Apresentação

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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O Almoço




Ela não deveria cozinhar em dias difíceis, 
enquanto estivesse tão magoada com ele, 
pois acabava salgando a comida e abusava da acidez do vinagre. 
Pior, 
quando preparava o peixe, 
tinha ímpetos de lhe deixar as espinhas (as mais finas e invisíveis), 
para que elas pudessem atravessar a garganta do marido. 
Nesses dias ele não deveria almoçar em casa...

Autora: Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações
   





segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O Namoro


O que os dois conheciam do amor era a inocência de duas mãos dadas, suadas e trêmulas no cinema; era o frio do sorvete derretendo pelas bordas da casquinha de biscuit; era vê-la na praia, de biquíni, no final de semana; era andar de bicicleta na ciclovia de Copa e passar a tarde lanchando no Bob's. 
No momento em que a viu, ele compreendeu que deveria lutar; assim foi capaz de tudo, até estudar alemão, para decifrá-la mais.
Já na primeira lição de ousadia e confiança, ele dizia enrubescido, enquanto andavam na areia:
” Willst du meine Freundin sein?” Quer ser minha namorada? Ela ria...
No segundo encontro foram ao Bob's. Ele já tinha terminado e ela continuava comendo, rindo enquanto conversavam. Finalmente ela proferiu aquelas três palavras mágicas, capazes de preencher um pequeno espaço vazio que havia dentro dele:
– Não quero mais.  Ich will nicht mehr. Ele riu!

Ele olhou sorridente, pegou o prato dela e comeu o finalzinho. Lentamente comeu as doze batatinhas fritas de puro amor. "Ich liebe Dich! Küss mich!

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Cerimônia




Ela passou pela última vez a calça de linho branco do marido; tinha as faces rubras em duas brasas incandescentes... O calor do ferro de engomar descongelava aquela dor no peito cheio de mágoas, apesar do nó rente na garganta apertando-a; finalmente estava livre do espectro da primeira namorada do marido.  Ela e sua presença inefável. Aliviada, de certa maneira feliz, fez o vinco da calça, até o tecido soltar fumaça, como ele exigia. Então percebeu que as bainhas estavam levemente puídas, tanto ele tinha dançado, sem ela; mas ninguém iria perceber aquele detalhe encardido em sua vestimenta e vida. Agora, nada mais importava.
Os amigos buscaram o terno de linho branco e ajudaram o companheiro de bailes e farra a se vestir. Àquelas horas todos já estavam atrasados. Ela também vestiu-se, sem nenhum adorno, sem maquiagem e sem nenhuma pressa. Só um alívio.  A cerimônia na igreja não deveria tardar, mas não podiam começar o ritual sem ela.
A Igreja estava enfeitada e cheia. Não demorou e o espectro da rival entrou vestida de um branco levíssimo e fulgurante como um raio de luz; ela era tão leve e diáfana, que ninguém percebeu sua entrada; ninguém a viu chegar, como uma escultura de cristal e se deter ao lado do altar; ela parecia uma noiva, mas ninguém se ergueu diante ela. Mas, o morto logo sorriu e se levantou. Sacudiu as flores e deu o braço á imagem translúcida. Ela saiu radiante, abraçada com aquele que lhe fora prometido na eternidade. Os dois saíram a trocar caricias, dançando uma valsa levíssima que nem seus pés tocavam o chão. Ambos flutuavam sobre as nuvens, sem que alguém se desse conta daquele raio de luz de tamanha felicidade.

Autora: Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações

A Corrida





Eles estavam sempre felizes, conversando e rindo. Quando ele dirigia seu carro, sua mão esquerda segurava firmemente o volante, enquanto a outra prendia suavemente os dedos da mão esquerda dela (tão pequena e macia), dando-lhe a direção de seu amor perene e a textura de seus carinhos. Ele conduzia todos os sentimentos com a expertise de um piloto de fórmula 1, audacioso e competitivo. Sempre ele, o campeão a traçar as coordenadas das corridas, a dizer o momento de se verem, ou não. Sempre ele, a erguer a taça da vitória, da pole position e do vinho. Tudo foi bem até o dia em que ele perdeu drasticamente a direção dentro de uma galeria subterrânea de seu coração e capotou com o carro. A partir disso nunca mais se viram. Não havia sequer uma luz no fim do túnel para nenhum dos dois.

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

domingo, 22 de setembro de 2019

Os Desenhos de Maitê




... Ela poderá saber desenhar no futuro, tão bem como o bisavô Zoberto.  Quem saberá dizer dos dons que traz em sua bagagem? Talvez ela possa ser uma brilhante desenhista, que possua em sua tinta o poder da síntese, a discreta autoridade da crítica e a arte do encantamento. Talvez ela possa desenhar assim, como tem feito em seus primeiros traços, riscos e rabiscos, com o seu olhar de criança recém-chegada no mundo, onde tudo é novidade. Ela, que parece conseguir ver além das primeiras formas e cores, insiste dizer que a cor é lilás, o céu é rosa, a baleia é verde e a tartaruga é roxa. Ela, sempre atenta, intervém no papel, concebendo muito além dos tons e nomes que criamos para as coisas, e das aparências indecifráveis que criamos para as pessoas. Ela intervém peremptória com suas mãos céleres e cobre em rabiscos todo o papel com a tinta azul.
Ela poderá fazer tudo isso e muito mais que concebemos em nosso mundo de razões, porém, se não tivesse em quantidade transbordante o amor, o desenho seria tão relevante como uma mancha de nanquim entornado em uma toalha branca. Ao contrário, ela é uma graciosa arte.
Tudo bem não saber desenhar, por enquanto... Ou saber muito além de minhas limitadas percepções... Quem poderá dizer que quando rabisca o papel, já não sabe desenhar misteriosa e precocemente os fractais resplandecentes, que recolheu no caminho de sua viagem espiritual para a Terra, porque, como anjo atento, veio memorizando o caminho de luz, até a barriga de sua mãe. 
Eu conheço você e o seu amor, quando está ao meu lado. E, pelo tamanho dele, esse amor imenso, dentro do coração vermelho (zemelho/memelho), tenho certeza que a fé e a esperança estarão sempre juntas de nós. Seu coração será permanentemente a ponte mais firme, segura e resistente para a nossa alma, que nos levará para todos os lugares do universo.
Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mente e Corações
22/09/2019



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Quando eu os visito (No Azul Majorelle)



                         Ilustração: Fonte - Internet



Éramos amigos; uma dezena, uma centena de amigos ajuntados pela vida, pela sorte e pelo acaso. Vindos de todas as direções, nos encontramos em um momento notável da vida e coexistimos por alguns anos na Universidade. Pouco ou quase nada sabíamos uns dos outros e nos dávamos muito bem assim. Convivíamos apenas nas melhores situações. Quando tínhamos mágoas e amarguras, não era comum que nos falássemos. Cada um se recolhia no seu canto, se ausentava por longo tempo e tudo seguia de forma natural.
Um dia tudo se transformou. Cada um abocanhou sua sorte, tomou seu rumo e nunca mais nos vimos. Também pudera! A vida tinha seguido em frente, sem nos dar chances de nos conhecermos profundamente. A juventude nos fazia levemente triviais.
Vez ou outra eu reencontro alguém desse tempo, mas é sempre um abraço pequeno, muito discreto e morno e pouquíssimas palavras.
Certa ocasião eu reuni todos eles em um evento: um salão iluminado no eterno azul de Majorelle, em Marraquexe, no Marrocos. Todos tinham envelhecido e deviam ter muitas histórias para contar. Nós refizemos a amizade daquele saudoso tempo, com a mesma brevidade de um relâmpago, porque nos reconhecíamos imediatamente nas risadas. O mais estranho nisso tudo é que, quando eu os visito, ainda hoje, eles se escondem e não falam nada: camuflam o que leem, o que escrevem, o que pensam, o que são, o que continuam conspirando, e o que desejam contra o país. Cada um persiste em manter seus segredos sob os mantos escarlates, sem renunciar às conversas triviais e alegres e sem abrir mão das vesperais de vinho. Talvez a minha franqueza tenha corroborado para esse distanciamento. O meu apreço extremo pela verdade os afastava e os encobria com o manto sombrio do silêncio; eu finalmente me dei conta. E nem o azul ultramar/cobalto simultaneamente intenso e claro, com que Majorelle pintou as paredes da sua vivenda, e todo o seu jardim, para fazer um quadro vivo e eterno, os convenceu a se abrirem e falarem as verdades.

O Jardim Majorelle em Marraquexe, um oásis onde as cores de Matisse se misturam com as da natureza, me fizeram mais esperançoso e otimista, desde então. Sou ainda mais verdadeiro, pois eu me sinto completamente livre daqueles segredos sangrentos e vermelhos, ocultados pelos amigos a vida inteira; eu me sinto à beira do céu, completado e sereno nos braços de Deus.

Autora: Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações

domingo, 28 de julho de 2019

Dualidade explícita ( amor no Face)

Fonte de Ilustração: Internet


Em sua dualidade explícita, Ângela mantinha em equilíbrio a crueldade e a compaixão, o perdão e a vingança, como flores diferentes dispostas displicentemente no mesmo jarro. Um pote cheio de água e arranjos; um vaso de mágoas e lágrimas. Dizia que odiava e amava; dizia que vivia e morria por ele.  Seus olhos riam enquanto a boca se rebelava. O olhar era doce e a fala, salgada. 
No grupo de amigos ainda preservava a última conversa, a foto escolhida para o perfil, a última e intempestiva curtida; um like superficial. O perfil dele ainda a seguia como um espião, um fantasma sombrio e frio. Era tão presente como uma sombra na areia quente, ao meio dia. Apenas seguia, e nada mais; talvez por esquecimento de apagar definitivamente dos contatos do Face ( e não da memória ), os vestígios da última conquista.
Eu não sei porque os olhos de Angela lacrimejavam tanto, porque na verdade, não era o tempo todo que ela chorava. Na sua dualidade ela também ria, comemorava e extravasava a alegria, por descontrole emocional e falsidade. Ela mentia em meio às meias - verdades. No mundo digital dos dois, só restavam os posts coloridos de amor e de promessas, compartilhados no passado. Ainda lhe faltava coragem para deletar tudo.

Autora: valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Trago o amor ( de volta) em 24 horas.


                                                                Ilustração: Internet

           Uma tabuleta rústica improvisava um anúncio audacioso e megalomaníaco: trago o amor (de volta), em 24 horas. Era de uma amplitude magnífica, enfática, pleonástica e dava à cartomante todo o poder concebível no universo da magia. O seu maior predicado era manejar o amor, qualquer que fosse, com dedos ardilosos, de unhas longas e pontiagudas como estiletes, em passes de mágica incrustados  em búzios. Era a senhora dos destinos.
          Não se tratava do trivial cartaz colado nos postes, muros e vielas, em que se anunciava trazer o seu amado “de volta”. Este sim, era de uma objetividade ímpar, ratificada no doloroso vício de linguagem, porque a quiromante sabia de quem se tratava. Trago o seu amor!... Ela, boca vermelha e turbante de pedrarias, limitava-se em atuar no caso específico de um amor atribulado, que não mais se entendia com as palavras do ser amado. - Trago o seu amor; sim, o seu amor! Sua posse e seu domínio! Ela cuidaria, portanto, de capturar, onde estivesse escondida, a pessoa amada, aquele determinado fujão, que tinha surrupiado o coração da moça e nunca mais tinha dado notícias. 
          Calculei de imediato que a maga do afeto universal ( do amor em geral) poderia resgatar todo tipo de amor e manteria em suas mãos poderosas os fluídos da paz aqui na Terra, entre todos os homens de boa vontade: amor dos homens pela humanidade, dos pais pelos filhos, dos maridos pelas esposas, dos entes pelas famílias, dos irmãos pelos irmãos... 
          Minhas ideias se espalhavam levadas pelos ventos da praia e eu ria daquele poder no qual eu jamais acreditaria. Não confiava que o amor pudesse ser trazido à força, à revelia, contrariando a necessidade e a vontade do outro envolvido no afeto. Como se não bastasse ser capaz de resgatar o amor, a cartomante ainda o fazia em 24 horas. Ah! Quanto se pode fazer em 24 horas? E quanto demora passar, quando se espera a volta de alguém! ... Quanto se pode convencer, para o bem e para o mal, não em horas, mas em segundos? Quanto é possível fazer, em nome do amor, ou do ódio? Não importa! Todas as bruxas em seus presságios e artimanhas coloridas e sob jorros de luz, prometem fazer feitiços e amarrações. E, enfeitiçando e amarrando os corações um no outro, como em uma cruz a ser carregada pela vida inteira, o amor nunca mais será o mesmo, porque não é livre. Não sendo livre, já não será mais amor.
Autora Valéria Áureo
In: Entre mentes e Corações

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Audrey


          


O caminho que deveria ter sido percorrido seria um... Sempre o mesmo: a tal paisagem da praia, a passagem pela roleta, o banco desconfortável, o mar, a ponte, os barcos.
          Acontece que, de uma hora para outra, ela tentou imaginar a possibilidade de a vida ser vista, não mais pela frente, mas pelo verso e pelo reverso. E assim, deu meia-volta e atravessou o mar com os olhos, mas logo o deixou para trás, abaixando as pálpebras. Devia chegar do outro lado, como sempre fazia ao ir para o trabalho. Ela ia sempre pelo mar. Hoje, estranhamente, a ponte Rio-Niterói era a única certeza de que havia duas margens, duas possibilidades, dois destinos diferentes: o ponto de chegada, o ponto de partida.
          A senhora parada no ponto de ônibus evitou tomar as barcas, mas não saberia explicar a razão. Ela vestia calça jeans, camisa branca desenhando-se para o gelo, debruada de azul, e sapatos de couro de duas cores com salto baixo. Eram confortáveis. Para completar a beleza dos olhos grandes e lábios vermelhos, trazia nos cabelos grisalhos alinhados, um coque a la Audrey. Era bela e chamava atenção com naturalidade. Especialmente hoje, prendia a atenção de um homem, do outro lado da rua, que também desistiu das barcas naquela terça-feira, não se sabe a razão. Ele precisava saber como era a dona do visual despojado e elegante. O homem, observando-a, lançou mão da estratégia de ir e voltar, como se tivesse perdido algo e procurava no chão, mas com olhos espichados para ela.
          Ah! Ela, parada no ponto de ônibus, podendo tomar as barcas, como sempre tinha sido a sua vida, inovando e decidindo pegar o ônibus naquela tarde de terça-feira! Caminhou até a placa que indicava os ponto de espera e ali ficou. Ele se aproximou dela e ficou tão perto que quase parou de respirar. Viu que o rosto dela não era de diva cinematográfica, mas alcançava uma beleza muito maior, porque era real e vivo. Era madura! O que importava, se ele também tinha deixado a juventude para trás? Sorriu! E, pelas rugas dela, dava pra presumir que também devia ter tido seu quinhão de estrela cinematográfica na vida. E foi assim, na tarde de terça-feira, indo para o trabalho, que ele capitulou, entregou os pontos e o coração, porque seu destino, como o de todos, era encontrar o amor. Mesmo que fosse mais tarde, no crepúsculo da vida e longe das viagens diárias das barcas, o amor valia a pena.


Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Fecho Éclair

 


          

Ela se contorcia, se mutilava, podava suas hastes dolorosamente, como uma flor de fibras estiradas, só para caber dentro do coração dele ( muito justo e apertado), que a impedia de respirar livremente.
          Tudo já não cabia mais dentro de um vestido preto, liso e aderente ao corpo. Desde o dia que se casou ele escolhia o que ela podia vestir, fosse longe dele, ou em sua companhia. Ela se vestia, e ele inspecionava e arrastava lentamente o fecho éclair frio pelas costas brancas e macias dela.
          Ela se encolhia, ficava muda, mutilava seus versos, só para caber dentro da prosódia dele. Era muito justa e requintada, sempre calada, como se não mais soubesse rimar, ou não mais tivesse vocábulos; só os verbos dele eram conjugados, em tempos presentes e futuros e modos autorizados: simples e compostos, sempre harmonizados com os gerúndios e particípios de existir. Agora ele escolhia o que ela poderia pensar e dizer. E, enquanto ela ouvia taciturna as lições de suas poucas possibilidades, ele suspendia suavemente o fecho éclair.
          Ela, de tanto se contorcer, de tanto se encolher em silêncio, rasgava-se, rompia o tecido da seda e apertava ainda mais os laçarotes e as travadas cordas vocais. Respirava com dificuldade costurada naquela prisão de tecidos, cujas chaves ele guardava no bolso do paletó.
          Eis que um dia qualquer ele morreu. A causa e o modo nem importavam muito. O que decorria desse evento é o que aconteceu na vida dela. Ela nunca mais usou vestidos ajustados no corpo pela modista, sempre carregada de alfinetes, linhas e agulhas. Decidiu finalmente pelas roupas leves, levíssimas, sem fechos e sem laços... Mesmo porque ele não estava mais ali para suspender ou abaixar o fecho éclair. 
Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações