Não fosse a poesia, nada mais seria possível, apenas um dia igual: amanhecer engolindo sem sentir a pressa e o gosto, minutos e café. Engolir a própria fome. Descer barranco abaixo sob a chuva fria, contornando o vento, a pobreza, ruelas estreitas e a solidão. Ser aprisionado pela vida no compromisso do sol com a luz, do galo com o canto, enquanto o pássaro aprecia preso na gaiola, a minha solidão. Eu, do lado de fora, em declarada ousadia, invado o inevitável dia. Começo tudo de novo, teimosamente. Recomponho na aridez do meu espaço aquilo que meu coração precisa para sobreviver. Tudo, sem repetir-se na óbvia sequência do dia: estar sempre desvendando trevas e tristezas, alternando sol e lua, buscando a cada instante alguma coisa que justifique a vida. Mas, na repetição diária de escolher os grãos de arroz, o coração fugitivo da rotina dedilha sílabas, compõe poemas e versos mosaicos sobre a mesa tosca. Não importa quanto falte, não importa quanto tudo me faz falta. Separo as pedras do arroz e da própria existência, porque só estão ali para pesar. Separo e rejeito o sofrimento como pedras recolhidas entre os grãos brancos. A água da torneira improvisada escorre pela humilde louça, delineando um rio pia abaixo no novo destino do latão. As mãos limpam o peixe para o almoço, desvencilhando-o de entranhas e de escamas madrepérolas. O coração extasiado, reflexo da alma, deslumbra os movimentos do peixe antes, inexistentes agora; não mais livre na água fria do rio que só eu vejo.
Eu pensava: os peixes são para os rios, como eu fui feito para voar. Em minhas mãos não há anéis, senão estrelas, pedras verdes, encantamentos sob o rio que eu refaço e que contenho entre os dedos. Talvez feito de lágrimas ou águas que escorrem morro abaixo, na composição da chuva insistente e o lamaçal. Aprisiono a vida, enquanto escamo o peixe agora inerte. Rola pela minha boca a palavra dolorida, como um anzol fisgado na guelra lacerada. Nós dois assim, mutilados, temos nos comunicado no silêncio, enquanto relâmpagos acendem violetas nos meus olhos. Ah!...Não fosse a poesia...
Ponho a mesa, estendo a toalha, visto a ceia em linho de sacos de trigo alvejados. Brancura farta na imensidão da mesa quase vazia. No coração as escamas arrancadas são cordilheiras, envoltas em fubá dourado, dorso do peixe servido à mesa, aprisionado na imobilidade do prato. Meus olhos jorram maremotos, enquanto a espinha travada na garganta anuncia a minha fragilidade. Na minha alma o peixe ainda nada esguio, escorregadio pela minha boca, restaurando a possibilidade de todos os sonhos e viagens. Penso na casa, na pouca comida, nas crianças, na vida... Mergulho na humildade de minha mesa tentando preencher o vazio dos pratos, alcançar o último nado, o naufrágio, as frias fossas sob as grutas. Do teto escorrem goteiras, esculpidos cristais em grutas, estalactites, lustres imaginários insinuando arquitetura dos anjos ou, quem sabe, lágrimas minhas, lágrimas dos meus filhos, lágrimas de Deus.
Seria só um dia a mais no barraco úmido, não fosse a suavidade do vento compondo com a noite uma sinfonia depois da chuva. O vento cicia nas folhas de zinco e ouço violinos... Barro, barraco, barranco, briga, barulho, berreiro de crianças. Quantos sons desencontrados e os silêncios misturados. E quando a escuridão cobre a favela depois que a chuva passa, eu posso abrir a minha caixa de joias, eternamente ao meu alcance, simplesmente olhando para o céu... A primeira estrela que eu vejo, parece minha. Parece perto, parece sim. Eu a toco com a ponta dos dedos e a faço repousar como aliança, pássaro solto na palma da mão. Meu diamante solitário, brilho de esmeralda e alguma coisa de mim. Certamente a esperança... Ignoro tudo: um desassossego, um presságio, um jeito de solitário manter-se aflito no ar, um oceano de chapéus acenando despedidas... Beijos jogados ao léu, ruídos do espatifar de um cristal, que ouço em lugar dos gritos. Mas é meu todo aquele céu cravejado de brilhos. Meu, só meu, porque o alcanço com olhos e o desvendo com o coração. Posso tê-lo e guardá-lo onde sempre soube estar. Tão livre, tão à mercê de todos e ninguém pode tirá-lo. É... Ninguém o rouba de mim, nem o percebem. Não sei se longínqua ou próxima a minha fortuna.
Uma eternidade provável eu percorro com os olhos e vejo toda constelação absolutamente livre no ar. Não avisto tetos de papelão, paredes de compensado, lixo amontoado, água escorrendo e lamaceiro. Não ouço os tiros, não ouço choro de crianças, esqueço-me da fome. Não sinto cheiros. Não percebo as entranhas da miséria. Estão expostas em esgoto e negrume luzidio. Meus olhos alcançam além das estrelas, muito acima das casas, muito, muito acima dos homens.
Ah!... Não fosse a poesia e o meu modo longínquo e tão próximo de estar dentro da estrela...
Eu tenho o céu, o sonho sobre a cidade adormecida e todo o encantamento dos poemas com que alimento a minha esperança à noite e recomeço o dia.
Ah!... Não fosse a poesia, nada, nada justificaria a minha vida...
Valéria Áureo
Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida- 2004
Apresentação
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quarta-feira, 11 de março de 2020
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Saltos, sapatos e sapatilhas
Ilustração : Internet
Sua fala não parece mais tão
agradável e compreensível. Ainda ontem ela conversava tão bem, com uma voz doce
e límpida. Perguntou à filha as horas. Hora de dormir e sonhar, disse a
jovem. A mãe se acomodou diante da televisão. Vieram-lhe à mente, logo no
primeiro sono, matizes de sapatilhas, sapatos, sandálias, saltos... Talvez ela
soubesse dançar... Não tinha certeza. Perguntou à filha se sabia dançar; não a
filha, ela! Insistiu e a filha disse que não. Agora dorme! Ela ainda conseguia
se lembrar da noite em que, entre o francês e o português que sempre falara tão
bem, as palavras começaram a lhe faltar.
Eram tantas as palavras, de tão
diferentes fontes e sabores, que cabiam àquela mulher, que agora estranhamente,
todas elas se resumiam a pés e sapatos. Estava aprisionada no campo semântico
de saltos, solas, scarpins... As palavras concentravam em si tamanha quantidade
de significados e evocações, que algumas delas já não conseguia guardar, sem
que antes tivesse que perguntar à filha. Sabia que, ainda ontem, alguém
(preferia não dizer o nome dele) gostava de presenteá-la com lindos sapatos;
aliás, quase todas as semanas. Sapatilhas, sapatos, sandálias, saltos... Eram
tantos os enfeites que ele dava para aqueles pés delicados e pequenos, que ela
mal conseguira usá-los! Eles formavam um casal atraente que ia a muitos lugares
juntos. Os generosos mimos que ele lhe dava faziam parte desse
encantamento de estar simbolicamente junto dela. Era um perene saber por onde
ela andava, o que alentava o coração dos dois. Ele mantinha a ilusão de que
controlava os seus passos, ou que estava sempre por perto, quando ela andasse
sozinha.
Agora ele (não quer dizer de quem
se trata) estava distante dela. Os adornos ficaram presos no tempo, em
que ambos percorriam de mãos dadas os mesmos lugares. Naquele tempo os passos
da sua bela Condessa Descalça ao seu lado eram alcançáveis e seu destino comum
era resguardado. Depois que os pés dela tomaram outro rumo (tragicamente
traçado por ele, em um arroubo de ciúmes), a vida dos dois mudou
definitivamente. Ambos viveram separados em seus destinos, e chegaram em uma
idade, em que só sabiam apresentar um tímido arrazoado de sons impenetráveis
(cada um em seu mundo). A volúpia comum do íntimo entendimento de outrora
estava preservada nas caixas de sapatos que chegavam pelo
Sedex... Preferiu guardar para si o nome dele. Mais uma noite... Mais uma
vez ela suspirou tristemente mirando os pés descalços.
Autora: Valéria Áureo
In Entre Mentes e Corações
sábado, 22 de fevereiro de 2020
Carnaval
Largue tudo de uma vez, sob os olhares estupefatos à sua volta. Estupor composto de uma cara de louco, de espanto, ou de horror. Você assegurou que faria isso, caso perdesse a aposta. Pois perdeu! Não tenha dúvidas do que a sua decisão vai provocar, mas não se importe tanto assim. O importante é pagar a aposta. Em torno de si, haverá falatório, ou um silencio irrequieto e perigoso para endossar a estupefação geral. Quem diria! ... Vestido de mulher!
Com gestos mais calmos que todo o assombro que vai provocar, dê um largo adeus ao trabalho do dia, ao rigor da rotina, ao peso do mês, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora marcada pelos amigos gozadores. Afinal, aposta é aposta! Os que estiveram em casa ocupados indagarão sobre você e a absurda novidade; e sua performance será propagada aos quatro ventos pelo Instagran, com sussurros de recriminação ou aprovação. Quem diria!
Convém não responder aos olhares interrogativos, com ofensas, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instalará sobre a sua vida. Mas não exagere na medida de sua atuação e suba sem demora ao quarto, libertando-se aí das meias e dos sapatos apertados, tirando a roupa suada do trabalho, como se retirasse a gravidade das coisas do seu escritório. Ponha-se enfim em vestes mínimas, coloridas e rendadas, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido e o nosso), aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Isso é uma brincadeira! Feito uma estrela em ascensão, de rumo incerto, assome depois com a discreta nudez da perna em meia fina, no alto da escada e avance dois passos como se fosse desmoronar em um salto mortal, silenciando de vez, o surto abafado dos comentários e risos. Não seja caricato; seja natural. Aposta é aposta! É carnaval!
Nada de grandes ousadias, que possam ultrapassar o limite dos longuíssimos cílios postiços, as unhas vermelhas, a peruca loura, o vestido longo. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (incrédulos!) dos pobres familiares e dos debochados amigos, que cobrem a boca com a mão, para estancar o grito de repúdio, ou a gargalhada, enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, exalando brilhos de estrasse e lantejoulas; circule pela casa toda como se andasse em um palco e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto das pessoas divertidas. Afinal, comporte-se, você perdeu a aposta.
Largue-se no meio do bloco das drag queens, como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: goze a fantasia de se sentir livre, embalado pelo mundo, não devendo nada para ninguém, nem mesmo a aposta, que agora está paga. Divirta-se, pois é carnaval. Permita-se rir um pouco.
Com gestos mais calmos que todo o assombro que vai provocar, dê um largo adeus ao trabalho do dia, ao rigor da rotina, ao peso do mês, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora marcada pelos amigos gozadores. Afinal, aposta é aposta! Os que estiveram em casa ocupados indagarão sobre você e a absurda novidade; e sua performance será propagada aos quatro ventos pelo Instagran, com sussurros de recriminação ou aprovação. Quem diria!
Convém não responder aos olhares interrogativos, com ofensas, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instalará sobre a sua vida. Mas não exagere na medida de sua atuação e suba sem demora ao quarto, libertando-se aí das meias e dos sapatos apertados, tirando a roupa suada do trabalho, como se retirasse a gravidade das coisas do seu escritório. Ponha-se enfim em vestes mínimas, coloridas e rendadas, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido e o nosso), aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Isso é uma brincadeira! Feito uma estrela em ascensão, de rumo incerto, assome depois com a discreta nudez da perna em meia fina, no alto da escada e avance dois passos como se fosse desmoronar em um salto mortal, silenciando de vez, o surto abafado dos comentários e risos. Não seja caricato; seja natural. Aposta é aposta! É carnaval!
Nada de grandes ousadias, que possam ultrapassar o limite dos longuíssimos cílios postiços, as unhas vermelhas, a peruca loura, o vestido longo. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (incrédulos!) dos pobres familiares e dos debochados amigos, que cobrem a boca com a mão, para estancar o grito de repúdio, ou a gargalhada, enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, exalando brilhos de estrasse e lantejoulas; circule pela casa toda como se andasse em um palco e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto das pessoas divertidas. Afinal, comporte-se, você perdeu a aposta.
Largue-se no meio do bloco das drag queens, como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: goze a fantasia de se sentir livre, embalado pelo mundo, não devendo nada para ninguém, nem mesmo a aposta, que agora está paga. Divirta-se, pois é carnaval. Permita-se rir um pouco.
Autora: Valéria Áureo
In Entre Mentes e Corações
sábado, 25 de janeiro de 2020
Invasão de Privacidade
Ilustração: Internet
Esse é um fato verídico, ou quase, se não lhe falha a
memória. A súbita narrativa desse senhor advém de uma provocação, de uma dúvida
inesperada do jovem sobrinho: - o senhor já se apaixonou? ...
Ele é um homem com a mente senil, dotado de lembranças
turvas, quase apagadas. Ao menos é o que pensam os familiares. Eles acreditam
que aquela confusão mental constante é irreversível. Quando fica silencioso é
até um alívio para os que não tem paciência de ouvir. Nem mesmo o médico pode
assegurar diagnóstico definitivo sobre sua memória. Os mais próximos alegam que
não há em nenhum ponto de sua fala, resquícios das experiências vividas e reais
de sua juventude. Alegam que ele inventa, e inventa tudo. Tudo mentira! Não
sabe o que diz! No entanto nada de definitivo evidencia o total desterro de
suas recordações. Há momentos de pura lucidez. A narração dessa manhã de origem
inesperada é naturalmente lenta e compassada, pois com o passar dos anos ele
extenua o fôlego e perde toda a sua diligência na desenvoltura de falar. Hoje
deu-se de saudades da costureira, da linda modista de Laranjeiras. Aquela dos
olhos azuis, pele morena, boca vermelha... A mocinha vivia em um sobrado azul e
branco, que ele sempre visitava. Além de ser próximo de sua casa, havia motivos
costurados em um outro interesse mais pessoal - flertar. Sim, a mocinha era
aquela que espetava o seu coração com alfinetes e agulhas de pontas finas e que
cerzia o tecido de sua alma com pontinhos bem apertados, fazendo com que ele
sentisse uma dor miúda e constante. Onde estaria ela, agora, a minha
costureirinha?
O estranho nesse enredo de saudade abrupta é que em nenhum
momento lhe falta decoro em revelar mais do que a elegância de um homem
permite, mesmo passado na idade. Jamais revela até que ponto na costura ele foi
com a modista. Será que ficou apenas no tirar medidas? No desfiar o tecido
juntos? No fazer o desenho da camisa? No decidir-se pelo molde? Ao engajar-se
no relato de suas lembranças, instigado pelo sobrinho, em momento algum foi
interrompido, pois uma abrupta intervenção, uma pergunta fora de hora, uma
dúvida a ser esclarecida faria com que as trilhas de sua mente se
entrelaçassem, pondo em risco a retidão de suas recordações. Basta saber que a
modista de sua memória é a moreninha do sobrado azul e branco e que, por isso,
decidiu-se pelo terno azul e pela camisa branca.
O motivo de todo esse desvelo é para assegurar a integridade
do velho saudosista. Uma pequena interferência, uma pergunta acarretaria um
estrago em sua narrativa e descarrilaria a locomotiva dos trilhos de suas
memórias, levando para longe a passageira, modista de sua lembrança. Basta
saber que a costureira que habita a sua memória o acordou hoje de um sono
denso, com espetadas doces e miúdas de alfinetes e agulhas, para que ele a
distinguisse entre tantos pontos e tecidos. As ideias e lembranças dançam
dentro dele sem a necessidade de mais costuras. É lá que ele vive - no atual
momento - de sua narrativa, alinhavado, costurado, cercado de linhas, botões,
fechos, texturas e sorrisos da costureira. Querer saber além disso, será
invasão de privacidade.
Autora: Valéria Áureo
In: Entre mentes e Corações
sábado, 18 de janeiro de 2020
A Escolha da Sogra
Ilustração Fonte: Internet
Personagens, conflitos, etc. Tudo está aí, exposto para ser visto e criticado ao seu prazer, caso não tenha o bom senso de se manter quieto em seu canto. Então aventure-se a dar palpite em vida alheia! ... Acredite, pois, no que eu falo; creia em tudo como se estivesse vivendo o espetáculo, vendo com os próprios olhos, ou sofrendo você mesmo as situações de conflito que vou narrar.
Nada mais sem lei, sem ordem e sem cerimônia, do que a sogra se meter na vida do único filho. Nada mais corriqueiro também quando ela invade a vida dele, tentando manter o domínio do território, sem se preocupar com as ofensivas e amargas investidas nas particularidades dele.
Quando o filho teve a ideia de apresentar a namorada, a mãe apavorou-se diante da alegria, da jovialidade, do frescor da moça. A jovem resplandecia em cores e aromas e tinha a leveza das madrugadas. Uma flor, aos olhos do moço. Radiante e feliz ela ria, ria, ria. Era mesmo a felicidade. Ele, ao lado dela, ria e era feliz.
A mãe fechou a cara. Limitou-se a dar a fatídica sentença em único veredito: afaste-se dela! Isso não é para você! É uma mulher da vida! Mulher de vida fácil! O filho, limitado em seu íntimo querer, covarde em suas parcas iniciativas e tíbio no poder de decisão acatou solenemente a sentença, no trânsito e julgado do supremo entender materno. Afastou-se da moça irradiante, com o coração dilacerado. Para a abandonada não deixou nenhum recurso apelatório. Sumiu da vida dela, subjugado por encanto materno e novenas. Levou tempo para esquecê-la, até encontrar uma outra, mais séria, mais recatada, mais contida em um vestido fechado e comprido. Finalmente lhe veio timidamente habitar o magoado coração, uma feminina imagem da penumbra. Ao apresenta-la à mãe, em sala de luz tíbia, ela logo a aprovou. Concedeu-lhes a bênção discreta e pouco depois se casaram. A esposa cheia de recato pouco ria e pouco falava. Movimentava-se pouco e nada a fazia rir. Nisso o marido a acompanhava. Andava pelas sombras em segredo acabrunhado. Na cabeça do moço ainda rondava a risada sadia e vívida da primeira namorada. A mulher da vida; vida fácil! ... Ao menos de sua vida, pensava.
Na primeira desavença a esposa desfechou-lhe um golpe fatal. Com a mesma frieza desalojou a faca e limpou-a sem constrangimentos. Não, não devia ter ouvido a mãe. Devia ter se casado com a mulher da sua vida. Mas já era tarde, bem tarde. Tinha escolhido a mulher da vida difícil.
Personagens, conflitos, etc. Tudo está aí, exposto para ser visto e criticado ao seu prazer, caso não tenha o bom senso de se manter quieto em seu canto. Então aventure-se a dar palpite em vida alheia! ... Acredite, pois, no que eu falo; creia em tudo como se estivesse vivendo o espetáculo, vendo com os próprios olhos, ou sofrendo você mesmo as situações de conflito que vou narrar.
Nada mais sem lei, sem ordem e sem cerimônia, do que a sogra se meter na vida do único filho. Nada mais corriqueiro também quando ela invade a vida dele, tentando manter o domínio do território, sem se preocupar com as ofensivas e amargas investidas nas particularidades dele.
Quando o filho teve a ideia de apresentar a namorada, a mãe apavorou-se diante da alegria, da jovialidade, do frescor da moça. A jovem resplandecia em cores e aromas e tinha a leveza das madrugadas. Uma flor, aos olhos do moço. Radiante e feliz ela ria, ria, ria. Era mesmo a felicidade. Ele, ao lado dela, ria e era feliz.
A mãe fechou a cara. Limitou-se a dar a fatídica sentença em único veredito: afaste-se dela! Isso não é para você! É uma mulher da vida! Mulher de vida fácil! O filho, limitado em seu íntimo querer, covarde em suas parcas iniciativas e tíbio no poder de decisão acatou solenemente a sentença, no trânsito e julgado do supremo entender materno. Afastou-se da moça irradiante, com o coração dilacerado. Para a abandonada não deixou nenhum recurso apelatório. Sumiu da vida dela, subjugado por encanto materno e novenas. Levou tempo para esquecê-la, até encontrar uma outra, mais séria, mais recatada, mais contida em um vestido fechado e comprido. Finalmente lhe veio timidamente habitar o magoado coração, uma feminina imagem da penumbra. Ao apresenta-la à mãe, em sala de luz tíbia, ela logo a aprovou. Concedeu-lhes a bênção discreta e pouco depois se casaram. A esposa cheia de recato pouco ria e pouco falava. Movimentava-se pouco e nada a fazia rir. Nisso o marido a acompanhava. Andava pelas sombras em segredo acabrunhado. Na cabeça do moço ainda rondava a risada sadia e vívida da primeira namorada. A mulher da vida; vida fácil! ... Ao menos de sua vida, pensava.
Na primeira desavença a esposa desfechou-lhe um golpe fatal. Com a mesma frieza desalojou a faca e limpou-a sem constrangimentos. Não, não devia ter ouvido a mãe. Devia ter se casado com a mulher da sua vida. Mas já era tarde, bem tarde. Tinha escolhido a mulher da vida difícil.
Autora: Valéria Áureo
In: Entre Mentes e Corações
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
Conselho de Ano Novo
Fonte: Internet
Não é prudente procurar chifre em cabeça de cavalo e nem pelo em ovo; muito menos inventar de subir em árvore para resgatar o gato maroto. Conselho de Réveillon para um amigo incauto, agora de pernas e braços quebrados. Tudo por causa do gato de sua estima, que fez o que é natural ao gato fazer: ser gato!
Então, caro amigo? Não sabe que gato voa, dá cambalhotas, faz contorcionismo, aparece, desaparece, escala, escapa, desliza, surfa, surta, pula, escapole, nada, atravessa gretas, arranha e faz alpinismo?
Ingenuidade desse amigo, que se diz azarado, subir no mais alto galho da árvore para tirar de lá o bichano. Então alguém já viu algum esqueleto de gato em árvore? Não viu e nem verá! Do mesmo jeito que o gato sobe, ele desce. Cabe ao dono ter paciência e aguardar o caminho natural da vida, sem muito alarde, sem alvoroço e pressa.
Para o Ano Novo eu recomendo prudência... Muita prudência, ainda mais para a turma da terceira idade. Sabedoria de dar tempo ao tempo. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém! Feliz 2020!
Autora: Valéria Áureo
Réveillon 2020
Réveillon 2020
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
Caso de Natal
- Posso me sentar?
- Desculpe-me, mas esse lugar está reservado para ele há anos, posso até dizer, a vida toda. Temos um encontro! A beleza de nosso encontro é a espera, a longa espera... A beleza da espera é um conceito estranho que se encrava no peito, não acha? Apraz a uns e a outros fere de maneira atroz.
A beleza da espera por ele, pode até ser triste, para alguns, disfarçada naquela árvore de natal da infância em que os sonhos eram os maiores e quase não se podia contê-los. A beleza é triste, ela diria! Não triste em si mesma, como as paredes cor de rosa dos corredores frios por onde circula a brisa, mas triste sim, do que há nela de fragilidade e incerteza.
- Desculpe-me, mas esse lugar está reservado para ele há anos, posso até dizer, a vida toda. Temos um encontro! A beleza de nosso encontro é a espera, a longa espera... A beleza da espera é um conceito estranho que se encrava no peito, não acha? Apraz a uns e a outros fere de maneira atroz.
A beleza da espera por ele, pode até ser triste, para alguns, disfarçada naquela árvore de natal da infância em que os sonhos eram os maiores e quase não se podia contê-los. A beleza é triste, ela diria! Não triste em si mesma, como as paredes cor de rosa dos corredores frios por onde circula a brisa, mas triste sim, do que há nela de fragilidade e incerteza.
O erro foi marcarem um encontro no Hawa Mahal, em Jalipur, na Índia. No Palácio dos Ventos desencontraram-se, como se ela fosse a estrela fugidia, arrancada à força do harém do marajá. Em um das janelas do palácio, entroncadas nos finos corredores, onde dançava o vento, ela ainda poderia avistá-lo bem distante, esmaecido nas poeiras cor- de- rosa, em seu trenó.
O erro foi marcarem um encontro tão longe de casa, se era ali, bem ali, na casa dela, que Papai Noel vivia.
O erro foi marcarem um encontro tão longe de casa, se era ali, bem ali, na casa dela, que Papai Noel vivia.
Autora: Valéria Áureo
Natal de 2019
sábado, 23 de novembro de 2019
Ana, a cidade e o rio
Ana
estava decidida a vingar-se do marido.
Por tudo. Pela solidão, pela beleza que tinha ido embora, pela tristeza
de ter vivido tão solitariamente naquela cidade. Ela ansiava viver, seguindo o
ritmo do coração. Realizar os sonhos que atormentavam sua cabeça. Queria mais.
Sempre quisera mais. Ele nunca percebera o seu tanto querer. Queria
incriminá-lo, desvencilhar-se dele complicando o resto de sua existência.
Morreria, porque era inevitável morrer. Todos morrem um dia. Ela anteciparia a
morte, só para ele perceber que ela estivera viva todos esses anos. Ele a
fizera morrer. Na verdade sempre se sentira meio morta, desejando a vida. Ele,
ocupado demais, acreditava fazê-la feliz.
Ana
pensou em um jeito de morrer. Jogar-se do alto da Avenida Paulista não lhe
faria justiça. Perderia num segundo a sua beleza, a leveza do rosto, a
delicadeza dos movimentos, esmagada por carros velozes. E, nos jornais, seria
uma notícia minúscula, no meio de tantas manchetes. As pessoas passariam
indiferentes, apressadas, diante do corpo inerte, coberto por plástico e só.
Ela
queria mais, bem mais. Deixaria uma carta, de um possível amante, manchada de
vinho, só para o marido sofrer, imaginando sua vida plena, embora ela só
tivesse em torno de si um vazio. Ana queria incriminá-lo e numa última carícia,
tocava as costas de seu amor, arranhando-lhe a pele, para que sob suas unhas
restasse uma gota de sangue. Um último poema de amor, tecido fragilmente entre
seus sussurros e sua solidão. O toque dos lábios dele, as lágrimas dela, os
sonhos dos dois. O marido acreditou que ela estava feliz e abraçou-a com
ternura, porque sempre a amou, e voltava todos os dias para ela. Depois saiu,
engolido pela cidade, deixando-a só, querendo a vida.
Ana
guardava uma gota de sangue, para que o legista encontrasse os vestígios do
criminoso. Faria tudo para que não tivessem dúvidas: o marido é o assassino. Da
janela podia ver a rua, os carros com seus faróis acesos, no final da tarde.
Sentindo-se cada vez mais aprisionada, riscava com a ponta dos dedos um último
poema na vidraça embaçada da janela, traçando uma sentença de morte. As
partículas de sangue coagulado serviam de tinta para o poema da libertação.
Aprisionada na arquitetura feminina, sempre ansiava habitar um corpo de
aventuras. Fazer-se outra... Viajar sozinha e, no caminho, desviar-se no
aeroporto, e nem ouvir a última chamada para o avião. Perder-se no saguão.
Fugir... E então perder toda a bagagem, e perder-se entre desconhecidos e
decidir mudar o rumo da própria vida. Só por prazer. Sem lágrimas. Essa
autonomia assustava Ana. As saias nada lhe conferiam. Só a fragilidade e o
sorriso fugidio. Se assim não fosse ela poderia, cercada de amigos, sair, beber
à noite, vasculhar o proibido, provar o que não prova, disfarçando a solidão.
Ter histórias, cicatrizes, nódoas, mágoas de amantes, lenços e saudades.
Mas
Ana repete-se na repetição de sua mãe, refazendo diariamente a alma na costura
de meninas, desejando o jeito masculino de querer. Ana queria muitos países;
outras pessoas, distantes línguas. Queria a multidão da metrópole. Ao menos São
Paulo, se o mundo fosse impossível. Queria romper com o dia, deleitar-se na
noite, andar sozinha pelas ruas da cidade, buscando viadutos. Queria muitas
histórias, acontecendo com ela. Queria ficar no bar, fumar, tossir, se
embebedar, só para sentir-se livre e viva...
Ana
tinha seguido a vida. Todos os dias eram iguais, no previsto e inevitável
desempenho de primeiro ter o sol e ao fim da vida a lua. Ana sofria. Ela sabia
que existe o mundo... Ao menos São Paulo. Sabia que precisava romper a proposta
da casa, de levantar-se, de arrumar, de cozinhar e pôr a mesa, de repetir-se a
mãe, a avó na filha. Assim, restava-lhe a poesia, em uma gota de sangue, sob
suas unhas, descrita no diário ou no vespertino, à luz do sol, às claras, no
brilho do talher, no tempero, na fruta dura. Ana e o bordado, o fio de lã, a
costura, o assoalho, as meias de pares dispersados, a alvura da toalha, o móvel
encerado. Lá fora a cidade espreitava a
indecisão de Ana pelas ruas, arranha-céus ou pelo rio. Talvez se afogar no
Tietê, porque ele também morria. Sim, afogar-se, só para ser levada livremente
para onde ele bem quisesse. Mas Ana queria a cidade, queria o rio, queria
vingar-se.
Assim,
restava para Ana a poesia pura. Escrita com uma gota de sangue. Refletida no
cristal do lustre, repartida na janela, na íris, na cabeça, na divisão da hora,
no meio do asfalto. Ela sabia, o mundo existe aqui dentro. Ela sabia, existe o
mundo lá fora e decidiu partir, levando consigo uma gota de sangue como um
poema. Sob as unhas, a última lembrança. A do amor que não deu certo. Nos pés
as antigas águas do Tietê correriam com ela pela cidade, para se libertarem.
Ana decidiu navegar...
E não mais morrer. Navegar nas águas dos seus olhos, afogados no encantamento.
Livres. Navegar no rio que se reflete n’água, espelhando nostálgico desejo de
querer ser parte dele, afluente seu, seu leito, sua foz, seu nascedouro, para
se proteger... Tietê que liberta Ana e que aprisiona Ana. Ela e seu corpo
compõem a margem, refazendo com a pele branca a ordem natural das coisas
depositadas no seu leito, composição e decomposição de seus extremos e de seus
limites, longas pernas e moldura do rio.
Ana,
inconstante, se esqueceu de morrer, perdida na superfície da água escura. Quis
sorrir para clarear as águas. Perdeu-se no seu céu, repartindo-se por toda São
Paulo, como se seus dedos longos e finos, fossem afluentes do amor, enquanto
via nuvens entre intervalos dos edifícios. Ana repetiu-se na sua trajetória,
apaixonada pela cidade, sob a dor de seu cristal partido, do seu peixe
aprisionado e seu anzol. Ana vergou-se sob o peso das lágrimas comprometidas
com outras águas da terra, ameaçadas, esperando os carros passarem; ela parada
no semáforo. Sozinha, lembrando o amor que não deu certo, o Tietê corre, porque
dentro de Ana também correm lágrimas.
Ela trouxe
o rio no coração, para não ter que se matar. Trouxe o Tietê, no seu último
canto, no seu testamento poético, meditando sobre a própria existência,
indagando sobre a aspereza e a indiferença do mundo, diante da morte dos dois,
querendo saber se haveria vida melhor, prenunciando seu último mergulho. Parece
que de seu rio recebeu o alento do último canto. Ana, sozinha, queria o
primeiro canto, construir-se ribeirinha, nascida para o poema e suas águas. Ela
queria afogar-se só em palavras, para dizer: amo-te São Paulo. Meu rio, nós somos
iguais...
Ana,
sozinha, quis sobreviver da profundeza de sua solidão. Quis da cidade o
primeiro sonho sem acordar, o primeiro mergulho sem afogar-se, o primeiro amor
sem se perder. Ana e o primeiro corpo nu, o primeiro coração parado. Ana, sozinha,
quis do rio o primeiro coração batendo forte, a primeira arritmia, a primeira
distância percorrida, a primeira volta para casa.
Resoluta Ana saiu pela cidade, tentando explicar-se,
tentando recolher-se num copo de águas cristalinas. Aquelas do Tietê. Para não morrer, para não ter que se matar e
incriminar o marido pela solidão repartida. Ana libertou-se, aprisionou-se no
rio, em papéis, em letras, para preservar águas e fluxo, correnteza e
corredeira, redemoinho e movimento, debilitada no seu limo, seu seixo perdido,
enquanto escrevia um poema com gota de sangue, do último encontro com o seu
amor.
Ana
carregou lágrimas, recolhidas na calçada, enquanto via os outdoors. Carregou mágoas como o rio carrega águas que
foram puras, mas decidiu viver, trazendo nas unhas um poema de sangue e a
esperança de ser feliz e os seus cabelos são ondas que invadem o oceano.
Onde ela pode desaguar-se, se é distante o oceano,
senão em outro rio?
Ana
navegou no Tietê de São Paulo e sorriu. E o rio clareou.
Autora: Valéria Áureo
Prêmio 450 Anos de São Paulo - Coletânea de textos premiados.
terça-feira, 19 de novembro de 2019
A Palavra na Era da Imagem
- Menina, diz a mãe, vá brincar!... Vai ficar com as
pernas atrofiadas, tanto tempo no computador... Vive trancada nesse quarto,
parece um caracol.
Imagina!... Eu me olhava no espelho, na tela
refletida do monitor e não via nada diferente das outras meninas... Via dentro
das águas dos olhos vertigens o que a boca não descrevia; a mim, à imagem e
semelhança de Deus, a quem nunca vi, de fato, só mesmo manifestado na arte...
Uma imagem vale mil palavras; uma palavra descreve uma imagem ou mil e uma em
tantas noites, mesmo que depois eu fique em silêncio, calada para o resto da
vida...
O pai resmunga: - Deixa a menina!...
- Agora não, mãe!... Agora não! A menina selvagem, já ia bem longe dali, sempre lendo,
acompanhada de pássaros, de uma tinta de magnólia escorrida nas faces,
carregando punhados de renda... Fugiu para encontrar-se com Henriqueta em Lisboa.
A mãe, agoniada e tão inocente, achando que ela estava trancafiada em casa. Não
compreende que agora ela navega, viaja com Gulliver. Também como ele a menina quis levantar-se, mas tem os
cabelos presos ao chão e os braços e pernas imobilizados por uma porção de
amarras. Está presa na rede...
Sobre o corpo uma multidão de homenzinhos dança, pula, se precipita. Está certo
que passava muito tempo trancada e a mãe não gostava. Que absurdo, presa,
trancada, reclamava sempre agoniada... A verdade é que Lya Luft nO Quarto Fechado...
Minha mãe acha que não faço mais
nada... Não leio, não escrevo, só fico no computador, navegando. O importante
em navegar é não naufragar em informações efêmeras. Pois aprendi que para
ser Pessoa "Navegar é preciso, viver não é
preciso", mas sei bem o que quero aprender...
Como pode imaginar que não leio mais? A verdade é que eu estou até o pescoço
com Papéis
Avulsos e Páginas Recolhidas que Machado me emprestou. Como dizer que não escrevo? Se “o que me atrapalha a
vida é escrever”. Mas
agora é, e para sempre, a minhA Hora da Estrela, porque também quero viver...E quando preciso, bem faço eu que
repouso Perto
do Coração Selvagem, onde
encontro música, tecido de sons que a alma de Clarice suportava, metonímia de todas as
linguagens humanas, ritmos de todos os sons... Pois danço, canto, faço música e
sonho...
Fujo para me esconder de minha mãe na
mata Matisse de todas as cores. Ele está ali
há um bom tempo e pede para eu não atrapalhar; ilustra e me faz um ramalhete
de Fleurs
du mal de Baudelaire e lembra-me que é tarde e preciso me arrumar para sair.
Disse Picasso que Matisse tinha um "sol na
barriga", cujas cenas brilhavam com a luz radiante do Mediterrâneo. Achei
muito engraçado; já tinha ouvido falar em rei na barriga; já minha mãe diz que
não tenho nada na cabeça e nem na barriga, porque não me lembro nem de
comer.... Eu olho escondida atrás da porta, para que ela não me veja vestida
com a Blusa Romena; seria um escândalo. Ela me diz que
não tenho idade nem para usar batom... Miró- me no espelho assim mesmo, vaidosa e tão sozinha como o Cão latindo para a lua. Oh!... Esqueci-me por completo d'A lição de piano. Amanhã à noite no Claire de Lune eu me dedico mais e me debruço
nos braços de Debussy
Windows aberto para os olhos nunca me
deixam parar de ler ou escrever! Minha mãe reclama que vivo trancada no meu
quarto, não solto um pio sequer... Não percebe que estou a compartilhar dos
gorjeios e não sinto fome... Já voo com a matinal Ave, Palavra! Pássaro libertado de Guimarães Rosa e todas as outras flores; Florbela Espanca-me... Com doçura, palavra por palavra
e imagem. Estas todas que se encontram, se fundam, confundem, explicam,
complicam, celebram interação perfeita, varando as veredas da linguagem e
alcançando novo universo, terceira margem do rio na varanda. Terceira dimensão,
flash, poeta e kodak do "retrato-relâmpago" no porta-retrato estático, feito de luz sobre o móvel.
Imóvel, diante do computador, faço a imagem dançar com palavras sob o encanto
do cursor imaginário em busca do universo paralelo... Depois, quando tiver
fome, posso muito bem comer Maçãs e Biscoitos de Cézanne.
Imagina!... Presa eu?... Se com Pedro Nava navego à Beira Mar com o coração juiz-forano em
seu Balão
Cativo, enquanto ele
ilustra Macunaíma de Mário só para me encantar. Imagina!.. Como posso estar só
no meu quarto, se o Galo-das-Trevas canta e eu aprecio?!...
Já é quase manhã, eu ainda nem dormi...
E minha mãe achando que estou perdendo a infância, sem saber brincar... Faço
brinquedos de palavras e cores, enquanto Bandeira tremula nas telas de Volpi. Vou pisando em chão de estrelas, Estrela
da Vida Inteira, hasteada
no céu, só para recuperar o tempo perdido de Proust, tempo perdido diante do computador, diz minha mãe. Mal
sabe ela que Proust me empresta todo o tempo diante das velas de regata, porque
os vestidos das moças não atrapalham, aos olhos de um pintor impressionista, o
espetáculo do mar eterno. A imagem é uma caixa fechada que Edgar Allan Poe põe na minha mão e eu gosto de
abrir... Não, melhor, talvez a imagem seja um papel, um bilhete, uma carta,
um Manuscrito
encontrado em uma garrafa nos
tantos mares que navego, enquanto eu cresço. Eu queria dizer para minha mãe que
eu saio mesmo é para brincar nos quintais de Quintana, n'A Rua dos Cata-ventos, onde ando calmamente com meu Sapato Florido, só pisando nuvens, porque sou
também O
Aprendiz de Feiticeiro e
tenho atrás de mim, ao meu encalço O Batalhão de Letras.
Se eu me cansar de escrever, porque
ainda aprendo como uma menina treinando em caderno de caligrafia, descanso um
pouco recostada na Pedra do Sono que João Cabral erigiu com projeto d'O Engenheiro. Muito mais cansado estava ele de ver
a Morte
e Vida Severina terracota dor, que todos os dias eu
vejo na caixa televisiva; eu introspectiva, e a vida internética, explosiva, me
fazendo sofrer. Morro do que há no mundo, disse-me Cecília e
a circunferência fica, em redor, fechada...
Minha mãe diz que tenho que sair para
brincar, exercitar as pernas. Já expliquei que não estou trancada no quadro na
parede, na tela de plasma... Se Sangue e areia é o nome de mais uma novela que se espalha na minha sala,
no meu quarto e no Iraque, eu fujo porque não suporto o sofrimento da
humanidade. Não se espante... Melhor que eu Solte os Cachorros no Prado de Adélia, porque lá poderei recolher Cacos para um vitral. É isto, meninas como eu passam
o Verão
no Aquário ou n'A estrutura da bolha de
sabão, procurando peixes e
caçando borboletas, assim me disse a Lygia.
Tenha à mão, assim como eu faço, um
Cursor Virtual de palavras penduradas nas paredes feito quadros de Dali; Dali em diante Salvador, enquanto o inconsciente fala e ele
planta a Rosa Meditativa no meu coração... Eu me salvo enquanto escrevo...
Estranho ferreiro que sou, ainda Noviço, tentando fazer pinturas de letras... Muito distante do
que Martins só com a Pena soube escrever. Estou
aprendendo... Outros escrevem fácil, fácil, brincando, derretendo... Derretendo
metais; Ferreira diz que vai me ensinar a moldar a
imagem na palavra, mais ainda... estranGULLAR, desde que eu não faça Barulhos nem pise n'O formigueiro... Meninas
metidas com poesias e sonhos acham que podem mexer em tudo que encontram. Fará
isto Por
você, por mim... Sim, por mim, por ti, Portinari... “Quanta coisa eu contaria se pudesse e se
soubesse ao menos a língua, como a cor”.
Autora: Valéria Áureo
Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida - 2005
domingo, 17 de novembro de 2019
O Cronista
Eu sou uma pessoa que não chora. Ou
melhor, nunca em público, só mesmo bastante longe de qualquer olhar humano, ou
quando o olhar humano já deixou de existir. É que me habituei a isso, desde que
fui trabalhar na agência que cuida dos últimos instantes do sujeito. Caso
contrário choraria o tempo inteiro e espantaria os meus fregueses. E depois que
arranjei esse trabalho, vejo esta vida assim, resumida na morte; escondido eu
choro. Na frente dos outros, chorar seria a desgraça total, capaz de arruinar qualquer
reputação de durão, construída durante anos a fio. Pelo visto sou eu, a
princípio, o homem sensível, mais a imensurável mágoa de ver o fim tão de perto. Ver através de
quem conheci e amei, é muito triste. Diante do sofrimento foi que me decidi parar de chorar na
frente de outros humanos. Há coisas fantásticas, não há? Uma delas é decidir
parar de chorar, ou qualquer outra coisa que nos deixe acanhados.Entretanto eu choro apenas perto dos cachorros, mas distante dos homens;
não sei por que os dois me comovem tanto.
Vai-se ao chope de final de semana, para ver a balada de moços e moças;
vai-se à praia, ao cinema, ao shopping. Vai-se a todos os lugares. Pois eu
prefiro estar em casa recolhido. Lá fora ouço barulhos, que põem toda a gente a
saltar. A mim não, que sou tímido e sossegado. Pouco ou nada se ouve com aquela música
feita para explodir o crânio. Eu não me entusiasmo e já não suporto tanto tais
ruídos. Meus ouvidos padecem, quando distantes do meu local de trabalho silencioso. Lá sim, constante bem estar. Ser, ou não ser!... Tal verso tem ecoado na minha
cabeça nos últimos dias. A vida é curta demais, para perdermos tempo com jogos, seduções e indecisões, ou barulhos ensurdecedores... Ou é, ou não é! Agradável ou
desagradável. Diferentemente disso, não há o que fazer. Antigamente eu era
capaz de falar ininterruptamente, durante eternidades, sobre tudo e sobre nada,
com qualquer pessoa, inclusive aqueles com tendências esquizofrênicas. Eu
gostava de falar muito... Agora que conheço os esquizofrênicos, tenho que
aproveitar todas as oportunidades para mostrar que fico a ouvir
silenciosamente, durante horas e horas, todos que encontro; ainda mais quando
estão condoídos e enlutados. Nessa hora em que falam mais e que precisam que alguém
os ouça, sem restrições, eu estou pronto para todos.
Agora estou bem melhor; agora escuto muito mais e falo muito menos... Ouço
o síndico, o porteiro, as namoradas dos amigos, a prima da tia da vizinha e
todas as pessoas que a dado momento partilhem o mesmo espaço comigo. Todas
precisam desabafar e eu ganharia um bom dinheiro se cobrasse para ouvir.
No meu tempo de infância as Igrejas estavam sempre abertas. O sujeito
entrava, falava diretamente com Deus, desabafava... Depois disso voltava
aliviado para a vida. Agora, não! Não se vê mais uma Igreja disponível. Nem
mesmo padre com tempo para ouvir. Sou o ouvinte de todos, mas poucos querem me
ouvir. E isto não augura nada de bom para a minha vidinha, não augura não! Será
que estou condenado a passar os restos dos meus dias com quem não tem resposta
para me dar? E há dias em que tais tormentos são ainda mais verdadeiros. Dei-me
ares de cronista, exatamente porque não tinha com quem falar; ninguém disposto
a me ouvir. Passei a ter gosto profundo por casos de pessoas comuns; a crônica
de cada um, que à minha alma chega, me faz indefeso para contestar o que falam
a seu respeito. Absorvo um comentário leve e breve sobre algum fato do
cotidiano. Fico comovido; e como já disse às vezes choro escondido. Diante dos
cachorros sim; jamais diante dos homens. Depois disso escrevo algo para ser
lido enquanto se toma o café da manhã. O motivo de certas confidências, na
maioria dos casos, é o pequeno incidente; coisa de pequena monta... A notícia
em que ninguém prestou atenção, o breve e insignificannte acontecimento, a discreta cena
corriqueira. Nessas trivialidades, o que me surpreende é a beleza, a
comicidade, os aspectos singulares dos quais eles não se dão conta. Mas eu
estou atento a tudo. O tom certo de uma história surpreendente está onde menos
se espera; é como "uma conversa aparentemente banal", entre uma
baforada de cigarro, uma receita de remédio, a espera de um troco, a fila de
idosos no Banco, um guarda-chuva que virou do avesso sob a ventania, um assovio
na rua, um tiro na noite. Tudo fala aos meus ouvidos. Eu ouço. Eu pretendia
apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, que me alegrasse, mas não é bem assim. Visava ao
circunstancial, ao episódico, que provavelmente não se repetirá. Ou, ao
contrário, repete-se em toda casa, com todas as pessoas. Nessa perseguição do
acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança, ou
num incidente doméstico, torno-me simples espectador. Mas, e eu? Onde fico se
imagino que, enquanto observo a vida estou livre dela?
O único tempo do meu dia que dedico a pensar sobre a morte é quando não
ouço mais ninguém. Sempre observo o senhor tomando chope no bar em frente e me
vem a ilusão de que ele também não se preocupa com ela. Ao menos com a própria
morte, imagino. Pode ser até que pense em alguém que já se foi. Mas, é só e
provavelmente por poucos segundos, que o faz. Caso pensasse na sua própria morte, não
estaria calmamente de pé fumando e bebendo seu chope. Ele o faz todos os dias, sem se dar conta da própria finitude.
Daí todos os dias não pensar em si mesmo.
O interessante é que do meu ponto de vista ninguém deveria representar a
morte pelo fim, até porque se ouve muito o fato de a morte ser a transcendência
do material para o espiritual, mas ainda assim, trabalhando aqui, é o momento
único do dia em que não penso nela. A partir das conversas do fim de cada um é
que me vem o começo de algumas ideias. Lidando com a morte é que eu penso na
vida. E eu vejo que a vida é um espetáculo, como qualquer outro encenado no
palco. Cada um tem seu personagem, mas passa a vida inteira decorando o texto.
Quem afinal veio para esta vida já sabendo o que fazer? Ninguém! Ninguém
conhece nem o papel e nem o enredo. Por isto é que tudo tem que ser
improvisado.
Passam aqui em frente, muitas pessoas em companhia de outras. Antes de
chegarem aqui elas riem e gargalham, mas quando mais próximas, elas param e
olham para dentro; outras mais amedrontadas atravessam a rua. Preferem o outro
lado da calçada. Muitas gargalhadas já foram interrompidas por choros e corpos,
por velas e coroas, como se fosse o maior desrespeito continuar vivo depois da
morte do outro. Tolice! A vida segue como se nada tivesse acontecido. Não há
motivos para receios.
O restante dos meus minutos, eu busco viver como se realmente eu não
fosse morrer. Busco viver mesmo que seja diante de uma enorme conta de luz que
não poderei pagar, ou andando apressado por essas bucólicas ruas que não me
deixam nunca andar sozinho. Há sempre alguém vindo em minha direção, ou
partindo comigo, para me fazer companhia. Busco levar sempre comigo a beleza de
saber ouvir sobre a vida dos que precisam fazer confidências. Ainda assim, me
pego sorrateiramente reclamando, às vezes, daquilo que pode ser consertado. No
entanto, naquela funerária, as pessoas vão para resolver algo que não pode ser
resolvido. Ao menos estou ali para que desabafem comigo. Se eu faço crônicas de
tudo que ouço, paciência... Perdoem a minha indiscrição. Penso eternizar dessa
forma os que acabam de partir. Histórias há... Muitas, para serem contadas. Há
inclusive as minhas. São inúmeras no meu árduo ofício... Nunca tinha me ocorrido que
eu também sou personagem bufão desse teatro. Dei-me conta disto só agora.
Sempre me imaginei o crítico da peça teatral. Vendo cada encenação, analisando,
fazendo revisão, dando conceito. É... Um crítico teatral era o que eu imaginava
ser. Talvez o escritor da peça também eu pudesse desempenhar muito bem. Agora,
vejo que não; sou figura dramática, como qualquer outro. Tenho meu papel para
interpretar... Mais um pobre personagem saltimbanco desta vida.
Uma vez fui encarregado pela família de colocar uvas no caixão de um
chinês, conforme a tradição. Minha pobreza era maior que a veneração à
cerimônia e o grande respeito ao meu ofício. Tenho orgulho do que faço e muita
competência. Naquele dia, diante das uvas hesitei entre a responsabilidade e a
curiosidade do paladar. Também me lembrei de minha mãe... Acho que pela fábula
que sempre me contava: “A raposa e as uvas”. Pois eu vi as uvas, lembrei-me de
minha mãe... Achava um desperdício de aquela iguaria ser levada junto com o
morto. Levei para minha mãe que nunca tinha provado uvas e achou a fruta muito
doce, muito refinada; declarou que uva é “uma coisa do outro mundo”. E não é
que ela estava com a razão? Uvas... Quase que iam mesmo para o outro mundo...
Outra vez fiquei com os sapatos novinhos do defunto cliente, porque eu mesmo só
andava descalço. É que tínhamos o mesmo tamanho de pé. Também achei que aquela
coincidência de número de sapatos fosse um sinal celestial. Jurei para a
família que os havia colocado no falecido ( que fez a viagem de terno, mas sem os seus sapatos).
Ele que me perdoasse. Tenho certeza que, para onde ele estava indo, não precisaria
deles. Ademais, rezei para que seu caminhar fosse sobre nuvens. Tinha certeza
que não teria pedras para pisar, pela mansidão do seu terno semblante. Dava a
impressão de homem generoso e despojado. Acatei a mensagem com a certeza de que
o morto já tinha chegado ao céu e nem tinha precisado dos sapatos. É nos
emolumentos fúnebres que encaramos a cruel realidade (sobretudo a nossa).
Concluímos que nada é eterno, que as pessoas vão e por incrível que ainda nos
pareça, não levam nada consigo. Nada do que levaram a vida inteira para
amealhar. Nem mesmo os sapatos...
A verdade a que cheguei até agora é que as pessoas realmente são muito
frágeis, apressadas e confusas, e eu me incluo nessa louca ciranda de emoções.
Também sou um homem triste. Reservo um tempo para chorar, mas só quando não há
ninguém por perto, só o meu cachorro. E, quanto àquele sujeito do chope,
imagino que ele se sinta melhor que os outros, ou mais tranquilo, sei lá!... É
o meu patrão! Deve pensar consigo mesmo que seu negócio é garantido; mais dia,
menos dia, todos serão seus clientes nesta cidade tão pequena... Tem certeza
absoluta de que vai ficar muito rico e que enterrará todos. Eu continuo como
estou. Um coveiro cronista.
Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amor Líquido - Amazon
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