Apresentação

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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Recato mais-que-perfeito



 

Ela nunca usara calças compridas, pois as saias, tão apropriadas para o seu recato, eram de imediata valia para enxugar as lágrimas dos filhos. Nunca deixara nenhum trabalho por fazer, muito menos para o dia seguinte; o acúmulo seria repleto de outros afazeres, também inadiáveis. 

Ela fora exímia em trazer o amor de volta, fosse de um jeito, fosse de outro. Na maioria das vezes fora com brandura de afagos e palavras gentis, que ela aplacara as constantes mágoas de irmãos e corações. Pedido feito por um, dois, três, ela logo concentrara-se em atendê-los, para que não se pedisse outra vez. Nunca fora uma abelha rainha. (Quando se punha em ação, laboriosa como uma  operária - muito mel e raras ferroadas-, ela já sabia exatamente quais evocações engendraria para ter sucesso e organizar a sua colmeia). Tivera clareza de saber onde deveria caber um santuário, muitas camas, a mesa, bancos e livros. O ritual começava com uma sacudidela: acorda, filha, está na hora! ... (Servia o café, cortava o pão em muitas fatias. E o pão que ela tocava vinha cheio de bênçãos, como uma hóstia solene muitas vezes repartida na madrugada).

E assim, no rito matutino servira todos da família. Comunicara-se, sempre silenciosa com o invisível e voilà: em três tempos de urdidura (nunca mais que três), o alvo daquele amor desmedido estava de volta e restaurado. Sabiamente aconselhara, ensinara, educara com poucas palavras e olhares fulminantes de torpedos azuis. A cada dia ela se comprometera com a humildade e o perdão.

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             Ah! Que pena! Ela perdera a mãe, ganhara a madrasta que aos poucos fora se livrando dela e dos inúmeros irmãos, enquanto envolvera seu pai em outra família. Sem a mãe, todos sobraram. Ela sobrara! Era criança pequena quando sentira o que, depois - viria entender- era um clima de dor, pesar, perplexidade e separação. 

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          Enquanto as suas crianças cresciam ela se perdera nas suas lembranças de orfandade prematura. Não fora uma recordação qualquer e nem superficial; fora dolorosa e profunda, de travo na garganta. Talvez disso viera a origem de seu silêncio. Houvera uma lembrança ainda mais importante associada àquela vida taciturna, enquanto se ouvia ao lado, o soar de um piano sob dedos de um aprendiz. As músicas não foram para um dia qualquer. Foram melodias de um tempo em que ela tivera laços sanguíneos confiáveis como os pais e os irmãos. 

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            De que adiantara tanta gente, se crescera tão só? Faltara-lhe a mãe. Faltaram-lhe os irmãos. Aquela que amara, como possivelmente todos deveriam amar e foram amados, a deixara muito cedo. Aquela inesquecível mãe, de imagem quase apagada, estivera incrustada, habitando o seu frágil coração. Aquela que em tudo lembrara suas origens, nos traços, nos olhos muito azuis, na pele pálida, na altivez, na casa em que vivia, nas mentirinhas de massa de pastel que fizera para a filharada, também se ressentira da perda do amor materno. 

 

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A constante lembrança da perda prematura, não se tornara um arquivo qualquer, mas sim no mais precioso e marcante registro de memórias: o grande livro das reminiscências sagradas e suas liturgias. E assim a sua vida de mãe recatada e zelosa, fora pautada no sacro missal romano - a única relíquia deixada pela mãe sobre a escrivaninha. Sim! Com Deus ela sabia que podia contar sempre.

Autora: Valéria Áureo

In: Entrementes Corações

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Geometria






          Poderíamos pensar que o amor é facilmente decifrável, exato e geométrico. Poderia ser feito de espelhos, linhas, curvas e sinuosas; uma sucessão de pontos a se perseguirem nos enlevados toques e carícias de montanhas e ventos. Poderia ser problemático, matemático, calculável, resolvível, como uma equação de segundo grau. Poderia ser removível, decifrável? Impossível?
 Ah! O amor tem muito mais do que os traços e embaraços de muitos fios elétricos enredados pela cidade eletrocutando corações. O amor é pane! Sim, “é fogo que arde” ... Lava incandescente descendo o morro. O amor pede socorro!O amor é aflito!
O amor começa com um ponto, dois, três, reticentes e, ao se darem conta, duas almas embriagadas correm tangenciando o infinito. Dois pontos extremos extrapolam o desenho só para se encontrarem e, ao se verem, um grito! Ah! Afinal! Um beijo. Fugaz abandono do plano exato, do fino traço arquitetônico e, então enamorados, dois rabiscos assumem forma, volume e se compõem no sólido e no insólito. Ocupam finalmente o espaço e vão da linha reta às mandalas no Egito..
Dúvidas, dúvidas, dúvidas e, desastradamente, outros pontos desconectados perseguem os dois pontos originais, amantes e afins, outrora felizes, ora ameaçados por mais um ponto fraco, que interfere nessa dualidade monolítica e sacramentada. O que era para ser um projeto (de vida) de duas forças iguais, em um esboço equilátero, equidistante, equivalente, na perspectiva de um afetuoso milênio, passa a ser, miseravelmente, para os dois, um triângulo desengonçado, esquizoide e neurastênico. Ah! A geometria do amor...

Autora: Valéria Áureo
In: Entrementes Corações

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Transposição de sílabas ( Dia da Língua Pátria)



Quando o professor voltou a acessar o celular, para enviar uma mensagem de socorro, a tela apagou-se repentinamente, como se ele estivesse na escuridão de um túmulo. Havia um último registro de mensagem anterior, recortada em fragmentos, como um tímido: vá com Deus! Sentiremos sua falta, mestre!
O professor sentiu-se sem ar, como se uma hipértese estrangulasse seu peito. Claramente estava sofrendo a transposição de fonema de uma sílaba para outra, como se fizesse a transposição de um plano a outro. O coração acelerou, mas logo alternou-se em batidas lentas. Ele avançou o dedo no teclado e percebeu que o seu enfraquecimento se devia a uma diástole, talvez uma sístole, ou uma sinalefa, ou as três juntas se engalfinhando no discurso pró-infarto, ou teria sido pré-infarto?). Um avanço, um recuo e deu de cara com a mensagem seguinte na tela que acendia e apagava. Estou tendo um...! A formulação soou bem sinistra. Era preciso suprimir a sílaba mais saliente e tentar escapar com as ajuda da haplologia; se esta não resolvesse, que apelasse para a instância da apócope, ou mesmo da aférese. O que não podia era ficar paralisado, sem saber o que pronunciar, com a boca cheia de fragmentos e sílabas tumultuadas, como se estivessem vivas, revoltadas e não o deixassem respirar. Precisava escrever algo, mesmo tomado pela aférese, que o fazia picotar as palavras irremediavelmente sem início, como soluços e mais soluços de uma criança birrenta. Queria pedir socorro. Talvez sofresse de um mal maior, com o deslocamentos interno das sílabas, ultimamente tão internas e discretas como pensamentos insanos, desgovernados e proibidos. Precisava de um copo d’água. Metátese, hipértese, apofonia, metafonia... Que agonia! E as sílabas loucas brigando entre si, esbofeteando-se, para ocupar um lugar de destaque na boca daquele professor ilustre de linguística. No momento em que, finalmente imaginou ter conseguido enviar a mensagem, se deu conta de que ninguém a receberia. apagou-se por completo. Sua capacidade de escrever, ou de escrever bem, tinha acabado ali, naquela overdose de metaplasmos. Tinha sucumbido, finalmente, soterrado por montanhas de sílabas.

Autora valeria Áureo
In: Entrementes Corações

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Perfume da Rosa - Dia da Lola


Enfim posso ler calmamente O Sagrado Coração de Lola, a Santa de Rio Pomba. A obra demanda tranqüilidade e um confortável isolamento, para ser apreciada como deve. Ao final posso concluir: é um livro notável, muito comovente, que nos toca fundo a alma. É Rio Pomba na dimensão exata de cidades como Póvoa de Varzim, Siena ou outro rincão qualquer, em que a graça de Deus tenha caído em profusão. É a nossa história se misturando ao sublime, ao misterioso desígnio divino de se ter a personificação da fé e do sacrifício no mais comum e humilde. O Sagrado Coração de Lola, a Santa de Rio Pomba é um livro extraordinário que servirá de documento para o longo esforço em prol de sua beatificação e santificação, tal a seriedade, dedicação e competência de seu autor. Nele foram compilados inúmeros depoimentos, relatos singelos de pessoas que compartilharam da bênção de conhecê-la; foram recolhidos, organizados e comparados vários documentos dos fatos históricos, de origens diversas, dando à pesquisa o cunho científico que ela merece.
Graças aos inesgotáveis empenhos dos militantes (apóstolos) da causa de Lola a demanda prossegue. E, pelo que pude depreender, deverá ser longa e trabalhosa. Melhor que todos os rio-pombenses se mobilizem para reforçar o trabalho do abnegado grupo e reconhecer a importância do prodígio. A importância que não podemos dimensionar como homens comuns que somos. Ressalto minha admiração por Giselle Neves Moreira de Aguiar, colega de infância, entregue a tão nobre ministério. Quantos não alcançamos ou reconhecemos a grandeza do sublime tão próximo de nós...
Mais proximamente de mim, no plano mais imediato de minha vida longe da terra natal o livro que está à minha cabeceira me faz lembrar de onde eu vim e a quem eu poderei recorrer quando precisar de intercessão divina e consolo para as minhas dores...
O maravilhoso livro de Roberto Nogueira (formidável, como prefere dizer minha mãe, quando aprecia muito alguma coisa) traz a questão da santidade de Lola para a profundidade de si mesma: a rosa é uma rosa, é uma rosa... Não haveria mais o que ser dito, pois ela exaure o tema na plenitude e simplicidade de si: distinguir-se flor.


Então, para que pudesse ser assim, simplesmente a flor, nada mais apropriado que o cenário bucólico e contemplativo do Lindo Vale, onde pudesse ser cultivada. Eis que tantos se inebriaram com seu olor, sem ao menos verem, apenas crendo; entretanto nela confiavam e isso bastava. Por que então querer explicar o que por si só é grande e sagrado? Explicar que flor e prece se confundem?
Hoje o Lindo Vale está desabitado do desejo dela, na expectativa de uma decisão que extrapola as demandas espirituais, e venha concretizar seus planos de se ter ali um santuário. A quem compete a decisão de lhe atender o desejo expresso e sua perpetuação no tempo? Será que compete àqueles que não sabem reconhecer o sagrado ou a flor? Pois que a rosa, não se cria; ela existe, e não se pode mudar isso. A rosa é...
É incrível que uma tese da magnitude de Lola seja sombreada por situações jurídicas, mundanas, temporais; questões de cunho meramente materialistas que se restringem ao humano, quando nos bastaria saber que a rosa é a rosa, é a rosa... Pois é a grandeza de si mesma, a rosa, a existência dela em sua total dimensão, o que enaltece a cidade de Rio Pomba. Ela enche de orgulho os seus habitantes, abençoados com a honra de tê-la como distinguida espécie entre as demais. Será que nós, tão insignificantes diante dela, nos damos conta de quanto a tese de sua existência é maior? O que se espera para se restituir o jardim à flor?

sexta-feira, 29 de março de 2019

Saias e Mulheres

                                                     
                                                       Ilustração - Fonte: Internet


Todos os passageiros se misturam apressadamente e aguardam os vagões se aproximarem. Algumas mulheres vão entrando; outras vão saindo do vagão exclusivo para elas. Ali deveriam estar mais protegidas do assédio inoportuno de olhos, mãos e desejos inescrupulosos. Algumas cores das suas roupas são exageradas, luminosas e incandescentes, talvez porque seja verão e a cidade é cercada de praias e tecidos arejados e eflúvios; outras mulheres são bem mais sóbrias, principalmente quando envelhecem; umas são soberanas no jeito de andar em saias longas e sensuais; nem todas são angelicais como se imagina das mulheres; vê-se no aperto do vagão um discreto toque de malícia e crueldade de certas caras atrevidas e suas minissaias coladas nas coxas, como um envelope lacrando a pele queimada de sol. Vez por outra, vê-se um rosto de beleza plácida, pura, angelical, total e completamente feminina. Pode-se dizer que é a encarnação da candura.


Umas mulheres são frágeis e discretas e quase se vislumbram suas auras azuis e seus pensamentos bondosos e maternais. Outras são fortes, decididas e competitivas, com saltos reforçados e andar em marcha, em linha reta, mostrando firmemente o que querem. Elas planejam e executam as tarefas, dentro e fora de casa, como soldados em missão de guerra. São organizadas e minuciosas, porque não há tempo sobrando para ser desperdiçado. Umas até que não tão austeras, mas continuam mulheres, regozijando-se de sua feminilidade com o frescor das alfazemas. Saias, pernas, tornozelos, coxas ... Sapatos, sandálias, pés! Mulheres amontoadas no vagão rosa.
Já em casa os homens veem futebol, pelo menos aqueles que gostam; outros tomam cerveja, ou jogam vídeo game, ou vasculham o celular, ou pensam nas contas, ou no trabalho, ou no chefe, ou na secretária, ou dormem diante da TV; as mulheres pensam na família, na casa, na comida, na roupa do dia seguinte, nos cabelos, no sono que sentem... Quando mais nervosas pensam na própria vida, no desejo de viverem desvencilhadas da rotina. Pensam em aceitar, ou em descartar, ou em trocar, ou em matar, ou em abandonar. No fim das contas, pouco importa o que elas pensam quando estão cansadas e nervosas; quando termina o cansaço, ou seja lá o que for que as magoe, elas decidem continuar, já despidas de seus trajes suados. Decidem, ao final do dia, a vestir novamente as suas saias esvoaçantes e sair correndo para pegar o metrô e o vagão rosa.



Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
                                                                                                         Fonte: Internet

Transparência do Amor


Ele se imaginava sufocando-a, abafando sua voz e gritos com a boca, ou com um travesseiro leve de plumas... Tudo isso passava em sua mente, enquanto ele concebia que a tinha nos braços. Amor e ódio juntos em um turbilhão de emoções acumuladas. Paixão, pura paixão impulsiva. Não podia conter a loucura de seus pensamentos incontroláveis, que o conduziam a um filme de ação. Ela se debatendo, se debatendo, se debatendo; ele retendo-a em seus braços. Momentos de consciência, logo ao amanhecer. A luz reflete-se nos olhos abertos. A luz fragmentada de sol nas lágrimas... Era o que havia de mais moderno e eficaz em avaliações precisas de seu inconsciente: os lampejos reveladores do inconsciente. Ele se sentia louco. Radiografava por inteiro, com seus pensamentos e vontades a pessoa que amava: decifrava os gostos e desgostos, comungava das crenças e descrenças, questionava posições políticas, desafiava grau de conhecimento e de inteligência; questionava a existência ou não de maturidade emocional daquele objeto que em segundos poderia estar inerte, se ele perdesse o controle, ou decidisse dar um fim à agonia. Ah! Um gesto a mais e ... Como é pequeno o lapso entre a vida e a morte; ele poderia insuflar o ar na alma que tinha ao seu alcance, ou que havia abandonado o corpo. Sabia e escondia o grau de sua perversidade, ou de sua serenidade, a ponto de parecer desumano, ou não; havia quem se furtasse a uma exposição excessiva aos olhos dele e assim se desvencilhava do agente de possíveis aventuras amorosas. Ele poderia ser um algoz, um tirano, ou um anjo, em um raríssimo compartilhamento de hálito no beijo mortal e pronto. Ele poderia ser o pretendente perfeito. Mas, quem poderia garantir? Ela é tão diferente, tão diferente de mim, pensava. Ela é culta, fina, elegante e isso o incomodava muito. A cultura o sufoca.
Então... Nada de mostrar as entranhas no primeiro encontro e nem no segundo, ou no terceiro.... Mas, no segundo mês... Nada mais escapava de um íntimo, completo e sombrio escaneamento da alma vitimada pela paixão. E, certeza, uma vez feito o diagnóstico do mal secreto (apaixonado, abobalhado, encantado, gamado, seduzido, enamorado), dificilmente haveria lugar para uma segunda chance: estariam irremediavelmente condenados ao sofrimento que é o amor.
Autora: Valéria Áureo
In: Entrementes e Corações

domingo, 17 de março de 2019

Entre Ásperas




          - A senhora já escolheu a cor do esmalte?
          - A cor de sempre, lembra-se? Vamos fazer a unha francesinha. Já usei todas as cores, ao longo da vida. Hoje opto pela sobriedade e delicadeza. Combina mais comigo.
          - Já usou todas as cores, é o modo de dizer, não é? Já usou todas, entre ásperas! O comentário surgiu de uma cliente sentada ao meu lado.
          - Entre ásperas? O que vem a ser isso? Não seria entre aspas?
          - Entre ásperas! A senhora não sabe o que é?
          Fechei os ouvidos para a reticente explicação do que seria entre ásperas, como se ela me abrisse os olhos para a luz do conhecimento. Preferi confiar mais em minhas aulas antigas de português: “as aspas têm sido usadas, como um sinal gráfico que delimita uma citação, um título de obra, uma denominação, ou para realçar palavras ou expressões em sentido figurado”. Seria suficiente se eu desse tal explicação, para elucidar a divergência, mas me calei com a certeza de que nada adiantaria. A manicure dava-me múltiplos exemplos entre ásperas e eu voltava às minhas reservadas reflexões linguísticas: entre esmaltes, lixas, alicates, unhas e dedos; entre considerações e análises eu concluía que o uso de aspas surgiu na oralidade acompanhado de um gesto com os dedos indicadores fletidos. Eis todos os dedos (das mãos, dos pés, artelhos e joelhos e os seus tendões a serem considerados na possível explicação). Pensei que a manicure poderia ter achado as minhas mãos ásperas, mas logo mudei de ideia, porque as tenho macias e delicadas. Os dedos fletidos estariam ou não cutilados com o carinho que eu desejo ao gracioso idioma? E as associações de ideias me arrastaram além do salão e suas grosseiras paredes, pois eu me sentia entre parêntesis, entre colchetes e chaves, como uma palavra aprisionada, ou uma sentença matemática em seu cárcere privado. E segui minuciosamente... E tamanha a utilização concreta das aspas, ratificada com os gestos dos dedos, que tenho ouvido “entre ásperas” corriqueiramente. Claro que isso me leva às raízes da questão com doses de alegoria e bom humor (sem mencionar artrites e artroses, rupturas e fraturas, como cai bem aos satíricos cronistas, como eu). A grafia das aspas se fundamenta nas vírgulas dobradas. Deu-se a elas a mímica, a pantomina dos indicadores, apontando ao caminho da elucidação, entre a vizinhança e o circo.
          Entre ásperas! Ásperas, ásperas, ásperas, então vejamos! Dois espinhos da Coroa de Cristo, um de cada lado, a delimitar os domínios da dor que Ele suportou. Entre ásperas! Uma rispidez, um aprisionamento entre palavras que possam trazer a morte e a destruição. Palavras entre ásperas (pessoas, circunstâncias, eventos), entre as duas pequenas farpas gráficas, encilhando os sarcasmos, os descuidos ortográficas, as cacofonias, pleonasmos e invenções. A retórica nos discursos de violência, morte, assassinato, estupro, pedofilia, inveja, rancor, corrupção, aborto, incesto e tantas atrocidades mais, deveriam sempre vir entre ásperas garras da justiça.
          Entre ásperas e contundentes medidas para a destruição da engrenagem de todo o mal; duas algemas de aço, para os braços e para os pés. Dois extremos do arame farpado cercando os bois no pasto, e seus olhos melancólicos ao entardecer. Duas garras, duas travas, duas espadas de aço cortantes! Entre ásperas, entre cacos de vidros pontiagudos, cravados no rosto da vítima do final de festa, duas gotas de ácido sulfúrico, a cada canto dos olhos tristes das mães.

Autora: Valéria Áureo

In Entre Mentes e Corações


domingo, 3 de março de 2019

Maria vai...





          Maria, você vai? Você vai sozinha? Vem comigo?... Você vai, ou fica? Vamos logo, entre no carro! Eu queria que a intimação soasse leve, como um convite. Ela era tão delicada, que eu cuidava de adoçar a voz.
          Não se ouve nada no quarto e nem no corredor, só o barulho das chaves na minha porta; um lacônico comentário atravessa a garagem quase vazia, antes de entrarmos no carro.  Caladas! Estávamos atrasadas e provavelmente os demais moradores já estavam longe. Eu e ela, lado a lado no carro, percorríamos o silêncio. Eu fazendo as minhas associações de ideias e ela balbuciando uma canção. Como Maria gosta de cantar! Eu atrapalhei tudo!...
          O sinal está fechado! Ela com pressa, porque tem provas no colégio, está impaciente; eu sem pressa nenhuma, querendo alongar a sua presença ao meu lado, até a eternidade. Finjo que estou calma. A vida nos seus segundos é tão delicada! Maria é delicada! A existência repartida em horas é tão buliçosa, seguindo sempre em frente; não pode, não quer e nem sabe se deter. Maria vai no compasso da música que cantarola; como sempre e do meu jeito, eu acelero os meus pensamentos, enquanto piso no pedal. O sinal de trânsito cordialmente abre para nós! O cachorro atravessa o nosso caminho, quebrando a cor cinzenta do asfalto. O cachorro é branco. Meus pensamentos cinzentos. Percorremos as ruas ainda bem cedo, quase vazias, e cruzamos avenidas, mais silenciosas do que o costume. Maria sentada comigo, vai tomando o seu caminho de moça. Os primeiros alvoroços de moça apontam em seus olhos, lábios, seios. Maria vai, Maria vem... Ela não é; ela está se fazendo uma mocinha. Ela vai com as outras, pois as amigas a esperam do lado de fora do portão. E eu não posso ser vista, porque ela é grande, é uma mocinha, e não se sente mais a filhinha da mamãe.
          Maria acena para mim despedindo-se, bem de longe, para que não vejam que a mãe amorosa ainda a acompanha e aguarda os beijos infantis. Ela acena para as outras Marias - a mão com unhas de esmalte rosa e a sua pretendida condição de emancipação: já sabe andar sozinha, sabe pegar ônibus, sabe pegar metrô, sabe falar inglês. Sabe tudo! Quer fazer intercâmbio, quer viajar, quer fazer faculdade fora do país e morar sozinha. Eu, os meus medos!
          Eu, toda manhã, insisto em trazê-la, sob o mesmo pretexto de apenas ficar um pouco mais junto dela, que vai crescendo tão rapidamente e ocupando mais espaço no mundo a cada dia que passa. E eu vou deixando minha agenda cada dia mais vazia. Eu vou me encolhendo e cada dia ocupo menos espaço.
          Desta vez, pouco nos falamos, porque o meu caminho vai ficando para trás, com a urgência das rodas no asfalto cinzento,  rapidamente percorrido pelo cachorro branco, enquanto o caminho dela se descortina morosamente, como por encanto. O momento é delicado e estou meio sorumbática. O cachorro segue adiante correndo, correndo...
          Vou ficando mais velha, vou rezando mais o terço e as novenas, a cada dia; vou observando mais, vou temendo mais, implorando mais... É mais uma data importante que preciso registrar nos meus álbuns de nostalgias. Pego o celular e faço uma selfie; Maria a contragosto não quer essas demonstrações públicas de afeto e se afasta de meu beijo maternal. Maria vai!
          Há outras mães enfileiradas em seus carros, em uma caravana dolorosa, cujas filhas se exercitam na ocultação das demonstrações de carícias, afastadas da entrada do colégio. Maria se afasta. Maria vai... Maria vai com as outras, de mãos dadas, rindo efusivamente e esquecendo-se de mim. O sinal ficou fechado, enquanto eu interrompia a identificação desse afastamento físico e emocional com lágrimas quentes escorrendo em meu rosto gelado. O sinal abriu e um carro atrás buzinou, acelerou e fez ruídos com uma obstinação raivosa, que não convinha à hora nem ao trânsito tranquilo. Hoje não! Hoje eu não poderia me aborrecer com absolutamente mais nada, porque ir além era o meu destino. Eu teria que deixar de ouvir os pequenos incômodos dos pensamentos cinzentos e me abastecer de paciência e esperança, enquanto eu deixava Maria crescer. Maria vai, adentrando o colégio; Maria vai com as outras, de mãos dadas, humanizada com outras meninas iguais, na urgência de deixar-me e a infância para trás. Vai, Maria! Vai Maria, vai com as outras! ...

To: Candice Áureo C. L. Fonseca

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Quando uma estrela se apaga








        ... Estou esperando um milagre; um daqueles pequeninos, que servem para ajustar a vidinha, sem muitas complicações. Um milagrezinho jeitosinho, que tenha o jeitinho da cidade natal, cheio de delicadezas e pureza de alma. Um milagre bem pequeno, que caiba no bilhetinho, na novena, na receita do bolo, nos respingos da chuva, na birra da criança e que não caiba no grande jornal, cheio de mentiras e hipocrisia; um jornal honesto, comprometido com a verdade (por ser coisa de gente da terrinha). Estou aguardando um jornal que me traga aromas dos campos.

       Assim foi, assim tinha sido até então, e assim será: o indefectível noticiário das metrópoles me enlouquecendo e o jornal da cidade do interior de Minas Gerais, com aromas de café, me confortando. Assim sempre foi O Imparcial!
Nessa madrugada, eu acordei mais cedo do que todo mundo e revivi domingos interioranos, abrindo todos os pacotes de esperanças sob a árvore, prestes a ser desmontada depois das festas. Foi quando me veio a notícia de seu fim. O fim do jornal da cidade do interior, da zona da mata mineira. Retirei as luzes, os adornos e as expectativas de ano novo com prosas poéticas, crônicas, poesias e contos. Depois me deixei ficar no tapete da sala, abatida e incrédula, confiando que teria sim, um milagrezinho daqueles bem especiais, na minha caixa de correspondências. Bem ali, onde me chega O Imparcial.

       - Ah! Mãe, por que você abre tantas e tantas vezes a caixa de correspondência? Toda hora que sai, e todos os dias? Na ida e na volta, você pega a chave, se detém diante do espelho da portaria, olha para a rua movimentada e abre a caixa; não tem muito sentido, não acha? Já notou que isso é uma mania esquisita? Acho que pode ser TOC!
        Ah! Minha filha não sabe do que vai no meu coração provinciano, quando abro a caixa de correspondências na esperança de encontrar o companheiro constante de minha juventude e maturidade - o que me acalentou tantas vezes. Eu abro a caixa de correspondências e bem ali, acontecem todas as mágicas e encantamentos. Abro mil vezes, no afã de ter em duplicidade (na ida e na volta) as surpresas do que está escrito (por mim e pelos outros). Se eu o encontro quando eu saio de casa, folheio, faço uma vistoria apressada com um sorriso e o deixo ali, até que eu volte. Ele ali, quieto no escaninho, e eu pela praia, imaginando o que terá de auspicioso. Na volta eu o retiro e o carrego para casa, já começando a leitura no elevador. E assim tem sido e eu imaginava que seria para sempre.

       No Imparcial eu escrevia, para ficar mais próxima de minha infância e mocidade. Escrevia para ficar bem mais plena de aprendizado e de ensinamentos. Escrevia para conversar, mesmo de longe e deixar (para depois de minha morte) alguns poemas de amor ou de (des) conforto, registrados em minha biografia. Escrevia para expurgar todos os males (os meus e os dos outros) em catarse e lágrimas, e para comover alguns e conquistar outros. Escrevia para desafiar, para provocar reflexões. Escrevia, ora por instinto, por suicida audácia, por atrevimento e por desmedida coragem e confiança. Escrevia por humildade, ou por jactância e orgulho. Escrevia buscando a eternidade de um único dia (sempre aos domingos), mesmo que no outro domingo as minhas palavras escritas fossem empapeladas no piso de uma gaiola (de um pássaro que eu desejaria liberto), ou mesmo que fossem embrulhadas em uma quitanda de verduras, bem na pracinha, ou na rua em que nasci. Escrevia, na esperança de que alguma alma gentil e amorosa dissesse que lhe fizera bem ler uma crônica de minha autoria, que se sentiu reconfortada, ou riu, ou chorou. Escrevia para me lembrar da cidade e das pessoas com as quais eu cresci, estudei e das quais me separei. Escrevia para me esquecer de que tinha deixado para trás a mãe, o pai, os irmãos, e para fazer esquecer das mágoas e aplacar queixas. Escrevia para dar voz aos mortos e calar os vivos. Escrevia para abrandar a solidão dos sozinhos, como eu!

       No Imparcial eu copiava as estrelas dos céus e seus enigmas; eu replicava suas mensagens secretas e tudo eu revelava aos que sabem e gostam de ler. Havia uma expectativa de entrega absoluta às estrelas, aos sonhos, à esperança, à poesia. Escrevia porque havia estrelas demais na noite escura e, apesar da noite triste, ali eu me encontrava a brilhar um pouquinho.
Depois de dois centenários O Imparcial sai de circulação; é uma estrela que se apaga nos céus de Rio Pomba.

Autora: Valéria Áureo

20/ 01/ 2019



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A Missão Secreta




- Minhas queridas amigas, enfim estamos pessoalmente reunidas. Saímos do campo virtual. Podemos nos conhecer e organizar a nossa viagem, para a missão mais importante de nossas vidas. O serviço de espionagem existe e ocorre em todo o mundo. Por mais que você não veja (o que significa que está dando certo), ele é real. E depende muito de nós, chamadas ingenuamente por “velhinhas do zap.” Vale relembrar: há vários momentos da história da humanidade em que os espiões e espiãs foram cruciais para o desenrolar das coisas. E assim tem sido, principalmente em 2018, um ano bem conturbado. Temos tido sucesso. Como sempre, quase não conhecemos os casos de espiãs, porque muito pouco é dito sobre elas, ou melhor, sobre nós.
- Ela não disse que ia ter discurso. Começou a mandona do grupo! Não vou com os cornos dela!
- Então cala a boca e escuta. Toda informação é importante. Deixa de ser ranzinza e invejosa.
- Vamos à chamada e basta levantar a mão direita.  Melita Norwood, Christine Granville, Noor Inayat Khan, Virginia Hall, Nancy Wake, Josephine Baker e eu.
- Todas presentes!
- Alguma de vocês já concluiu o curso de tiro?
- Era pra fazer? Eu juro que nem sabia. Ninguém me avisou nada. Se bem que eu andei treinando muito com pistola de cola quente, fazendo os chocalhos de garrafa pet e tampinhas de garrafa para a minha neta. Fiquei com tendinite no pulso.
- Mas isso não vale, sua doida! O assunto é sério. Tem que frequentar o estande de tiros.
- Eu fiz o curso e achei muito divertido. Já estou com a mão mais firme do que nunca. Meu médico disse que com a tremedeira do princípio de Parkinson nas mãos seria impossível, mas ele não me conhece; quando eu quero uma coisa, ninguém me segura! Estou tinindo! Nem o diabo me aguenta, dizia o meu marido.
- E você, rato branco?
- Não! Vou ter que fazer a cirurgia de catarata primeiro. O oftalmologista garante que vou ficar com olhos de águia com as lentes alemãs.
- Mas a missão é para hoje, para ontem, não vamos esperar os remendos.
- Posso ficar na Agência, na base de operações e no controle tecnológico. Tem um aplicativo com letras bem grandes e posso ficar no zap atualizando para vocês.
- Vamos ver! Cada membro ausente na missão é uma peça importante na nossa logística que faz muita falta. Estamos escaladas para a segurança do nosso homem, o incógnito. Tudo depende de nós. Sabem que há denúncias de um novo atentado.
- Por falar em logística, vai ter comida de três em três horas? Eu tenho hipoglicemia. Se não tiver eu não poderei ir.
- Vamos providenciar isso. Anota aí, Dama Manca, que eu passo para o comando a sua reivindicação. Bom, vejamos, todas já avisaram em casa que não ficarão para o Réveillon?
- Falei lá em casa e deu o maior quiproquó. Minha filha disse que não tem festa sem o meu bacalhau. Meu genro disse que uma velhinha não pode viajar assim, do nada, sem dizer para onde vai! Estão dificultando muito as coisas. Vou ter que sair fugida!
- Agente secreto não tem família! Primeiro vem a missão. Ou se engaja de corpo e alma ou dá o fora! Quem não aguenta o tranco, pede para sair. Ainda dá tempo. Quem ficar vai ter que dar o sangue. Eles é que se virem com a ceia deles; temos coisas muito mais importantes para resolver! Aliás, já vou adiantando: chega de paparicar esses marmanjos bobalhões: mamãe isso, vovó aquilo, bisa aquilo outro, titia me socorre, mamãe olha como eu sou bonitinho! ... Estão criando um bando de frouxos! Aqui não temos lugar para chororô. Chega de moleza!
- Minha filha é vegana!
- Meu neto não come glúten!
- Lá em casa é tudo alérgico! Não pode ter nada com alho!
- Ninguém faz o meu arroz soltinho com passas e cenouras. Não sei como vai ser esse jantar!
- Eu faço a rabanada todos os anos! Vão sentir minha falta!
- Bacalhoada é comigo! Filha de português, já viu! A melhor bacalhoada do mundo! Quero ver como vão se virar sem mim!
- Já falei que não quero saber de frescuras! Não tem natal e nem ano novo. Eu só quero saber quem está preparado psicologicamente, para integrar o nosso batalhão, que passará imperceptível no meio do cerimonial. Quanto mais discretas, melhor! Uma sombrinha, um xale de crochê de velhinha desprotegida, uma bengalinha, tudo serve como disfarce, para comover as pessoas. Assim vocês entram em todos os lugares.
- Usar xale, com esse calor?
- Exato! Vão pensar que a velhinha está doentinha. E, muita atenção!  Não se esqueçam de carregar o celular e levar bateria sobressalente. Quem tiver mais de um aparelho deve levar. A nossa comunicação não pode ser interrompida um segundo sequer. Ajustem os relógios! Estamos juntas, velhinhas do Zap?
-Todas juntas! Uhu!
- Partiu Brasília, dia primeiro de janeiro?
- Partiu Brasília! Lá vamos nós, querido Presidente!


Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
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