Apresentação

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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Epifania



Ele era um homem muito simples. Tão simples que nem vou dizer o seu nome. Homem honesto, trabalhador e dedicado à família. Amava a mulher com todas as suas possibilidades; era entrega total, absoluta, de corpo e de alma. Era um homem feliz. Ele navegava em sentimentos profundos, apesar de não compreender muito, nem o que falava, nem o que lia. Amava especialmente as palavras. E, tão cheio de palavras bonitas ele ficou, que nem temia os sentimentos rasos de quem ria. Era de uma ousadia incompreensível quando falava. Muitos amigos achavam bonito; alguns poucos, não.
Para a esposa ele passou a repetir, de uma hora para outra: estou tão feliz!... Meu amor é uma epifania! E, a cada momento de prazer ou de pequena alegria dizia: meu amor é epifania!
E-pi-fa-ni-a!
A mulher encheu-se de espanto. O que é isso?
Ele passou a existir em um estado profundo de realização, compreendendo a essência das coisas. A deliciosa sensação de estar tudo solucionado, esclarecido na vida o deixava pleno, sublime; isso o fazia completo: meu amor é epifania!
A mulher encheu-se de medo. Epifania?
Ele passou a sentir uma manifestação divina em tudo o que fazia. Não podia conter a leveza de seu espírito, de tão feliz. E repetia... Meu amor é epifania!
Quanto mais ele falava em epifania, mais a mulher se afligia! E, da epifania dele, nasceu todo o espanto dela. Começou a chorar, a sofrer e a viver a tragédia da certeza de ser traída; ela não conseguia mais superar esse novo espanto da vida. Epifania! E, da certeza dela de ser traída pela epifania, ela o abandonou sem qualquer explicação. Em mais um dia de proclamação à epifania, ela arrumou as malas, nada disse, nada escreveu e partiu.
Ele, que vivia feliz, em êxtase, em epifania, começou a experimentar a dor do abandono. E, da epifania foi à agonia.


Autora: Valéria Áureo

Rio, 14 de abril de 2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Alguém especial te espera





          Alguém especial te espera para formar o par perfeito. Não há motivo para desespero; uma verdadeira agência matrimonial digital pulsa mundo afora no ritmo da revolução tecnológica. Mais moderno do que nunca, o cupido lança as milhares de flechas em direção aos celulares dos candidatos a enamorados. É a febre dos aplicativos de relacionamento como Tinder, Grindr, Wechat e Skout.

          O pretendente pode estar na distância de um clique. Mesmo um clique entre países distantes. Ou melhor, dois cliques. Se a ação for correspondida: deu ‘match’. Mais um coração atingido. E o novo casal pode começar a conversar. Carlos gostou da explicação.

          Ele aquariano, poeta, bibliotecário. Aos trinta anos tinha cabelos compridos e barba desleixada... Espessa!Um típico “lumberjack”, um estilo lenhador bastante prático. Agora a testa estendeu-se pelas laterais em duas entradas profundas, estradas de pensamentos efervescentes, efusivos, encaminhando para o alto da cabeça, como se buscasse as ideias mais claras. Uma invasão de calvície no crânio, apesar de tão pouca idade, que alguns costumam interpretar como sinal de inteligência. A cabeça parecia maior e ele assumia esse visual com tranquilidade e certa vaidade.

          Carlos gostava de rock e tinha uma coleção de discos de vinil. A capa dos discos era importante no momento da escolha; dali diretamente para a sua coleção. Ao gosto musical precedia o apelo estético. Comprava o disco pelo visual, no primeiro instante. Era uma qualidade essencial do artista: fazer combinar a ilustração com o vinil.

          No meio dos livros, na Biblioteca Nacional se sentia feliz. Apesar da constante alergia e batalha com os ácaros e o mofo, ele se resumia num homem afortunado, sempre com uma caixinha de lenços de papel. No bolso, no porta-luvas, na maleta, no criado mudo, sempre à mão, havia o vidrinho de soro fisiológico para irrigar as narinas congestionadas. Um antialérgico em todas as gavetas. Não mudaria de profissão e não tinha como mudar de trabalho. Por isto não mudaria seus hábitos, que todos consideravam manias. Assim que começou a trabalhar na Biblioteca pensou que o corpo sensível logo se acostumaria com o cheiro de livros e de cômodos cheios de estantes. O tempo foi levando adiante os anos e nada de o organismo se acostumar com o odor característico de livros centenários. Mesmo os livros mais novos, ainda cheirando a tinta fresca, o incomodavam. O corpo protestava em séries de espirros distribuídos pelos departamentos, mesmo os mais arejados. No mais, tudo estava bem. Tinha o que queria ter; morava sozinho em um apartamento confortável, decorado ao seu gosto e conforme as suas necessidades... No apartamento, nada de livros. Pensou: é hora de um relacionamento sério! Interessante esse aplicativo!



           Ela sagitariana, triste, tímida e silenciosa; havia escolhido, desde pequena, a profissão de dentista. Talvez a impressionasse a série de dentes que teria que reconstruir ao longo do ofício. Os seus sempre estavam escondidos pelos finos lábios fechados e arqueados em sugestivo acomodamento. Alma doce, calma, acomodada e solitária; nada que requisitasse a mostra de dentes. Pouco falava... Nisto imaginava o grande valor de sua profissão: esculpir largos risos e bocas extremamente ativas, falantes e agradáveis. Bruna não sabia sorrir, mas uma coisa ela sabia fazer: preparar as bocas dos clientes para os imaginados risos e beijos...

         Bruna ouviu pelo rádio do seu quarto a previsão do tempo. Dia nublado, com possibilidade de chuvas à tarde. Tratou de pegar um agasalho. O casaco branco estava sempre no mesmo lado do armário; à direita de quem abre, no último cabide, junto à coleção de jalecos. Assim, mesmo no escuro, era só meter as mãos e ir diretamente ao ponto. Na volta do trabalho recolocava-o no mesmo cabide... Só variava quando os alternava com o outro casaco branco, lavado, a cada cinco dias.  Casacos sempre no mesmo lugar. No mesmo lugar era a jarra com as flores de plástico; era a pilha de livros, que ela começara a ler, sobre a mesinha de centro. No banheiro a toalha azul marinho. Na sala, a mesa sempre posta com delicada louça para o café. Ela ia, voltava e a louça permanecia aguardando visitas inesperadas, que nunca vinham. A mesa era a companhia de sua solidão. Duas xícaras sempre postas e um sentimento disponível... Pensou: é hora de um relacionamento sério. Interessante esse aplicativo!...



          Carlos seguia no ônibus, porque o carro tinha ficado na oficina. Coisa pequena para consertar, mas decidiu que daquela semana não passaria; uns amassados no teto do carro, porque havia estacionado bem embaixo de um edifício em obras. Um prejuízo e um aborrecimento a mais na vida, em forma de respingos de cimento...

          Bruna seguia no seu carro, ajeitando a bolsa no chão, para não chamar a atenção dos pivetes. Acomodava tudo o que levava sob o banco do automóvel. Era cuidadosa. O trânsito lento favorecia os arrastões...  No rádio ouvia-se um jazz... Trânsito parado! Pegou o celular e abriu o aplicativo. Arrastou o indicador nos vários nomes, fotos. Deteve-se em um rosto que lhe chamou a atenção. Fez conexão com aquele contato: deu "match" e mais um coração foi atingido pela flecha.

        Carlos olhava os prédios vazios e grafitados, ao longo da avenida, no ônibus lotado... Tinha sorte em achar um assento vazio na janela, ao lado do motorista. Prestava atenção em tudo: no ônibus, nas pessoas que entravam e saíam, naquelas que passeavam pelo caminho, em outras que paravam. Bastava um detalhe, que percebesse ao longo da viagem até perto de seu destino na Avenida Rio Branco e a cabeça aproveitava a inspiração, na ponta do lápis. Trânsito parado! Um bloco, sempre à mão e uma caneta, armazenavam aquele breve detalhe. Tinha o hábito de anotar tudo.  

          Ele abaixou o rosto para anotar uma ideia. Escreveu...  Largou o papel, tomou o celular, abriu o aplicativo de encontros. Arrastou o indicador até se deter em uma foto. Fez conexão com uma linda mulher: deu ‘match.’ Tornou a abaixar o rosto e não se deu conta de que...

           Ela abaixou para pegar o casaco branco de dentro da bolsa. Fazia frio com o ar condicionado ligado. Ele olhava para o celular. Nenhum dos dois se deu conta de que...

            Acidente entre carro e ônibus mata dois na Av. Brasil.

          Bruna freou o carro violentamente, sem poder evitar uma colisão com a traseira do ônibus onde ia Carlos. Outros veículos iam se engavetando.
           Carlos e Bruna desceram aos trancos, tontos e assustados no meio daquela multidão. Um de frente para o outro. Ficaram inertes. Um olhando para o outro. Nunca tinham se visto na vida. Nunca mais precisaram do aplicativo de encontros.  Eram especiais e tinham formado um par perfeito.



Autora: Valéria Áureo




quarta-feira, 12 de abril de 2017

Beijo na Boca


Ivan Ferreira da Silva, mas o povo me conhece por Tico, por causa da minha miudeza de ossos e músculos. Um tico de gente, dizia minha avó. Mas meu nome é Ivan, confirmado pelo Espírito Santo na pia batismal. Cidadão de tez escura, atualmente chamado de afrodescendente pelos intelectuais. Sou negro, neguinho, negão e não me envergonho quando me chamam assim. Acho até bonito quando a moça me chama de meu neguinho, ou de meu negão, porque para mim é elogio. Portelense enquanto fui liberado para aquele arrocho na Escola de Samba; mas depois deu ciúmes na minha neguinha e deixei de frequentar, para não cair em tentação. Carioca, do Rio Comprido, por nascimento e aptidão; nasci com a veia de sambista e bom de bico, pois conversa boa eu sempre tive. É que Deus compensa uma coisa com outra: tira a beleza, mas dá a astúcia. Botafoguense, porque a gente tem que amar incondicionalmente alguma coisa nesta vida, custe o que custar. Tem que ter uma paixão! E eu amo aquela estrela, ali sozinha, da camisa de meu time. Sou do sexo masculino, com muita segurança e definição disso; não tenho meio termo, sou nascido, criado e conservado macho. Para mim não há nada mais acertado no mundo que mulher. Também não recrimino quem não goste. A pintura da vida perfeita que me impingem no carnaval não me comove nem um pouco. Não vou virar alegoria para turista que vem visitar favela... Já não tenho nem mais os meus dentes e nem me iludo com mais nada nesta vida. Perdi a inocência.
Insensíveis! Eu dou essa conta do estrago em minha boca aos governantes, já que não tive chance de me defender; já nasci em desvantagem no afeto e no leite. Já nasci devendo. Por que eu não sei, mas já vim devendo. Sem pai para me defender, sem mãe para me criar. Uns já nascem sem sorte; é o meu caso. Sem astúcia e resignados, muitos dos meus vizinhos se consolam em novelas; a ironia é que, no intervalo delas há propagandas de comida e de cremes dentais branqueadores. Tenho muito pouco do primeiro e não me serve de nada o segundo. Em resumo, barriga e boca vazias... Ainda me mandam sorrir para a câmera, os covardes.
Milhões de olhos mortos diante da TV habitam meu país e não veem o que se passa bem aqui. Sou de pouco estudo, mas observo. Não nasci burro, não. Quanta coisa por fazer e milhares de homens acomodados no sofá da sala e nos gabinetes em Brasília. O livre arbítrio deles está num comando portátil que os controla e no painel de votação secreta. Cultivam uma apatia de consciência tranquila e se consolam com o final feliz. Onde já se viu?... Final feliz!... Quando querem mais emoções, costumam mudar de canal que é igual no passado, no presente, no futuro. Tudo no controle remoto, para não desgastar o corpo.
Hoje ouvi que para fazer concurso para policial é preciso ter, ao menos, vinte dentes na boca. Ri, ri muito até passar mal... Já viu uma boca sem dentes rindo? Pois não tem graça. Ah! Concurso público para policial.Ah!... Se eu tivesse vinte dentes... Primeiro iria tirar um retrato 3x4 para fazer uma nova identidade:- Tico com vinte dentes, sorrindo... Foto de frente e de perfil. Depois iria comer rapadura, chupar cana, morder um pedaço de carne. Fazia uma extravagância e comprava meio quilo de alcatra. Improvisava um churrasco. E, finalmente, iria beijar minha namorada na boca, que nem isso eu faço.
Ah! Se eu tivesse vinte dentes, seu moço!...


Autora: Valéria Áureo

terça-feira, 11 de abril de 2017

Sortilégio dos Signos


Leonardo era leonino sonhador e sentimental; ao menos era o que dizia a empregada da casa, quando se referia ao patrão: meio atrapalhado, mas muito boa pessoa, assim o resumia. Ele não amanhecia o dia sem o café quente no copo e a página do jornal aberta no horóscopo. Hábito que adquirira com a namoradinha da adolescência, que gostava de adivinhar o futuro, perfumando o presente com incenso.
Harmonia com libra... Momento propício para projetos e definições de caráter sentimental. O amor cruzará sua vida no dia de hoje. Fique atento. Aquele dia as previsões eram favoráveis para um encontro de dois signos que formam o par perfeito. Era o que constava na tira fina de previsões para hoje, quarta-feira, 20 de outubro de 2010, no jornal. Dia de topar com as imagens esfumaçadas e telúricas; leão e as veleidades do mapa zodiacal em perfeita conjunção com libra. Não era todo dia que as previsões eram tão otimistas... Hoje não! Enfim era o dia de encontrar o amor. Estava escrito em seu mapa astrológico, o prognóstico de uma oportunidade alvissareira. Tratou, pois, de se arrumar o mais detalhadamente possível: barba por escanhoar, resolveu com um cuidado esmerado, imaginando o toque da pele no rosto da mulher que encontraria; quem sabe no elevador, no metrô, nas escadas do Ministério do Trabalho. O corpo inteiro para conferir diante do espelho da porta do armário. Detalhes para conferir nas unhas, nos pelos do nariz e das orelhas. Dentes caprichados na escovação sistemática e visitas constantes ao dentista. Por isto não fumava e nem tomava café. Era agradável ter dentes que chamavam atenção pela brancura e alinhamento. Poderia se dizer que eram perfeitos. Adornavam o sorriso escancarado do sujeito sempre bem falante. Poderia se resumir que ele era um homem muito simpático e bem humorado. Mesmo assim, esperou quarenta e três anos, para que aparecesse um sinal, uma presciência tão otimista, como a deste dia. Finalmente... Hoje era a sua grande chance. Escolheu com cuidado a roupa; discreta e elegante. Foi comedido no perfume. Colocou comida para os peixes no grande aquário da sala...
Eliana era libriana e muito realista. Bem sucedida na profissão, foi deixando o tempo do amor passar. Quarenta anos... Foi o período que consumira para se tornar executiva, emancipada, totalmente independente econômica e financeiramente. Desativara o relógio biológico por muito tempo, para que os projetos de sua vida não descarrilassem. Não seria bancada por ninguém; assim planejou sua vida, com um cronômetro de sensatez e controle de todas as emoções. Par perfeito!... Ainda acreditavam nisto? Que tolice! Hoje, ao ler o caderno de economia, tomou ciência da estabilidade da moeda. Tudo sob controle, pensou. Nada que pudesse provocar inquietações e crise no Mercado Financeiro. Investia na bolsa. Comprava ações da Petrobras, comprava euros e diversificava as suas aplicações. Para descontrair foi ao horóscopo. Riu... Leão e as veleidades do mapa zodiacal em perfeita conjunção com libra. Momento propício para projetos e definições de caráter sentimental. O amor cruzará sua vida no dia de hoje. Fique atento. Tornou a rir e fechou o jornal. Amarrou os cabelos de forma displicente, tomou um banho, escolheu uma roupa formal e colocou o perfume de sempre. Colocou comida para o gato siamês, Amour, que lhe fazia companhia.
Eliana e Leonardo pegavam a mesma linha no mesmo horário; Metrô, Estação Flamengo em direção à Zona Sul. Destino... Incerto e não sabido, pois cada um seguia o seu! Cada um descia em sua estação de desembarque. Nunca entraram no mesmo vagão do trem. No dia 20 de outubro de 2010 nada aconteceu de especial, apesar das previsões tão promissoras do seu signo.
Leonardo ainda vive no Rio. Eliana mudou-se para Paris; partiu decepcionada com o país, face à crise econômica, aos escândalos de corrupção no governo e à imoralidade dos políticos, depois de perder muito dinheiro na Bolsa de Valores, principalmente com os desfalques na Petrobras. Categórica afirma não mais voltar. Continua realista e bem sucedida, apesar de tudo.

Autora: Valéria Áureo
In Sortilégio dos Signos

domingo, 2 de abril de 2017

A Palavra na Era da Imagem








            - Menina, diz a mãe, vá brincar!... Vai ficar com as pernas atrofiadas de tanto ficar no computador... Vive trancada nesse quarto, parece um caracol.
            Imagina!... Eu me olhava no espelho, na tela refletida do monitor e não via nada diferente das outras meninas... Via dentro das águas dos olhos vertigens o que a boca não descrevia; a mim, à imagem e semelhança de Deus, a quem nunca vi, de fato, só mesmo manifestado na igreja e na arte... Uma imagem vale mil palavras; uma palavra descreve uma imagem, ou mil e uma em tantas noites, mesmo que depois eu fique em silêncio, calada para o resto da vida...
       O pai resmunga: - Deixa a menina!...
      - Agora não, mãe!... Agora não. A menina selvagem, já ia bem longe dali, sempre lendo, acompanhada de pássaros, de uma tinta de magnólia escorrida nas faces, carregando punhados de renda... Fugiu para encontrar-se com Henriqueta em Lisboa. A mãe, agoniada e tão inocente, achando que ela estava trancafiada em casa. Não compreende que agora ela navega, viaja com Gulliver. Também como ele, a menina quis levantar-se, mas tem os cabelos presos ao chão e os braços e pernas imobilizados por uma porção de amarras. Está presa na rede... Sobre o corpo uma multidão de homenzinhos dança, pula, se precipita. Está certo que passava muito tempo trancada e a mãe não gostava. Que absurdo, presa, trancafiada, reclamava sempre agoniada... A verdade é que a menina Lya Luft nO Quarto Fechado...
            Minha mãe acha que não faço mais nada... Não vivo, não respiro, só fico no computador, navegando. O importante em navegar é não naufragar em informações efêmeras. Eu aprendi que para ser Pessoa "Navegar é preciso, viver não é preciso", mas sei bem o que quero aprender na imprecisão de viver... Como pode imaginar que não leio mais? A verdade é que eu estou até o pescoço com Papéis Avulsos e Páginas Recolhidas que Machado me emprestou.  Como dizer que não escrevo, seo que me atrapalha a vida é escrever?" Mas agora é, e para sempre, a minh'A Hora da Estrela, porque também quero viver e brilhar... E quando preciso, bem faço eu que sempre repouso Perto do Coração Selvagem, onde encontro música, tecido de sons que a alma de Clarice suportava, metonímia de todas as linguagens humanas, ritmos de todos os sons... Pois danço, canto, faço música...
            Fujo para me esconder de minha mãe na mata Matisse de todas as cores. Ele está ali há um bom tempo e pede para eu não atrapalhar; ilustra e me faz um ramalhete de Fleurs du Mal de Baudelaire e lembra-me que é tarde e que preciso me arrumar para sair. Disse Picasso que Matisse tinha um "sol na barriga", cujas cenas brilhavam com a luz radiante do Mediterrâneo. Achei muito engraçado; já tinha ouvido falar em rei na barriga; já minha mãe diz que não tenho nada na cabeça e nem na barriga, porque não me lembro nem de comer.... Eu olho, investigo, escondida atrás da porta, para que ela não me veja vestida com a Blusa Romena; seria um escândalo. Ela me diz que não tenho idade nem para me preocupar ou usar batom... Miró- me no espelho assim mesmo, vaidosa e tão sozinha como o Cão latindo para a lua. Oh!... Esqueci-me por completo d'A lição de piano. Amanhã à noite no Claire de Lune eu me dedico mais e me debruço nos braços de Debussy
            Windows aberto para os olhos nunca me deixam parar de ler ou escrever! Minha mãe reclama que vivo trancada no meu quarto, não solto um pio sequer... Não percebe que estou a compartilhar dos gorjeios e não sinto fome... Já voo com a matinal Ave, Palavra! Pássaro libertado de Guimarães Rosa e todas as outras flores; Florbela Espanca-me... Com doçura, palavra por palavra e imagem. Estas todas que se encontram, se fundam, confundem, explicam, complicam, celebram interação perfeita, varando as veredas da linguagem e alcançando novo universo, terceira margem do rio na varanda. Terceira dimensão, flash, vocabulário, poeta e Kodak do "retrato-relâmpago" no porta-retratos estático, feito de luz sobre o móvel. Imóvel, diante do computador, faço a imagem dançar com palavras sob o encanto do cursor imaginário em busca do universo paralelo... Depois, quando tiver fome, posso muito bem comer Maçãs e Biscoitos de Cézanne.
            Imagina!... Presa eu?... Se com Pedro Nava navego à Beira Mar com o coração juiz-forano em seu Balão Cativo, enquanto ele ilustra Macunaíma de Mário só para me encantar.  Imagina!.. Como posso estar só no meu quarto se o Galo-das-Trevas canta e eu aprecio?!...
             Já é quase manhã, eu ainda nem dormi... E minha mãe achando que estou perdendo a infância, sem saber brincar... Faço brinquedos de palavras e cores, enquanto Bandeira tremula nas telas de Volpi. Vou pisando em chão de estrelas, Estrela da Vida Inteira, hasteada no céu só para recuperar o tempo perdido de Proust, tempo perdido diante do computador, diz minha mãe! Mal sabe ela que Proust me empresta todo o tempo diante das velas de regata, porque os vestidos das moças não atrapalham, aos olhos de um pintor impressionista, o espetáculo do mar eterno. A imagem é uma caixa fechada que Edgar Allan Poe põe na minha mão e eu gosto de abrir... Não, melhor, talvez a imagem seja um papel, um bilhete, uma carta, um Manuscrito encontrado em uma garrafa nos tantos mares que navego, enquanto eu cresço. Eu queria dizer para minha mãe que eu saio mesmo é para brincar nos quintais de Quintana, n'A Rua dos Cata-ventos, onde ando calmamente com meu Sapato Florido, só pisando nuvens, porque sou também O Aprendiz de Feiticeiro e tenho atrás de mim, ao meu encalço O Batalhão de Letras.
            Se eu me cansar de escrever, porque ainda aprendo como uma menina treinando  em caderno de caligrafia, descanso um pouco recostada na Pedra do Sono que João Cabral erigiu com projeto d'O Engenheiro. Muito mais cansado estava ele de ver a Morte e Vida Severina terra-cota dor, que todos os dias  eu vejo na caixa televisiva; eu introspectiva, e a vida internética, explosiva me fazendo sofrer. Morro do que há no mundo, disse-me Cecília e a circunferência fica, em redor de mim, fechada...
            Minha mãe diz que tenho que sair para brincar, exercitar as pernas. Já expliquei que não estou trancada no quadro na parede, na tela de plasma... Se Sangue e areia é mais uma novela que se espalha na minha sala, no meu quarto e no Iraque, eu fujo porque não suporto o sofrimento da humanidade. Não se espante... Melhor que eu Solte os Cachorros no Prado de Adélia, porque lá poderei recolher Cacos para um vitral. É isto, meninas como eu passam o Verão no Aquário ou n'A estrutura da bolha de sabão, procurando peixes e caçando borboletas, assim me disse a Lygia.
            Tenha à mão, assim como eu faço, um Cursor Virtual de palavras penduradas nas paredes, como os quadros de Dalí; Dalí em diante Salvador, enquanto o inconsciente fala e ele planta a Rosa Meditativa no meu coração... Eu me salvo enquanto escrevo... Estranho ferreiro que sou, ainda Noviço, tentando fazer pinturas de letras... Muito distante do que Martins só com a Pena soube escrever. Estou aprendendo... Outros escrevem fácil, fácil, brincando, derretendo... Derretendo metais; Ferreira diz que vai me ensinar a moldar a imagem na palavra, mais ainda... estranGULLAR, desde que eu não faça Barulhos nem pise n'O formigueiro... Meninas metidas com poesias e sonhos acham que podem mexer em tudo que encontram. Toda menina fará isso Por você por mim... Sim, por mim, por ti, Portinari!...  Quanta coisa eu contaria se pudesse e se soubesse ao menos a língua, como a cor”.

Autora: Valéria Áureo
Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida - 2005. 
[ In: Antologia - A Palavra na Era da Imagem]

quarta-feira, 15 de março de 2017

En attendant Godot ( Esperando Godot)


Ilustração: Internet


     Trim. Ouço o telefone. Trim. "Droga!" Trim. Largo o leite fervendo. Trim. Tropeço no tapete. Trim. Derrubo o telefone. Trim. 
Alô? Era engano... Mais uma vez, engano.
Trim. Mais uma vez. Não tenho tempo de atender. Isto é uma gravação. Por favor, aguarde na linha. Este telefone mudou; aqui é da casa de Anna, Carlos e Luís. Deixe sua gravação. Quando puder eu retornarei. Obrigada!”
Tudo questão de operadoras... Reflexo das agruras da globalização... Por isso atualmente tenho um número novo de telefone; foi impossível transferir o meu número para o novo endereço, apesar dos meus apelos. Apesar dos celulares, ainda insisto em ter minha linha de telefone fixo. Tinha a sensação de mais conforto. Qual!... Mil horas ouvindo músicas da operadora.  Mil chamadas nas horas mais inoportunas. Estão cada dia mais insuportáveis! Tédio da moça que me atendia. Gravações. Irritação minha de imaginarem que quero ouvir mil vezes a mesma música. Antevia a série de problemas que teria por conta da alteração. Acabava de me mudar e não me cansava de atender ligações para o antigo titular da conta telefônica, que agora era minha. Também eu tinha perdido o meu número original. Ele me serviu durante anos e tinha acompanhado todos os acontecimentos mais expressivos da minha vida, intimamente narrados via satélite. Centenas de cartões com meu número antigo foram jogados fora. A máquina da existência global girando, girando e jogando meus cartões fora... Nem quis imaginar para onde iriam, agora dispersados...
          Seu Godofredo era o titular da linha antiga, que agora era minha. Não me incomodei com a ajuda que daria a Seu Godofredo, a quem nunca vi; comprometi-me a repassar os recados, conforme um bilhete  com o pedido deixado com o porteiro chefe, caso entrasse em contato comigo. Não imaginava o que estava por vir...
          Meu telefone não parava de chamar. O dia inteiro era por conta das ligações. Você ligou para o senhor Godofredo? Não! Não, este número mudou. deixe o seu recado! Pelo número de ligações para ele, pude compor em minha cabeça um escopo de quem se tratava. O homem, que devia viver só, era um sedutor, imaginei. Expliquei o caso da troca de números, incontáveis vezes, sempre para vozes femininas melosas, ardentes,  ansiosas, desejosas, apaixonadas ou chorosas. Elas não entendiam direito como tudo acontecera. Eu explicava sobre a mudança de número, feita pela operadora... Principalmente à noite, em que eu precisava dormir o telefone não parava. Eu, tão exausta, assim mesmo atendia, sempre pensando na possibilidade de uma emergência real. Mas não me deixavam concluir. Gritavam exasperadas: - Quem era essa operadora, afinal? Algumas histéricas pensavam tratar-se de alguma mulher, o que me assustava mais ainda. Eu tinha comprado aquele linha que vinha com o vício de uns cem números de conquistas e confidências.  Um  rol de desastres afetivo. Um telefone afeito a todo tipo de sentimento e humor feminino: ciúmes, traições, mágoas, saudades, rancores, vingança, vingança, vingança... Muitas vozes de mulheres diferentes... Uma delas deixou um recado bem humorado (coisa bem rara), na secretária eletrônica: - Meu Deus... Da última vez que nos falamos seu nome era Godot e não tinha nenhuma mulher em sua casa... E você não tinha esse embrulho inteiro aí... “o embrulho, suponho, sou eu e os dois filhos, cujos nomes também constam na mensagem da secretária eletrônica, dando ciência da troca”. Outra ligou às seis da manhã, de uma noite em claro, como ela mesma disse e vociferou alguma coisa como “não acredito que você está fugindo de mim, eu esperei a noite inteira, seu desgraçado”! E me deixou esperando a noite inteira, infeliz! ”E bateu o telefone na cara de Godot”. Ou seja: na cara da minha secretária eletrônica! Nunca poderia imaginar: Seu Godofredo era Godot.
           Mas a que me deu trabalho, porque me antecipei à secretária, por irritação, foi Ana. Já estava cansada de ligações para o tal Godofredo. Eu tinha me tornado uma base de recados do sujeito. Meu tempo em casa era quase todo para atender ligações...
           Tocou, mais uma vez... Imediatamente atendi como se pressentisse a presença de mais uma mulher histérica, apreensiva, maluca. Havia lágrimas do outro lado da linha, senti pelo nariz fungando. Ela não deve ser fácil, a notar pelo tom da voz, pensei. Parecia aflita, nervosa e imagino em que palpos de aranha o sujeito se meteu...
             - Alô? Atendi a milésima ligação do dia.
          - Quem fala? - Perguntou a moça desconfiada, com uma voz quase infantil. Eu percebi que ela estava à beira do pranto.
            - Sim... Quer falar com quem?
            - É da casa do Godot? Porque você está com o número do Godot? Quem é você, afinal? Eu quero falar com o Godot!... E a voz só ia aumentando, alimentada pelo desespero.
         - Era isto que eu queria explicar, minha senhora... Estou em minha casa e este número não é mais...
        - E você acha que vou ficar ouvindo explicações de uma mulher que nem conheço? Chama o Godot, por favor!
       - Minha senhora, aqui é a minha casa, não é a casa de Godot. A operadora trocou os números...
         - Que operadora é essa? E qual é o número do Godot, então?
      - Não tenho o número atual dele, mas assim que ele ligar, para desvendar toda esta confusão de troca de linhas, eu repasso o seu recado, está bem?Agora ela estava realmente furiosa com as minhas tentativas de explicação:
       - E você quer que eu acredite que você não sabe o número dele e nem o conhece? Você quer me despistar, livrar-se de mim... Agora deixa eu te explicar uma coisa: meu nome é Ana e Godot sabe muito bem quem eu sou. Chama ele, por favor!... Chama aquele desgraçado, pelo amor de Deus!... Aquele, “por favor," da moça era uma ordem e não mais uma súplica.
       - Olha!... Eu vou ter que desligar; já tentei explicar o que aconteceu... Já me dispus a anotar o seu recado. Caso ele tenha a inteligência de ligar para o número antigo dele... Se a senhora não entende, problema seu, eu preciso trabalhar e a senhora me atrapalha... Vou desligar!
      - Desliga mesmo! Está inventando. Está fingindo que é a empregada? Foge! Mas me diz: - O que você é dele, afinal? A última conquista? Uma amante? Você é o último brinquedinho dele? Pois saiba que é isto mesmo que você é: um brinquedinho! Vai enjoar e jogar fora... Vai deixar você esperando, esperando... Ele “te” contou de mim? Que temos planos? Vou contar... E começou uma narrativa em meio ao pranto que me deixou confusa e, de certa forma, penalizada... Eu sempre fui uma mulher prática, emancipada e não acreditava existirem mais mulheres tão ingênuas e românticas.
      - Godot entrou na minha vida assim, sem pedir licença e sem saber mesmo que entrava. Ele invadiu a minha vida, com desenvoltura depois de uma observação que eu fiz sobre sua voz. Ele era uma voz; a perfeição da voz. Tudo se resumia naquela voz estrondosa, arrepiante. Foi uma ligação errada que atendi; era dele e, no instante que ouvi a voz dele, perdi a razão e o ar... Admirável voz... Não acha? Dá arrepios... Então, está me ouvindo?
         - Sim, estou prestando atenção, mas nunca ouvi a voz desse tal senhor Godot... Não sei de que isto vai adiantar; não posso fazer nada para resolver seu problema. Melhor tentar se acalmar... Mas como era tola a pobre moça, pensei.
          - Acalmar como, se você está enfiada na casa dele?... Eu e ele estamos juntos há quatro anos, temos planos... Temos uma vida...
          - Mas eu não tenho nada com isso. Nem conheço esse tal Godot, minha senhora. Preciso desligar!...
      - Não, por favor, não desligue. Preciso contar como nos conhecemos... Agora ela pedia, desesperadamente, com a voz diminuindo, diminuindo.
      - Desde que fale bem rapidinho; tenho um trabalho para entregar ainda hoje...  Sim... Não pode resumir? Conclui que a explicação seria muito longa. A pobre era detalhista... Uma tola romântica e prolixa.
       - Eu tinha pensamentos péssimos sobre o que fazer com aquilo que chamavam vida. Não havia mais aspirações. Queria qualquer coisa para preencher minha desesperada expectativa e para iludir o tédio dos dias vazios e sempre iguais. Mas então, eis que surge Godot! Uma ligação errada. Eu procurava um cardiologista; pois uma confusão de ligações e acabei “trombando” com ele. Fiz uma ligação para o cardiologista... Creio que me enganei com a numeração. Alguém atendeu e prendeu o telefone sem falar nada. Achei estranho e fiquei desconcertada com a abrupta reação de respirarem no outro lado da linha, em silêncio. Uma espera longa no telefone. Depois de  minutos, sem ninguém falar, entrou uma voz forte, do outro lado. Assim que ouvi a voz gelei. Assustadoramente linda... Se é que não há contradição entre o medo e o prazer que senti ao mesmo tempo, ao ouvi-lo. A partir da primeira ligação, por engano, passamos a nos falar regularmente pelo telefone...  Nunca sem antes me deixar esperando. Ele respirando do outro lado da linha. Dizia que estava ocupado, em outra ligação. Eu esperava. Ele sempre muito ocupado. Não era sonho, era muito real. Eu ligava para esse número que a senhora está usando. Entende por que não posso ficar sem o número dele?
             - Sim, agora entendi, mas deixa-me desligar... Se ele tiver a boa vontade e a inteligência de ligar para cá, dou o seu recado. Deixa o seu nome, o seu telefone; eu repasso. Eu precisava acabar com aquela lamúria.
             - Não, por favor, preciso contar como foi...      
          - Entendo, sinto muito mesmo... Mas não tenho mesmo como ajudá-la. Não conheço esse sujeito, juro! E passei a imaginar o que teria de especial o tal Godofredo, o Godot!... O que o fazia ser procurado, perseguido, por tantas mulheres?
         Está me ouvindo? Godot entrou em minha vida... Finalmente eu me sentia feliz. Alguém me ouvindo do outro lado. Eu sentindo a respiração dele. Havia vida. Era muito real! Entende agora, porque preciso desesperadamente encontrá-lo?
        - Entendo... Poderia me dar seu nome e seu número? Darei seu recado com o máximo prazer. Mas agora me desculpe, preciso desligar...
       Eu estava curiosa, mas eu não tinha tempo para ouvir os planos dela... Mesmo porque eu estava tão nervosa que poderia soltar uma gargalhada, ou mesmo chorar sem qualquer explicação e ia magoar a moça sem que isto fizesse sentido para mim. Não me faria bem. A ligação conseguiu me emocionar e fiquei atribulada entre duas sensações distintas. Melhor desligar... E depois, eu estava realmente penalizada com a aflição dela. Não sabia dizer por qual razão eu me comovia com a situação da mulher do outro lado da linha.
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         Trim. Ouço a campainha e saio correndo. Trim. "Droga!" Trim. Largo o leite fervendo. Trim. Tropeço no tapete. Trim. Derrubo o telefone. Trim. "Alô?" Droga. É engano. Mas isto é o dia inteiro, que inferno! O mais estranho é que, a partir da ligação de Anna, toda vez que o meu telefone toca, o meu coração dá um sobressalto, acelera e me deixa sem fôlego. Perco a razão e o ar.
Não tenho mais paz... 
Também eu vivo esperando Godot.
Autora: Valéria Áureo