Apresentação

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domingo, 16 de agosto de 2020

Narrativa das Improbabilidades


Ilustração: Internet


Quando a infância era a sua única razão de ser, a criançada já entendia o pai com um simples olhar. Ele baixava os óculos até a ponta do nariz e pronto. Tudo esclarecido e nem mais um som.
Os distúrbios que pudessem existir eram folhas corrigidas do livro de doutrinação que o vento levava rapidamente e dava sabedoria às variadas idades. Dava compreensão. Dava perspicácia, sabedoria e mais discernimento. E ai de quem não compreendesse suas mensagens, pois a vida não dava chance para os tolos.
Poucas palavras, gestos e mímica formavam um código secreto entre eles. A casa poderia até ser um campo concentrado de vontades de guerra, embates, egos, se não houvesse um líder. Mas o líder não deixava que isso acontecesse. Assim seus oito soldados marchavam em harmonia com outras crianças refreadas em casa e nos anos de escola. Tudo ia bem...
O pai falava aos filhos com os olhos e até com silêncios. Palavras deviam ser decifradas com inteligência e rapidez de raciocínio...
E assim se deu a narrativa das improbabilidades: ia ele com a filha adolescente no ônibus até Barbacena, onde a menina estudava; linda, cabelos longos, olhos doces e convicções de menina esperta, mas que ainda tinha que ser protegida pelo pai. No ônibus ela sentou-se no banco da frente e atrás se sentou o pai. Eram os únicos lugares vazios. Do lado dela o banco estava ocupado por um rapaz que logo se engraçou, aprumando-se ao vê-la. Empertigou-se ardiloso e achegou-se aos longos cabelos dela. Animou-se em uma possibilidade de aventura. A cada curva, mais e mais ele se lançava sobre ela. Ela, cada vez mais espremida em seu assento, recolhida em seu temor, sem poder se desvencilhar,  porque não sabia reagir.
O pai, que a tudo vigiava, sabia que não poderia mais agir como sempre agira em sua juventude: um soco nos queixos do malandro e pronto. Mas agora a questão exigia prudência e sabedoria. Precisava esperar o momento certo.
Foi então que o pai exclamou: 
- Minha fia, como estão te tratando lá no leprosário? A frase estaparfúdia era o código para a filha ativar sua imaginação e acompanhar o raciocínio do pai. A menina, atenta e perspicaz, percebendo a intenção do pai respondeu: 
- Estão me tratando bem, pai. Não se preocupe!
- E as feridinhas no seu corpo, já secaram?
- Não, pai, ainda não! ... Tem muitas nos ombros! Quer ver?

Pois nem foi preciso mais nenhuma palavra. O rapaz, que até então estava com a cabeça sobre os ombros da menina, deu um salto; desvencilhou-se pálido, tremendo, apavorado. Deu sinal para o motorista e saltou no meio da estrada. Nunca mais se soube dele.

É isso que acontecia com quem se engraçava com as filhas do meu velho.


Autora: Valéria Áureo
(In: Conjugando o Amor Líquido)

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Na Fila do Pão


                    



Sim, porque não só de pão  vive o homem, mas de todo o verbo, que é carne e cerne do pensamento. Pois, diante de mim conversam dois rapazes e eu atenta, é óbvio, faço minhas considerações, enquanto o pão está no forno. Guilherme e David, ambos de quase trinta anos, não param de falar. Vou além deles e crio a narrativa de minha imaginação:
- Cara, estou vindo do Paraguai; aquilo lá é uma loucura! Estou usando perfume até para vir para a padaria. Chivas, eletrônicos, tênis, tenho de tudo. Voltei cheio de guaranis que aqui valem por... nenhuma. Mas cara, não imagina. E você, tudo bem?
- Estou chegando do ultrassom; é uma menina. Na consulta anterior o médico tinha suspeitado que  era menino. Mandou comprar a chuteira e guardar a nota fiscal. Hoje mandou trocar por uma sapatilha. Julia vem aí!...
- Ah! Então está fazendo hora extra. Vai ver como é. Dureza!
- ´Já estou vendo. Minha mulher e minha sogra querem um mês para comprar o enxoval. E eu vou junto, porque tem que participar. Minhas férias serão...
- Por que não leva para o Paraguai? Entra em um shopping só de roupas de bebê e fica esperando.  Mas, presta atenção: não dá muito palpite não. Tudo o que ela e a mãe escolherem, você diz que está bom. Se contrariar, vai ser uma choradeira danada. Grávida chora à toa. Sogra entra na vibe da filha...  O verbo que mais vai ouvir agora é magoar! E o pessoal do futebol?
- Não voltei mais!
- Machucou a perna?
- Não é isso. Não tenho tempo pra mais nada.  Tem o curso com a doula, todas as quintas...
- O que é isso, doula?
- É a parteira!
-Parteira? Está louco? Sua mulher não vai para a maternidade?
- Vai, mas vai fazer parto humanizado. Eu não sei o que fazer; tenho pavor de sangue. Querem que eu participe...  
- E o outro parto, não é humanizado?
-Sei lá! Estou concordando com tudo. Estou apavorado, isso sim.
-Calma! Tudo vai dar certo. Você se acostuma logo e o bebê vai transformar a sua vida. Se não entrar em pânico, vai adorar.
- Já transformou, cara, já transformou. Já não sou mais o mesmo homem. Ando ansioso, inquieto. Não durmo direito. E esse pão, que não fica pronto, não é? Será que tenho que esperar por tudo?

- Calma... Aprenda a esperar, porque daqui por diante... Pode ser gentil a todo instante, mas sempre haverá uma coisa no seu comportamento que não vai agradar. É assim mesmo. Dormir? Não, esqueça de uma vez! Não vai dormir nunca mais, como antes. A patroa virou mãe. Segura o seu lado highlander e entre suavemente no mundo cor-de-rosa. É melhor andar sem sapatos em casa.

- Então é melhor levar pão doce!

- Vai por mim: leva sonhos!

 

Autora: Valéria Áureo


terça-feira, 11 de agosto de 2020

Emaranhados e intrigas


Ela falava pelos dois, como sempre soube fazer. Na maioria das vezes ela sorria para ele. Ele também sorria, acolhendo-a de volta com alegria. De uns tempos pra cá, ele parecia calado, e ela tagarelava. Ela dava movimento e vida a tudo; dava vazão aos mais íntimos pensamentos com a naturalidade de uma jovem plenamente feliz. Nunca se preocupou em se proteger dos inimigos e nem sabia que eles existiam, embora alguns a alertassem.
Ele sempre tinha expectativas, mas as mantinha discretamente guardadas na tíbia luz do quarto, onde passava a maior parte do tempo. Também sabia como usar as decepções a seu favor. Bastava calar-se! Tão acomodado era na sua calma forma de ser, e na sua confiança nela, a sua querida, que a poltrona o sugava como um redemoinho, fazendo uma moldura de proteção ao corpo desgastado. Tudo se resumia em deixá-la falar o quanto quisesse, para desabafar, para compreender e chorar, para externar seus sentimentos, enquanto ele absorvia o mínimo (aquilo que ele realmente não podia dispensar). Ele calou-se, por completo, em certo tempo da vida. Tudo tinha sido dito e se dava por pacificado em seu espírito. Além do mais, sabia que para ela havia sempre um recurso infalível: em caso de emergência, abra o vidro de calmante (ou quebre), porque ali morava a sua maior segurança.
Ela, por sua vez, jamais permitiria que soubessem que tinham atingido duramente o seu coração e destruído a sua paz de espírito. Como tinham sido covardes! Era notório que o amor dos dois, desde a eternidade, mesmo depois de tantos anos, desencadeava uma grande inveja. Ela sabia-se alvo da invídia e tentava proteger-se dos maledicentes. Usava seu sorriso e sua empatia, para dar o apoio a todos os desequilibrados que desestabilizaram o seu dia e fizeram sua vida um inferno. Isso, de ela dar-se, generosamente aos que a ameaçavam, a ofendiam e a magoavam, os fazia mais humanos, mesmo sendo tão cruéis e diferentes dela. Com resignada bondade ela os transformava em seres humanos, menos animais, a ponto de poder lhes confiar (inocentemente) milhões de dólares. Confiança nos inimigos, escamoteados em amigos, tão sólida quanto o firmamento e a verdade que foram capazes de deturpar, por sordidez, para destruir aquele invejável amor, que nunca poderiam ter.
Ela, erguia-se altiva, caminhando pelo rastro de maledicência, sem se corromper com a maldade. Continuava boa, amigável, inocente, apesar de tudo, apesar de lágrimas, de mãos dadas com ele. Eternamente com ele.
A verdade sob os rumores nunca vieram à tona, mas ela sobreviveu. Ele sobreviveu, no jeito silencioso, e o amor dos dois também foi incorruptível.
Agora, no emaranhado desse amor da idade da compreensão e da maturidade (que ainda desperta inveja), finalmente podia respirar entre alguns poucos amigos que a fizeram melhor e a ajudaram a suportar as dores. Tudo tinha servido para que amadurecesse precocemente.
Um dia ainda escreveriam sobre o seu infortúnio. Os nomes dos danosos e maledicentes algozes dessa trama nunca seriam revelados, mesmo porque sempre se esconderam na penumbra, nos subterrâneos da Deep Web. Nunca se soube dizer quem eram (ou quem são!)

Autora: Valéria Áureo




segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Adeus






Agora que estavam tão próximos do fim, mais apegados estavam um ao outro, sentados lado a lado, no pequeno espaço de frente do quintal. Olhavam horas a fio a mangueira e a verdejante videira, fiscalizando cachos de uvas destinados aos netos de fim de ano. No extremo da idade, já tão velhinhos, se assemelhavam a duas crianças de mãos dadas, assentados depois de uma estonteante ciranda. Muito mais eles desejavam o tempo para o recomeço, cada vez que a memória trazia à tona lembranças da infância. Às vezes, passeavam enlaçados pelos dedos no caminho que geminava as duas casas, quando nenhum dos filhos pudesse flagrar aquela ingênua intimidade. Seco e poeirento era o quintal e as folhas da pequena parreira sob o pé de manga, que lhes servia de jardim. Que fossem muito doces as mangas e as uvas, negadas aos passarinhos e acauteladas para cada um dos filhos seus... Também lhes ambicionavam doce destino.
Secos já estavam os olhos espremidos em rendas de rugas que os faziam pequenos, pequenos e melancólicos... À tardinha a escada que levava ao segundo andar servia de bancos para os gatos e os vasos de antúrios. Quando o sol era um pouco menos quente repartiam ali um café que ele preparava para ela, porque era silencioso de palavras o amor que ele lhe tinha. Era feito de pequenos gestos recentes, aprendidos na velhice, quando enfim ele pode descobrir que mais do que as mágoas, tinha sobrevivido um sentimento perene, acobertado vida inteira. 
Viviam juntos havia mais de sessenta anos. Já não se podia dizer que eram duas criaturas, pois que nada sabiam ou podiam um sem o outro; nem pensar, andar, falar, sorrir ou haver o mundo. Ele trabalhara com a luz, sol a sol, noite a noite, fugindo nos desejos e nos sonhos para lugares em que ela não o acompanhava. Costumava evadir-se ao encalço dos lambaris do rio Formoso, porque ali se deixava carregar água abaixo, enquanto desaguava suas dores. Ela cuidara dos filhos, parira quatorze, perdera seis para a natureza, por destino, e também habitara nostalgias que só ela conhecera. Nesse tempo ambos andaram afastados de si, tal a dureza da vida, caminhando cada um o seu caminho. Mas sempre lado a lado, apesar de tudo. Quando ele queria, deitavam-se juntos. Quando não, ela dormia no seu lado da cama, sossegada, enrodilhada constantemente como gato de estimação em borralho. Nunca se separaram. Nem mesmo quando a desavença foi maior, ou quando quase todos partiram. Mesmo os filhos.
Agora, os dois, ali, à beira da tarde, pensavam que mesmo em meio à solidão, a vida podia ser boa e bela. Mas nada falavam, porque já haviam se habituado aos longos silêncios. Ou ele falava, gritava e ela ouvia e silenciava. Longe, apenas o canarinho cantava acima da saudosa gritaria de crianças, que tinham crescido. No mais o silêncio para sempre.
Antes da noite eles dormiam. Um dia e outro e outro e viram passar o tempo como se fosse uma tempestade forte e, até então, se tinham de mãos dadas, quando os filhos não olhavam invadindo essa timidez. Aos poucos souberam que haviam de se deixar. Souberam que, em breve, seria a sua hora. Hora única. De cada um. Que, depois de toda uma vida lado a lado sem quase se falar, seguiriam separados, quando bem o decidisse Deus. Quando pensavam nisso, prometiam se reencontrar...
Mais uma vez, para eles, inúteis eram as palavras, pois se adivinhavam, mutuamente, os pensamentos e o temor de saber quem iria partir primeiro.
Quando a noite caiu e uma imensa lua clareou a terra, se deixaram ficar, mais um pouco, ali fora, povoados pelo sentimento da separação.
Assim que ele se foi, mais silenciosa Wanda ficou... Ela ficou esperando uma lua inteira brilhar nos seus olhos azuis, trazendo-o de volta.

Autora: Valéria Áureo

In: Pretexto Para Tomar Vinho

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Geometria do Amor

Imagem: Internet


Poderíamos pensar que o amor é facilmente decifrável, exato e geométrico. Poderia ser feito de espelhos, linhas curvas e sinuosas dobras dos joelhos; uma sucessão de pontos enigmáticos a se perseguirem nos enlevados toques de ventos no corpo. Poderia ser problemático, matemático, calculável, resolvível, como uma equação de segundo grau. Poderia ser removível como uma nódoa de vinho, decifrável como um mistério, reciclável como papel. Ah! O amor tem muito mais do que os traços e embaraços de muitos fios elétricos enredados pela cidade eletrocutando corações. O amor é pane! Sim, é pânico; “é fogo que arde” ... Lava incandescente descendo morro. O amor pede socorro!
O amor começa com um ponto, dois, três, reticentes e, ao se darem conta, duas almas embriagadas correm tangenciando o infinito. Dois pontos extremos extrapolam o desenho só para se encontrarem e, ao se verem, um grito! Ah! Afinal! Um beijo. Fugaz abandono do plano exato, do fino traço arquitetônico e, então enamorados, dois rabiscos assumem forma, volume e se compõem no sólido e no insólito. Ocupam finalmente o espaço. Dúvidas e, também desastres; outros pontos desconectados perseguem os dois pontos amantes e afins, outrora felizes, ora ameaçados por mais um ponto fraco e invejoso, que interfere nessa dualidade monolítica e consagrada. O que era para ser um projeto (de vida) de duas forças iguais, em um esboço equilátero, equidistante, equivalente, na perspectiva de um afetuoso milênio, passa a ser, miseravelmente, para os dois, um triângulo desengonçado, esquizoide e neurastênico. Ah! A geometria do amor...

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
- Amazon.com

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Sou toda ouvidos









                     - Ei, acorda! Dona! Acorda! Ei Dona! ...
           - O que é agora? Não posso nem dormir sossegada? Que é isso? Meu Deus! ... Quem é que está me chamando e me dando um susto desses no meio da noite? Não brinca com uma coisa dessas porque eu tenho medo de assombração! Meu coração veio aqui na boca. Creio em Deus pai!
          - Que sombração que nada, Dona. Sou eu, o Ruraldino? Tô vivinho da Silva. Bem, eu acho que tô respirano, andano, falano, tudo lelete.
          - Realino? Ai, meu Deus do céu, agora ferrou mesmo! Não tinha morrido? Já está no céu, meu senhor? Ou eu também morri e nem me dei conta? Não contava com essa desventura. Tenho tanta coisa ainda para escrever...
          - Que Realino que nada! Deixa o sujeito quieto, que tá muito bem. Nem Realino e nem Ruralino. Sou eu, o Ruraldino! E ocê não morreu nada, sua boba! Ocê não é a Valeria Áureo, aquela Dona que escreve?
          - Sim, a própria tentando dormir depois de uma maravilhosa viagem a Rio Pomba e uma noite de autógrafos memorável. Festa do lançamento do livro do Roberto Nogueira
          - É exatamente sobre isso o que eu tô quereno falá... Viu por lá o Sô Santão?
          - Claro que sim; e até conversei com ele; vi o Santão e tanta gente boa que nem vai acreditar. Vou lhe contar de um por um... Foi emocionante!
          - Depois ocê me conta dos otro, pois não vai cabê nas foia do jorná e a Dona Carmen Lúcia num vai gostá. O causo é o seguinte: - avisa lá pro Sô Santão, que ele me largô aqui nesse fim de mundo e nada... Só tenho certeza que num morri ainda, porque num tô no livro dos morto - 250 anos, do dotô Roberto Nogueira. Até eu tô achano que morri. Pois o sujeito me largô aqui no meio dos cafundó do Judas e acha que é assim. Num é assim não! E o compromisso? O cabra não pode fazê o que bem entende com a minha vida sem continuá a minha história; nem com a vida da Dona Emengarda, a pobre. Acha que a gente num tem arma, num tem sentimento? Não sinhô! Num é assim não! Criô nois, agora tem que tomá conta!
          - Também acho, mas o que eu posso fazer? Ele decidiu assim e ponto final!
          - Pois manda um recado pro sujeito das letra; oceis escritô é que se entende e é tudo esquisito. Eu só entendo é coisa de mato. Pois foi muita vez que Seu Santão fez isso de aparecê e desaparecê e me deixá aqui e me metê lá pelos mato, bem na profundeza do grotão, como se num quisesse mais que eu fosse avistado. Nem viva alma para me consolá. Inventô que eu gosto de ficar sozinho, que sô um ermitão. Mas num exagera né, Sô Santão? Preciso dar as cara, de vez em quando. Eu tô ficano loco com esse insulamento. É solidão demais da conta, sô! Preciso de uma companhia, uma companhera...
          - O que quer que eu diga a ele. Fale aí! Já que me acordou mesmo, já estou com as mãos no teclado. Sou toda ouvidos!
          - Diz que tô cobrano dele. Tô desacorçoado. O sujeito sumiu nas andança dele, sabe lá Deus pra ondé e num deixô paradero. Não custa nada averiguá se ele anda com dúvida na qualidade de sua cabeça por conta do emburramento com essa bestera de política, ou com dúvida da qualidade do coração e sentimentos. Deu a mim, esse pobre rocero, um receio do Sô Santão tá doente. O sujeito me largô aqui nas terra onde cupinzeiro ia sinalizando as lonjuras do domínio do que Deus criou, competino com o largo do rio; a coruja na grota do cupim, piano e fazeno ninho, vigiano os domínio dos novo fiote. Eu fazia vistoria de qualidade, de cada parmo de terra, da rama até a raiz. Ele vinha e nois conversava... Era bão!
          - Sim, mas o quer, afinal? Parece-me que ele não quer mais conversa.
          - Uai, eu quero entrá nas história! Mas o danado do cabra sumiu?! É estranho, porque sempre estreitô um companheirismo de irmão, de instante comigo e a Emengarda. E dessa num sei mais nada, se tá viva ou se tá morta. E, do nada, o sujeito suverteu, engolido pela terra. Desinteligência entre nóis nunca teve. Se teve diferença de ideia foi coisa de pouca abrangença; coisa que levantou a satisfação da cidade quando Seu Santão me tirou do jorná, porque não sou bobo não. Gente que não tolera a conquista alheia. Os invejoso deu-se por muito contentado com a perca de minha fama. Ês gosta é de derrota!
          - O que eu posso fazer meu senhor? Ele me pareceu irredutível em seus propósitos. Acho que não consigo que mude de ideia. Não tenho argumentos para demovê-lo.
          - Num fala enrolado não, Dona Valéria! Agora sou só um coitado abandonado até pelo homem das letra; eu, um sujeito tão temente a Deus, levano a amargura e olho-gordo da inveja alheia, pesano sobre as minha costela; invídia de me ver no jorná, tão bem situado, falado, essas coisa de cidade. Aquilo era demais pra cobiça do povo que crescia os oio pra cima de mim, tão famoso eu tinha ficado. Ês dizia: Ruraldino tá na vida boa, prosperano no sítio, sossegadinho, sossegadinho... E eu quetinho no meu canto, cunversano cum escritô que vinha aqui me vê. Quem diria... Aquele atoleimado, amigo de escritô... Assim eles falava de mim... Pois o povo num guentô; e o povo danado a falar, falar, falar. Imagina? Eu só vivendo no sossego, ês falava; amigo de escritô. Até alarde de recreio no campo, o tar de piquiniqui os besta falaro que eu fiz... Um besta, eles dizia de mim; coitado de mim que não largo o cabo da enxada, nem depois de véio...
          - E o que eu digo para o Santão, meu senhor?
          - Uai, diz que eu tô aqui. Que é pra vim toma um cafezim que é pra nois cunversá, uai! A Dona pode vim tomém.
          -Vou escrever aqui o seu recado: - Santão, Ruraldino está convidando o senhor para tomar um cafezinho e assim poderão colocar os assuntos em dia. Ele tem muitas coisas para lhe contar.
          - Ficou bão, uai! Num é que a senhora entendeu tudim? Diz pra ele que eu tinha arranjado um ajudante, porque tô véio na lida, mas a mão do sujeito era lisa que nem mão de moça e secava tudo o que ele punha as mão. Morria os mato, morria as plantação, esturricava as árvore, definhava as cerca viva. Nem o capim dos pasto guentô. E o danado num se ajeitô de jeito nenhum na roça, no sole quente. Enfiô as traia no bornal feito moça, rezano pra chuvê todo dia, só para não trabaiá. Falô que eu tinha que usá um tar de firtro solá! Mandei embora, uai! Ocê é besta? Solá! Sei lá ondé isso? Cê fei trem. Sô homi macho.

Autora: Valéria Áureo
Publicado em O Imparcial de Rio Pomba -2018

sábado, 27 de junho de 2020

Mini conto contemporâneo


O casal passeia com a criança, cujo nome é Francisco, mas eles o chamam de Chicão, Chico, Chiquinho, Cisquinho. É dia de festa e agora exibem um menino grande e forte, depois de tempos de tormenta e desilusão. Chico, que agora corre por todos os lados, leva esperança para os vizinhos, que só o conheciam de nome. Menino refeito, que todo pai gostaria de exibir, agora sai por todo canto fazendo algazarra.
– É a cara do pai – bajula a vizinha.
– A senhora o conhece? – pergunta o homem.
E segue adiante, com a constatação de ter em seu caminho uma vizinha fofoqueira e maledicente, capaz de estragar a felicidade do nobre homem que assumiu a paternidade.
Naquele instante, não conseguiu juntar as palavras apropriadas, para dizer que o 'dito' pai tinha abandonado a criança, depois de roubar todos os bens da família, deixando-os à mingua. Isso era natural naquele genitor corrompido, que não conseguia juntar os pedaços de sua vida de maus hábitos e má companhia. E nisso, de não se ajustar à honestidade que a vida requer, esse pai foi-se embora, levando o que podia roubar, tomando mais um gole e vendendo a alma ao diabo.
Coube ao pai adotivo dar dignidade à Dona Pátria (mulher altiva e de bons costumes) e ao filho promissor, o belo Chiquinho, porque a vida não se resume ao pai, mas ao filho bento pelo Espírito Santo.
Autora: Valéria Áureo
Rio 27/06/2020

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Dia dos Namorados - Quarentena III





À primeira vista ela se apaixonou. Estava no shopping e a atração foi fulminante. Ela precisava dele para viver ... Tinha apenas quatorze anos; o pai proibiu, sem muitas considerações, apenas um não! A mãe acompanhou a decisão do pai, como fazia em tudo. Nada de relacionamentos prematuros; você é ainda muito criança! ... Aos dezoito ela fez prevalecer sua vontade e vaidade e assim começou um relacionamento duradouro. Desde então, sem se desgrudarem, passaram por todos os encantos da juventude. Juntos na universidade, nos bailes, nas festas, nas viagens, nas compras, nas visitas e em todo lugar. Tornaram-se inseparáveis, íntimos no corpo, na pele, nos lábios. Todos os dias tocavam-se com ternura e ele a deixava luminosa.
Aos cinquenta, na quarentena ela se distanciou tragicamente dele, sem lhe dar qualquer explicação pelo abandono, e entregou-se a uma impudica relação. Trocou-o sumariamente por uma máscara.
Pobre batom!
Autora: Valéria Áureo
12/06/2020

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Quarentena II





Às vezes a mãe fica nervosa, porque as crianças estão todas amontoadas no sofá, emboladas no grande novelo das traquinagens. A mãe se irrita com o inesperado barulho, porque no consultório não era assim, só a música ambiente. Agora, em casa, uma criança grita, a outra puxa o brinquedo; uma chora, a outra ri; um está emburrado e o outro lê sossegado. Ela me põe de castigo e me chama de criança levada. Então, antes de chorar, eu pergunto a mim o que fiz de errado, porque eu estava bem quieta no meu canto com o gato manhoso que não me deixa sozinho. Eu tiro do bolso um lenço de papel que me consola, onde há muitos dias ela limpou o beijo vermelho dos lábios, para me confortar, porque ela anda impaciente e nervosa e sinto saudades do silêncio dela.
Mal encerra o dia de lavar, secar, cozinhar, servir, comer, guardar, arrumar, botar menino para dormir e deixar a janta à mesa tão tarde, a lua se apaga e o dia se estica além das nove da noite; tudo emendado em manhã, tarde e noite, sem intervalos e descanso. Amanhecer já não é mais às sete da manhã, quando havia escola e trabalho. É hora de dormir novamente, mal tendo descansado da trabalheira do dia anterior.
E lá se foram para as gavetas todos os enfeites que ela usava para sair à rua: roupas melhores; adornos dos cabelos pintados e soltos; cinta modeladora; batom e esmalte, perfumes e sapato alto, bolsa, chave do carro, documentos, celular. Agora se vai à rua sem maquiagem; tem-se o rosto quase trágico (em preto e branco), escondido em uma máscara que ora encobre o medo de se perder definitivamente o que não se vive mais. Na memória ela sai de casa, bebe, dança, tira a maquiagem, deita, chora e até ri, porque a vida era bem divertida.

Eis que, amanhece no sobressalto da madrugada que já não é mais tão cedo... Hora de ver o que os meninos estão aprontando. E, antes que ela grite, eu tiro do bolso um lenço de papel que me consola, onde ela limpou o beijo vermelho dos lábios, para me confortar. Eu beijo o beijo dela e isso me faz parar de chorar. Sinto falta do silêncio dela.




Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

domingo, 5 de abril de 2020

Eu amo você! ( Quarentena)



Quarentena! Finalmente podiam se lembrar, cada um por si, das muitas coisas de que mais gostavam. Eram tão mutilados pelas asperezas da vida, que consome o amor verdadeiro, que mal se falavam. Isso por causa do distanciamento de muitos anos, casados, calados, cansados, vivendo no torpor de amarguras e decepções.
A quarentena os confinou na sala, no quarto, na cozinha, na varanda... Um bem perto do outro, como costumavam ficar, quando eram jovens. Ele esbarrou nela, de maneira sutil e se desculpou... Ela riu timidamente, sob o calor da respiração dele, como se nunca tivesse sido tocada. Ele se lembrou que gostava que mexessem em seus cabelos... Suspirou e riu de volta para ela. (Sabe onde está o meu celular?)...
Ela se lembrou do calor da pele dele. Propôs uma ousadia de se assentar em silêncio na varanda, olhando para o mar, de mãos dadas com ele, enquanto acariciava seus dedos. Quando tempo não se tocavam... ( O celular está na mesinha, do lado da minha bolsa!)...
Quarentena! Os dias se arrastando e eles tirando as camuflagens das mágoas em pequenas dosagens: um dia um sorriso, no outro uma voz mais meiga, e depois um leve beijo. Agora riem juntos e acham graça em tudo. Enamoraram-se como se fosse ainda amor à primeira vista, como da primeira vez. Redescobriram as delicadezas que o amor esconde sob as luvas e máscaras.
( O celular está descarregado!)...
E, num arroubo de paixão, como um rapaz de vinte anos, ele a tomou nos braços e disse: – Eu amo você, garota!

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações