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domingo, 6 de agosto de 2017

Gelosia - O que vai na alma?


 


                                                    Ilustração: Fonte Internet


 

- Em que você está pensando? Olha para mim... Dentro dos meus olhos.

 - Eu? Não penso em nada especificamente. Penso nas questões do dia-a-dia. Casa, filhos, o que fazer para o jantar; nada de especial. Como posso olhar para você e dobrar a roupa, ao mesmo tempo?... O que você quer?

   - E por que você está com esse olhar perdido? Aconteceu alguma coisa? Onde estão os seus pensamentos?

- Como assim, olhar perdido? Estou olhando para as roupas. Estou atenta, ocupada, não está vendo? Lavo, passo, dobro, guardo a roupa toda. Quer me ajudar?

- Olhar assim, perdido, como se estivesse pensando em alguém...

- Mas não estou pensando em ninguém! De onde tirou isto agora? Estou ocupada, não me venha com besteiras! Não tenho tempo para conversa sem sentido. Ajude aqui, que será mais útil!

-De onde eu tirei? Você não me engana, com esses olhos perdidos e esse sorriso escondido.

- Não vá começar de novo com essa bobagem de ciúmes. Tem graça mesmo, querer adivinhar os meus pensamentos. Nem eu mesma me dou conta do que se passa em minha cabeça no momento em que eu dobro as roupas. São milhares de pensamentos ao dia, tão insignificantes e sem nexo que nem me dou conta. Só sei que penso, porque é normal para todo mundo pensar o tempo todo. Daí a saber tudo o que penso, já é demais! Talvez eu até pudesse pensar como os meninos estão crescendo, que preciso comprar mais blusas de frio para eles, olhando esta pilha de roupas, mas não posso afirmar.

- Está pensando em alguém, tenho certeza!

- Não diga bobagens. Pensando em quem? Não diga asneira! Deixa de falar bobagens. Eu aqui tão ocupada com o serviço da casa... Não tenho tempo nem mesmo de pensar em mim.

- Você não me engana; eu conheço esse seu olhar!  Esse seu silêncio. Vamos, fale comigo! Viaja para um lugar em que eu jamais posso entrar. Diga em quem está pensando de uma vez! Diga! Estava sorrindo, estava cantando. Diga com quem estava sonhando! Eu não suporto mais isso. Você me atormenta com esse seu olhar que nada me conta... Um olhar intraduzível. Vive escondida nesse sorriso incógnito. Não é sublime um olhar que me deixa de fora!

- Que questão mais metafísica!  Não estou rindo, nem pensando, nem nada. Estou respirando, se é que isso você me permite. Deixe dessa loucura de traçar a anatomia dos sentimentos e venha me ajudar!Você está infernizando a minha vida com essas desconfianças. Eu preciso é de paz, está ouvindo? Eu preciso de paz!

- Eu queria encontrar o lado bom da vida ao seu lado, mas você não compartilha o que vai à sua alma... Preciso saber o que vai à sua alma!...

- Minha alma precisa é de sossego! Deixe de asneira e vai procurar um serviço e me deixa trabalhar em paz!

Valéria Áureo

6/08/2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Persuasão


 
Ilustração: Internet

 

         - Então, é seu primeiro assalto, já respondeu por alguma coisa?

         - É, sim senhor! Só fui pego na malandragem antes, coisa de moleque “di menor”. Mas a minha ficha está limpa.

         - E o que pretendia com isso?

        - Tô sem dinheiro, senhor, sou trabalhador. Os coroas estavam aqui perto, deram oportunidade e eu me senti desafiado. Bolsa, colar, relógio celular, tudo dando mole, me chamando pro combate. Foi convite pra ação, sabe como?

        - E por isso acha que pode sair roubando por aí? Ainda mais um casal de idosos? Não tem vergonha não?

        - Eu tô na noia, senhor! Mas eu não judiei de ninguém não; foi tudo na diplomacia. Foi no diálogo, no argumento, na inteligência, doutor!... Não mostrei arma nenhuma não, porque respeito os cabelos brancos. Velho me comove! Não mostrei arma não! Ficou guardada na cintura só para a minha segurança; é que eu estava muito nervoso. Olhei para os dois velhinhos e me lembrei de minha vó. Sabe como é, a primeira vez a gente titubeia. Se ficasse pensando muito na minha velha, aí é que eu não conseguia mesmo fazer o assalto e  nem conseguia desvendar o bagulho. Ela não ia gostar de me ver nas quebradas, aprontando. Mas eu agi com cuidado, com respeito. Não agredi e nem ofendi; até chamei de senhor e senhora... Foi tudo no respeito e elegância. Só entrei na mente do sujeito para ele me dar o dinheiro, não teve agressão. Sou um cidadão educado, só entrei na mente dele com muita diplomacia, dialogando, senhor!.

        E como é que você faz para entrar na mente da pessoa?

        - Ah! Senhor, aí eu digo que vou fazer isso e aquilo e aquilo outro. Eu não boto terror! É um trabalho de persuasão, está me entendendo? Na eloquência! Falo, mas nem grito, só trabalho no contexto da paz e do amor. Falo assim: - Se não der isto, já sabe o que pode acontecer, meu bom! Eu aviso! Não ataco e nem machuco ninguém. Eu convenço a pessoa a me dar o que eu quero, mas eu não toco em um fio de cabelo dela, nem falo palavrão. Chego ao assunto com o cliente, com cordialidade, argumento e domino a mente dele, olho no olho. Nem mostro a arma, porque eu ajo com a cabeça e as palavras, tá ligado? Arma só em último caso, se o sujeito for mesmo cabeça dura; mas, se ele está pronto para o diálogo tudo acaba bem. É tudo na diplomacia, doutor! Não sou sujeito de violência não!  Eu só trabalho na mente do sujeito. Tem que ter retórica, doutor! Tem que ler Aristóteles, esses caras, tá ligado?Agora eu posso ir embora, doutor?

    Autora: Valéria Áureo

01/08/2017

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Arte de Furtar Palavras


 

 




 






Minha mãe dizia: - Antes dos dezoito, nem pensar! Não há de ser com o meu consentimento  que você vai fazer uma loucura dessas. Nem adianta me pedir, pois eu não deixo.

Acatei, como boa filha. Assim que veio a minha maioridade, finalmente liberta, minha mãe disse que nada mais poderia fazer por mim. Ela disse ao meu pai: - Não dou um dia e nossa filha vai aparecer aqui cheia de garatujas e desenhos por todos os lados.

O fato é que não, não apareci! Ou melhor, não tatuei desenhos em minha pele. Comecei pelas palavras...  Uma, outra, mais outra. Nos braços, nas costas, na barriga, nas coxas... Palavras, mais do que escritas, eram santificadas com o meu sangue, na minha pele. Fiz de meu corpo um santuário para elas. Um santuário ornado com rosas e espinhos. Eram sacramentadas com as minhas lágrimas. Eram palavras de dor, cruentas, nos quadris e nos altares. Eram palavras de consolo, calientes, tatuadas nos seios. Eram palavras de paixão tatuadas nas nádegas.  Palavras de fuga tatuadas nas pernas e nos pés. Escondi o quanto pude. Tatuei palavras pesadas escritas nos ombros e difíceis de serem carregadas, como a dor e o medo. Palavras esculpidas nas costas serviam-me de agasalho, como uma segunda pele. Outras tantas escrevi no peito, bem próximas do coração: orações, versos, salmos, súplicas, pedidos, ordens, preces... Fiz do meu corpo um mosaico.

Não é que eu tivesse o dom de furtar palavras, como costumava dizer. Furtar exige aptidão e inclinação e eu não tenho nem uma e nem a outra. Exige outro tipo de personalidade.  Para a minha defesa posso dizer que não furto, mas as palavras me alcançam, fogem de onde estão e colam na minha pele, como se eu fosse imantado e elas de aço. Palavras – confusas, estrídulas, exóticas – que me tocam, chamando a minha atenção. Se eu as ignoro elas se apresentam e grudam em minha textura; o alfabeto insuspeito, lineado em vocábulos enternecedores, me convida ao furto. São palavras vorazes, audaciosas que me tratam como rainha exótica das ciências ocultas dos signos. Elas criam comigo um mundo coeso, apropriado para os meus propósitos de colecionador. Eu, honesta, até tento me desvencilhar das palavras furtadas, das palavras dos outros, que ouço em todos os lugares. Tento me bastar com o meu alfabeto, o meu dialeto, mas sou um perigo quando escuto conversa alheia, trazida pelo vento. Não adianta. As palavras me querem. Elas se desprendem de onde estão e vêm comigo. Por isso eu decidi tatuá-las em meu corpo.


Quando as minhas palavras não puderam mais ficar escondidas, minha mãe se surpreendeu:

 - Cadê os desenhos? Eu respondi:

-  Não são desenhos! São palavras! Estão aqui, impregnadas na minha pele, como rendas, em um lindo bordado.

- E por que faz isto com o seu corpo, minha filha?

-Ora, mãe. Eu sou um livro aberto!

 

Autora: Valéria Áureo

31/07/2017

quinta-feira, 27 de julho de 2017

CONSTA AQUI











- Boa tarde, senhor! Estou procurando André Muletta, morador da casa 11, da Rua dos Inválidos, aqui no Bairro do Descanso Sereno. Sou fiscal da Receita. Estamos atualizando o nosso cadastro de pessoas ineficientes e improdutivas para o país. Aqui consta o seu nome, endereço, identidade e CPF. Confere?

- Sim, confere, sou eu mesmo, André Muletta, Rua dos Inválidos, Bairro do Descanso, mas espere! Que história é essa de pessoa ineficiente e improdutiva para o país?

- Seus impostos estão em dia?

- Claro que estão. Não devo nada a ninguém e nem ao governo, esse ladrão!

- Não se exalte! Vamos aos fatos! Consta tudo aqui... Verificamos que Vossa Senhoria atingiu o limite de idade, conforme a Lei Estadual nº100004287, parágrafo 25, alínea b. Consta em nossos arquivos do IBGE e da Receita que a existência de Vossa Senhoria nessa idade atual não confere nenhuma vantagem para a sociedade, bem como lhe causa danos econômicos irreversíveis. O senhor é um peso morto para a sociedade!

- Como assim, peso morto? Está de brincadeira comigo, seu cabra? E eu causo danos? Está ficando louco? Como não interessa mais para os outros a minha existência? Mas por que me diz uma sem vergonhice dessas? Está dizendo que sou inválido, um traste, um inútil que não sirvo mais para nada? Eu estou vivo, pô... Ando, falo, escuto, vejo...

- Não sou eu quem diz, é a Lei. Veja este documento! Consta aqui nos documentos oficiais. Já se deu conta de sua situação miserável? Pela sua idade o senhor está aposentado... Não serve para mais nada. Come, dorme, come e dorme e mais nada de útil para o país... O Governo está mudando... Estamos em crise e precisamos economizar. A previdência não tem mais condições de garantir as pensões e aposentadorias. Não temos como suportar o pagamento de tantas aposentadorias, entende? É o seu caso, Seu Muletta. O país envelheceu! Estamos precisando de sua colaboração.

- Estão ficando loucos? E eu com isso? Eu sempre paguei os meus impostos em dia! Trabalhei a minha vida toda. Me matei, dei o meu suor e meu sangue para este governo.

- Mas o senhor está aposentado. Parou de produzir. Está aqui no documento oficial da Receita Federal. Por esse motivo " Vossa Senhoria deverá comparecer ao Crematório Municipal da Vila Alpina, ala 06, até oito dias após o recebimento desta notificação oficial, às 14 horas, diante do forno crematório 06, ala norte, para que seja providenciada a vossa incineração".

- Como é que pode? Estão ficando doidos? Como é que pode uma desgraça dessas? O sujeito do imposto de renda vem aqui na minha porta, para fazer uma coisa indecente dessas com o povo? Está dizendo que sou um peso morto?... Só eu? Então eu vou andando daqui da minha casa até o cemitério, para eles me tacarem fogo? Chego lá andando, falando? Vocês do governo chegam aqui em casa e falam uma coisa dessas? Está errado, isto não está certo não! Então! Vou daqui de casa, direto no cemitério e chego lá, me apresento pros caras, mostro os meus documentos e falo que é para me queimarem vivo?

- Sim, os documentos são muito importantes. Não poderá esquecê-los. Lá mesmo eles darão baixa, se é que me entende e já colocam o seu nome no arquivo morto.

- Ô Xente! Quando chegar lá eles vão me queimar vivo, é isso? Vou chegar lá e dizer o quê? Que vim aqui me entregar para me queimarem?

- O senhor não está entendendo, meu amigo. É a lei. Pela sua idade... Então? Setenta anos, pelo jeito que está aí...

- Pelo jeito que está aí? Uai, eu estou andando, falando, Tudo normal! Tudo; estou bão, o senhor não está me olhando aí? Não tô morto não, seu safado!

- O que o senhor vai trazer de benefício para o Estado? Está no cadastro de pessoas ineficientes. O governo precisa economizar. Está sem dinheiro!

- Ah! Que é que é isso? Que desgraçados! Os safados, vagabundos e ladrões roubam o dinheiro todo do país e eu é que vou para a fogueira? Eu não sou ineficiente, seu corno. Querem fazer churrasco de mim, seus safados? Como não interessa mais para os outros? Sou importante, pelo menos para a minha família. Isto não está certo. Estão ficando doidos? Trabalhei a vida todinha e agora o senhor me traz isto aqui e eu vou lá me
entregar para os caras? Agora, porque estou com setenta anos, vou sair da minha casa, porque o senhor mandou e vou dizer lá no cemitério: vim aqui me entregar para o senhor me queimar, porque o governo mandou!... Tá louco? Estão ficando doidos? Trabalhei a vida toda, nunca fiz nada de errado sempre fui honesto, trabalhador, paguei em dia as minhas contas... E agora querem me queimar vivo? Estou bão, estou andando, aí... Num tá vendo? Até trabalho para completar a miséria da aposentadoria.

- O senhor não está entendendo, mas não se exalte; consta tudo aqui... O seu nome está aqui no cadastro. Deixa eu falar com o senhor, Seu Muletta , e dar as instruções. " Vossa Senhoria deverá comparecer ao local, munido de cinco metros cúbicos de lenha de boa qualidade, com certidão de procedência, para não poluir o ambiente. Levar saco plástico tamanho 10, padrão B, número 53, de cor preta, sem costura, de acordo com as Normas da ABNT... Levar dez litros de gasolina azul, aditivada! Levar um isqueiro descartável. Antecipadamente declaramos os nossos agradecimentos por vossa imensa colaboração e reiteramos a nossa mais elevada estima. Adeus!"

- Adeus? Mas que desgraçado! Que vagabundo! E não é a gás? O crematório é a lenha? E eu ainda levo a lenha, a gasolina e o saco? Ô xente! E ainda pago a farra do boi?

- É... Lenha de boa qualidade, com registro de procedência; as normas ambientais são rígidas. A Petrobras está em crise. O gás está muito caro. O governo precisa de nós. Pode assinar aqui, por favor?

- Assinar? Eu vou assinar a minha sentença de morte? Está louco? Eu não, seu safado de uma figa! Se eu não fiz nada de errado? Ainda quer que eu pague o imposto de renda e deixe a minha casa para vocês? O senhor está doido? Vá para o diabo que o carregue, seu chifrudo. Eu só saio da minha casa, morto, está entendendo?! Ainda quer que eu leve o saco, o carvão, a gasolina e o diabo que o carregue, para me queimar vivo e vá
andando para o cemitério? Vá se queimar o senhor, no raio que te parta, no quinto dos infernos, seu safado, seu filho da p... Governo desgraçado! Só saio daqui morto! E vão fazer isso com todo mundo da minha rua, é? Vagabundos; só saio morto, está ouvindo, só saio daqui morto!




Autora: Valéria Áureo





"Duas figuras eram mestres na arte de criar situações fazendo uso de falsos memorandos ou falsas cartas: Alberto Carvalho e Carlos Heitor Cony. A dupla tinha o requinte de guardar papeis timbrados que chegavam à redação e recortar logotipos e cabeçalhos para "oficializar " memorandos ou comunicados".
No texto acima eu me inspirei em um desses memorandos "oficiais" criados pelos jornalistas que resolvem "zoar" um amigo. Escrevo esta crônica com as devidas atualizações e adaptações ao contexto , servindo-me da referida "notificação oficial" e que mantenho entre aspas, para preservar a autoria dos referidos jornalistas. Trata-se de uma crítica social, em tempos de reformas.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Antes de usar uma palavra, crie um lugar para ela.


(Fragmento do texto)

... Difícil empreendimento experimentado naquela praça pelo camelô. O vocábulo “Histriônico”, na promoção, pela bagatela de R$5,00 parecia “encalhado” Pois demorou quase quatro horas para que o primeiro dos mais de cinquenta curiosos parasse e perguntasse daquela oferta esdrúxula. “Histriônico”?! Uns poucos que paravam refletiam: Talvez algum inseticida para se combater o Aedes aegypti. Histriônico poderia ser o nome de carro alegórico, uma doença, lançamento de automóvel, marca de cigarro, ou modalidade de esporte para as Olimpíadas. Poderia ser um novo creme rejuvenescedor, contra rugas. Quem sabe um nome código para uma operação da Polícia Federal?...
Um transeunte, razoavelmente cônscio de direitos alegou que o sujeito não poderia vender palavras; nem histriônico, nem outra palavra qualquer:- Elas não são suas, ponderou. Palavras são de todos! É bem imaterial! Trata-se de crime vender bem público. Já ouviu dizer? Res publica, meu rapaz? Coisa do povo?... Não seria ÉTICO. O senhor fere a MORAL!
- Claro, meu senhor. De certa forma o senhor tem razão. Mas não estou bem certo se não posso vendê-la; pois se é de domínio público. Também sou povo; logo é minha. Minha palavra eu posso vender, como o senhor pode vender a sua... Posso vender minha palavra, meu pijama, meu sapato. Até um rim eu posso vender... Até parte do meu fígado. Tudo é questão de se precisar e saber negociar. Já o coração eu não posso, pois só tenho um. Ele me faria falta! Res publica!... Eu já tinha aqui no meu acervo. Eu a adquiri no dicionário de latim e enriqueci o meu estoque. Agrada muito advogados e padres. Estou até pensando em ir mais longe: penso vender palavras em outras línguas para os brasileiros. O senhor sabe: Globalização... O inglês tomou conta do país, já faz tempo... O espanhol vai chegando aos poucos. Vai acabar virando uma Torre de Babel, se ninguém aparecer para organizar essa balbúrdia linguística. Business Intelligence, meu caro! Tem que estar alerta. É muita mercadoria de qualidade. Estão todas ao meu alcance. Palavras; tudo muito dinâmico. Algumas em desuso, algumas na moda, outras esquecidas, muitas corrompidas, umas tantas mortas... Muita palavra falsificada na praça atrapalha o meu comércio! Mercadoria “pirata.” A sorte é que são tão ruins que acabam logo... Não têm durabilidade, entende? Obsolescência previsível, pois não? Veja só... Res publica, ÉTICA, MORAL. Estas estavam mofando no dicionário; se não é o senhor a resgatá-las agora do fundo do baú... Mas e “histriônico”? Vai levar? Tá certo que pode roubar a mercadoria, pegar de graça no dicionário... Aí fico no prejuízo. Fazer o quê? Mas, levando-se em conta custo e benefício, o senhor deve ser razoável: Time is Money... Até o senhor comprar um dicionário, ou ir à biblioteca... Até procurar o livrão, esmiuçar aquelas letras miudinhas... Vista cansada... Essas coisas. Eu resolvo o caso agorinha; preço de ocasião. Somente R$5,00 e nada mais. É pegar ou largar!
- Eu não vou usar essa palavra. Histriônico! Vou pagar para depois esquecê-la? É como comprar uma roupa nova e deixá-la enchendo o armário. É como um casaco para neve, um esqui, coisas que nunca me servirão de nada. E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga. Enchem papéis, enchem a cabeça... O pouco dinheiro é para a comida.
- Palavra, meu caro, alimenta a alma... E depois, para quem não pode comprá-las há sempre um jeitinho. Eu nem devia dizer da concorrência, pois me atrapalha o negócio. Vou adiantar o seu lado! Nas escolas palavras da melhor qualidade são oferecidas de graça... Pena que os alunos não se deem conta disso. Vão embora e deixam-nas espalhadas pelas carteiras, estantes e corredores. Um ou outro mais atilado trata de aprisioná-las na cabeça e no coração. Nas Igrejas são ofertadas como bênçãos, com música, incenso, flores e esperança. São palavras balsâmicas. Cada palavra corresponde a um pensamento. “Se temos poucas palavras, pensamos pouco”. Então, doutor, “Histriônico”, vai levar? Já tá na mão, é só embrulhar... Leva, que de quebra eu coloco de brinde no pacote. Faço promoção: sílfide, esquálido, propedêutica, arquétipo, parâmetro, idiossincrasia... Tudo por R$5,00.
- Você é um... É um!...
- Viu? Faltam-lhe palavras...Viu como precisa de vocabulário? Engraçadinho... Palhaço, bufão, pândego...
... Eu, por minha conta, vou oferecendo umas tantas neste Jornal e agora no Face. Tenho por certo que estou a procura de uma morada para elas. Quiçá no seu coração. Eu as ofereço por prazer.


Autora: Valéria Áureo
Crônica Publicada em O Imparcial de Rio Pomba.

domingo, 4 de junho de 2017

Intervalo entre as Sessões ( As Sementes)






Havia uma confusão dentro da cabeça do rapaz, depois que ele saiu do consultório. Conversou com algumas pessoas na saída e seguiu ruminando ideias. Essa história de melancia era metáfora, ele bem sabia, é claro, mas a obviedade disso o irritava. Nada na vida poderia ser óbvio demais. A verdade é que uma melancia tinha ocupado muito espaço, em uma consulta de 45 minutos. Pura perda de tempo.
Matias produziu na psicanalista uma sensação complexa: aquela imagem no consultório, bastante avantajada, um pouco desproporcional, sempre vestido de forma nada casual, causava-lhe estranhamento. Um rapaz progredindo profissionalmente, chegando ao sucesso muito além do programado, mas inseguro em outros aspectos da vida. Aliás, diante da médica, já tinha perdido o fôlego algumas vezes. Talvez um constrangimento natural de moço tímido. Poderia ter sido agressivo, como um mecanismo de defesa, no início do tratamento, tal seu desequilíbrio, mas ele foi bem humorado, até irônico. Defendia-se dela, tão bela! Quando a relação de confiança se estabeleceu entre ele e a doutora, as dissimulações foram desaparecendo e o mundo interno, frágil e carente, foi sendo assumido com menos constrangimentos. Afinal, todos nós somos feitos de fraquezas, pensava. Ela não será diferente.
Matias acostumou-se a falar sem filtro e sem censura diante de uma analista tão linda. Achou mais confortável ser como era, sem ensaios para falar com a médica, ou com respiração acelerada. Ora provocava, ora instigava, ora queria algo além do trabalho da analista. Parecia querer descobrir as fragilidades dela; afinal somos todos humanos. Ela também tinha os seus dias de nervosismo, já tinha percebido. Tinha notado que ela esfregava as mãos com frequência e um tique nervoso que lhe dava um charme. E quem cuidava dela? Ele se inquietou com a possibilidade de ter uma analista tão problemática quanto ele. Até achou engraçado. Juntamente com as palavras, o esfregar das mãos, o sorriso provocante, mas nervoso, os braços marcados pelas pequenas manchas de ranhuras. Concluiu: ela tem problemas!
Não raro se despedia com uma palavra-alfinete saindo do consultório, como se desejasse marcar sua presença; por mais forte que fosse a incompreensão da própria vida e sua dor, Matias sempre dizia que não precisava voltar ao consultório, não precisava se deitar no divã, ou ir para a cadeira. Não gostava que lhe dissessem o que fazer. Sua mãe sempre havia dito que ele era do contra. Matias preferia falar e andar pelo consultório, enquanto falava o que lhe vinha à cabeça. Por mais que desejasse ajuda, sabia: teria que conviver consigo mesmo, para sempre; ele mesmo seria o responsável por si e suas decisões. Ele teria que resolver sobre si mesmo, sua fé e suas convicções, durante os seis dias restantes da semana, até voltar para outra sessão.
Enquanto isso, a tal melancia ficava sobre a mesa, à espera de solução. À melancia, nesse lapso de tempo, já tinham se juntado o pepino, a abóbora e as sementes... Estaria aí a semente do problema? Sementes de abacate e seu expressivo volume, passaram por sua cabeça. Também vislumbrou um grão de mostarda, tão pequeno, mas tão expressivo nas palavras do pastor. Sementes de quiabo tão perfeitas e esféricas, que não caberiam nessa conversa de imperfeições e desajustes... Sementes de abóbora, de melancia eram interessantes e ocupavam pouco espaço, mas não era isso o que tinha sido importante na última consulta. E o monte de problemas só ia aumentando, aumentando. E, até que quinta-feira chegasse, teria que ver a mesa amontoada com coisas tão inadequadas e impróprias para uma sala de visitas.
Sem entrar muito no mérito da questão das sementes grandes e pequenas, e a relevância que pudessem ter, uma coisa ocupava a mente de Matias: a fé. Sabia que a fé é como um grão de mostarda, que, quando semeado, embora seja menor do que todas as sementes que há na terra, depois de semeado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças, e deita grandes ramos, de tal modo que as aves do céu podem pousar à sua sombra cegamente; uma fé que cresce e estabelece uma intimidade com Deus. Foi assim que aprendeu. Era dessa fé que Matias precisava!
Bom, o dia fechava com mais uma metáfora nas suas reflexões sobre a vida. Uma nova dúvida: será que seus problemas teriam nascido de coisas tão pequenas quanto os grãos de mostarda?


Autora: Valéria Áureo

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Retórica da Insensatez


- Então, senhor Demóstenes, recebi seu recado. Está mesmo querendo contratar um assessor de imprensa? Um professor, um orientador? Algum problema?
- Não é bem assim, um problema! Não se trata de problema; agora eu me tornei um homem de soluções. Fui eleito, não fui? Eu quero que me ajude com os discursos. Não quero ficar mal na tribuna. Tenho que prender a atenção de meus pares, assim que tomar posse. Estou muito excitado e querendo começar logo o meu mandado.
- Mandato, excelência, mandato; mandado é ordem judicial! O senhor agora tem um mandato a cumprir. O senhor quer uma orientação, quer que eu os redija, o que deseja realmente?
- Quero que os escreva para mim. Gosto de belas palavras. Quanto mais difíceis, melhor! Quero ficar à altura deles.
- Poderemos escolhê-las juntos, conforme o teor de seu discurso. Sabe que tem que compreender muito bem o que diz, não é? Afinal, vai falar para todos. O senhor tem que ser claro e bem objetivo. Sou um redator sério. Meu nobre Senhor Demóstenes, o que deseja, então?

- Quero discursos bonitos. Daqueles que colocam o sujeito lá no alto, cheio de orgulho e palavras... deixa ver...  abstrusas. Quero falar bonito. Um discurso pulcro! Até agora eu me limitei a falar de sentimentos e sensações por mim vividos na minha pequena cidade. Linguajar humilde, entende? O povo é simples e eu me saía bem. Para ser sincero, dava para enrolar e eles nem percebiam. Ninguém entende nada mesmo, não é? Aqui é pouca a exigência e me foi bastante o que aprendi no ginasial. Mas, na capital... São poucos os atrativos que eu posso demonstrar na capital. Lá todos tem uma vida maravilhosa, pelo que deu para sentir. É viagem, é jatinho, é hotel, é restaurante! Os meus sentimentos não são comparáveis qualitativamente ou quantitativamente com os de ninguém mais; foram tão somente experiências pessoais únicas na simplicidade. Acontece que só vivi no interior, compreende? Uma vida modesta, sem muita coisa bonita para alardear. Vou viver uma revolução, que é sair de uma cidadezinha e não outra coisa, através dos meus sentidos de cidadão humilde e não pelos de outros bem mais preparados... Senti na pele as minhas dificuldades da profissão e das necessidades dos meus clientes. Naturalmente condicionado pela minha história e origem sociológica, sou um sujeito simples, mas agora eu sou um deputado recém-eleito, um homem público!... Não quero que faça muita diferença com os outros, os meus eleitores, mas quero experimentar esta sensação de ser tratado como autoridade, excelência, doutor, entre os demais. Quero ser igual a eles. Ouvi falar que tem aqui um especialista em discursos; o tal de professor Tobias. É isto o que eu quero. Um especialista muito bom com discursos. De resto no meu texto assumo a benignidade da revolução grosso modo, de um ponto de vista racional e pragmático. Sou objetivo, mas para fazer elogios eu preciso de um sujeito meloso, cheio de riquezas dos  dicionários. De resto eu dou conta de um discurso garantidamente democrático e grandioso. Como prova disso, eu lhe digo como terminarei a minha fala: recebam lá estes cravos escolhidos a preceito!...
- Não entendi muito bem... O que quis dizer com isto? ...”cravos escolhidos a preceito”?
- Ora, sou um defensor intransigente da família, da moral, da ética; um democrata, sem preconceitos, que oferece flores.
-Mas, coube tudo isso na sua fala? E onde cabem esses cravos escolhidos, do seu discurso?
- Ora, em todos os lugares! Em todos os meus discursos cabem flores. Sou um homem pacífico, por natureza.
- Está querendo fazer elogios?
- Sim, elogios, meu caro! Discursos elogiosos, porque não vou para lá para arranjar inimigos. Quero discurso de exaltação, consagração, glorificação. Quero fazer alianças!
- Pelo que eu estou entendendo o senhor se refere aos panegíricos! Às odes...
- É esse o nome? Os panegíricos, odes? Gostei muito disso. Pois então, me faça os panegíricos e as odes. Panegíricos em todas as sessões em que eu discursar.
- Tem certeza? E "esses cravos escolhidos a preceito", em todos os seus discursos?
- Pois é! Mantenha em todos os panegíricos e odes. Os cravos não podem faltar, pois eram as flores preferidas de minha mãezinha morta.
- Aí, meu caro deputado, já é questão de se fazerem as elegias!
- Elegias? Que beleza de palavra! Combina muito bem com eleição, não é? Eu elegia, tu elegias... Meu povo me elegeu! Pois então! Abandone os panegíricos e promova as elegias! Elegias de todo jeito!
- Ah! Muito bem! Escolheu bem! Elegias bem fúnebres e tristes! Isto sim combina com os cravos, deputado. Com os cravos de defunto!

Autora: Valéria Áureo
31/05/2017

domingo, 28 de maio de 2017

Amor Restritivo






                                                                                           Ilustração: Internet

- Vamos levar o queijo?
- Não! A empregada se faz de desentendida e come tudo. Já falei para ela que não pode, mas ela não me atende.
- E não é para comer? Pergunta o marido.
- Não! O queijo dela é o outro, o mais barato.
- Mas você não precisa fazer isto. Lá em casa não falta nada. Aliás, até sobra, estraga e você joga fora. Vamos levar o melhor!
- Não, não é para ela comer! O dela é o mais barato! Já disse para ela mil vezes... O meu é um e o dela é outro.
- E eu como de qual? Perguntou o marido.
- Come o queijo que quiser. Qualquer um... O meu é light, sem lactose. Tudo meu é separado: o leite, o queijo, as frutas, o atum, o salmão...
Diante disto, o marido resignado pegou o queijo mais barato para a empregada. Provavelmente seria o mesmo queijo que lhe seria servido. Não compreendia os sinais de mesquinhez, mas acatava as decisões soberanas da esposa, no que dizia respeito às coisas de casa. Inconformado, mas pacífico pegou o queijo mais em conta, conforme as palavras da mulher. Mais em conta! Ora! Sua mulher nunca se preocupava com as contas, mas levava o queijo mais em conta. Isso o aborrecia muito, pois dinheiro nunca tinha sido um problema para eles. Viviam com fartura e conforto. Entretanto sentiu-se aliviado com alguma coisa que percorreu o seu coração e a cabeça. Não deveria se sentir tão mal com o que se tornara a sua vida com ela: uma vida mais em conta, provavelmente.
O marido concluiu que aquela mulher com quem tinha se casado, também não deveria receber o amor mais caro. Que ela recebesse o mais barato, aquele que se dá por pena e compaixão. Um amor de segunda... O amor resignação, em que se fica só por piedade. O amor que é servido como um copo d’água e um pão e algumas migalhas de caridade. Um amor refreado, restritivo, contido. Ela se tornara tão mesquinha e ele, ao contrário, era tão generoso, que não podiam habitar o mesmo coração. Ele abafara seus sentimentos mais valiosos e os depositara em cofre forte. Os sentimentos mais em conta ele ainda podia dar a ela. Um amor desidratado é o que podiam compartilhar. Uma vida em conta e ele a pagar. O melhor amor, o íntegro, o inquestionável, o precioso, o que ele guardava para certas ocasiões, ele tinha a quem dar. Dava-o aos gatos, por exemplo, que recolhia da rua. O amor aos gatos era pleno e renovador. O amor entre ele e os gatos era recíproco. Os gatos retribuíam o amor pleno na mesma medida. Ou melhor: davam amor além da conta. Jamais um amor limitado e em conta. E, para ser sincero, aos gatos ele dava muito amor e muitos pedaços do queijo caro da mulher. 

Autora: Valéria Áureo
28/05/2017

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Conjugando o amor líquido

                                                              Ilustração: Internet


Helga era alemã, Pétros era grego. Eles se conheceram em um cruzeiro marítimo. Um mergulho na mesma onda... Um não sabia falar o idioma do outro, mas se gostaram profundamente e se entenderam. Com um simples olhar, ou um toque, eles se comunicaram mais do que se tivessem palavras em comum. Em tempos de amor infinito, decidiram pelo infinitivo ficar, namorar, beijar, pedir, dar, amar, casar...
Em tempos de amor líquido viviam se derretendo um pelo outro, tocando-se, se olhando com carinho, preenchendo os vazios do coração com o amor que estava entornando nos silêncios. A cada dia iam sorvendo a paixão um pelo outro.
O amor era líquido e estava contido em um recipiente aberto dentro do peito. Pelo vão do coração rasgado o amor escapava; ia escorrendo pelo corpo e pela alma em gerúndios... Longos gerúndios na gramática dos sentimentos. Amando, querendo, esperando, sorrindo, desejando, dando e recebendo amar...
O tempo, levando os toques e os olhares, ia alongando o afeto sem palavras para um lugar desconhecido.
O tempo foi passando, passando e passando... E eles, que outrora se amaram no presente, caíram no precipício da rotina e no particípio do verbo: amado, querido, desejado, sofrido, pedido, negado, abandonado.
Eles foram ao gerúndio mais doloroso, em tempos de amor líquido: sofrendo, chorando, mentindo, traindo, acusando, odiando, pedindo, negando, esquecendo, esquecendo, esquecendo...
Chorando, porque o amor líquido gosta de provocar lágrimas, Helga saiu de casa no meio da noite, sem falar para Pétros que partia.
Chorando, porque o amor líquido gosta de provocar dilúvios, Pétros saiu na mesma noite, sem falar para Helga que a deixava.
Ambos tinham sofrido; ambos viveram mortificados; cada um se acusando, remoendo a culpa de ter deixado o outro sofrendo.

Autora: Valéria Áureo