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sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Geometria do Amor

Imagem: Internet


Poderíamos pensar que o amor é facilmente decifrável, exato e geométrico. Poderia ser feito de espelhos, linhas curvas e sinuosas dobras dos joelhos; uma sucessão de pontos enigmáticos a se perseguirem nos enlevados toques de ventos no corpo. Poderia ser problemático, matemático, calculável, resolvível, como uma equação de segundo grau. Poderia ser removível como uma nódoa de vinho, decifrável como um mistério, reciclável como papel. Ah! O amor tem muito mais do que os traços e embaraços de muitos fios elétricos enredados pela cidade eletrocutando corações. O amor é pane! Sim, é pânico; “é fogo que arde” ... Lava incandescente descendo morro. O amor pede socorro!
O amor começa com um ponto, dois, três, reticentes e, ao se darem conta, duas almas embriagadas correm tangenciando o infinito. Dois pontos extremos extrapolam o desenho só para se encontrarem e, ao se verem, um grito! Ah! Afinal! Um beijo. Fugaz abandono do plano exato, do fino traço arquitetônico e, então enamorados, dois rabiscos assumem forma, volume e se compõem no sólido e no insólito. Ocupam finalmente o espaço. Dúvidas e, também desastres; outros pontos desconectados perseguem os dois pontos amantes e afins, outrora felizes, ora ameaçados por mais um ponto fraco e invejoso, que interfere nessa dualidade monolítica e consagrada. O que era para ser um projeto (de vida) de duas forças iguais, em um esboço equilátero, equidistante, equivalente, na perspectiva de um afetuoso milênio, passa a ser, miseravelmente, para os dois, um triângulo desengonçado, esquizoide e neurastênico. Ah! A geometria do amor...

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
- Amazon.com

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Sou toda ouvidos









                     - Ei, acorda! Dona! Acorda! Ei Dona! ...
           - O que é agora? Não posso nem dormir sossegada? Que é isso? Meu Deus! ... Quem é que está me chamando e me dando um susto desses no meio da noite? Não brinca com uma coisa dessas porque eu tenho medo de assombração! Meu coração veio aqui na boca. Creio em Deus pai!
          - Que sombração que nada, Dona. Sou eu, o Ruraldino? Tô vivinho da Silva. Bem, eu acho que tô respirano, andano, falano, tudo lelete.
          - Realino? Ai, meu Deus do céu, agora ferrou mesmo! Não tinha morrido? Já está no céu, meu senhor? Ou eu também morri e nem me dei conta? Não contava com essa desventura. Tenho tanta coisa ainda para escrever...
          - Que Realino que nada! Deixa o sujeito quieto, que tá muito bem. Nem Realino e nem Ruralino. Sou eu, o Ruraldino! E ocê não morreu nada, sua boba! Ocê não é a Valeria Áureo, aquela Dona que escreve?
          - Sim, a própria tentando dormir depois de uma maravilhosa viagem a Rio Pomba e uma noite de autógrafos memorável. Festa do lançamento do livro do Roberto Nogueira
          - É exatamente sobre isso o que eu tô quereno falá... Viu por lá o Sô Santão?
          - Claro que sim; e até conversei com ele; vi o Santão e tanta gente boa que nem vai acreditar. Vou lhe contar de um por um... Foi emocionante!
          - Depois ocê me conta dos otro, pois não vai cabê nas foia do jorná e a Dona Carmen Lúcia num vai gostá. O causo é o seguinte: - avisa lá pro Sô Santão, que ele me largô aqui nesse fim de mundo e nada... Só tenho certeza que num morri ainda, porque num tô no livro dos morto - 250 anos, do dotô Roberto Nogueira. Até eu tô achano que morri. Pois o sujeito me largô aqui no meio dos cafundó do Judas e acha que é assim. Num é assim não! E o compromisso? O cabra não pode fazê o que bem entende com a minha vida sem continuá a minha história; nem com a vida da Dona Emengarda, a pobre. Acha que a gente num tem arma, num tem sentimento? Não sinhô! Num é assim não! Criô nois, agora tem que tomá conta!
          - Também acho, mas o que eu posso fazer? Ele decidiu assim e ponto final!
          - Pois manda um recado pro sujeito das letra; oceis escritô é que se entende e é tudo esquisito. Eu só entendo é coisa de mato. Pois foi muita vez que Seu Santão fez isso de aparecê e desaparecê e me deixá aqui e me metê lá pelos mato, bem na profundeza do grotão, como se num quisesse mais que eu fosse avistado. Nem viva alma para me consolá. Inventô que eu gosto de ficar sozinho, que sô um ermitão. Mas num exagera né, Sô Santão? Preciso dar as cara, de vez em quando. Eu tô ficano loco com esse insulamento. É solidão demais da conta, sô! Preciso de uma companhia, uma companhera...
          - O que quer que eu diga a ele. Fale aí! Já que me acordou mesmo, já estou com as mãos no teclado. Sou toda ouvidos!
          - Diz que tô cobrano dele. Tô desacorçoado. O sujeito sumiu nas andança dele, sabe lá Deus pra ondé e num deixô paradero. Não custa nada averiguá se ele anda com dúvida na qualidade de sua cabeça por conta do emburramento com essa bestera de política, ou com dúvida da qualidade do coração e sentimentos. Deu a mim, esse pobre rocero, um receio do Sô Santão tá doente. O sujeito me largô aqui nas terra onde cupinzeiro ia sinalizando as lonjuras do domínio do que Deus criou, competino com o largo do rio; a coruja na grota do cupim, piano e fazeno ninho, vigiano os domínio dos novo fiote. Eu fazia vistoria de qualidade, de cada parmo de terra, da rama até a raiz. Ele vinha e nois conversava... Era bão!
          - Sim, mas o quer, afinal? Parece-me que ele não quer mais conversa.
          - Uai, eu quero entrá nas história! Mas o danado do cabra sumiu?! É estranho, porque sempre estreitô um companheirismo de irmão, de instante comigo e a Emengarda. E dessa num sei mais nada, se tá viva ou se tá morta. E, do nada, o sujeito suverteu, engolido pela terra. Desinteligência entre nóis nunca teve. Se teve diferença de ideia foi coisa de pouca abrangença; coisa que levantou a satisfação da cidade quando Seu Santão me tirou do jorná, porque não sou bobo não. Gente que não tolera a conquista alheia. Os invejoso deu-se por muito contentado com a perca de minha fama. Ês gosta é de derrota!
          - O que eu posso fazer meu senhor? Ele me pareceu irredutível em seus propósitos. Acho que não consigo que mude de ideia. Não tenho argumentos para demovê-lo.
          - Num fala enrolado não, Dona Valéria! Agora sou só um coitado abandonado até pelo homem das letra; eu, um sujeito tão temente a Deus, levano a amargura e olho-gordo da inveja alheia, pesano sobre as minha costela; invídia de me ver no jorná, tão bem situado, falado, essas coisa de cidade. Aquilo era demais pra cobiça do povo que crescia os oio pra cima de mim, tão famoso eu tinha ficado. Ês dizia: Ruraldino tá na vida boa, prosperano no sítio, sossegadinho, sossegadinho... E eu quetinho no meu canto, cunversano cum escritô que vinha aqui me vê. Quem diria... Aquele atoleimado, amigo de escritô... Assim eles falava de mim... Pois o povo num guentô; e o povo danado a falar, falar, falar. Imagina? Eu só vivendo no sossego, ês falava; amigo de escritô. Até alarde de recreio no campo, o tar de piquiniqui os besta falaro que eu fiz... Um besta, eles dizia de mim; coitado de mim que não largo o cabo da enxada, nem depois de véio...
          - E o que eu digo para o Santão, meu senhor?
          - Uai, diz que eu tô aqui. Que é pra vim toma um cafezim que é pra nois cunversá, uai! A Dona pode vim tomém.
          -Vou escrever aqui o seu recado: - Santão, Ruraldino está convidando o senhor para tomar um cafezinho e assim poderão colocar os assuntos em dia. Ele tem muitas coisas para lhe contar.
          - Ficou bão, uai! Num é que a senhora entendeu tudim? Diz pra ele que eu tinha arranjado um ajudante, porque tô véio na lida, mas a mão do sujeito era lisa que nem mão de moça e secava tudo o que ele punha as mão. Morria os mato, morria as plantação, esturricava as árvore, definhava as cerca viva. Nem o capim dos pasto guentô. E o danado num se ajeitô de jeito nenhum na roça, no sole quente. Enfiô as traia no bornal feito moça, rezano pra chuvê todo dia, só para não trabaiá. Falô que eu tinha que usá um tar de firtro solá! Mandei embora, uai! Ocê é besta? Solá! Sei lá ondé isso? Cê fei trem. Sô homi macho.

Autora: Valéria Áureo
Publicado em O Imparcial de Rio Pomba -2018

sábado, 27 de junho de 2020

Mini conto contemporâneo


O casal passeia com a criança, cujo nome é Francisco, mas eles o chamam de Chicão, Chico, Chiquinho, Cisquinho. É dia de festa e agora exibem um menino grande e forte, depois de tempos de tormenta e desilusão. Chico, que agora corre por todos os lados, leva esperança para os vizinhos, que só o conheciam de nome. Menino refeito, que todo pai gostaria de exibir, agora sai por todo canto fazendo algazarra.
– É a cara do pai – bajula a vizinha.
– A senhora o conhece? – pergunta o homem.
E segue adiante, com a constatação de ter em seu caminho uma vizinha fofoqueira e maledicente, capaz de estragar a felicidade do nobre homem que assumiu a paternidade.
Naquele instante, não conseguiu juntar as palavras apropriadas, para dizer que o 'dito' pai tinha abandonado a criança, depois de roubar todos os bens da família, deixando-os à mingua. Isso era natural naquele genitor corrompido, que não conseguia juntar os pedaços de sua vida de maus hábitos e má companhia. E nisso, de não se ajustar à honestidade que a vida requer, esse pai foi-se embora, levando o que podia roubar, tomando mais um gole e vendendo a alma ao diabo.
Coube ao pai adotivo dar dignidade à Dona Pátria (mulher altiva e de bons costumes) e ao filho promissor, o belo Chiquinho, porque a vida não se resume ao pai, mas ao filho bento pelo Espírito Santo.
Autora: Valéria Áureo
Rio 27/06/2020

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Dia dos Namorados - Quarentena III





À primeira vista ela se apaixonou. Estava no shopping e a atração foi fulminante. Ela precisava dele para viver ... Tinha apenas quatorze anos; o pai proibiu, sem muitas considerações, apenas um não! A mãe acompanhou a decisão do pai, como fazia em tudo. Nada de relacionamentos prematuros; você é ainda muito criança! ... Aos dezoito ela fez prevalecer sua vontade e vaidade e assim começou um relacionamento duradouro. Desde então, sem se desgrudarem, passaram por todos os encantos da juventude. Juntos na universidade, nos bailes, nas festas, nas viagens, nas compras, nas visitas e em todo lugar. Tornaram-se inseparáveis, íntimos no corpo, na pele, nos lábios. Todos os dias tocavam-se com ternura e ele a deixava luminosa.
Aos cinquenta, na quarentena ela se distanciou tragicamente dele, sem lhe dar qualquer explicação pelo abandono, e entregou-se a uma impudica relação. Trocou-o sumariamente por uma máscara.
Pobre batom!
Autora: Valéria Áureo
12/06/2020

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Quarentena II





Às vezes a mãe fica nervosa, porque as crianças estão todas amontoadas no sofá, emboladas no grande novelo das traquinagens. A mãe se irrita com o inesperado barulho, porque no consultório não era assim, só a música ambiente. Agora, em casa, uma criança grita, a outra puxa o brinquedo; uma chora, a outra ri; um está emburrado e o outro lê sossegado. Ela me põe de castigo e me chama de criança levada. Então, antes de chorar, eu pergunto a mim o que fiz de errado, porque eu estava bem quieta no meu canto com o gato manhoso que não me deixa sozinho. Eu tiro do bolso um lenço de papel que me consola, onde há muitos dias ela limpou o beijo vermelho dos lábios, para me confortar, porque ela anda impaciente e nervosa e sinto saudades do silêncio dela.
Mal encerra o dia de lavar, secar, cozinhar, servir, comer, guardar, arrumar, botar menino para dormir e deixar a janta à mesa tão tarde, a lua se apaga e o dia se estica além das nove da noite; tudo emendado em manhã, tarde e noite, sem intervalos e descanso. Amanhecer já não é mais às sete da manhã, quando havia escola e trabalho. É hora de dormir novamente, mal tendo descansado da trabalheira do dia anterior.
E lá se foram para as gavetas todos os enfeites que ela usava para sair à rua: roupas melhores; adornos dos cabelos pintados e soltos; cinta modeladora; batom e esmalte, perfumes e sapato alto, bolsa, chave do carro, documentos, celular. Agora se vai à rua sem maquiagem; tem-se o rosto quase trágico (em preto e branco), escondido em uma máscara que ora encobre o medo de se perder definitivamente o que não se vive mais. Na memória ela sai de casa, bebe, dança, tira a maquiagem, deita, chora e até ri, porque a vida era bem divertida.

Eis que, amanhece no sobressalto da madrugada que já não é mais tão cedo... Hora de ver o que os meninos estão aprontando. E, antes que ela grite, eu tiro do bolso um lenço de papel que me consola, onde ela limpou o beijo vermelho dos lábios, para me confortar. Eu beijo o beijo dela e isso me faz parar de chorar. Sinto falta do silêncio dela.




Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

domingo, 5 de abril de 2020

Eu amo você! ( Quarentena)



Quarentena! Finalmente podiam se lembrar, cada um por si, das muitas coisas de que mais gostavam. Eram tão mutilados pelas asperezas da vida, que consome o amor verdadeiro, que mal se falavam. Isso por causa do distanciamento de muitos anos, casados, calados, cansados, vivendo no torpor de amarguras e decepções.
A quarentena os confinou na sala, no quarto, na cozinha, na varanda... Um bem perto do outro, como costumavam ficar, quando eram jovens. Ele esbarrou nela, de maneira sutil e se desculpou... Ela riu timidamente, sob o calor da respiração dele, como se nunca tivesse sido tocada. Ele se lembrou que gostava que mexessem em seus cabelos... Suspirou e riu de volta para ela. (Sabe onde está o meu celular?)...
Ela se lembrou do calor da pele dele. Propôs uma ousadia de se assentar em silêncio na varanda, olhando para o mar, de mãos dadas com ele, enquanto acariciava seus dedos. Quando tempo não se tocavam... ( O celular está na mesinha, do lado da minha bolsa!)...
Quarentena! Os dias se arrastando e eles tirando as camuflagens das mágoas em pequenas dosagens: um dia um sorriso, no outro uma voz mais meiga, e depois um leve beijo. Agora riem juntos e acham graça em tudo. Enamoraram-se como se fosse ainda amor à primeira vista, como da primeira vez. Redescobriram as delicadezas que o amor esconde sob as luvas e máscaras.
( O celular está descarregado!)...
E, num arroubo de paixão, como um rapaz de vinte anos, ele a tomou nos braços e disse: – Eu amo você, garota!

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

quarta-feira, 11 de março de 2020

Não fosse a poesia...

Não fosse a poesia, nada mais seria possível, apenas um dia igual: amanhecer engolindo sem sentir a pressa e o gosto, minutos e café. Engolir a própria fome. Descer barranco abaixo sob a chuva fria, contornando o vento, a pobreza, ruelas estreitas e a solidão. Ser aprisionado pela vida no compromisso do sol com a luz, do galo com o canto, enquanto o pássaro aprecia preso na gaiola, a minha solidão. Eu, do lado de fora, em declarada ousadia, invado o inevitável dia. Começo tudo de novo, teimosamente. Recomponho na aridez do meu espaço aquilo que meu coração precisa para sobreviver. Tudo, sem repetir-se na óbvia sequência do dia: estar sempre desvendando trevas e tristezas, alternando sol e lua, buscando a cada instante alguma coisa que justifique a vida. Mas, na repetição diária de escolher os grãos de arroz, o coração fugitivo da rotina dedilha sílabas, compõe poemas e versos mosaicos sobre a mesa tosca. Não importa quanto falte, não importa quanto tudo me faz falta.  Separo as pedras do arroz e da própria existência, porque só estão ali para pesar. Separo e rejeito o sofrimento como pedras recolhidas entre os grãos brancos. A água da torneira improvisada escorre pela humilde louça, delineando um rio pia abaixo no novo destino do latão. As mãos limpam o peixe para o almoço, desvencilhando-o de entranhas e de escamas madrepérolas. O coração extasiado, reflexo da alma, deslumbra os movimentos do peixe antes, inexistentes agora; não mais livre na água fria do rio que só eu vejo.
          Eu pensava: os peixes são para os rios, como eu fui feito para voar. Em minhas mãos não há anéis, senão estrelas, pedras verdes, encantamentos sob o rio que eu refaço e que contenho entre os dedos. Talvez feito de lágrimas ou águas que escorrem morro abaixo, na composição da chuva insistente e o lamaçal. Aprisiono a vida, enquanto escamo o peixe agora inerte.  Rola pela minha boca a palavra dolorida, como um anzol fisgado na guelra lacerada. Nós dois assim, mutilados, temos nos comunicado no silêncio, enquanto relâmpagos acendem violetas nos meus olhos. Ah!...Não fosse a poesia...
          Ponho a mesa, estendo a toalha, visto a ceia em linho de sacos de trigo alvejados. Brancura farta na imensidão da mesa quase vazia. No coração as escamas arrancadas são cordilheiras, envoltas em fubá dourado, dorso do peixe servido à mesa, aprisionado na imobilidade do prato. Meus olhos jorram maremotos, enquanto a espinha travada na garganta anuncia a minha fragilidade. Na minha alma o peixe ainda nada esguio, escorregadio pela minha boca, restaurando a possibilidade de todos os sonhos e viagens. Penso na casa, na pouca comida, nas crianças, na vida... Mergulho na humildade de minha mesa tentando preencher o vazio dos pratos, alcançar o último nado, o naufrágio, as frias fossas sob as grutas. Do teto escorrem goteiras, esculpidos cristais em grutas, estalactites, lustres imaginários insinuando arquitetura dos anjos ou, quem sabe, lágrimas minhas, lágrimas dos meus filhos, lágrimas de Deus.
          Seria só um dia a mais no barraco úmido, não fosse a suavidade do vento compondo com a noite uma sinfonia depois da chuva. O vento cicia nas folhas de zinco e ouço violinos... Barro, barraco, barranco, briga, barulho, berreiro de crianças. Quantos sons desencontrados e os silêncios misturados. E quando a escuridão cobre a favela depois que a chuva passa, eu posso abrir a minha caixa de joias, eternamente ao meu alcance, simplesmente olhando para o céu... A primeira estrela que eu vejo, parece minha. Parece perto, parece sim. Eu a toco com a ponta dos dedos e a faço repousar como aliança, pássaro solto na palma da mão. Meu diamante solitário, brilho de esmeralda e alguma coisa de mim. Certamente a esperança... Ignoro tudo: um desassossego, um presságio, um jeito de solitário manter-se aflito no ar, um oceano de chapéus acenando despedidas... Beijos jogados ao léu, ruídos do espatifar de um cristal, que ouço em lugar dos gritos. Mas é meu todo aquele céu cravejado de brilhos. Meu, só meu, porque o alcanço com olhos e o desvendo com o coração. Posso tê-lo e guardá-lo onde sempre soube estar. Tão livre, tão à mercê de todos e ninguém pode tirá-lo. É... Ninguém o rouba de mim, nem o percebem. Não sei se longínqua ou próxima a minha fortuna.
          Uma eternidade provável eu percorro com os olhos e vejo toda constelação absolutamente livre no ar. Não avisto tetos de papelão, paredes de compensado, lixo amontoado, água escorrendo e lamaceiro. Não ouço os tiros, não ouço choro de crianças, esqueço-me da fome. Não sinto cheiros. Não percebo as entranhas da miséria. Estão expostas em esgoto e negrume luzidio. Meus olhos alcançam além das estrelas, muito acima das casas, muito, muito acima dos homens.
          Ah!... Não fosse a poesia e o meu modo longínquo e tão próximo de estar dentro da estrela...
         Eu tenho o céu, o sonho sobre a cidade adormecida e todo o encantamento dos poemas com que alimento a minha esperança à noite e recomeço o dia.
         Ah!... Não fosse a poesia, nada, nada justificaria a minha vida...


Valéria Áureo 


Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida- 2004

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Saltos, sapatos e sapatilhas


                                         Ilustração : Internet

Sua fala não parece mais tão agradável e compreensível. Ainda ontem ela conversava tão bem, com uma voz doce e límpida. Perguntou à filha as horas. Hora de dormir e sonhar, disse a jovem.  A mãe se acomodou diante da televisão. Vieram-lhe à mente, logo no primeiro sono, matizes de sapatilhas, sapatos, sandálias, saltos... Talvez ela soubesse dançar... Não tinha certeza. Perguntou à filha se sabia dançar; não a filha, ela! Insistiu e a filha disse que não. Agora dorme! Ela ainda conseguia se lembrar da noite em que, entre o francês e o português que sempre falara tão bem, as palavras começaram a lhe faltar.

Eram tantas as palavras, de tão diferentes fontes e sabores, que cabiam àquela mulher, que agora estranhamente, todas elas se resumiam a pés e sapatos. Estava aprisionada no campo semântico de saltos, solas, scarpins... As palavras concentravam em si tamanha quantidade de significados e evocações, que algumas delas já não conseguia guardar, sem que antes tivesse que perguntar à filha. Sabia que, ainda ontem, alguém (preferia não dizer o nome dele) gostava de presenteá-la com lindos sapatos; aliás, quase todas as semanas. Sapatilhas, sapatos, sandálias, saltos... Eram tantos os enfeites que ele dava para aqueles pés delicados e pequenos, que ela mal conseguira usá-los! Eles formavam um casal atraente que ia a muitos lugares juntos.  Os generosos mimos que ele lhe dava faziam parte desse encantamento de estar simbolicamente junto dela. Era um perene saber por onde ela andava, o que alentava o coração dos dois. Ele mantinha a ilusão de que controlava os seus passos, ou que estava sempre por perto, quando ela andasse sozinha.
Agora ele (não quer dizer de quem se trata) estava distante dela.  Os adornos ficaram presos no tempo, em que ambos percorriam de mãos dadas os mesmos lugares. Naquele tempo os passos da sua bela Condessa Descalça ao seu lado eram alcançáveis e seu destino comum era resguardado.  Depois que os pés dela tomaram outro rumo (tragicamente traçado por ele, em um arroubo de ciúmes), a vida dos dois mudou definitivamente. Ambos viveram separados em seus destinos, e chegaram em uma idade, em que só sabiam apresentar um tímido arrazoado de sons impenetráveis (cada um em seu mundo). A volúpia comum do íntimo entendimento de outrora estava preservada nas caixas de sapatos que chegavam pelo Sedex... Preferiu guardar para si o nome dele. Mais uma noite... Mais uma vez ela suspirou tristemente mirando os pés descalços.

Autora: Valéria Áureo

In Entre Mentes e Corações 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Carnaval


Largue tudo de uma vez, sob os olhares estupefatos à sua volta. Estupor composto de uma cara de louco, de espanto, ou de horror. Você assegurou que faria isso, caso perdesse a aposta. Pois perdeu! Não tenha dúvidas do que a sua decisão vai provocar, mas não se importe tanto assim. O importante é pagar a aposta. Em torno de si, haverá falatório, ou um silencio irrequieto e perigoso para endossar a estupefação geral. Quem diria! ... Vestido de mulher!
Com gestos mais calmos que todo o assombro que vai provocar, dê um largo adeus ao trabalho do dia, ao rigor da rotina, ao peso do mês, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora marcada pelos amigos gozadores. Afinal, aposta é aposta! Os que estiveram em casa ocupados indagarão sobre você e a absurda novidade; e sua performance será propagada aos quatro ventos pelo Instagran, com sussurros de recriminação ou aprovação. Quem diria!
Convém não responder aos olhares interrogativos, com ofensas, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instalará sobre a sua vida. Mas não exagere na medida de sua atuação e suba sem demora ao quarto, libertando-se aí das meias e dos sapatos apertados, tirando a roupa suada do trabalho, como se retirasse a gravidade das coisas do seu escritório. Ponha-se enfim em vestes mínimas, coloridas e rendadas, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido e o nosso), aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Isso é uma brincadeira! Feito uma estrela em ascensão, de rumo incerto, assome depois com a discreta nudez da perna em meia fina, no alto da escada e avance dois passos como se fosse desmoronar em um salto mortal, silenciando de vez, o surto abafado dos comentários e risos. Não seja caricato; seja natural. Aposta é aposta! É carnaval!
Nada de grandes ousadias, que possam ultrapassar o limite dos longuíssimos cílios postiços, as unhas vermelhas, a peruca loura, o vestido longo. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (incrédulos!) dos pobres familiares e dos debochados amigos, que cobrem a boca com a mão, para estancar o grito de repúdio, ou a gargalhada, enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, exalando brilhos de estrasse e lantejoulas; circule pela casa toda como se andasse em um palco e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto das pessoas divertidas. Afinal, comporte-se, você perdeu a aposta.
Largue-se no meio do bloco das drag queens, como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: goze a fantasia de se sentir livre, embalado pelo mundo, não devendo nada para ninguém, nem mesmo a aposta, que agora está paga. Divirta-se, pois é carnaval. Permita-se rir um pouco.

Autora: Valéria Áureo
In Entre Mentes e Corações

sábado, 25 de janeiro de 2020

Invasão de Privacidade


                                   Ilustração: Internet

  
Esse é um fato verídico, ou quase, se não lhe falha a memória. A súbita narrativa desse senhor advém de uma provocação, de uma dúvida inesperada do jovem sobrinho: - o senhor já se apaixonou? ...
Ele é um homem com a mente senil, dotado de lembranças turvas, quase apagadas. Ao menos é o que pensam os familiares. Eles acreditam que aquela confusão mental constante é irreversível. Quando fica silencioso é até um alívio para os que não tem paciência de ouvir. Nem mesmo o médico pode assegurar diagnóstico definitivo sobre sua memória. Os mais próximos alegam que não há em nenhum ponto de sua fala, resquícios das experiências vividas e reais de sua juventude. Alegam que ele inventa, e inventa tudo. Tudo mentira! Não sabe o que diz! No entanto nada de definitivo evidencia o total desterro de suas recordações. Há momentos de pura lucidez. A narração dessa manhã de origem inesperada é naturalmente lenta e compassada, pois com o passar dos anos ele extenua o fôlego e perde toda a sua diligência na desenvoltura de falar. Hoje deu-se de saudades da costureira, da linda modista de Laranjeiras. Aquela dos olhos azuis, pele morena, boca vermelha... A mocinha vivia em um sobrado azul e branco, que ele sempre visitava. Além de ser próximo de sua casa, havia motivos costurados em um outro interesse mais pessoal - flertar. Sim, a mocinha era aquela que espetava o seu coração com alfinetes e agulhas de pontas finas e que cerzia o tecido de sua alma com pontinhos bem apertados, fazendo com que ele sentisse uma dor miúda e constante. Onde estaria ela, agora, a minha costureirinha?
O estranho nesse enredo de saudade abrupta é que em nenhum momento lhe falta decoro em revelar mais do que a elegância de um homem permite, mesmo passado na idade. Jamais revela até que ponto na costura ele foi com a modista. Será que ficou apenas no tirar medidas? No desfiar o tecido juntos? No fazer o desenho da camisa? No decidir-se pelo molde? Ao engajar-se no relato de suas lembranças, instigado pelo sobrinho, em momento algum foi interrompido, pois uma abrupta intervenção, uma pergunta fora de hora, uma dúvida a ser esclarecida faria com que as trilhas de sua mente se entrelaçassem, pondo em risco a retidão de suas recordações. Basta saber que a modista de sua memória é a moreninha do sobrado azul e branco e que, por isso, decidiu-se pelo terno azul e pela camisa branca.

O motivo de todo esse desvelo é para assegurar a integridade do velho saudosista. Uma pequena interferência, uma pergunta acarretaria um estrago em sua narrativa e descarrilaria a locomotiva dos trilhos de suas memórias, levando para longe a passageira, modista de sua lembrança. Basta saber que a costureira que habita a sua memória o acordou hoje de um sono denso, com espetadas doces e miúdas de alfinetes e agulhas, para que ele a distinguisse entre tantos pontos e tecidos. As ideias e lembranças dançam dentro dele sem a necessidade de mais costuras. É lá que ele vive - no atual momento - de sua narrativa, alinhavado, costurado, cercado de linhas, botões, fechos, texturas e sorrisos da costureira. Querer saber além disso, será invasão de privacidade.

Autora: Valéria Áureo
In: Entre mentes e Corações