Apresentação

Total de visualizações de página

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Quando uma estrela se apaga








        ... Estou esperando um milagre; um daqueles pequeninos, que servem para ajustar a vidinha, sem muitas complicações. Um milagrezinho jeitosinho, que tenha o jeitinho da cidade natal, cheio de delicadezas e pureza de alma. Um milagre bem pequeno, que caiba no bilhetinho, na novena, na receita do bolo, nos respingos da chuva, na birra da criança e que não caiba no grande jornal, cheio de mentiras e hipocrisia; um jornal honesto, comprometido com a verdade (por ser coisa de gente da terrinha). Estou aguardando um jornal que me traga aromas dos campos.

       Assim foi, assim tinha sido até então, e assim será: o indefectível noticiário das metrópoles me enlouquecendo e o jornal da cidade do interior de Minas Gerais, com aromas de café, me confortando. Assim sempre foi O Imparcial!
Nessa madrugada, eu acordei mais cedo do que todo mundo e revivi domingos interioranos, abrindo todos os pacotes de esperanças sob a árvore, prestes a ser desmontada depois das festas. Foi quando me veio a notícia de seu fim. O fim do jornal da cidade do interior, da zona da mata mineira. Retirei as luzes, os adornos e as expectativas de ano novo com prosas poéticas, crônicas, poesias e contos. Depois me deixei ficar no tapete da sala, abatida e incrédula, confiando que teria sim, um milagrezinho daqueles bem especiais, na minha caixa de correspondências. Bem ali, onde me chega O Imparcial.

       - Ah! Mãe, por que você abre tantas e tantas vezes a caixa de correspondência? Toda hora que sai, e todos os dias? Na ida e na volta, você pega a chave, se detém diante do espelho da portaria, olha para a rua movimentada e abre a caixa; não tem muito sentido, não acha? Já notou que isso é uma mania esquisita? Acho que pode ser TOC!
        Ah! Minha filha não sabe do que vai no meu coração provinciano, quando abro a caixa de correspondências na esperança de encontrar o companheiro constante de minha juventude e maturidade - o que me acalentou tantas vezes. Eu abro a caixa de correspondências e bem ali, acontecem todas as mágicas e encantamentos. Abro mil vezes, no afã de ter em duplicidade (na ida e na volta) as surpresas do que está escrito (por mim e pelos outros). Se eu o encontro quando eu saio de casa, folheio, faço uma vistoria apressada com um sorriso e o deixo ali, até que eu volte. Ele ali, quieto no escaninho, e eu pela praia, imaginando o que terá de auspicioso. Na volta eu o retiro e o carrego para casa, já começando a leitura no elevador. E assim tem sido e eu imaginava que seria para sempre.

       No Imparcial eu escrevia, para ficar mais próxima de minha infância e mocidade. Escrevia para ficar bem mais plena de aprendizado e de ensinamentos. Escrevia para conversar, mesmo de longe e deixar (para depois de minha morte) alguns poemas de amor ou de (des) conforto, registrados em minha biografia. Escrevia para expurgar todos os males (os meus e os dos outros) em catarse e lágrimas, e para comover alguns e conquistar outros. Escrevia para desafiar, para provocar reflexões. Escrevia, ora por instinto, por suicida audácia, por atrevimento e por desmedida coragem e confiança. Escrevia por humildade, ou por jactância e orgulho. Escrevia buscando a eternidade de um único dia (sempre aos domingos), mesmo que no outro domingo as minhas palavras escritas fossem empapeladas no piso de uma gaiola (de um pássaro que eu desejaria liberto), ou mesmo que fossem embrulhadas em uma quitanda de verduras, bem na pracinha, ou na rua em que nasci. Escrevia, na esperança de que alguma alma gentil e amorosa dissesse que lhe fizera bem ler uma crônica de minha autoria, que se sentiu reconfortada, ou riu, ou chorou. Escrevia para me lembrar da cidade e das pessoas com as quais eu cresci, estudei e das quais me separei. Escrevia para me esquecer de que tinha deixado para trás a mãe, o pai, os irmãos, e para fazer esquecer das mágoas e aplacar queixas. Escrevia para dar voz aos mortos e calar os vivos. Escrevia para abrandar a solidão dos sozinhos, como eu!

       No Imparcial eu copiava as estrelas dos céus e seus enigmas; eu replicava suas mensagens secretas e tudo eu revelava aos que sabem e gostam de ler. Havia uma expectativa de entrega absoluta às estrelas, aos sonhos, à esperança, à poesia. Escrevia porque havia estrelas demais na noite escura e, apesar da noite triste, ali eu me encontrava a brilhar um pouquinho.
Depois de dois centenários O Imparcial sai de circulação; é uma estrela que se apaga nos céus de Rio Pomba.

Autora: Valéria Áureo

20/ 01/ 2019



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A Missão Secreta




- Minhas queridas amigas, enfim estamos pessoalmente reunidas. Saímos do campo virtual. Podemos nos conhecer e organizar a nossa viagem, para a missão mais importante de nossas vidas. O serviço de espionagem existe e ocorre em todo o mundo. Por mais que você não veja (o que significa que está dando certo), ele é real. E depende muito de nós, chamadas ingenuamente por “velhinhas do zap.” Vale relembrar: há vários momentos da história da humanidade em que os espiões e espiãs foram cruciais para o desenrolar das coisas. E assim tem sido, principalmente em 2018, um ano bem conturbado. Temos tido sucesso. Como sempre, quase não conhecemos os casos de espiãs, porque muito pouco é dito sobre elas, ou melhor, sobre nós.
- Ela não disse que ia ter discurso. Começou a mandona do grupo! Não vou com os cornos dela!
- Então cala a boca e escuta. Toda informação é importante. Deixa de ser ranzinza e invejosa.
- Vamos à chamada e basta levantar a mão direita.  Melita Norwood, Christine Granville, Noor Inayat Khan, Virginia Hall, Nancy Wake, Josephine Baker e eu.
- Todas presentes!
- Alguma de vocês já concluiu o curso de tiro?
- Era pra fazer? Eu juro que nem sabia. Ninguém me avisou nada. Se bem que eu andei treinando muito com pistola de cola quente, fazendo os chocalhos de garrafa pet e tampinhas de garrafa para a minha neta. Fiquei com tendinite no pulso.
- Mas isso não vale, sua doida! O assunto é sério. Tem que frequentar o estande de tiros.
- Eu fiz o curso e achei muito divertido. Já estou com a mão mais firme do que nunca. Meu médico disse que com a tremedeira do princípio de Parkinson nas mãos seria impossível, mas ele não me conhece; quando eu quero uma coisa, ninguém me segura! Estou tinindo! Nem o diabo me aguenta, dizia o meu marido.
- E você, rato branco?
- Não! Vou ter que fazer a cirurgia de catarata primeiro. O oftalmologista garante que vou ficar com olhos de águia com as lentes alemãs.
- Mas a missão é para hoje, para ontem, não vamos esperar os remendos.
- Posso ficar na Agência, na base de operações e no controle tecnológico. Tem um aplicativo com letras bem grandes e posso ficar no zap atualizando para vocês.
- Vamos ver! Cada membro ausente na missão é uma peça importante na nossa logística que faz muita falta. Estamos escaladas para a segurança do nosso homem, o incógnito. Tudo depende de nós. Sabem que há denúncias de um novo atentado.
- Por falar em logística, vai ter comida de três em três horas? Eu tenho hipoglicemia. Se não tiver eu não poderei ir.
- Vamos providenciar isso. Anota aí, Dama Manca, que eu passo para o comando a sua reivindicação. Bom, vejamos, todas já avisaram em casa que não ficarão para o Réveillon?
- Falei lá em casa e deu o maior quiproquó. Minha filha disse que não tem festa sem o meu bacalhau. Meu genro disse que uma velhinha não pode viajar assim, do nada, sem dizer para onde vai! Estão dificultando muito as coisas. Vou ter que sair fugida!
- Agente secreto não tem família! Primeiro vem a missão. Ou se engaja de corpo e alma ou dá o fora! Quem não aguenta o tranco, pede para sair. Ainda dá tempo. Quem ficar vai ter que dar o sangue. Eles é que se virem com a ceia deles; temos coisas muito mais importantes para resolver! Aliás, já vou adiantando: chega de paparicar esses marmanjos bobalhões: mamãe isso, vovó aquilo, bisa aquilo outro, titia me socorre, mamãe olha como eu sou bonitinho! ... Estão criando um bando de frouxos! Aqui não temos lugar para chororô. Chega de moleza!
- Minha filha é vegana!
- Meu neto não come glúten!
- Lá em casa é tudo alérgico! Não pode ter nada com alho!
- Ninguém faz o meu arroz soltinho com passas e cenouras. Não sei como vai ser esse jantar!
- Eu faço a rabanada todos os anos! Vão sentir minha falta!
- Bacalhoada é comigo! Filha de português, já viu! A melhor bacalhoada do mundo! Quero ver como vão se virar sem mim!
- Já falei que não quero saber de frescuras! Não tem natal e nem ano novo. Eu só quero saber quem está preparado psicologicamente, para integrar o nosso batalhão, que passará imperceptível no meio do cerimonial. Quanto mais discretas, melhor! Uma sombrinha, um xale de crochê de velhinha desprotegida, uma bengalinha, tudo serve como disfarce, para comover as pessoas. Assim vocês entram em todos os lugares.
- Usar xale, com esse calor?
- Exato! Vão pensar que a velhinha está doentinha. E, muita atenção!  Não se esqueçam de carregar o celular e levar bateria sobressalente. Quem tiver mais de um aparelho deve levar. A nossa comunicação não pode ser interrompida um segundo sequer. Ajustem os relógios! Estamos juntas, velhinhas do Zap?
-Todas juntas! Uhu!
- Partiu Brasília, dia primeiro de janeiro?
- Partiu Brasília! Lá vamos nós, querido Presidente!


Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
-


Festas





- Alô, oi minha querida, como vai, tudo bem?

-Tudo, mas quem está falando? Eu...
- Não está reconhecendo a minha voz? Deixa de brincadeira, Candice, sou eu, sua mãe... Está se sentindo bem? É o calor que está deixando você assim? Me diga uma coisa.

- Desculpe, mas não reconheci mesmo. Estava chorando, mãe? Está com a voz estranha.

- Não! Só estou estressada! Muita coisa para resolver sozinha. Estou ligando para você, minha filha, porque estou em uma situação de bico, pensando em desconvidar algumas pessoas...
- Desconvidar? E isso existe, mãe?

- Claro! Desconvidar. Verbo transitivo direto! É desconvidar mesmo! Está na gramática!

- E será que está no livro de etiquetas?

- Sei lá! Desconvidar é uma decisão difícil que deve ser tratada com leveza e muito jeitinho, senão! ...
- Mas desconvidar é inevitável?

- Sim, inevitável! Veja o caso do presidente eleito. Desconvidou, muito bem desconvidado e pronto. Na festa não há lugar para persona non grata. Eu também posso desconvidar, não acha? Sei que é uma decisão muito áspera e radical, mas... Ainda mais em final de ano, com todos os parentes e amigos muito melindrados. 

- Eu não teria coragem...

- Mas eu não vejo outro jeito. Estou pensando seriamente em desconvidar a Raquel do meu Réveillon. Fiquei sabendo do escândalo que ela fez na casa da Onilda na semana passada e não quero esse tipo de coisa na minha festa. O que acha?
- Mas eu... Sei lá, viu! É muito complicado isso de desconvidar.

- Sim! Veja bem! Antes de chegar e desconvidar eu até tentei contornar o problema e permitir que ela ainda comparecesse. Fico com pena. Mas, ela anda histérica, já notou? Aqueles discursos políticos, radicais, feministas de “ele não!” somado ao vinho... Sei não! Vai estragar a minha festa. Já ouvi a opinião da tia Rita...
- E o que ela disse?
 
- Ela me disse que a Raquel está impossível. Pior do que ela, só o Mário. Aquele enlouqueceu de vez; está até falando sozinho, o coitado. Bom, ele sempre foi maluco, mas agora agravou! Agora, a Raquel, muito me admiro. Além de jogar contra o país, replicando Fake News no Face, ela danou a se descontrolar ao beber demais da conta. Não se conforma! Não se conforma e não se depila, para horror do Rafael. Axilas ao natural, que asco! Virou uma taturana. Rafael não suporta uma coisa dessas e creio que ninguém. Mas, o que regala uns... Que se pode fazer? Aquela endoideceu de vez com as histórias de protestos. Para tudo ela tira a roupa e mostra os peitos. Aqueles peitos grandes e caídos. Mostra os peitos e a bunda. Uma desgraça! Não pode ver um vinho, champanhe, chope, qualquer coisa, que desconta sua raiva na bebida. Talvez seja uma boa ideia limitar o acesso dela ao open bar ou remover o álcool da festa como um todo. O que acha?

- Eu não sei, mas... Os outros que sabem beber e são elegantes ficariam privados... Não acho justo. E festa sem bebida fica muito infantil. Réveillon não é festa de criança.

- Vou ter que desconvidar mais dois parentes que estão brigados, por conta das eleições. Talvez ainda seja possível que ambos compareçam, se conseguirem fazer as pazes antes do Natal. Penso em separá-los e peço que você me ajude a restringir o contato dos dois. Há três ambientes enormes no casarão da Marquês, em que podem se espalhar, sem ter que conversar um com o outro. O que acha?

- Isso vai dar certo, mãe? Eu não vou tomar conta de ninguém! Deus me livre de gente brigando perto de mim. Não conte comigo.

- Vou ter que achar um jeito! Também vou ter que restringir o espaço do Mário, que costuma falar bobagens, aprontar com suas piadinhas infames e fazer algum tipo de escândalo. Vou ter que conversar com ele na chegada e ver se é possível controlar esse tipo de comportamento durante a festa.

- É melhor ligar antes, mãe!

- Tem razão! Eu poderia dizer algo sutil por telefone, como "Oi Mário. Sei que você é meio boca suja, mas a família da minha nora é mais conservadora e eles não se sentem muito confortáveis com palavrões e piadas de mau gosto. Você pode controlar o linguajar durante a festa? Se puder, vou ficar feliz!

- É parece uma ótima ideia a sua "sutileza", mas vai perder o amigo. Eu não tenho coragem de fazer isso.

- Então, acha que funciona contornar a situação, minha filha? Ou acha melhor desconvidar mais uns três?

- Mãe, não é melhor cancelar essa festa?






sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Viajando para Angústias (botas e dentaduras)


Já lhes contei de meu percurso via aérea e marítima, passeando por Parvopolis, Cretineia, Cretínia e Balburdia. Hoje vou para um vilarejo bem próximo de Balbúrdia, nos confins de Canálias e Temerárias, lugares já descritos por mim em outra narrativa. Uma falta de logística nesses países me faz ir e vir, incessantemente, viajando em círculo, graças aos improvisos das companhias aéreas. Quando não há uma rota definida, desviam um avião de seu destino e logo arranjam um “quebra galho”. Sei que é perigoso, mas é o que há disponível na região. Creio que esse vórtice desgovernado tem o objetivo de deixar o povo tonto e sem senso de direção. Povo tonto é mais fácil de governar. Nunca sabe para onde vai.
Apesar de meus receios, a viagem me surpreende; é suave, o clima é agradável e os nativos são acolhedores. Uma coisa os une no mesmo espírito de urbanidade: todos são muito pobres e ainda usam do escambo como dinâmica econômica. Uns produzem cestos, balaios e os trocam por banana, abacaxi ou outra fruta do lugar. Todos se unem também na insatisfação com os governantes que formam uma grande família, cujos membros se alternam no poder. Morre o pai e elege-se o filho. Os “fiotes” dos governantes não se preocupam muito com a vida, pois contam com a ingenuidade do povo, que lhes garante existência pública fundamentada no DNA. Atualmente os moradores do lugar são visitados por pessoas estranhas, que jamais souberam da existência deles. É a corrida ao ouro, ou melhor dizendo, é a corrida eleitoral.
Angústias é aprazível e acolhedora e está em polvorosa. Escolhe-se um novo líder em meio ao caos dos mais recentes acontecimentos. O que não falta é gente para se oferecer de corpo e alma, para resolver os problemas da população esquecida. É como se estivessem falando em nome de Deus; são arautos angelicais distribuindo “santinhos”, porque fórmulas milagreiras proliferam e o eleitor é o grande alvo. O objeto de desejo – o voto – que até então era trocado em Angústias, por um par de óculos, botinas, ou uma singela e sorridente dentadura, teve seu valor disparado no mercado. Ninguém mais quer a dentadura, o que tem bastante lógica. A dentadura, depois das eleições, nunca mais sorri, pois não lhes cabe na boca e o povo continua desdentado. Se cabe bem rente, a ponto mesmo de machucar, algumas vezes a dentadura tem o efeito de mordaça e torna o presenteado um conivente. Recebe o presente e fica calado para sempre. E, calado, consente! Quando a dentadura se ajusta na boca, não tem serventia, pois falta ao povo o que mastigar.
Acreditem, Angústias pode mudar de nome depois das eleições e dependendo do resultado, isso já é esperado. Uns sugerem Catástrofe, outros mantêm a esperança e desejam que seja Colossus. Vai depender da maioria. O voto, essencial para a grande mudança, vale muito mais do que o tapinha nas costas, dado pelo candidato com nojo de gente, espanando a caspa dos ombros do homem vergado pelo peso da existência; vale muito mais do que o sorriso platinado em prótese, o elogio fácil e a elevação do homem comum ao status de cidadão em dias de campanha. Considerem isso.
Parece-me que os moradores locais de Angústias chegaram ao limite e descobriram que o voto vale o peso de cada um em ouro. Vale quanto pesa! Sim, se você está com setenta e dois quilos, em Angústias, isso equivale a setenta e dois quilos de ouro e não mais um pé de uma botina. Sim, pois o eleitor até então, valia um só pé de bota, tanto quanto valia a perna única do Saci Pererê. E, como Saci Pererê é uma ficção, considero que o homem comum é visto assim – não existe na realidade. E, lembrando sempre que o par de botas só era formado se o “padrinho” ganhasse a eleição. O povo continuava a andar com um pé descalço em terreno árido e sem direção certa. Claro, sem resolver o seu problema, criava outro muito maior, porque com um só pé da bota, passava a mancar e ficava coxo. E assim tem sido! Andando, capengando, se arrastando e caindo... E correndo o sério risco de nunca mais se levantar.
Autora: Valéria Áureo -
In: Docilidade de Sobreviventes

Intimidade


Havia invejável intimidade entre minha mãe e Deus. Ao longo da vida ocorreu essa comunhão, que foi se solidificando cada vez mais. Por mais que parecesse fraca e oprimida, Deus a considerava forte e especial e assim a tratava, como filha amada. Da mesma forma ela devotava a Ele amor imensurável. Ambos eram fiéis. Conversavam todos os dias. Mesmo quando ela se perdia em lágrimas, havia o diálogo silencioso que só as almas sagradas decifram. Talvez as lágrimas fossem rios navegáveis que a levavam ao Pai. Ela conhecia o caminho e com Ele chegou ao seu destino, sem nunca ter perdido a direção.
Antes de partir minha mãe decodificou o enigma da oração para seus filhos.

Autora: Valéria Áureo
In: Docilidade de Sobreviventes

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Quem é ela?


Estamos nos conhecendo. Amorosamente, nos conhecendo nas primeiras carícias na pele. Tudo em torno é suavidade e primeiro olfato. Ela ocupa um espaço pequenino, mas o mundo é ainda menor para tanto. Ela ocupa tudo. Não é mais a ideia de sua vinda do universo da concepção, mas a concretude de sua existência física, palpável, nas delícias do tato.
Ela é! Respira, tem hálito e alma, desde o momento em que se instalou no pequeno berço do corpo materno, onde fez ninho... Ah! O amor que se vai construindo a cada expectativa do que virá a ser, a cada toque, a cada sorriso, ou inquietação... Por que chora? Por que as lágrimas são tão grandes no rosto tão pequeno? São os primeiros rios de água doce a ocupar o sal de minha alma.
Ah! Ela chora porque ainda não me conhece na minha amplitude serena da idade, no outro extremo de sua chegada, na alma plenitude conseguida com tempo e adequação. E nem eu mesma sou aquela que acreditava ser ainda ontem, e que ainda me descubro refletida nos olhos dela, onde me procuro nadando, nadando, nadando...
A pequena que se faz na urdidura dos afagos, do leite, do amor, ocupa o universo já na sua tíbia percepção e me olha profundamente e ri. Ela investiga o meu rosto, eu investigo o rosto dela e assim nos reconhecemos: eu, a mãe do pai, no outro lado da linha, sou ponto de uma tapeçaria. Reflito sobre a calmaria dos anjos enquanto ela dorme. Sou ponte e sou porto. E nessa costura de ternuras, ela me mostrará a cada dia quem eu sou - pois me faço diferente todos os dias. Hoje eu sei que sou avó! Avó da Maitê!


Autora: Valéria Áureo
To: Hubert, Carol, Maitê, Candice e Luiz Fernando

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Provisão



          Chuva de Prata
Se quiser uma aguinha gelada, um algodão doce, pega aqui comigo!...
O ambulante movimentava a rua parada com sua voz estridente. Tudo estava em seu lugar; estranhamente em seu lugar de segunda-feira, terça, quarta... De ágil mesmo, só palavras ressoando na rua vazia. Uns poucos transeuntes falavam ao celular e deixavam mensagens aflitas: temos que estocar mantimentos! Não se sabe quanto tempo essa paralisação vai durar. E se faltar?... E divulgavam as suas necessidades e intenções de água, comida, material de higiene, aos gritos nervosos. E nada mais se poderia ouvir, senão os interesses individuais.
Pensei no que eu poderia querer, para fazer um estoque, uma reserva de bens de primeira necessidade. De que eu precisaria e por quanto tempo?Talvez eu começasse por um arsenal de palavras, para depois pensar no resto. Estranho, não é? Eu e o meu vício de colecionador de palavras. Na verdade, eu gostaria mesmo é de uma chuvinha fresca de palavras como: país / mais/ provisório/ louco/ onde/ previsão/ mistura/ urnas / gente/ fatídica/ se / entende/ tem/ /mais/ caos / fome/ confusão / presidência / previdência / social / inocência / indecente / eleição / corrupção / socorro!...
Socorro, vou morrer afogada! Não contava com esse temporal! Eu só queria uma chuva fininha, de prata...
Valéria Áureo

terça-feira, 10 de julho de 2018

Segunda Pele


                                                               Ilustração: Internet


          Eu usava jeans lavado, rasgado; um adereço para se ajustar ao coração desbotado de juventude sem paradeiro. Havia tempos que eu vivia nesse desleixo, quase despido de energia e voz, sem saber sequer sonhar. Um ser adoecido, rebelde, cinza, apagado, produto da moral do país. Mais um ser aniquilado pela decepção; constatação da destruição e caos. Sabia que meu coração estava sintonizado in blue, apesar de sons irreconhecíveis entrando pelas janelas. Todo dia uma melodia de escárnio rasgava a minha pátria. Ó Pátria desvalida! Ó Pátria desditosa! Ó Pátria que desconheço! Pensamentos arrancados de um novelo embaraçado de ideias me enforcavam.
Vesti amarelo. Tênis azuis com faixas verdes e o hino reverberando no crânio.  E, a partir disso, minha identidade aflorou, irrigando os meus poros em uma explosão. Saí e gritei em defesa da pátria aviltada. E não tirarei a camisa da Pátria, até o fim das eleições ( e dos meus dias). Vesti a Bandeira do Brasil, agora morando em mim, se tornando a minha segunda pele.

Autora: Valéria Áureo

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Premonição Genial


O menino era tímido e bem arredio. Nunca falava. Nas raras vezes em que tentava falar, se arrastava nervosamente, salpicando as sílabas em tropeços angustiantes para quem o ouvia. Quando a família constatou que ele era gago, tratou de levá-lo a uma fonoaudióloga. Apesar disso, não houve jeito. O garoto era tímido demais até mesmo para tentar corrigir o problema. Os pais temiam que a gagueira pudesse comprometer o seu futuro. Eles sonhavam sempre o melhor para seus filhos. Que o menino conquistasse o mundo era o que ansiavam.
Na escola deu-se uma revelação. Ele não se comunicava verbalmente e apenas balbuciava uma sílaba em vã tentativa: Gu... Gu... Gu... E não conseguia ir adiante. Os colegas se davam por satisfeitos em chamá-lo Gu, o gaguinho. Afinal Gu era um prodígio e demonstrava saber mais do que professores e mesmo o diretor, um renomado doutor. Gu era accessível e atencioso e não se incomodava em ajudar. A tudo respondia em uma velocidade inimaginável e sem pestanejar. O único ponto interessante é que só respondia por escrito. Já tinha desistido de falar. A primeira vez em que seus colegas ouviram palavra diferente foi em um jogo de futebol. Misteriosamente ouviram-no gritar Gol! Gol! Gol! Todos ficaram com a impressão de que Gu adorava futebol. Assim, em troca de conhecimento privilegiado, Gu, o amigo gaguinho, era levado aos campos de futebol, onde assistia aos jogos, dando em troca o seu imponderável saber. Enquanto acompanhava o jogo ele fazia por escrito os trabalhos dos colegas com grande presteza. Um fenômeno, diziam todos maravilhados e agradecidos, porque já não sabiam mais viver sem recorrer a ele. Gu só parava de escrever quando acontecia um gol. Era quando gritava sorridente. Gol! Gol! Gol!
Os anos se passaram e Gu foi para Stanford, onde se comprovou que ele sabia muito mais dos que os mestres, os doutores, os reitores. Gu era um gênio! Em Stanford Gu conheceu um brilhante colega russo, Sergey com quem se identificou de imediato. Gu não falava nada e Sergey falava russo, o que poderia ser um grande empecilho para a comunicação, mas ambos escreviam em todos os idiomas do planeta e se comunicavam muito bem e com agilidade. Os dois jovens eram ilustres estudantes da Universidade de Stanford reconhecidos como geniais. Tornaram-se tão amigos que criaram um projeto de doutorado cujo foco era criar um buscador que fosse muito rápido no resultado. O buscador tornou-se um sucesso e a empresa que eles criaram recebeu o nome Google. Descobriu-se que Gu, que sabia gritar gol, se chamava Larry Page. Ambos ( Sergey Brin e Larry Page) ficaram milionários. Gu, para os colegas, seria sempre o amigo gaguinho, o sábio. E, como todo gênio, o seu saber se espalhou pelo mundo inteiro. Os pais de Gu não se decepcionaram, apesar da gagueira do menino.
Autora: Valéria Áureo
In: Docilidade de Sobreviventes
Publicada em O Imparcial de Rio Pomba

Ligações Reconfortantes V


                                                                              Ilustração: Internet


          - Oi, aqui é Eduardo, o seu atendente virtual! Você sabia que a sua casa já tem banda larga ilimitada, para acessar de qualquer ponto? Eu posso...
          Eu interrompo o Eduardo e deixo o telefone fora do gancho. Eduardo, do outro lado da linha continua falando, falando... Minha cabeça acelera e faz considerações. Um atendente virtual? Banda larga ilimitada em casa? Minha cabeça tresloucada já entende que talvez Eduardo seja virtuoso. Teria eu entendido errado?Ando confusa... Um atendente virtuoso! Virtudes cardeais, teologais, humanas? Ou seria um virtuose? Um desses que tem uma banda de rock?  Quem sabe pianista, saxofonista, que faz soar ao longe as notas da felicidade de um blue.  Penso em música. Penso no azul, no sereno som combinado com neblina. Flerto com a ilusão de uma ligação amorosa. Penso em virtudes. Mas seria muita sorte minha um atendente virtuoso, ao menos, e dono de atributos que já não constam mais nos hábitos e condutas.
          Voltei o meu pensamento para as quatro virtudes cardeais, como as estações do ano, os quatro elementos, as quatro fases da vida, os quatro pontos cardeais, os quatro cavaleiros do apocalipse... Eu e minha mania de associação de ideias... Já é outono, mas imagino viver uma tarde de verão em que cobro virtudes de um atendente virtual. Quem sabe ele seja dono de prudência, a primeira da lista. Como é difícil Eduardo, ser prudente. Se o fosse não ligaria para mim, pois sou muito crítica e inoportuna. Sou impaciente! Posso perder o controle até mesmo ao telefone. Não, Eduardo não é prudente. Prudência é sabedoria, previdência, precaução. A prudência coloca a nossa atenção na preparação dos fatos e eventos e nunca na precipitação nem no amadorismo ou improvisação. Eduardo, o atendente virtual não improvisava, porque o texto era gravado. Não se colocava ao pé do precipício. Contudo aposto que ensaiou uma dezena de vezes, antes de gravar a mensagem. Precavido era.
          Quem sabe, o Eduardo da Vírtua tenha temperança. A segunda virtude trata do autocontrole, autodomínio, renúncia, moderação. A temperança ordena afetos, domestica os instintos, sublima as paixões, organiza a sexualidade, modera os impulsos e apetites. Abre o caminho para a continência, a castidade, a sobriedade, o desapego. Bom, eu concluo a favor do atendente: temperança ele deve ter, pois autodomínio e moderação são para poucos e ele demonstra na voz certa cautela. A temperança não permite que sejamos escravos, mas livres e libertadores e nos encaminha para o cumprimento dos deveres e para a maturidade humana. Sem renúncia não há maturidade. Grande fruto da renúncia é a alegria e a paz. Não sei por que, mas me veio à cabeça a ideia dos temperos e sabores e contrastes: doces, salgados, amargos, ácidos... Não seria a temperança a arte de saber misturar tudo isso, na dosagem certa e preparar uma ceia deliciosa? Sabedoria para tirar o amargor da vida e colocar a doçura na medida certa para não enjoar. Parece-me que a temperança é a medida certa para todos os prazeres.
          Fortaleza. Sim, eis a terceira virtude. Eduardo, o atendente virtual seria uma fortaleza? Faz-nos fortes no bem, na fé, no amor. Leva-nos a perseverar nas coisas difíceis e árduas, a resistir à mediocridade, a evitar rotina e omissões. Pela fortaleza vencemos a apatia, a acomodação e abraçamos os desafios e a profecia. É virtude dos profetas, dos heróis, dos mártires e dos pobres. Mais uma vez a minha cabeça foge... Não tenho coragem para os grandes desafios e me confesso afeita às acomodações. Se eu pudesse escolher teria sido um gato (quieto sossegado no meu canto, sem qualquer tipo de amolações, a começar por telefonemas...). Acredito que o Eduardo da Vírtua também esteja acomodado no seu canto, repetindo, repetindo, repetindo... Coitado do Eduardo! Seu mal será a intemperança? Pode ser...
          E lá vou eu à última virtude cardinal: Justiça. Ela regula nossa convivência, possibilita o bem comum, defende a dignidade humana, respeita os direitos humanos. É da justiça que brota a paz. Sem a justiça nem o amor é possível. Agora eu passo a me lembrar de todos os amores impossíveis e concluo que fui muito injustiçada nesta vida. Não tive paz nos meus afetos. Há uma lista de possibilidades, com as quais sonhei e, no entanto... Bom, a culpa foi minha, pois eu não tive a tal coragem, advinda da força. Já notei que as virtudes andam encadeadas; se falta uma delas, nós já flertamos com as desventuras. Talvez me tenham faltados os temperos; aqueles que a baiana tem... Mas, sejamos justos: quem respeita os direitos humanos, afinal? E a justiça, como anda? Talvez devesse perguntar ao Eduardo, que continua a falar ao telefone, enquanto eu analiso todas as possibilidades.
          Retomo o telefone e coloco o aparelho ao ouvido. Meu atendente virtual diz: para consertos, digite o número quatro! Mas, não me provoque, Eduardo!
          Bom, Eduardo não teria ido tão longe, pensando em Platão ou São Tomás de Aquino ao fazer sua gravação para a Vírtua. E ele, Eduardo, ainda me diz que minha casa tem banda larga ilimitada. Que nada! Nem banda, nem bateria, nem cozinha, nem sax. Aqui há muito não se ouve um blue ou um jazz. Aqui não há concerto! Bem, não sei muita coisa de meu atendente virtual, mas afirmo que ele é fiel, lá isso é, pois me liga todos os dias, impreterivelmente às dez da manhã, às quinze da tarde e às dezenove horas. Já é um conforto ter três ligações ao dia, porque, pelo menos assim alguém me liga.

Valéria Áureo