Apresentação

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Quarentena II





Às vezes a mãe fica nervosa, porque as crianças estão todas amontoadas no sofá, emboladas no grande novelo das traquinagens. A mãe se irrita com o inesperado barulho, porque no consultório não era assim, só a música ambiente. Agora, em casa, uma criança grita, a outra puxa o brinquedo; uma chora, a outra ri; um está emburrado e o outro lê sossegado. Ela me põe de castigo e me chama de criança levada. Então, antes de chorar, eu pergunto a mim o que fiz de errado, porque eu estava bem quieta no meu canto com o gato manhoso que não me deixa sozinho. Eu tiro do bolso um lenço de papel que me consola, onde há muitos dias ela limpou o beijo vermelho dos lábios, para me confortar, porque ela anda impaciente e nervosa e sinto saudades do silêncio dela.
Mal encerra o dia de lavar, secar, cozinhar, servir, comer, guardar, arrumar, botar menino para dormir e deixar a janta à mesa tão tarde, a lua se apaga e o dia se estica além das nove da noite; tudo emendado em manhã, tarde e noite, sem intervalos e descanso. Amanhecer já não é mais às sete da manhã, quando havia escola e trabalho. É hora de dormir novamente, mal tendo descansado da trabalheira do dia anterior.
E lá se foram para as gavetas todos os enfeites que ela usava para sair à rua: roupas melhores; adornos dos cabelos pintados e soltos; cinta modeladora; batom e esmalte, perfumes e sapato alto, bolsa, chave do carro, documentos, celular. Agora se vai à rua sem maquiagem; tem-se o rosto quase trágico (em preto e branco), escondido em uma máscara que ora encobre o medo de se perder definitivamente o que não se vive mais. Na memória ela sai de casa, bebe, dança, tira a maquiagem, deita, chora e até ri, porque a vida era bem divertida.

Eis que, amanhece no sobressalto da madrugada que já não é mais tão cedo... Hora de ver o que os meninos estão aprontando. E, antes que ela grite, eu tiro do bolso um lenço de papel que me consola, onde ela limpou o beijo vermelho dos lábios, para me confortar. Eu beijo o beijo dela e isso me faz parar de chorar. Sinto falta do silêncio dela.




Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

domingo, 5 de abril de 2020

Eu amo você! ( Quarentena)



Quarentena! Finalmente podiam se lembrar, cada um por si, das muitas coisas de que mais gostavam. Eram tão mutilados pelas asperezas da vida, que consome o amor verdadeiro, que mal se falavam. Isso por causa do distanciamento de muitos anos, casados, calados, cansados, vivendo no torpor de amarguras e decepções.
A quarentena os confinou na sala, no quarto, na cozinha, na varanda... Um bem perto do outro, como costumavam ficar, quando eram jovens. Ele esbarrou nela, de maneira sutil e se desculpou... Ela riu timidamente, sob o calor da respiração dele, como se nunca tivesse sido tocada. Ele se lembrou que gostava que mexessem em seus cabelos... Suspirou e riu de volta para ela. (Sabe onde está o meu celular?)...
Ela se lembrou do calor da pele dele. Propôs uma ousadia de se assentar em silêncio na varanda, olhando para o mar, de mãos dadas com ele, enquanto acariciava seus dedos. Quando tempo não se tocavam... ( O celular está na mesinha, do lado da minha bolsa!)...
Quarentena! Os dias se arrastando e eles tirando as camuflagens das mágoas em pequenas dosagens: um dia um sorriso, no outro uma voz mais meiga, e depois um leve beijo. Agora riem juntos e acham graça em tudo. Enamoraram-se como se fosse ainda amor à primeira vista, como da primeira vez. Redescobriram as delicadezas que o amor esconde sob as luvas e máscaras.
( O celular está descarregado!)...
E, num arroubo de paixão, como um rapaz de vinte anos, ele a tomou nos braços e disse: – Eu amo você, garota!

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

quarta-feira, 11 de março de 2020

Não fosse a poesia...

Não fosse a poesia, nada mais seria possível, apenas um dia igual: amanhecer engolindo sem sentir a pressa e o gosto, minutos e café. Engolir a própria fome. Descer barranco abaixo sob a chuva fria, contornando o vento, a pobreza, ruelas estreitas e a solidão. Ser aprisionado pela vida no compromisso do sol com a luz, do galo com o canto, enquanto o pássaro aprecia preso na gaiola, a minha solidão. Eu, do lado de fora, em declarada ousadia, invado o inevitável dia. Começo tudo de novo, teimosamente. Recomponho na aridez do meu espaço aquilo que meu coração precisa para sobreviver. Tudo, sem repetir-se na óbvia sequência do dia: estar sempre desvendando trevas e tristezas, alternando sol e lua, buscando a cada instante alguma coisa que justifique a vida. Mas, na repetição diária de escolher os grãos de arroz, o coração fugitivo da rotina dedilha sílabas, compõe poemas e versos mosaicos sobre a mesa tosca. Não importa quanto falte, não importa quanto tudo me faz falta.  Separo as pedras do arroz e da própria existência, porque só estão ali para pesar. Separo e rejeito o sofrimento como pedras recolhidas entre os grãos brancos. A água da torneira improvisada escorre pela humilde louça, delineando um rio pia abaixo no novo destino do latão. As mãos limpam o peixe para o almoço, desvencilhando-o de entranhas e de escamas madrepérolas. O coração extasiado, reflexo da alma, deslumbra os movimentos do peixe antes, inexistentes agora; não mais livre na água fria do rio que só eu vejo.
          Eu pensava: os peixes são para os rios, como eu fui feito para voar. Em minhas mãos não há anéis, senão estrelas, pedras verdes, encantamentos sob o rio que eu refaço e que contenho entre os dedos. Talvez feito de lágrimas ou águas que escorrem morro abaixo, na composição da chuva insistente e o lamaçal. Aprisiono a vida, enquanto escamo o peixe agora inerte.  Rola pela minha boca a palavra dolorida, como um anzol fisgado na guelra lacerada. Nós dois assim, mutilados, temos nos comunicado no silêncio, enquanto relâmpagos acendem violetas nos meus olhos. Ah!...Não fosse a poesia...
          Ponho a mesa, estendo a toalha, visto a ceia em linho de sacos de trigo alvejados. Brancura farta na imensidão da mesa quase vazia. No coração as escamas arrancadas são cordilheiras, envoltas em fubá dourado, dorso do peixe servido à mesa, aprisionado na imobilidade do prato. Meus olhos jorram maremotos, enquanto a espinha travada na garganta anuncia a minha fragilidade. Na minha alma o peixe ainda nada esguio, escorregadio pela minha boca, restaurando a possibilidade de todos os sonhos e viagens. Penso na casa, na pouca comida, nas crianças, na vida... Mergulho na humildade de minha mesa tentando preencher o vazio dos pratos, alcançar o último nado, o naufrágio, as frias fossas sob as grutas. Do teto escorrem goteiras, esculpidos cristais em grutas, estalactites, lustres imaginários insinuando arquitetura dos anjos ou, quem sabe, lágrimas minhas, lágrimas dos meus filhos, lágrimas de Deus.
          Seria só um dia a mais no barraco úmido, não fosse a suavidade do vento compondo com a noite uma sinfonia depois da chuva. O vento cicia nas folhas de zinco e ouço violinos... Barro, barraco, barranco, briga, barulho, berreiro de crianças. Quantos sons desencontrados e os silêncios misturados. E quando a escuridão cobre a favela depois que a chuva passa, eu posso abrir a minha caixa de joias, eternamente ao meu alcance, simplesmente olhando para o céu... A primeira estrela que eu vejo, parece minha. Parece perto, parece sim. Eu a toco com a ponta dos dedos e a faço repousar como aliança, pássaro solto na palma da mão. Meu diamante solitário, brilho de esmeralda e alguma coisa de mim. Certamente a esperança... Ignoro tudo: um desassossego, um presságio, um jeito de solitário manter-se aflito no ar, um oceano de chapéus acenando despedidas... Beijos jogados ao léu, ruídos do espatifar de um cristal, que ouço em lugar dos gritos. Mas é meu todo aquele céu cravejado de brilhos. Meu, só meu, porque o alcanço com olhos e o desvendo com o coração. Posso tê-lo e guardá-lo onde sempre soube estar. Tão livre, tão à mercê de todos e ninguém pode tirá-lo. É... Ninguém o rouba de mim, nem o percebem. Não sei se longínqua ou próxima a minha fortuna.
          Uma eternidade provável eu percorro com os olhos e vejo toda constelação absolutamente livre no ar. Não avisto tetos de papelão, paredes de compensado, lixo amontoado, água escorrendo e lamaceiro. Não ouço os tiros, não ouço choro de crianças, esqueço-me da fome. Não sinto cheiros. Não percebo as entranhas da miséria. Estão expostas em esgoto e negrume luzidio. Meus olhos alcançam além das estrelas, muito acima das casas, muito, muito acima dos homens.
          Ah!... Não fosse a poesia e o meu modo longínquo e tão próximo de estar dentro da estrela...
         Eu tenho o céu, o sonho sobre a cidade adormecida e todo o encantamento dos poemas com que alimento a minha esperança à noite e recomeço o dia.
         Ah!... Não fosse a poesia, nada, nada justificaria a minha vida...


Valéria Áureo 


Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida- 2004

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Saltos, sapatos e sapatilhas


                                         Ilustração : Internet

Sua fala não parece mais tão agradável e compreensível. Ainda ontem ela conversava tão bem, com uma voz doce e límpida. Perguntou à filha as horas. Hora de dormir e sonhar, disse a jovem.  A mãe se acomodou diante da televisão. Vieram-lhe à mente, logo no primeiro sono, matizes de sapatilhas, sapatos, sandálias, saltos... Talvez ela soubesse dançar... Não tinha certeza. Perguntou à filha se sabia dançar; não a filha, ela! Insistiu e a filha disse que não. Agora dorme! Ela ainda conseguia se lembrar da noite em que, entre o francês e o português que sempre falara tão bem, as palavras começaram a lhe faltar.

Eram tantas as palavras, de tão diferentes fontes e sabores, que cabiam àquela mulher, que agora estranhamente, todas elas se resumiam a pés e sapatos. Estava aprisionada no campo semântico de saltos, solas, scarpins... As palavras concentravam em si tamanha quantidade de significados e evocações, que algumas delas já não conseguia guardar, sem que antes tivesse que perguntar à filha. Sabia que, ainda ontem, alguém (preferia não dizer o nome dele) gostava de presenteá-la com lindos sapatos; aliás, quase todas as semanas. Sapatilhas, sapatos, sandálias, saltos... Eram tantos os enfeites que ele dava para aqueles pés delicados e pequenos, que ela mal conseguira usá-los! Eles formavam um casal atraente que ia a muitos lugares juntos.  Os generosos mimos que ele lhe dava faziam parte desse encantamento de estar simbolicamente junto dela. Era um perene saber por onde ela andava, o que alentava o coração dos dois. Ele mantinha a ilusão de que controlava os seus passos, ou que estava sempre por perto, quando ela andasse sozinha.
Agora ele (não quer dizer de quem se trata) estava distante dela.  Os adornos ficaram presos no tempo, em que ambos percorriam de mãos dadas os mesmos lugares. Naquele tempo os passos da sua bela Condessa Descalça ao seu lado eram alcançáveis e seu destino comum era resguardado.  Depois que os pés dela tomaram outro rumo (tragicamente traçado por ele, em um arroubo de ciúmes), a vida dos dois mudou definitivamente. Ambos viveram separados em seus destinos, e chegaram em uma idade, em que só sabiam apresentar um tímido arrazoado de sons impenetráveis (cada um em seu mundo). A volúpia comum do íntimo entendimento de outrora estava preservada nas caixas de sapatos que chegavam pelo Sedex... Preferiu guardar para si o nome dele. Mais uma noite... Mais uma vez ela suspirou tristemente mirando os pés descalços.

Autora: Valéria Áureo

In Entre Mentes e Corações 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Carnaval


Largue tudo de uma vez, sob os olhares estupefatos à sua volta. Estupor composto de uma cara de louco, de espanto, ou de horror. Você assegurou que faria isso, caso perdesse a aposta. Pois perdeu! Não tenha dúvidas do que a sua decisão vai provocar, mas não se importe tanto assim. O importante é pagar a aposta. Em torno de si, haverá falatório, ou um silencio irrequieto e perigoso para endossar a estupefação geral. Quem diria! ... Vestido de mulher!
Com gestos mais calmos que todo o assombro que vai provocar, dê um largo adeus ao trabalho do dia, ao rigor da rotina, ao peso do mês, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora marcada pelos amigos gozadores. Afinal, aposta é aposta! Os que estiveram em casa ocupados indagarão sobre você e a absurda novidade; e sua performance será propagada aos quatro ventos pelo Instagran, com sussurros de recriminação ou aprovação. Quem diria!
Convém não responder aos olhares interrogativos, com ofensas, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instalará sobre a sua vida. Mas não exagere na medida de sua atuação e suba sem demora ao quarto, libertando-se aí das meias e dos sapatos apertados, tirando a roupa suada do trabalho, como se retirasse a gravidade das coisas do seu escritório. Ponha-se enfim em vestes mínimas, coloridas e rendadas, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido e o nosso), aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Isso é uma brincadeira! Feito uma estrela em ascensão, de rumo incerto, assome depois com a discreta nudez da perna em meia fina, no alto da escada e avance dois passos como se fosse desmoronar em um salto mortal, silenciando de vez, o surto abafado dos comentários e risos. Não seja caricato; seja natural. Aposta é aposta! É carnaval!
Nada de grandes ousadias, que possam ultrapassar o limite dos longuíssimos cílios postiços, as unhas vermelhas, a peruca loura, o vestido longo. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (incrédulos!) dos pobres familiares e dos debochados amigos, que cobrem a boca com a mão, para estancar o grito de repúdio, ou a gargalhada, enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, exalando brilhos de estrasse e lantejoulas; circule pela casa toda como se andasse em um palco e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto das pessoas divertidas. Afinal, comporte-se, você perdeu a aposta.
Largue-se no meio do bloco das drag queens, como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: goze a fantasia de se sentir livre, embalado pelo mundo, não devendo nada para ninguém, nem mesmo a aposta, que agora está paga. Divirta-se, pois é carnaval. Permita-se rir um pouco.

Autora: Valéria Áureo
In Entre Mentes e Corações

sábado, 25 de janeiro de 2020

Invasão de Privacidade


                                   Ilustração: Internet

  
Esse é um fato verídico, ou quase, se não lhe falha a memória. A súbita narrativa desse senhor advém de uma provocação, de uma dúvida inesperada do jovem sobrinho: - o senhor já se apaixonou? ...
Ele é um homem com a mente senil, dotado de lembranças turvas, quase apagadas. Ao menos é o que pensam os familiares. Eles acreditam que aquela confusão mental constante é irreversível. Quando fica silencioso é até um alívio para os que não tem paciência de ouvir. Nem mesmo o médico pode assegurar diagnóstico definitivo sobre sua memória. Os mais próximos alegam que não há em nenhum ponto de sua fala, resquícios das experiências vividas e reais de sua juventude. Alegam que ele inventa, e inventa tudo. Tudo mentira! Não sabe o que diz! No entanto nada de definitivo evidencia o total desterro de suas recordações. Há momentos de pura lucidez. A narração dessa manhã de origem inesperada é naturalmente lenta e compassada, pois com o passar dos anos ele extenua o fôlego e perde toda a sua diligência na desenvoltura de falar. Hoje deu-se de saudades da costureira, da linda modista de Laranjeiras. Aquela dos olhos azuis, pele morena, boca vermelha... A mocinha vivia em um sobrado azul e branco, que ele sempre visitava. Além de ser próximo de sua casa, havia motivos costurados em um outro interesse mais pessoal - flertar. Sim, a mocinha era aquela que espetava o seu coração com alfinetes e agulhas de pontas finas e que cerzia o tecido de sua alma com pontinhos bem apertados, fazendo com que ele sentisse uma dor miúda e constante. Onde estaria ela, agora, a minha costureirinha?
O estranho nesse enredo de saudade abrupta é que em nenhum momento lhe falta decoro em revelar mais do que a elegância de um homem permite, mesmo passado na idade. Jamais revela até que ponto na costura ele foi com a modista. Será que ficou apenas no tirar medidas? No desfiar o tecido juntos? No fazer o desenho da camisa? No decidir-se pelo molde? Ao engajar-se no relato de suas lembranças, instigado pelo sobrinho, em momento algum foi interrompido, pois uma abrupta intervenção, uma pergunta fora de hora, uma dúvida a ser esclarecida faria com que as trilhas de sua mente se entrelaçassem, pondo em risco a retidão de suas recordações. Basta saber que a modista de sua memória é a moreninha do sobrado azul e branco e que, por isso, decidiu-se pelo terno azul e pela camisa branca.

O motivo de todo esse desvelo é para assegurar a integridade do velho saudosista. Uma pequena interferência, uma pergunta acarretaria um estrago em sua narrativa e descarrilaria a locomotiva dos trilhos de suas memórias, levando para longe a passageira, modista de sua lembrança. Basta saber que a costureira que habita a sua memória o acordou hoje de um sono denso, com espetadas doces e miúdas de alfinetes e agulhas, para que ele a distinguisse entre tantos pontos e tecidos. As ideias e lembranças dançam dentro dele sem a necessidade de mais costuras. É lá que ele vive - no atual momento - de sua narrativa, alinhavado, costurado, cercado de linhas, botões, fechos, texturas e sorrisos da costureira. Querer saber além disso, será invasão de privacidade.

Autora: Valéria Áureo
In: Entre mentes e Corações



sábado, 18 de janeiro de 2020

A Escolha da Sogra

                                                Ilustração Fonte: Internet

Personagens, conflitos, etc. Tudo está aí, exposto para ser visto e criticado ao seu prazer, caso não tenha o bom senso de se manter quieto em seu canto. Então aventure-se a dar palpite em vida alheia! ... Acredite, pois, no que eu falo; creia em tudo como se estivesse vivendo o espetáculo, vendo com os próprios olhos, ou sofrendo você mesmo as situações de conflito que vou narrar.
Nada mais sem lei, sem ordem e sem cerimônia, do que a sogra se meter na vida do único filho. Nada mais corriqueiro também quando ela invade a vida dele, tentando manter o domínio do território, sem se preocupar com as ofensivas e amargas investidas nas particularidades dele.
Quando o filho teve a ideia de apresentar a namorada, a mãe apavorou-se diante da alegria, da jovialidade, do frescor da moça. A jovem resplandecia em cores e aromas e tinha a leveza das madrugadas. Uma flor, aos olhos do moço. Radiante e feliz ela ria, ria, ria. Era mesmo a felicidade. Ele, ao lado dela, ria e era feliz.
A mãe fechou a cara. Limitou-se a dar a fatídica sentença em único veredito: afaste-se dela! Isso não é para você! É uma mulher da vida! Mulher de vida fácil! O filho, limitado em seu íntimo querer, covarde em suas parcas iniciativas e tíbio no poder de decisão acatou solenemente a sentença, no trânsito e julgado do supremo entender materno. Afastou-se da moça irradiante, com o coração dilacerado. Para a abandonada não deixou nenhum recurso apelatório. Sumiu da vida dela, subjugado por encanto materno e novenas. Levou tempo para esquecê-la, até encontrar uma outra, mais séria, mais recatada, mais contida em um vestido fechado e comprido. Finalmente lhe veio timidamente habitar o magoado coração, uma feminina imagem da penumbra. Ao apresenta-la à mãe, em sala de luz tíbia, ela logo a aprovou. Concedeu-lhes a bênção discreta e pouco depois se casaram. A esposa cheia de recato pouco ria e pouco falava. Movimentava-se pouco e nada a fazia rir. Nisso o marido a acompanhava. Andava pelas sombras em segredo acabrunhado. Na cabeça do moço ainda rondava a risada sadia e vívida da primeira namorada. A mulher da vida; vida fácil! ... Ao menos de sua vida, pensava.
Na primeira desavença a esposa desfechou-lhe um golpe fatal. Com a mesma frieza desalojou a faca e limpou-a sem constrangimentos. Não, não devia ter ouvido a mãe. Devia ter se casado com a mulher da sua vida. Mas já era tarde, bem tarde. Tinha escolhido a mulher da vida difícil. 

Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Conselho de Ano Novo

                                              Fonte: Internet


Não é prudente procurar chifre em cabeça de cavalo e nem pelo em ovo; muito menos inventar de subir em árvore para resgatar o gato maroto. Conselho de Réveillon para um amigo incauto, agora de pernas e braços quebrados. Tudo por causa do gato de sua estima, que fez o que é natural ao gato fazer: ser gato!
Então, caro amigo? Não sabe que gato voa, dá cambalhotas, faz contorcionismo, aparece, desaparece, escala, escapa, desliza, surfa, surta, pula, escapole, nada, atravessa gretas, arranha e faz alpinismo?

Ingenuidade desse amigo, que se diz azarado, subir no mais alto galho da árvore para tirar de lá o bichano. Então alguém já viu algum esqueleto de gato em árvore? Não viu e nem verá! Do mesmo jeito que o gato sobe, ele desce. Cabe ao dono ter paciência e aguardar o caminho natural da vida, sem muito alarde, sem alvoroço e pressa.
Para o Ano Novo eu recomendo prudência... Muita prudência, ainda mais para a turma da terceira idade. Sabedoria de dar tempo ao tempo. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém! Feliz 2020!

Autora: Valéria Áureo
Réveillon 2020

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Caso de Natal


- Posso me sentar?
- Desculpe-me, mas esse lugar está reservado para ele há anos, posso até dizer, a vida toda. Temos um encontro! A beleza de nosso encontro é a espera, a longa espera... A beleza da espera é um conceito estranho que se encrava no peito, não acha? Apraz a uns e a outros fere de maneira atroz.
A beleza da espera por ele, pode até ser triste, para alguns, disfarçada naquela árvore de natal da infância em que os sonhos eram os maiores e quase não se podia contê-los. A beleza é triste, ela diria! Não triste em si mesma, como as paredes cor de rosa dos corredores frios por onde circula a brisa, mas triste sim, do que há nela de fragilidade e incerteza.

O erro foi marcarem um encontro no Hawa Mahal, em Jalipur, na Índia. No Palácio dos Ventos desencontraram-se, como se ela fosse a estrela fugidia, arrancada à força do harém do marajá. Em um das janelas do palácio, entroncadas nos finos corredores, onde dançava o vento, ela ainda poderia avistá-lo bem distante, esmaecido nas poeiras cor- de- rosa, em seu trenó.
O erro foi marcarem um encontro tão longe de casa, se era ali, bem ali, na casa dela, que Papai Noel vivia.

Autora: Valéria Áureo
Natal de 2019

sábado, 23 de novembro de 2019

Ana, a cidade e o rio





 


          Ana estava decidida a vingar-se do marido.  Por tudo. Pela solidão, pela beleza que tinha ido embora, pela tristeza de ter vivido tão solitariamente naquela cidade. Ela ansiava viver, seguindo o ritmo do coração. Realizar os sonhos que atormentavam sua cabeça. Queria mais. Sempre quisera mais. Ele nunca percebera o seu tanto querer. Queria incriminá-lo, desvencilhar-se dele complicando o resto de sua existência. Morreria, porque era inevitável morrer. Todos morrem um dia. Ela anteciparia a morte, só para ele perceber que ela estivera viva todos esses anos. Ele a fizera morrer. Na verdade sempre se sentira meio morta, desejando a vida. Ele, ocupado demais, acreditava fazê-la feliz.
          Ana pensou em um jeito de morrer. Jogar-se do alto da Avenida Paulista não lhe faria justiça. Perderia num segundo a sua beleza, a leveza do rosto, a delicadeza dos movimentos, esmagada por carros velozes. E, nos jornais, seria uma notícia minúscula, no meio de tantas manchetes. As pessoas passariam indiferentes, apressadas, diante do corpo inerte, coberto por plástico e só.
          Ela queria mais, bem mais. Deixaria uma carta, de um possível amante, manchada de vinho, só para o marido sofrer, imaginando sua vida plena, embora ela só tivesse em torno de si um vazio. Ana queria incriminá-lo e numa última carícia, tocava as costas de seu amor, arranhando-lhe a pele, para que sob suas unhas restasse uma gota de sangue. Um último poema de amor, tecido fragilmente entre seus sussurros e sua solidão. O toque dos lábios dele, as lágrimas dela, os sonhos dos dois. O marido acreditou que ela estava feliz e abraçou-a com ternura, porque sempre a amou, e voltava todos os dias para ela. Depois saiu, engolido pela cidade, deixando-a só, querendo a vida.
          Ana guardava uma gota de sangue, para que o legista encontrasse os vestígios do criminoso. Faria tudo para que não tivessem dúvidas: o marido é o assassino. Da janela podia ver a rua, os carros com seus faróis acesos, no final da tarde. Sentindo-se cada vez mais aprisionada, riscava com a ponta dos dedos um último poema na vidraça embaçada da janela, traçando uma sentença de morte. As partículas de sangue coagulado serviam de tinta para o poema da libertação. Aprisionada na arquitetura feminina, sempre ansiava habitar um corpo de aventuras. Fazer-se outra... Viajar sozinha e, no caminho, desviar-se no aeroporto, e nem ouvir a última chamada para o avião. Perder-se no saguão. Fugir... E então perder toda a bagagem, e perder-se entre desconhecidos e decidir mudar o rumo da própria vida. Só por prazer. Sem lágrimas. Essa autonomia assustava Ana. As saias nada lhe conferiam. Só a fragilidade e o sorriso fugidio. Se assim não fosse ela poderia, cercada de amigos, sair, beber à noite, vasculhar o proibido, provar o que não prova, disfarçando a solidão. Ter histórias, cicatrizes, nódoas, mágoas de amantes, lenços e saudades.
           Mas Ana repete-se na repetição de sua mãe, refazendo diariamente a alma na costura de meninas, desejando o jeito masculino de querer. Ana queria muitos países; outras pessoas, distantes línguas. Queria a multidão da metrópole. Ao menos São Paulo, se o mundo fosse impossível. Queria romper com o dia, deleitar-se na noite, andar sozinha pelas ruas da cidade, buscando viadutos. Queria muitas histórias, acontecendo com ela. Queria ficar no bar, fumar, tossir, se embebedar, só para sentir-se livre e viva...
          Ana tinha seguido a vida. Todos os dias eram iguais, no previsto e inevitável desempenho de primeiro ter o sol e ao fim da vida a lua. Ana sofria. Ela sabia que existe o mundo... Ao menos São Paulo. Sabia que precisava romper a proposta da casa, de levantar-se, de arrumar, de cozinhar e pôr a mesa, de repetir-se a mãe, a avó na filha. Assim, restava-lhe a poesia, em uma gota de sangue, sob suas unhas, descrita no diário ou no vespertino, à luz do sol, às claras, no brilho do talher, no tempero, na fruta dura. Ana e o bordado, o fio de lã, a costura, o assoalho, as meias de pares dispersados, a alvura da toalha, o móvel encerado.  Lá fora a cidade espreitava a indecisão de Ana pelas ruas, arranha-céus ou pelo rio. Talvez se afogar no Tietê, porque ele também morria. Sim, afogar-se, só para ser levada livremente para onde ele bem quisesse. Mas Ana queria a cidade, queria o rio, queria vingar-se.
          Assim, restava para Ana a poesia pura. Escrita com uma gota de sangue. Refletida no cristal do lustre, repartida na janela, na íris, na cabeça, na divisão da hora, no meio do asfalto. Ela sabia, o mundo existe aqui dentro. Ela sabia, existe o mundo lá fora e decidiu partir, levando consigo uma gota de sangue como um poema. Sob as unhas, a última lembrança. A do amor que não deu certo. Nos pés as antigas águas do Tietê correriam com ela pela cidade, para se libertarem.
           Ana decidiu navegar... E não mais morrer. Navegar nas águas dos seus olhos, afogados no encantamento. Livres. Navegar no rio que se reflete n’água, espelhando nostálgico desejo de querer ser parte dele, afluente seu, seu leito, sua foz, seu nascedouro, para se proteger... Tietê que liberta Ana e que aprisiona Ana. Ela e seu corpo compõem a margem, refazendo com a pele branca a ordem natural das coisas depositadas no seu leito, composição e decomposição de seus extremos e de seus limites, longas pernas e moldura do rio.
          Ana, inconstante, se esqueceu de morrer, perdida na superfície da água escura. Quis sorrir para clarear as águas. Perdeu-se no seu céu, repartindo-se por toda São Paulo, como se seus dedos longos e finos, fossem afluentes do amor, enquanto via nuvens entre intervalos dos edifícios. Ana repetiu-se na sua trajetória, apaixonada pela cidade, sob a dor de seu cristal partido, do seu peixe aprisionado e seu anzol. Ana vergou-se sob o peso das lágrimas comprometidas com outras águas da terra, ameaçadas, esperando os carros passarem; ela parada no semáforo. Sozinha, lembrando o amor que não deu certo, o Tietê corre, porque dentro de Ana também correm lágrimas.
          Ela trouxe o rio no coração, para não ter que se matar. Trouxe o Tietê, no seu último canto, no seu testamento poético, meditando sobre a própria existência, indagando sobre a aspereza e a indiferença do mundo, diante da morte dos dois, querendo saber se haveria vida melhor, prenunciando seu último mergulho. Parece que de seu rio recebeu o alento do último canto. Ana, sozinha, queria o primeiro canto, construir-se ribeirinha, nascida para o poema e suas águas. Ela queria afogar-se só em palavras, para dizer: amo-te São Paulo. Meu rio, nós somos iguais...
          Ana, sozinha, quis sobreviver da profundeza de sua solidão. Quis da cidade o primeiro sonho sem acordar, o primeiro mergulho sem afogar-se, o primeiro amor sem se perder. Ana e o primeiro corpo nu, o primeiro coração parado. Ana, sozinha, quis do rio o primeiro coração batendo forte, a primeira arritmia, a primeira distância percorrida, a primeira volta para casa.
Resoluta Ana saiu pela cidade, tentando explicar-se, tentando recolher-se num copo de águas cristalinas. Aquelas do Tietê.  Para não morrer, para não ter que se matar e incriminar o marido pela solidão repartida. Ana libertou-se, aprisionou-se no rio, em papéis, em letras, para preservar águas e fluxo, correnteza e corredeira, redemoinho e movimento, debilitada no seu limo, seu seixo perdido, enquanto escrevia um poema com gota de sangue, do último encontro com o seu amor.
          Ana carregou lágrimas, recolhidas na calçada, enquanto via os outdoors.  Carregou mágoas como o rio carrega águas que foram puras, mas decidiu viver, trazendo nas unhas um poema de sangue e a esperança de ser feliz e os seus cabelos são ondas que invadem o oceano.
Onde ela pode desaguar-se, se é distante o oceano, senão em outro rio?
         Ana navegou no Tietê de São Paulo e sorriu. E o rio clareou.

Autora: Valéria Áureo
Prêmio 450 Anos de São Paulo - Coletânea de textos premiados.