- Alô, oi minha querida, como vai, tudo bem?
-Tudo, mas quem está falando? Eu...
- Não está reconhecendo a minha voz? Deixa de brincadeira, Candice, sou eu, sua
mãe... Está se sentindo bem? É o calor que está deixando você assim? Me diga
uma coisa.
- Desculpe, mas não reconheci mesmo. Estava chorando, mãe? Está com a voz
estranha.
- Não! Só estou estressada! Muita coisa para resolver sozinha. Estou ligando
para você, minha filha, porque estou em uma situação de bico, pensando em
desconvidar algumas pessoas...
- Desconvidar? E isso existe, mãe?
- Claro! Desconvidar. Verbo transitivo direto! É desconvidar mesmo! Está na
gramática!
- E será que está no livro de etiquetas?
- Sei lá! Desconvidar é uma decisão difícil que deve ser tratada com leveza e
muito jeitinho, senão! ...
- Mas desconvidar é inevitável?
- Sim, inevitável! Veja o caso do presidente eleito. Desconvidou, muito bem
desconvidado e pronto. Na festa não há lugar para persona non grata. Eu também
posso desconvidar, não acha? Sei que é uma decisão muito áspera e radical,
mas... Ainda mais em final de ano, com todos os parentes e amigos muito
melindrados.
- Eu não teria coragem...
- Mas eu não vejo outro jeito. Estou pensando seriamente em desconvidar a Raquel
do meu Réveillon. Fiquei sabendo do escândalo que ela fez na casa da Onilda na
semana passada e não quero esse tipo de coisa na minha festa. O que acha?
- Mas eu... Sei lá, viu! É muito complicado isso de desconvidar.
- Sim! Veja bem! Antes de chegar e desconvidar eu até tentei contornar o
problema e permitir que ela ainda comparecesse. Fico com pena. Mas, ela anda
histérica, já notou? Aqueles discursos políticos, radicais, feministas de “ele
não!” somado ao vinho... Sei não! Vai estragar a minha festa. Já ouvi a opinião
da tia Rita...
- E o que ela disse?
- Ela me disse que a Raquel está impossível. Pior do que ela, só o Mário.
Aquele enlouqueceu de vez; está até falando sozinho, o coitado. Bom, ele sempre
foi maluco, mas agora agravou! Agora, a Raquel, muito me admiro. Além de jogar
contra o país, replicando Fake News no Face, ela danou a se descontrolar ao
beber demais da conta. Não se conforma! Não se conforma e não se depila, para
horror do Rafael. Axilas ao natural, que asco! Virou uma taturana. Rafael não
suporta uma coisa dessas e creio que ninguém. Mas, o que regala uns... Que se
pode fazer? Aquela endoideceu de vez com as histórias de protestos. Para tudo
ela tira a roupa e mostra os peitos. Aqueles peitos grandes e caídos. Mostra os
peitos e a bunda. Uma desgraça! Não pode ver um vinho, champanhe, chope,
qualquer coisa, que desconta sua raiva na bebida. Talvez seja uma boa ideia
limitar o acesso dela ao open bar ou remover o álcool da festa como um todo. O
que acha?
- Eu não sei, mas... Os outros que sabem beber e são elegantes ficariam
privados... Não acho justo. E festa sem bebida fica muito infantil. Réveillon
não é festa de criança.
- Vou ter que desconvidar mais dois parentes que estão brigados, por conta das
eleições. Talvez ainda seja possível que ambos compareçam, se conseguirem fazer
as pazes antes do Natal. Penso em separá-los e peço que você me ajude a
restringir o contato dos dois. Há três ambientes enormes no casarão da Marquês,
em que podem se espalhar, sem ter que conversar um com o outro. O que acha?
- Isso vai dar certo, mãe? Eu não vou tomar conta de ninguém! Deus me livre de
gente brigando perto de mim. Não conte comigo.
- Vou ter que achar um jeito! Também vou ter que restringir o espaço do Mário,
que costuma falar bobagens, aprontar com suas piadinhas infames e fazer algum
tipo de escândalo. Vou ter que conversar com ele na chegada e ver se é possível
controlar esse tipo de comportamento durante a festa.
- É melhor ligar antes, mãe!
- Tem razão! Eu poderia dizer algo sutil por telefone, como "Oi Mário. Sei
que você é meio boca suja, mas a família da minha nora é mais conservadora e
eles não se sentem muito confortáveis com palavrões e piadas de mau gosto. Você
pode controlar o linguajar durante a festa? Se puder, vou ficar feliz!
- É parece uma ótima ideia a sua "sutileza", mas vai perder o amigo.
Eu não tenho coragem de fazer isso.
- Então, acha que funciona contornar a situação, minha filha? Ou acha melhor
desconvidar mais uns três?
- Mãe, não é melhor cancelar essa festa?