Apresentação
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terça-feira, 11 de junho de 2019
Coisas de Santo Antônio
quinta-feira, 6 de junho de 2019
Incansável Dona Fitônia.
quinta-feira, 23 de maio de 2019
Arquivos e Dispositivos
Quando meus filhos me ofereceram um celular novo, foi a pretexto de eu ficar mais conectada com o mundo, e para que eu saísse do marasmo. Para me convencer, disseram-me que se se tratava de um aparelho que prometia milagres e tornaria a minha vida mais divertida. Eu, que sou boa de rezas, conversas e prodígios, aceitei na hora a ideia de andar conectada com um apêndice poderoso, que se encarregaria de todas as minhas preocupações. Eles diziam que a tal geringonça iria compensar a minha perda de memória, fato que os deixava bem inquietos e eu poderia recarregar a minha bateria de energias. Eu ficaria mais segura, disseram. Argumentei: se é para o meu bem, pensei, que mal tem? Aceitei!
Eu tentei viver muito bem e em harmonia com um desses milagrosos aparelhos de última geração, colado ao meu corpo. Era um luminoso multimídia e tão diferente dos velhos e ultrapassados telefones, que eu me encantei. E eu esperava tudo dele e nada menos do que tudo mesmo. Eu o carregava de energia (e chamegos e boas vibrações, como passes de mágica) e o deixava dormir ao lado de meu travesseiro. Cor-de-rosa prateado, uma graça! Ali ele me embalava com vídeos de barulho de chuva, para estimular o meu sono e me fazia companhia. Mais perfeito? Eu queria! Que me despertasse com uma sinfonia clássica. Eu pretendia mais... Que ele fizesse café e torrasse pãozinho pela manhã, além de me acordar com um beijo na testa, depois de um emoji risonho. Narcísico, o aparelho assumiu autonomia e adorava fazer selfies; indiscreto, me acompanhava até mesmo no banheiro e se conectava a outros dispositivos em infiel Bluetooth. Não podia ver um espelho, que disparava um flash. Tocava música, me cumprimentava com um sonoro bom-dia e me enchia de mensagens otimistas e de autoajuda. Ele abria a minha agenda e me traçava a rota do dia. Falava em religião, e prometia milagres em correntes e mais correntes. Ele contava piadas, divulgava os encontros e programas de família, buscava os amigos distantes e reunia todos em conversas. Dava-me aula de inglês, francês, italiano e até latim. Aliás, qualquer idioma, até mesmo o mandarim, além de discutir política e me atualizar com todos os noticiários. Ele me avisava a hora dos remédios, a chuva, a temperatura, as condições do trânsito, a tempestade de areia em Dubai, quem casou e quem descasou. O celular me avisava quantos passos eu tinha dado no dia e me elogiava como ninguém enaltecendo a regularidade de meus batimentos cardíacos. Organizava as fotos de família, fazia álbuns, vídeos e divulgava eventos. Contava fofocas de celebridades e resumia novelas, marcava e desmarcava encontros e dizia quem traía e quem era traído.
O celular tomou conta de mim, a tal ponto que eu parei de me preocupar com tudo que dizia respeito a mim mesma. Não anotava mais nada. Larguei tudo por conta dele. Descartei lápis, caneta, papel. Não me ocupava com mais nada. Esqueci-me de datas, nomes, pessoas, lugares, fatos. Bastava um clique e o mundo descortinava-se na tela luminosa e me oferecia todas as respostas. Tudo agora era por conta dele, transmutado na minha memória artificial e meu íntimo amigo. Um leve toque, um dedo arrastado na tela e a minha vida estava lá. Era um perfeito assessor de imprensa, um personal stylist, um fisioterapeuta a me indicar a postura na cadeira, um cardiologista a medir a minha pressão e a contar os meus batimentos. Era conselheiro, psicanalista, orientador. Minha vida, meus passos, meus gostos, meus risos, meus segredos, tudo ficou aprisionado no celular, ou melhor, nas nuvens. Se eu quisesse saber alguma coisa de mim teria que consultar o celular. Assim eu passei a viver nas nuvens!
Um dia, sem qualquer aviso respeitoso para o meu espírito, recebi a seguinte sentença: desculpe! Este arquivo não existe em seu dispositivo! Tentei entender aquela mensagem trágica, que me deixou sem rumo e destruiu o meu mundo perfeitinho. Tive que desligar e reconectar. Nova mensagem: não é possível baixar os arquivos, pois não há espaço suficiente na sua memória interna. Por favor, remova-os da memória de seu telefone e tente novamente. Fiquei desesperada. Em vão! O aparelho não suportou a carga da vida real e sucumbiu.
O melhor que consegui foi rir de meus filhos, tão preocupados comigo, ao constatar que a máquina também tinha perdido a memória. Confortei-me em saber que todos nós, homens ou máquinas, temos o nosso prazo de validade. Estou pronta para me reprogramar. Voltei ao lápis e papel.
Autora Valéria Áureo
In Docilidade de Sobreviventes
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Abrigo
Ilustração: Internet
A menina não se lembrava de muitos eventos da infância. Entretanto, o que marcara sua alma foi a simplicidade de um presente. Ela havia ganhado de sua mãe uma bolsinha cor-de-rosa, com alças de fita de seda. Na mesma hora o objeto delicado se transformou em um cofre, cheio de preciosidades; um broquel de aço, embora fosse feito de cetim, que passou a ficar grudado em sua pele. Tinha o cheiro, a maciez das mãos da mãe. A bolsinha era um ninho tenro do lado de fora do corpo da menina. Dentro havia complementos para seu exterior: escova de cabelos, batom incolor, pó de arroz, rouge, esmalte e lencinhos de papel. Coisas de menina pequena. Havia ainda uma surpresa: na bolsa se escondia o coração da criança: muitas emoções misturadas, um espírito brilhante, esperanças embrulhadas em papel de balas de hortelã. E as duas, menina e bolsinha, não mais se separaram.
Ali dentro, quando a menina saía, podia levar consigo pertences que a faziam se sentir segura. Levava chaves, muitas delas, que colecionava como medida de precaução. Assim, afastava de si a possibilidade de perder-se ou ficar do lado de fora da casa. Se fosse o caso, então, de alguém conseguir desgrudá-la das saias da mãe e levá-la para passear longe de casa, colocava seu ninho no colo e o abria de tempos em tempos, para se assegurar de que estava ali tudo o que lhe era essencial. Bastava abrir a bolsinha e lá de dentro podia ouvir a voz de seu interior, mandando-a se acalmar. Ela via as suas coisinhas, as chaves de gavetas e portas, a maquiagem e os lencinhos. O papel prateado de bala de hortelã refrescava-lhe o hálito e uma luz intensa, esverdeada, irradiava de dentro, chamando sua calma de volta. Ventos de hortelã eram calmantes e diluíam o amargor do medo.
Ainda hoje ela carrega nas bolsas da maturidade, os suprimentos de primeira necessidade, além do terço, ao qual dava destaque primordial nesse farnel de apoio do corpo e do espírito. Tudo naquela bolsa tinha o poder de fazê-la acreditar que sobreviveria se fosse pega no caminho por uma situação de emergência. Mas aquele sentimento de proteção eterna nunca mais foi igual, como no tempo em que viveu sua mãe.
Autora Valéria Áureo
In: Docilidade de Sobreviventes
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O Jogo
Ilustração: Internet
Autora: Valéria Áureo
In: Docilidade de Sobreviventes
sexta-feira, 10 de maio de 2019
Recato mais-que-perfeito
Ela nunca usara calças compridas, pois as saias, tão apropriadas para o seu recato, eram de imediata valia para enxugar as lágrimas dos filhos. Nunca deixara nenhum trabalho por fazer, muito menos para o dia seguinte; o acúmulo seria repleto de outros afazeres, também inadiáveis.
Ela fora exímia em trazer o amor de volta, fosse de um jeito, fosse de outro. Na maioria das vezes fora com brandura de afagos e palavras gentis, que ela aplacara as constantes mágoas de irmãos e corações. Pedido feito por um, dois, três, ela logo concentrara-se em atendê-los, para que não se pedisse outra vez. Nunca fora uma abelha rainha. (Quando se punha em ação, laboriosa como uma operária - muito mel e raras ferroadas-, ela já sabia exatamente quais evocações engendraria para ter sucesso e organizar a sua colmeia). Tivera clareza de saber onde deveria caber um santuário, muitas camas, a mesa, bancos e livros. O ritual começava com uma sacudidela: acorda, filha, está na hora! ... (Servia o café, cortava o pão em muitas fatias. E o pão que ela tocava vinha cheio de bênçãos, como uma hóstia solene muitas vezes repartida na madrugada).
E assim, no rito matutino servira todos da família. Comunicara-se, sempre silenciosa com o invisível e voilà: em três tempos de urdidura (nunca mais que três), o alvo daquele amor desmedido estava de volta e restaurado. Sabiamente aconselhara, ensinara, educara com poucas palavras e olhares fulminantes de torpedos azuis. A cada dia ela se comprometera com a humildade e o perdão.
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Ah! Que pena! Ela perdera a mãe, ganhara a madrasta que aos poucos fora se livrando dela e dos inúmeros irmãos, enquanto envolvera seu pai em outra família. Sem a mãe, todos sobraram. Ela sobrara! Era criança pequena quando sentira o que, depois - viria entender- era um clima de dor, pesar, perplexidade e separação.
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Enquanto as suas crianças cresciam ela se perdera nas suas lembranças de orfandade prematura. Não fora uma recordação qualquer e nem superficial; fora dolorosa e profunda, de travo na garganta. Talvez disso viera a origem de seu silêncio. Houvera uma lembrança ainda mais importante associada àquela vida taciturna, enquanto se ouvia ao lado, o soar de um piano sob dedos de um aprendiz. As músicas não foram para um dia qualquer. Foram melodias de um tempo em que ela tivera laços sanguíneos confiáveis como os pais e os irmãos.
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De que adiantara tanta gente, se crescera tão só? Faltara-lhe a mãe. Faltaram-lhe os irmãos. Aquela que amara, como possivelmente todos deveriam amar e foram amados, a deixara muito cedo. Aquela inesquecível mãe, de imagem quase apagada, estivera incrustada, habitando o seu frágil coração. Aquela que em tudo lembrara suas origens, nos traços, nos olhos muito azuis, na pele pálida, na altivez, na casa em que vivia, nas mentirinhas de massa de pastel que fizera para a filharada, também se ressentira da perda do amor materno.
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A constante lembrança da perda prematura, não se tornara um arquivo qualquer, mas sim no mais precioso e marcante registro de memórias: o grande livro das reminiscências sagradas e suas liturgias. E assim a sua vida de mãe recatada e zelosa, fora pautada no sacro missal romano - a única relíquia deixada pela mãe sobre a escrivaninha. Sim! Com Deus ela sabia que podia contar sempre.
Autora: Valéria Áureo
In: Entrementes Corações
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Geometria
Ah! O amor tem muito mais do que os traços e embaraços de muitos fios elétricos enredados pela cidade eletrocutando corações. O amor é pane! Sim, “é fogo que arde” ... Lava incandescente descendo o morro. O amor pede socorro!O amor é aflito!
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Transposição de sílabas ( Dia da Língua Pátria)
quarta-feira, 10 de abril de 2019
O Perfume da Rosa - Dia da Lola
Graças aos inesgotáveis empenhos dos militantes (apóstolos) da causa de Lola a demanda prossegue. E, pelo que pude depreender, deverá ser longa e trabalhosa. Melhor que todos os rio-pombenses se mobilizem para reforçar o trabalho do abnegado grupo e reconhecer a importância do prodígio. A importância que não podemos dimensionar como homens comuns que somos. Ressalto minha admiração por Giselle Neves Moreira de Aguiar, colega de infância, entregue a tão nobre ministério. Quantos não alcançamos ou reconhecemos a grandeza do sublime tão próximo de nós...
Mais proximamente de mim, no plano mais imediato de minha vida longe da terra natal o livro que está à minha cabeceira me faz lembrar de onde eu vim e a quem eu poderei recorrer quando precisar de intercessão divina e consolo para as minhas dores...
O maravilhoso livro de Roberto Nogueira (formidável, como prefere dizer minha mãe, quando aprecia muito alguma coisa) traz a questão da santidade de Lola para a profundidade de si mesma: a rosa é uma rosa, é uma rosa... Não haveria mais o que ser dito, pois ela exaure o tema na plenitude e simplicidade de si: distinguir-se flor.
Então, para que pudesse ser assim, simplesmente a flor, nada mais apropriado que o cenário bucólico e contemplativo do Lindo Vale, onde pudesse ser cultivada. Eis que tantos se inebriaram com seu olor, sem ao menos verem, apenas crendo; entretanto nela confiavam e isso bastava. Por que então querer explicar o que por si só é grande e sagrado? Explicar que flor e prece se confundem?
Hoje o Lindo Vale está desabitado do desejo dela, na expectativa de uma decisão que extrapola as demandas espirituais, e venha concretizar seus planos de se ter ali um santuário. A quem compete a decisão de lhe atender o desejo expresso e sua perpetuação no tempo? Será que compete àqueles que não sabem reconhecer o sagrado ou a flor? Pois que a rosa, não se cria; ela existe, e não se pode mudar isso. A rosa é...
É incrível que uma tese da magnitude de Lola seja sombreada por situações jurídicas, mundanas, temporais; questões de cunho meramente materialistas que se restringem ao humano, quando nos bastaria saber que a rosa é a rosa, é a rosa... Pois é a grandeza de si mesma, a rosa, a existência dela em sua total dimensão, o que enaltece a cidade de Rio Pomba. Ela enche de orgulho os seus habitantes, abençoados com a honra de tê-la como distinguida espécie entre as demais. Será que nós, tão insignificantes diante dela, nos damos conta de quanto a tese de sua existência é maior? O que se espera para se restituir o jardim à flor?
sexta-feira, 29 de março de 2019
Saias e Mulheres
Já em casa os homens veem futebol, pelo menos aqueles que gostam; outros tomam cerveja, ou jogam vídeo game, ou vasculham o celular, ou pensam nas contas, ou no trabalho, ou no chefe, ou na secretária, ou dormem diante da TV; as mulheres pensam na família, na casa, na comida, na roupa do dia seguinte, nos cabelos, no sono que sentem... Quando mais nervosas pensam na própria vida, no desejo de viverem desvencilhadas da rotina. Pensam em aceitar, ou em descartar, ou em trocar, ou em matar, ou em abandonar. No fim das contas, pouco importa o que elas pensam quando estão cansadas e nervosas; quando termina o cansaço, ou seja lá o que for que as magoe, elas decidem continuar, já despidas de seus trajes suados. Decidem, ao final do dia, a vestir novamente as suas saias esvoaçantes e sair correndo para pegar o metrô e o vagão rosa.
In: Entre Mentes e Corações










