Apresentação

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sexta-feira, 29 de março de 2019

Transparência do Amor


Ele se imaginava sufocando-a, abafando sua voz e gritos com a boca, ou com um travesseiro leve de plumas... Tudo isso passava em sua mente, enquanto ele concebia que a tinha nos braços. Amor e ódio juntos em um turbilhão de emoções acumuladas. Paixão, pura paixão impulsiva. Não podia conter a loucura de seus pensamentos incontroláveis, que o conduziam a um filme de ação. Ela se debatendo, se debatendo, se debatendo; ele retendo-a em seus braços. Momentos de consciência, logo ao amanhecer. A luz reflete-se nos olhos abertos. A luz fragmentada de sol nas lágrimas... Era o que havia de mais moderno e eficaz em avaliações precisas de seu inconsciente: os lampejos reveladores do inconsciente. Ele se sentia louco. Radiografava por inteiro, com seus pensamentos e vontades a pessoa que amava: decifrava os gostos e desgostos, comungava das crenças e descrenças, questionava posições políticas, desafiava grau de conhecimento e de inteligência; questionava a existência ou não de maturidade emocional daquele objeto que em segundos poderia estar inerte, se ele perdesse o controle, ou decidisse dar um fim à agonia. Ah! Um gesto a mais e ... Como é pequeno o lapso entre a vida e a morte; ele poderia insuflar o ar na alma que tinha ao seu alcance, ou que havia abandonado o corpo. Sabia e escondia o grau de sua perversidade, ou de sua serenidade, a ponto de parecer desumano, ou não; havia quem se furtasse a uma exposição excessiva aos olhos dele e assim se desvencilhava do agente de possíveis aventuras amorosas. Ele poderia ser um algoz, um tirano, ou um anjo, em um raríssimo compartilhamento de hálito no beijo mortal e pronto. Ele poderia ser o pretendente perfeito. Mas, quem poderia garantir? Ela é tão diferente, tão diferente de mim, pensava. Ela é culta, fina, elegante e isso o incomodava muito. A cultura o sufoca.
Então... Nada de mostrar as entranhas no primeiro encontro e nem no segundo, ou no terceiro.... Mas, no segundo mês... Nada mais escapava de um íntimo, completo e sombrio escaneamento da alma vitimada pela paixão. E, certeza, uma vez feito o diagnóstico do mal secreto (apaixonado, abobalhado, encantado, gamado, seduzido, enamorado), dificilmente haveria lugar para uma segunda chance: estariam irremediavelmente condenados ao sofrimento que é o amor.
Autora: Valéria Áureo
In: Entrementes e Corações

domingo, 17 de março de 2019

Entre Ásperas




          - A senhora já escolheu a cor do esmalte?
          - A cor de sempre, lembra-se? Vamos fazer a unha francesinha. Já usei todas as cores, ao longo da vida. Hoje opto pela sobriedade e delicadeza. Combina mais comigo.
          - Já usou todas as cores, é o modo de dizer, não é? Já usou todas, entre ásperas! O comentário surgiu de uma cliente sentada ao meu lado.
          - Entre ásperas? O que vem a ser isso? Não seria entre aspas?
          - Entre ásperas! A senhora não sabe o que é?
          Fechei os ouvidos para a reticente explicação do que seria entre ásperas, como se ela me abrisse os olhos para a luz do conhecimento. Preferi confiar mais em minhas aulas antigas de português: “as aspas têm sido usadas, como um sinal gráfico que delimita uma citação, um título de obra, uma denominação, ou para realçar palavras ou expressões em sentido figurado”. Seria suficiente se eu desse tal explicação, para elucidar a divergência, mas me calei com a certeza de que nada adiantaria. A manicure dava-me múltiplos exemplos entre ásperas e eu voltava às minhas reservadas reflexões linguísticas: entre esmaltes, lixas, alicates, unhas e dedos; entre considerações e análises eu concluía que o uso de aspas surgiu na oralidade acompanhado de um gesto com os dedos indicadores fletidos. Eis todos os dedos (das mãos, dos pés, artelhos e joelhos e os seus tendões a serem considerados na possível explicação). Pensei que a manicure poderia ter achado as minhas mãos ásperas, mas logo mudei de ideia, porque as tenho macias e delicadas. Os dedos fletidos estariam ou não cutilados com o carinho que eu desejo ao gracioso idioma? E as associações de ideias me arrastaram além do salão e suas grosseiras paredes, pois eu me sentia entre parêntesis, entre colchetes e chaves, como uma palavra aprisionada, ou uma sentença matemática em seu cárcere privado. E segui minuciosamente... E tamanha a utilização concreta das aspas, ratificada com os gestos dos dedos, que tenho ouvido “entre ásperas” corriqueiramente. Claro que isso me leva às raízes da questão com doses de alegoria e bom humor (sem mencionar artrites e artroses, rupturas e fraturas, como cai bem aos satíricos cronistas, como eu). A grafia das aspas se fundamenta nas vírgulas dobradas. Deu-se a elas a mímica, a pantomina dos indicadores, apontando ao caminho da elucidação, entre a vizinhança e o circo.
          Entre ásperas! Ásperas, ásperas, ásperas, então vejamos! Dois espinhos da Coroa de Cristo, um de cada lado, a delimitar os domínios da dor que Ele suportou. Entre ásperas! Uma rispidez, um aprisionamento entre palavras que possam trazer a morte e a destruição. Palavras entre ásperas (pessoas, circunstâncias, eventos), entre as duas pequenas farpas gráficas, encilhando os sarcasmos, os descuidos ortográficas, as cacofonias, pleonasmos e invenções. A retórica nos discursos de violência, morte, assassinato, estupro, pedofilia, inveja, rancor, corrupção, aborto, incesto e tantas atrocidades mais, deveriam sempre vir entre ásperas garras da justiça.
          Entre ásperas e contundentes medidas para a destruição da engrenagem de todo o mal; duas algemas de aço, para os braços e para os pés. Dois extremos do arame farpado cercando os bois no pasto, e seus olhos melancólicos ao entardecer. Duas garras, duas travas, duas espadas de aço cortantes! Entre ásperas, entre cacos de vidros pontiagudos, cravados no rosto da vítima do final de festa, duas gotas de ácido sulfúrico, a cada canto dos olhos tristes das mães.

Autora: Valéria Áureo

In Entre Mentes e Corações


domingo, 3 de março de 2019

Maria vai...





          Maria, você vai? Você vai sozinha? Vem comigo?... Você vai, ou fica? Vamos logo, entre no carro! Eu queria que a intimação soasse leve, como um convite. Ela era tão delicada, que eu cuidava de adoçar a voz.
          Não se ouve nada no quarto e nem no corredor, só o barulho das chaves na minha porta; um lacônico comentário atravessa a garagem quase vazia, antes de entrarmos no carro.  Caladas! Estávamos atrasadas e provavelmente os demais moradores já estavam longe. Eu e ela, lado a lado no carro, percorríamos o silêncio. Eu fazendo as minhas associações de ideias e ela balbuciando uma canção. Como Maria gosta de cantar! Eu atrapalhei tudo!...
          O sinal está fechado! Ela com pressa, porque tem provas no colégio, está impaciente; eu sem pressa nenhuma, querendo alongar a sua presença ao meu lado, até a eternidade. Finjo que estou calma. A vida nos seus segundos é tão delicada! Maria é delicada! A existência repartida em horas é tão buliçosa, seguindo sempre em frente; não pode, não quer e nem sabe se deter. Maria vai no compasso da música que cantarola; como sempre e do meu jeito, eu acelero os meus pensamentos, enquanto piso no pedal. O sinal de trânsito cordialmente abre para nós! O cachorro atravessa o nosso caminho, quebrando a cor cinzenta do asfalto. O cachorro é branco. Meus pensamentos cinzentos. Percorremos as ruas ainda bem cedo, quase vazias, e cruzamos avenidas, mais silenciosas do que o costume. Maria sentada comigo, vai tomando o seu caminho de moça. Os primeiros alvoroços de moça apontam em seus olhos, lábios, seios. Maria vai, Maria vem... Ela não é; ela está se fazendo uma mocinha. Ela vai com as outras, pois as amigas a esperam do lado de fora do portão. E eu não posso ser vista, porque ela é grande, é uma mocinha, e não se sente mais a filhinha da mamãe.
          Maria acena para mim despedindo-se, bem de longe, para que não vejam que a mãe amorosa ainda a acompanha e aguarda os beijos infantis. Ela acena para as outras Marias - a mão com unhas de esmalte rosa e a sua pretendida condição de emancipação: já sabe andar sozinha, sabe pegar ônibus, sabe pegar metrô, sabe falar inglês. Sabe tudo! Quer fazer intercâmbio, quer viajar, quer fazer faculdade fora do país e morar sozinha. Eu, os meus medos!
          Eu, toda manhã, insisto em trazê-la, sob o mesmo pretexto de apenas ficar um pouco mais junto dela, que vai crescendo tão rapidamente e ocupando mais espaço no mundo a cada dia que passa. E eu vou deixando minha agenda cada dia mais vazia. Eu vou me encolhendo e cada dia ocupo menos espaço.
          Desta vez, pouco nos falamos, porque o meu caminho vai ficando para trás, com a urgência das rodas no asfalto cinzento,  rapidamente percorrido pelo cachorro branco, enquanto o caminho dela se descortina morosamente, como por encanto. O momento é delicado e estou meio sorumbática. O cachorro segue adiante correndo, correndo...
          Vou ficando mais velha, vou rezando mais o terço e as novenas, a cada dia; vou observando mais, vou temendo mais, implorando mais... É mais uma data importante que preciso registrar nos meus álbuns de nostalgias. Pego o celular e faço uma selfie; Maria a contragosto não quer essas demonstrações públicas de afeto e se afasta de meu beijo maternal. Maria vai!
          Há outras mães enfileiradas em seus carros, em uma caravana dolorosa, cujas filhas se exercitam na ocultação das demonstrações de carícias, afastadas da entrada do colégio. Maria se afasta. Maria vai... Maria vai com as outras, de mãos dadas, rindo efusivamente e esquecendo-se de mim. O sinal ficou fechado, enquanto eu interrompia a identificação desse afastamento físico e emocional com lágrimas quentes escorrendo em meu rosto gelado. O sinal abriu e um carro atrás buzinou, acelerou e fez ruídos com uma obstinação raivosa, que não convinha à hora nem ao trânsito tranquilo. Hoje não! Hoje eu não poderia me aborrecer com absolutamente mais nada, porque ir além era o meu destino. Eu teria que deixar de ouvir os pequenos incômodos dos pensamentos cinzentos e me abastecer de paciência e esperança, enquanto eu deixava Maria crescer. Maria vai, adentrando o colégio; Maria vai com as outras, de mãos dadas, humanizada com outras meninas iguais, na urgência de deixar-me e a infância para trás. Vai, Maria! Vai Maria, vai com as outras! ...

To: Candice Áureo C. L. Fonseca

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Quando uma estrela se apaga








        ... Estou esperando um milagre; um daqueles pequeninos, que servem para ajustar a vidinha, sem muitas complicações. Um milagrezinho jeitosinho, que tenha o jeitinho da cidade natal, cheio de delicadezas e pureza de alma. Um milagre bem pequeno, que caiba no bilhetinho, na novena, na receita do bolo, nos respingos da chuva, na birra da criança e que não caiba no grande jornal, cheio de mentiras e hipocrisia; um jornal honesto, comprometido com a verdade (por ser coisa de gente da terrinha). Estou aguardando um jornal que me traga aromas dos campos.

       Assim foi, assim tinha sido até então, e assim será: o indefectível noticiário das metrópoles me enlouquecendo e o jornal da cidade do interior de Minas Gerais, com aromas de café, me confortando. Assim sempre foi O Imparcial!
Nessa madrugada, eu acordei mais cedo do que todo mundo e revivi domingos interioranos, abrindo todos os pacotes de esperanças sob a árvore, prestes a ser desmontada depois das festas. Foi quando me veio a notícia de seu fim. O fim do jornal da cidade do interior, da zona da mata mineira. Retirei as luzes, os adornos e as expectativas de ano novo com prosas poéticas, crônicas, poesias e contos. Depois me deixei ficar no tapete da sala, abatida e incrédula, confiando que teria sim, um milagrezinho daqueles bem especiais, na minha caixa de correspondências. Bem ali, onde me chega O Imparcial.

       - Ah! Mãe, por que você abre tantas e tantas vezes a caixa de correspondência? Toda hora que sai, e todos os dias? Na ida e na volta, você pega a chave, se detém diante do espelho da portaria, olha para a rua movimentada e abre a caixa; não tem muito sentido, não acha? Já notou que isso é uma mania esquisita? Acho que pode ser TOC!
        Ah! Minha filha não sabe do que vai no meu coração provinciano, quando abro a caixa de correspondências na esperança de encontrar o companheiro constante de minha juventude e maturidade - o que me acalentou tantas vezes. Eu abro a caixa de correspondências e bem ali, acontecem todas as mágicas e encantamentos. Abro mil vezes, no afã de ter em duplicidade (na ida e na volta) as surpresas do que está escrito (por mim e pelos outros). Se eu o encontro quando eu saio de casa, folheio, faço uma vistoria apressada com um sorriso e o deixo ali, até que eu volte. Ele ali, quieto no escaninho, e eu pela praia, imaginando o que terá de auspicioso. Na volta eu o retiro e o carrego para casa, já começando a leitura no elevador. E assim tem sido e eu imaginava que seria para sempre.

       No Imparcial eu escrevia, para ficar mais próxima de minha infância e mocidade. Escrevia para ficar bem mais plena de aprendizado e de ensinamentos. Escrevia para conversar, mesmo de longe e deixar (para depois de minha morte) alguns poemas de amor ou de (des) conforto, registrados em minha biografia. Escrevia para expurgar todos os males (os meus e os dos outros) em catarse e lágrimas, e para comover alguns e conquistar outros. Escrevia para desafiar, para provocar reflexões. Escrevia, ora por instinto, por suicida audácia, por atrevimento e por desmedida coragem e confiança. Escrevia por humildade, ou por jactância e orgulho. Escrevia buscando a eternidade de um único dia (sempre aos domingos), mesmo que no outro domingo as minhas palavras escritas fossem empapeladas no piso de uma gaiola (de um pássaro que eu desejaria liberto), ou mesmo que fossem embrulhadas em uma quitanda de verduras, bem na pracinha, ou na rua em que nasci. Escrevia, na esperança de que alguma alma gentil e amorosa dissesse que lhe fizera bem ler uma crônica de minha autoria, que se sentiu reconfortada, ou riu, ou chorou. Escrevia para me lembrar da cidade e das pessoas com as quais eu cresci, estudei e das quais me separei. Escrevia para me esquecer de que tinha deixado para trás a mãe, o pai, os irmãos, e para fazer esquecer das mágoas e aplacar queixas. Escrevia para dar voz aos mortos e calar os vivos. Escrevia para abrandar a solidão dos sozinhos, como eu!

       No Imparcial eu copiava as estrelas dos céus e seus enigmas; eu replicava suas mensagens secretas e tudo eu revelava aos que sabem e gostam de ler. Havia uma expectativa de entrega absoluta às estrelas, aos sonhos, à esperança, à poesia. Escrevia porque havia estrelas demais na noite escura e, apesar da noite triste, ali eu me encontrava a brilhar um pouquinho.
Depois de dois centenários O Imparcial sai de circulação; é uma estrela que se apaga nos céus de Rio Pomba.

Autora: Valéria Áureo

20/ 01/ 2019



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A Missão Secreta




- Minhas queridas amigas, enfim estamos pessoalmente reunidas. Saímos do campo virtual. Podemos nos conhecer e organizar a nossa viagem, para a missão mais importante de nossas vidas. O serviço de espionagem existe e ocorre em todo o mundo. Por mais que você não veja (o que significa que está dando certo), ele é real. E depende muito de nós, chamadas ingenuamente por “velhinhas do zap.” Vale relembrar: há vários momentos da história da humanidade em que os espiões e espiãs foram cruciais para o desenrolar das coisas. E assim tem sido, principalmente em 2018, um ano bem conturbado. Temos tido sucesso. Como sempre, quase não conhecemos os casos de espiãs, porque muito pouco é dito sobre elas, ou melhor, sobre nós.
- Ela não disse que ia ter discurso. Começou a mandona do grupo! Não vou com os cornos dela!
- Então cala a boca e escuta. Toda informação é importante. Deixa de ser ranzinza e invejosa.
- Vamos à chamada e basta levantar a mão direita.  Melita Norwood, Christine Granville, Noor Inayat Khan, Virginia Hall, Nancy Wake, Josephine Baker e eu.
- Todas presentes!
- Alguma de vocês já concluiu o curso de tiro?
- Era pra fazer? Eu juro que nem sabia. Ninguém me avisou nada. Se bem que eu andei treinando muito com pistola de cola quente, fazendo os chocalhos de garrafa pet e tampinhas de garrafa para a minha neta. Fiquei com tendinite no pulso.
- Mas isso não vale, sua doida! O assunto é sério. Tem que frequentar o estande de tiros.
- Eu fiz o curso e achei muito divertido. Já estou com a mão mais firme do que nunca. Meu médico disse que com a tremedeira do princípio de Parkinson nas mãos seria impossível, mas ele não me conhece; quando eu quero uma coisa, ninguém me segura! Estou tinindo! Nem o diabo me aguenta, dizia o meu marido.
- E você, rato branco?
- Não! Vou ter que fazer a cirurgia de catarata primeiro. O oftalmologista garante que vou ficar com olhos de águia com as lentes alemãs.
- Mas a missão é para hoje, para ontem, não vamos esperar os remendos.
- Posso ficar na Agência, na base de operações e no controle tecnológico. Tem um aplicativo com letras bem grandes e posso ficar no zap atualizando para vocês.
- Vamos ver! Cada membro ausente na missão é uma peça importante na nossa logística que faz muita falta. Estamos escaladas para a segurança do nosso homem, o incógnito. Tudo depende de nós. Sabem que há denúncias de um novo atentado.
- Por falar em logística, vai ter comida de três em três horas? Eu tenho hipoglicemia. Se não tiver eu não poderei ir.
- Vamos providenciar isso. Anota aí, Dama Manca, que eu passo para o comando a sua reivindicação. Bom, vejamos, todas já avisaram em casa que não ficarão para o Réveillon?
- Falei lá em casa e deu o maior quiproquó. Minha filha disse que não tem festa sem o meu bacalhau. Meu genro disse que uma velhinha não pode viajar assim, do nada, sem dizer para onde vai! Estão dificultando muito as coisas. Vou ter que sair fugida!
- Agente secreto não tem família! Primeiro vem a missão. Ou se engaja de corpo e alma ou dá o fora! Quem não aguenta o tranco, pede para sair. Ainda dá tempo. Quem ficar vai ter que dar o sangue. Eles é que se virem com a ceia deles; temos coisas muito mais importantes para resolver! Aliás, já vou adiantando: chega de paparicar esses marmanjos bobalhões: mamãe isso, vovó aquilo, bisa aquilo outro, titia me socorre, mamãe olha como eu sou bonitinho! ... Estão criando um bando de frouxos! Aqui não temos lugar para chororô. Chega de moleza!
- Minha filha é vegana!
- Meu neto não come glúten!
- Lá em casa é tudo alérgico! Não pode ter nada com alho!
- Ninguém faz o meu arroz soltinho com passas e cenouras. Não sei como vai ser esse jantar!
- Eu faço a rabanada todos os anos! Vão sentir minha falta!
- Bacalhoada é comigo! Filha de português, já viu! A melhor bacalhoada do mundo! Quero ver como vão se virar sem mim!
- Já falei que não quero saber de frescuras! Não tem natal e nem ano novo. Eu só quero saber quem está preparado psicologicamente, para integrar o nosso batalhão, que passará imperceptível no meio do cerimonial. Quanto mais discretas, melhor! Uma sombrinha, um xale de crochê de velhinha desprotegida, uma bengalinha, tudo serve como disfarce, para comover as pessoas. Assim vocês entram em todos os lugares.
- Usar xale, com esse calor?
- Exato! Vão pensar que a velhinha está doentinha. E, muita atenção!  Não se esqueçam de carregar o celular e levar bateria sobressalente. Quem tiver mais de um aparelho deve levar. A nossa comunicação não pode ser interrompida um segundo sequer. Ajustem os relógios! Estamos juntas, velhinhas do Zap?
-Todas juntas! Uhu!
- Partiu Brasília, dia primeiro de janeiro?
- Partiu Brasília! Lá vamos nós, querido Presidente!


Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
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Festas





- Alô, oi minha querida, como vai, tudo bem?

-Tudo, mas quem está falando? Eu...
- Não está reconhecendo a minha voz? Deixa de brincadeira, Candice, sou eu, sua mãe... Está se sentindo bem? É o calor que está deixando você assim? Me diga uma coisa.

- Desculpe, mas não reconheci mesmo. Estava chorando, mãe? Está com a voz estranha.

- Não! Só estou estressada! Muita coisa para resolver sozinha. Estou ligando para você, minha filha, porque estou em uma situação de bico, pensando em desconvidar algumas pessoas...
- Desconvidar? E isso existe, mãe?

- Claro! Desconvidar. Verbo transitivo direto! É desconvidar mesmo! Está na gramática!

- E será que está no livro de etiquetas?

- Sei lá! Desconvidar é uma decisão difícil que deve ser tratada com leveza e muito jeitinho, senão! ...
- Mas desconvidar é inevitável?

- Sim, inevitável! Veja o caso do presidente eleito. Desconvidou, muito bem desconvidado e pronto. Na festa não há lugar para persona non grata. Eu também posso desconvidar, não acha? Sei que é uma decisão muito áspera e radical, mas... Ainda mais em final de ano, com todos os parentes e amigos muito melindrados. 

- Eu não teria coragem...

- Mas eu não vejo outro jeito. Estou pensando seriamente em desconvidar a Raquel do meu Réveillon. Fiquei sabendo do escândalo que ela fez na casa da Onilda na semana passada e não quero esse tipo de coisa na minha festa. O que acha?
- Mas eu... Sei lá, viu! É muito complicado isso de desconvidar.

- Sim! Veja bem! Antes de chegar e desconvidar eu até tentei contornar o problema e permitir que ela ainda comparecesse. Fico com pena. Mas, ela anda histérica, já notou? Aqueles discursos políticos, radicais, feministas de “ele não!” somado ao vinho... Sei não! Vai estragar a minha festa. Já ouvi a opinião da tia Rita...
- E o que ela disse?
 
- Ela me disse que a Raquel está impossível. Pior do que ela, só o Mário. Aquele enlouqueceu de vez; está até falando sozinho, o coitado. Bom, ele sempre foi maluco, mas agora agravou! Agora, a Raquel, muito me admiro. Além de jogar contra o país, replicando Fake News no Face, ela danou a se descontrolar ao beber demais da conta. Não se conforma! Não se conforma e não se depila, para horror do Rafael. Axilas ao natural, que asco! Virou uma taturana. Rafael não suporta uma coisa dessas e creio que ninguém. Mas, o que regala uns... Que se pode fazer? Aquela endoideceu de vez com as histórias de protestos. Para tudo ela tira a roupa e mostra os peitos. Aqueles peitos grandes e caídos. Mostra os peitos e a bunda. Uma desgraça! Não pode ver um vinho, champanhe, chope, qualquer coisa, que desconta sua raiva na bebida. Talvez seja uma boa ideia limitar o acesso dela ao open bar ou remover o álcool da festa como um todo. O que acha?

- Eu não sei, mas... Os outros que sabem beber e são elegantes ficariam privados... Não acho justo. E festa sem bebida fica muito infantil. Réveillon não é festa de criança.

- Vou ter que desconvidar mais dois parentes que estão brigados, por conta das eleições. Talvez ainda seja possível que ambos compareçam, se conseguirem fazer as pazes antes do Natal. Penso em separá-los e peço que você me ajude a restringir o contato dos dois. Há três ambientes enormes no casarão da Marquês, em que podem se espalhar, sem ter que conversar um com o outro. O que acha?

- Isso vai dar certo, mãe? Eu não vou tomar conta de ninguém! Deus me livre de gente brigando perto de mim. Não conte comigo.

- Vou ter que achar um jeito! Também vou ter que restringir o espaço do Mário, que costuma falar bobagens, aprontar com suas piadinhas infames e fazer algum tipo de escândalo. Vou ter que conversar com ele na chegada e ver se é possível controlar esse tipo de comportamento durante a festa.

- É melhor ligar antes, mãe!

- Tem razão! Eu poderia dizer algo sutil por telefone, como "Oi Mário. Sei que você é meio boca suja, mas a família da minha nora é mais conservadora e eles não se sentem muito confortáveis com palavrões e piadas de mau gosto. Você pode controlar o linguajar durante a festa? Se puder, vou ficar feliz!

- É parece uma ótima ideia a sua "sutileza", mas vai perder o amigo. Eu não tenho coragem de fazer isso.

- Então, acha que funciona contornar a situação, minha filha? Ou acha melhor desconvidar mais uns três?

- Mãe, não é melhor cancelar essa festa?






sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Viajando para Angústias (botas e dentaduras)


Já lhes contei de meu percurso via aérea e marítima, passeando por Parvopolis, Cretineia, Cretínia e Balburdia. Hoje vou para um vilarejo bem próximo de Balbúrdia, nos confins de Canálias e Temerárias, lugares já descritos por mim em outra narrativa. Uma falta de logística nesses países me faz ir e vir, incessantemente, viajando em círculo, graças aos improvisos das companhias aéreas. Quando não há uma rota definida, desviam um avião de seu destino e logo arranjam um “quebra galho”. Sei que é perigoso, mas é o que há disponível na região. Creio que esse vórtice desgovernado tem o objetivo de deixar o povo tonto e sem senso de direção. Povo tonto é mais fácil de governar. Nunca sabe para onde vai.
Apesar de meus receios, a viagem me surpreende; é suave, o clima é agradável e os nativos são acolhedores. Uma coisa os une no mesmo espírito de urbanidade: todos são muito pobres e ainda usam do escambo como dinâmica econômica. Uns produzem cestos, balaios e os trocam por banana, abacaxi ou outra fruta do lugar. Todos se unem também na insatisfação com os governantes que formam uma grande família, cujos membros se alternam no poder. Morre o pai e elege-se o filho. Os “fiotes” dos governantes não se preocupam muito com a vida, pois contam com a ingenuidade do povo, que lhes garante existência pública fundamentada no DNA. Atualmente os moradores do lugar são visitados por pessoas estranhas, que jamais souberam da existência deles. É a corrida ao ouro, ou melhor dizendo, é a corrida eleitoral.
Angústias é aprazível e acolhedora e está em polvorosa. Escolhe-se um novo líder em meio ao caos dos mais recentes acontecimentos. O que não falta é gente para se oferecer de corpo e alma, para resolver os problemas da população esquecida. É como se estivessem falando em nome de Deus; são arautos angelicais distribuindo “santinhos”, porque fórmulas milagreiras proliferam e o eleitor é o grande alvo. O objeto de desejo – o voto – que até então era trocado em Angústias, por um par de óculos, botinas, ou uma singela e sorridente dentadura, teve seu valor disparado no mercado. Ninguém mais quer a dentadura, o que tem bastante lógica. A dentadura, depois das eleições, nunca mais sorri, pois não lhes cabe na boca e o povo continua desdentado. Se cabe bem rente, a ponto mesmo de machucar, algumas vezes a dentadura tem o efeito de mordaça e torna o presenteado um conivente. Recebe o presente e fica calado para sempre. E, calado, consente! Quando a dentadura se ajusta na boca, não tem serventia, pois falta ao povo o que mastigar.
Acreditem, Angústias pode mudar de nome depois das eleições e dependendo do resultado, isso já é esperado. Uns sugerem Catástrofe, outros mantêm a esperança e desejam que seja Colossus. Vai depender da maioria. O voto, essencial para a grande mudança, vale muito mais do que o tapinha nas costas, dado pelo candidato com nojo de gente, espanando a caspa dos ombros do homem vergado pelo peso da existência; vale muito mais do que o sorriso platinado em prótese, o elogio fácil e a elevação do homem comum ao status de cidadão em dias de campanha. Considerem isso.
Parece-me que os moradores locais de Angústias chegaram ao limite e descobriram que o voto vale o peso de cada um em ouro. Vale quanto pesa! Sim, se você está com setenta e dois quilos, em Angústias, isso equivale a setenta e dois quilos de ouro e não mais um pé de uma botina. Sim, pois o eleitor até então, valia um só pé de bota, tanto quanto valia a perna única do Saci Pererê. E, como Saci Pererê é uma ficção, considero que o homem comum é visto assim – não existe na realidade. E, lembrando sempre que o par de botas só era formado se o “padrinho” ganhasse a eleição. O povo continuava a andar com um pé descalço em terreno árido e sem direção certa. Claro, sem resolver o seu problema, criava outro muito maior, porque com um só pé da bota, passava a mancar e ficava coxo. E assim tem sido! Andando, capengando, se arrastando e caindo... E correndo o sério risco de nunca mais se levantar.
Autora: Valéria Áureo -
In: Docilidade de Sobreviventes

Intimidade


Havia invejável intimidade entre minha mãe e Deus. Ao longo da vida ocorreu essa comunhão, que foi se solidificando cada vez mais. Por mais que parecesse fraca e oprimida, Deus a considerava forte e especial e assim a tratava, como filha amada. Da mesma forma ela devotava a Ele amor imensurável. Ambos eram fiéis. Conversavam todos os dias. Mesmo quando ela se perdia em lágrimas, havia o diálogo silencioso que só as almas sagradas decifram. Talvez as lágrimas fossem rios navegáveis que a levavam ao Pai. Ela conhecia o caminho e com Ele chegou ao seu destino, sem nunca ter perdido a direção.
Antes de partir minha mãe decodificou o enigma da oração para seus filhos.

Autora: Valéria Áureo
In: Docilidade de Sobreviventes

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Quem é ela?


Estamos nos conhecendo. Amorosamente, nos conhecendo nas primeiras carícias na pele. Tudo em torno é suavidade e primeiro olfato. Ela ocupa um espaço pequenino, mas o mundo é ainda menor para tanto. Ela ocupa tudo. Não é mais a ideia de sua vinda do universo da concepção, mas a concretude de sua existência física, palpável, nas delícias do tato.
Ela é! Respira, tem hálito e alma, desde o momento em que se instalou no pequeno berço do corpo materno, onde fez ninho... Ah! O amor que se vai construindo a cada expectativa do que virá a ser, a cada toque, a cada sorriso, ou inquietação... Por que chora? Por que as lágrimas são tão grandes no rosto tão pequeno? São os primeiros rios de água doce a ocupar o sal de minha alma.
Ah! Ela chora porque ainda não me conhece na minha amplitude serena da idade, no outro extremo de sua chegada, na alma plenitude conseguida com tempo e adequação. E nem eu mesma sou aquela que acreditava ser ainda ontem, e que ainda me descubro refletida nos olhos dela, onde me procuro nadando, nadando, nadando...
A pequena que se faz na urdidura dos afagos, do leite, do amor, ocupa o universo já na sua tíbia percepção e me olha profundamente e ri. Ela investiga o meu rosto, eu investigo o rosto dela e assim nos reconhecemos: eu, a mãe do pai, no outro lado da linha, sou ponto de uma tapeçaria. Reflito sobre a calmaria dos anjos enquanto ela dorme. Sou ponte e sou porto. E nessa costura de ternuras, ela me mostrará a cada dia quem eu sou - pois me faço diferente todos os dias. Hoje eu sei que sou avó! Avó da Maitê!


Autora: Valéria Áureo
To: Hubert, Carol, Maitê, Candice e Luiz Fernando

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Provisão



          Chuva de Prata
Se quiser uma aguinha gelada, um algodão doce, pega aqui comigo!...
O ambulante movimentava a rua parada com sua voz estridente. Tudo estava em seu lugar; estranhamente em seu lugar de segunda-feira, terça, quarta... De ágil mesmo, só palavras ressoando na rua vazia. Uns poucos transeuntes falavam ao celular e deixavam mensagens aflitas: temos que estocar mantimentos! Não se sabe quanto tempo essa paralisação vai durar. E se faltar?... E divulgavam as suas necessidades e intenções de água, comida, material de higiene, aos gritos nervosos. E nada mais se poderia ouvir, senão os interesses individuais.
Pensei no que eu poderia querer, para fazer um estoque, uma reserva de bens de primeira necessidade. De que eu precisaria e por quanto tempo?Talvez eu começasse por um arsenal de palavras, para depois pensar no resto. Estranho, não é? Eu e o meu vício de colecionador de palavras. Na verdade, eu gostaria mesmo é de uma chuvinha fresca de palavras como: país / mais/ provisório/ louco/ onde/ previsão/ mistura/ urnas / gente/ fatídica/ se / entende/ tem/ /mais/ caos / fome/ confusão / presidência / previdência / social / inocência / indecente / eleição / corrupção / socorro!...
Socorro, vou morrer afogada! Não contava com esse temporal! Eu só queria uma chuva fininha, de prata...
Valéria Áureo