dedo no teclado e percebeu que o seu enfraquecimento se devia a uma diástole, talvez uma sístole, ou uma sinalefa, ou as três juntas se engalfinhando no discurso pró-infarto, ou teria sido pré-infarto?). Um avanço, um recuo e deu de cara com a mensagem seguinte na tela que acendia e apagava. Estou tendo um...! A formulação soou bem sinistra. Era preciso suprimir a sílaba mais saliente e tentar escapar com as ajuda da haplologia; se esta não resolvesse, que apelasse para a instância da apócope, ou mesmo da aférese. O que não podia era ficar paralisado, sem saber o que pronunciar, com a boca cheia de fragmentos e sílabas tumultuadas, como se estivessem vivas, revoltadas e não o deixassem respirar. Precisava escrever algo, mesmo tomado pela aférese, que o fazia picotar as palavras irremediavelmente sem início, como soluços e mais soluços de uma criança birrenta. Queria pedir socorro. Talvez sofresse de um mal maior, com o deslocamentos interno das sílabas, ultimamente tão internas e discretas como pensamentos insanos, desgovernados e proibidos. Precisava de um copo d’água. Metátese, hipértese, apofonia, metafonia... Que agonia! E as sílabas loucas brigando entre si, esbofeteando-se, para ocupar um lugar de destaque na boca daquele professor ilustre de linguística. No momento em que, finalmente imaginou ter conseguido enviar a mensagem, se deu conta de que ninguém a receberia. apagou-se por completo. Sua capacidade de escrever, ou de escrever bem, tinha acabado ali, naquela overdose de metaplasmos. Tinha sucumbido, finalmente, soterrado por montanhas de sílabas.

Autora valeria Áureo
In: Entrementes Corações

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Perfume da Rosa - Dia da Lola


Enfim posso ler calmamente O Sagrado Coração de Lola, a Santa de Rio Pomba. A obra demanda tranqüilidade e um confortável isolamento, para ser apreciada como deve. Ao final posso concluir: é um livro notável, muito comovente, que nos toca fundo a alma. É Rio Pomba na dimensão exata de cidades como Póvoa de Varzim, Siena ou outro rincão qualquer, em que a graça de Deus tenha caído em profusão. É a nossa história se misturando ao sublime, ao misterioso desígnio divino de se ter a personificação da fé e do sacrifício no mais comum e humilde. O Sagrado Coração de Lola, a Santa de Rio Pomba é um livro extraordinário que servirá de documento para o longo esforço em prol de sua beatificação e santificação, tal a seriedade, dedicação e competência de seu autor. Nele foram compilados inúmeros depoimentos, relatos singelos de pessoas que compartilharam da bênção de conhecê-la; foram recolhidos, organizados e comparados vários documentos dos fatos históricos, de origens diversas, dando à pesquisa o cunho científico que ela merece.
Graças aos inesgotáveis empenhos dos militantes (apóstolos) da causa de Lola a demanda prossegue. E, pelo que pude depreender, deverá ser longa e trabalhosa. Melhor que todos os rio-pombenses se mobilizem para reforçar o trabalho do abnegado grupo e reconhecer a importância do prodígio. A importância que não podemos dimensionar como homens comuns que somos. Ressalto minha admiração por Giselle Neves Moreira de Aguiar, colega de infância, entregue a tão nobre ministério. Quantos não alcançamos ou reconhecemos a grandeza do sublime tão próximo de nós...
Mais proximamente de mim, no plano mais imediato de minha vida longe da terra natal o livro que está à minha cabeceira me faz lembrar de onde eu vim e a quem eu poderei recorrer quando precisar de intercessão divina e consolo para as minhas dores...
O maravilhoso livro de Roberto Nogueira (formidável, como prefere dizer minha mãe, quando aprecia muito alguma coisa) traz a questão da santidade de Lola para a profundidade de si mesma: a rosa é uma rosa, é uma rosa... Não haveria mais o que ser dito, pois ela exaure o tema na plenitude e simplicidade de si: distinguir-se flor.


Então, para que pudesse ser assim, simplesmente a flor, nada mais apropriado que o cenário bucólico e contemplativo do Lindo Vale, onde pudesse ser cultivada. Eis que tantos se inebriaram com seu olor, sem ao menos verem, apenas crendo; entretanto nela confiavam e isso bastava. Por que então querer explicar o que por si só é grande e sagrado? Explicar que flor e prece se confundem?
Hoje o Lindo Vale está desabitado do desejo dela, na expectativa de uma decisão que extrapola as demandas espirituais, e venha concretizar seus planos de se ter ali um santuário. A quem compete a decisão de lhe atender o desejo expresso e sua perpetuação no tempo? Será que compete àqueles que não sabem reconhecer o sagrado ou a flor? Pois que a rosa, não se cria; ela existe, e não se pode mudar isso. A rosa é...
É incrível que uma tese da magnitude de Lola seja sombreada por situações jurídicas, mundanas, temporais; questões de cunho meramente materialistas que se restringem ao humano, quando nos bastaria saber que a rosa é a rosa, é a rosa... Pois é a grandeza de si mesma, a rosa, a existência dela em sua total dimensão, o que enaltece a cidade de Rio Pomba. Ela enche de orgulho os seus habitantes, abençoados com a honra de tê-la como distinguida espécie entre as demais. Será que nós, tão insignificantes diante dela, nos damos conta de quanto a tese de sua existência é maior? O que se espera para se restituir o jardim à flor?

sexta-feira, 29 de março de 2019

Saias e Mulheres

                                                     
                                                       Ilustração - Fonte: Internet


Todos os passageiros se misturam apressadamente e aguardam os vagões se aproximarem. Algumas mulheres vão entrando; outras vão saindo do vagão exclusivo para elas. Ali deveriam estar mais protegidas do assédio inoportuno de olhos, mãos e desejos inescrupulosos. Algumas cores das suas roupas são exageradas, luminosas e incandescentes, talvez porque seja verão e a cidade é cercada de praias e tecidos arejados e eflúvios; outras mulheres são bem mais sóbrias, principalmente quando envelhecem; umas são soberanas no jeito de andar em saias longas e sensuais; nem todas são angelicais como se imagina das mulheres; vê-se no aperto do vagão um discreto toque de malícia e crueldade de certas caras atrevidas e suas minissaias coladas nas coxas, como um envelope lacrando a pele queimada de sol. Vez por outra, vê-se um rosto de beleza plácida, pura, angelical, total e completamente feminina. Pode-se dizer que é a encarnação da candura.


Umas mulheres são frágeis e discretas e quase se vislumbram suas auras azuis e seus pensamentos bondosos e maternais. Outras são fortes, decididas e competitivas, com saltos reforçados e andar em marcha, em linha reta, mostrando firmemente o que querem. Elas planejam e executam as tarefas, dentro e fora de casa, como soldados em missão de guerra. São organizadas e minuciosas, porque não há tempo sobrando para ser desperdiçado. Umas até que não tão austeras, mas continuam mulheres, regozijando-se de sua feminilidade com o frescor das alfazemas. Saias, pernas, tornozelos, coxas ... Sapatos, sandálias, pés! Mulheres amontoadas no vagão rosa.
Já em casa os homens veem futebol, pelo menos aqueles que gostam; outros tomam cerveja, ou jogam vídeo game, ou vasculham o celular, ou pensam nas contas, ou no trabalho, ou no chefe, ou na secretária, ou dormem diante da TV; as mulheres pensam na família, na casa, na comida, na roupa do dia seguinte, nos cabelos, no sono que sentem... Quando mais nervosas pensam na própria vida, no desejo de viverem desvencilhadas da rotina. Pensam em aceitar, ou em descartar, ou em trocar, ou em matar, ou em abandonar. No fim das contas, pouco importa o que elas pensam quando estão cansadas e nervosas; quando termina o cansaço, ou seja lá o que for que as magoe, elas decidem continuar, já despidas de seus trajes suados. Decidem, ao final do dia, a vestir novamente as suas saias esvoaçantes e sair correndo para pegar o metrô e o vagão rosa.



Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
                                                                                                         Fonte: Internet

Transparência do Amor


Ele se imaginava sufocando-a, abafando sua voz e gritos com a boca, ou com um travesseiro leve de plumas... Tudo isso passava em sua mente, enquanto ele concebia que a tinha nos braços. Amor e ódio juntos em um turbilhão de emoções acumuladas. Paixão, pura paixão impulsiva. Não podia conter a loucura de seus pensamentos incontroláveis, que o conduziam a um filme de ação. Ela se debatendo, se debatendo, se debatendo; ele retendo-a em seus braços. Momentos de consciência, logo ao amanhecer. A luz reflete-se nos olhos abertos. A luz fragmentada de sol nas lágrimas... Era o que havia de mais moderno e eficaz em avaliações precisas de seu inconsciente: os lampejos reveladores do inconsciente. Ele se sentia louco. Radiografava por inteiro, com seus pensamentos e vontades a pessoa que amava: decifrava os gostos e desgostos, comungava das crenças e descrenças, questionava posições políticas, desafiava grau de conhecimento e de inteligência; questionava a existência ou não de maturidade emocional daquele objeto que em segundos poderia estar inerte, se ele perdesse o controle, ou decidisse dar um fim à agonia. Ah! Um gesto a mais e ... Como é pequeno o lapso entre a vida e a morte; ele poderia insuflar o ar na alma que tinha ao seu alcance, ou que havia abandonado o corpo. Sabia e escondia o grau de sua perversidade, ou de sua serenidade, a ponto de parecer desumano, ou não; havia quem se furtasse a uma exposição excessiva aos olhos dele e assim se desvencilhava do agente de possíveis aventuras amorosas. Ele poderia ser um algoz, um tirano, ou um anjo, em um raríssimo compartilhamento de hálito no beijo mortal e pronto. Ele poderia ser o pretendente perfeito. Mas, quem poderia garantir? Ela é tão diferente, tão diferente de mim, pensava. Ela é culta, fina, elegante e isso o incomodava muito. A cultura o sufoca.
Então... Nada de mostrar as entranhas no primeiro encontro e nem no segundo, ou no terceiro.... Mas, no segundo mês... Nada mais escapava de um íntimo, completo e sombrio escaneamento da alma vitimada pela paixão. E, certeza, uma vez feito o diagnóstico do mal secreto (apaixonado, abobalhado, encantado, gamado, seduzido, enamorado), dificilmente haveria lugar para uma segunda chance: estariam irremediavelmente condenados ao sofrimento que é o amor.
Autora: Valéria Áureo
In: Entrementes e Corações

domingo, 17 de março de 2019

Entre Ásperas




          - A senhora já escolheu a cor do esmalte?
          - A cor de sempre, lembra-se? Vamos fazer a unha francesinha. Já usei todas as cores, ao longo da vida. Hoje opto pela sobriedade e delicadeza. Combina mais comigo.
          - Já usou todas as cores, é o modo de dizer, não é? Já usou todas, entre ásperas! O comentário surgiu de uma cliente sentada ao meu lado.
          - Entre ásperas? O que vem a ser isso? Não seria entre aspas?
          - Entre ásperas! A senhora não sabe o que é?
          Fechei os ouvidos para a reticente explicação do que seria entre ásperas, como se ela me abrisse os olhos para a luz do conhecimento. Preferi confiar mais em minhas aulas antigas de português: “as aspas têm sido usadas, como um sinal gráfico que delimita uma citação, um título de obra, uma denominação, ou para realçar palavras ou expressões em sentido figurado”. Seria suficiente se eu desse tal explicação, para elucidar a divergência, mas me calei com a certeza de que nada adiantaria. A manicure dava-me múltiplos exemplos entre ásperas e eu voltava às minhas reservadas reflexões linguísticas: entre esmaltes, lixas, alicates, unhas e dedos; entre considerações e análises eu concluía que o uso de aspas surgiu na oralidade acompanhado de um gesto com os dedos indicadores fletidos. Eis todos os dedos (das mãos, dos pés, artelhos e joelhos e os seus tendões a serem considerados na possível explicação). Pensei que a manicure poderia ter achado as minhas mãos ásperas, mas logo mudei de ideia, porque as tenho macias e delicadas. Os dedos fletidos estariam ou não cutilados com o carinho que eu desejo ao gracioso idioma? E as associações de ideias me arrastaram além do salão e suas grosseiras paredes, pois eu me sentia entre parêntesis, entre colchetes e chaves, como uma palavra aprisionada, ou uma sentença matemática em seu cárcere privado. E segui minuciosamente... E tamanha a utilização concreta das aspas, ratificada com os gestos dos dedos, que tenho ouvido “entre ásperas” corriqueiramente. Claro que isso me leva às raízes da questão com doses de alegoria e bom humor (sem mencionar artrites e artroses, rupturas e fraturas, como cai bem aos satíricos cronistas, como eu). A grafia das aspas se fundamenta nas vírgulas dobradas. Deu-se a elas a mímica, a pantomina dos indicadores, apontando ao caminho da elucidação, entre a vizinhança e o circo.
          Entre ásperas! Ásperas, ásperas, ásperas, então vejamos! Dois espinhos da Coroa de Cristo, um de cada lado, a delimitar os domínios da dor que Ele suportou. Entre ásperas! Uma rispidez, um aprisionamento entre palavras que possam trazer a morte e a destruição. Palavras entre ásperas (pessoas, circunstâncias, eventos), entre as duas pequenas farpas gráficas, encilhando os sarcasmos, os descuidos ortográficas, as cacofonias, pleonasmos e invenções. A retórica nos discursos de violência, morte, assassinato, estupro, pedofilia, inveja, rancor, corrupção, aborto, incesto e tantas atrocidades mais, deveriam sempre vir entre ásperas garras da justiça.
          Entre ásperas e contundentes medidas para a destruição da engrenagem de todo o mal; duas algemas de aço, para os braços e para os pés. Dois extremos do arame farpado cercando os bois no pasto, e seus olhos melancólicos ao entardecer. Duas garras, duas travas, duas espadas de aço cortantes! Entre ásperas, entre cacos de vidros pontiagudos, cravados no rosto da vítima do final de festa, duas gotas de ácido sulfúrico, a cada canto dos olhos tristes das mães.

Autora: Valéria Áureo

In Entre Mentes e Corações