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terça-feira, 11 de abril de 2017

Sortilégio dos Signos


Leonardo era leonino sonhador e sentimental; ao menos era o que dizia a empregada da casa, quando se referia ao patrão: meio atrapalhado, mas muito boa pessoa, assim o resumia. Ele não amanhecia o dia sem o café quente no copo e a página do jornal aberta no horóscopo. Hábito que adquirira com a namoradinha da adolescência, que gostava de adivinhar o futuro, perfumando o presente com incenso.
Harmonia com libra... Momento propício para projetos e definições de caráter sentimental. O amor cruzará sua vida no dia de hoje. Fique atento. Aquele dia as previsões eram favoráveis para um encontro de dois signos que formam o par perfeito. Era o que constava na tira fina de previsões para hoje, quarta-feira, 20 de outubro de 2010, no jornal. Dia de topar com as imagens esfumaçadas e telúricas; leão e as veleidades do mapa zodiacal em perfeita conjunção com libra. Não era todo dia que as previsões eram tão otimistas... Hoje não! Enfim era o dia de encontrar o amor. Estava escrito em seu mapa astrológico, o prognóstico de uma oportunidade alvissareira. Tratou, pois, de se arrumar o mais detalhadamente possível: barba por escanhoar, resolveu com um cuidado esmerado, imaginando o toque da pele no rosto da mulher que encontraria; quem sabe no elevador, no metrô, nas escadas do Ministério do Trabalho. O corpo inteiro para conferir diante do espelho da porta do armário. Detalhes para conferir nas unhas, nos pelos do nariz e das orelhas. Dentes caprichados na escovação sistemática e visitas constantes ao dentista. Por isto não fumava e nem tomava café. Era agradável ter dentes que chamavam atenção pela brancura e alinhamento. Poderia se dizer que eram perfeitos. Adornavam o sorriso escancarado do sujeito sempre bem falante. Poderia se resumir que ele era um homem muito simpático e bem humorado. Mesmo assim, esperou quarenta e três anos, para que aparecesse um sinal, uma presciência tão otimista, como a deste dia. Finalmente... Hoje era a sua grande chance. Escolheu com cuidado a roupa; discreta e elegante. Foi comedido no perfume. Colocou comida para os peixes no grande aquário da sala...
Eliana era libriana e muito realista. Bem sucedida na profissão, foi deixando o tempo do amor passar. Quarenta anos... Foi o período que consumira para se tornar executiva, emancipada, totalmente independente econômica e financeiramente. Desativara o relógio biológico por muito tempo, para que os projetos de sua vida não descarrilassem. Não seria bancada por ninguém; assim planejou sua vida, com um cronômetro de sensatez e controle de todas as emoções. Par perfeito!... Ainda acreditavam nisto? Que tolice! Hoje, ao ler o caderno de economia, tomou ciência da estabilidade da moeda. Tudo sob controle, pensou. Nada que pudesse provocar inquietações e crise no Mercado Financeiro. Investia na bolsa. Comprava ações da Petrobras, comprava euros e diversificava as suas aplicações. Para descontrair foi ao horóscopo. Riu... Leão e as veleidades do mapa zodiacal em perfeita conjunção com libra. Momento propício para projetos e definições de caráter sentimental. O amor cruzará sua vida no dia de hoje. Fique atento. Tornou a rir e fechou o jornal. Amarrou os cabelos de forma displicente, tomou um banho, escolheu uma roupa formal e colocou o perfume de sempre. Colocou comida para o gato siamês, Amour, que lhe fazia companhia.
Eliana e Leonardo pegavam a mesma linha no mesmo horário; Metrô, Estação Flamengo em direção à Zona Sul. Destino... Incerto e não sabido, pois cada um seguia o seu! Cada um descia em sua estação de desembarque. Nunca entraram no mesmo vagão do trem. No dia 20 de outubro de 2010 nada aconteceu de especial, apesar das previsões tão promissoras do seu signo.
Leonardo ainda vive no Rio. Eliana mudou-se para Paris; partiu decepcionada com o país, face à crise econômica, aos escândalos de corrupção no governo e à imoralidade dos políticos, depois de perder muito dinheiro na Bolsa de Valores, principalmente com os desfalques na Petrobras. Categórica afirma não mais voltar. Continua realista e bem sucedida, apesar de tudo.

Autora: Valéria Áureo
In Sortilégio dos Signos

domingo, 2 de abril de 2017

A Palavra na Era da Imagem








            - Menina, diz a mãe, vá brincar!... Vai ficar com as pernas atrofiadas de tanto ficar no computador... Vive trancada nesse quarto, parece um caracol.
            Imagina!... Eu me olhava no espelho, na tela refletida do monitor e não via nada diferente das outras meninas... Via dentro das águas dos olhos vertigens o que a boca não descrevia; a mim, à imagem e semelhança de Deus, a quem nunca vi, de fato, só mesmo manifestado na igreja e na arte... Uma imagem vale mil palavras; uma palavra descreve uma imagem, ou mil e uma em tantas noites, mesmo que depois eu fique em silêncio, calada para o resto da vida...
       O pai resmunga: - Deixa a menina!...
      - Agora não, mãe!... Agora não. A menina selvagem, já ia bem longe dali, sempre lendo, acompanhada de pássaros, de uma tinta de magnólia escorrida nas faces, carregando punhados de renda... Fugiu para encontrar-se com Henriqueta em Lisboa. A mãe, agoniada e tão inocente, achando que ela estava trancafiada em casa. Não compreende que agora ela navega, viaja com Gulliver. Também como ele, a menina quis levantar-se, mas tem os cabelos presos ao chão e os braços e pernas imobilizados por uma porção de amarras. Está presa na rede... Sobre o corpo uma multidão de homenzinhos dança, pula, se precipita. Está certo que passava muito tempo trancada e a mãe não gostava. Que absurdo, presa, trancafiada, reclamava sempre agoniada... A verdade é que a menina Lya Luft nO Quarto Fechado...
            Minha mãe acha que não faço mais nada... Não vivo, não respiro, só fico no computador, navegando. O importante em navegar é não naufragar em informações efêmeras. Eu aprendi que para ser Pessoa "Navegar é preciso, viver não é preciso", mas sei bem o que quero aprender na imprecisão de viver... Como pode imaginar que não leio mais? A verdade é que eu estou até o pescoço com Papéis Avulsos e Páginas Recolhidas que Machado me emprestou.  Como dizer que não escrevo, seo que me atrapalha a vida é escrever?" Mas agora é, e para sempre, a minh'A Hora da Estrela, porque também quero viver e brilhar... E quando preciso, bem faço eu que sempre repouso Perto do Coração Selvagem, onde encontro música, tecido de sons que a alma de Clarice suportava, metonímia de todas as linguagens humanas, ritmos de todos os sons... Pois danço, canto, faço música...
            Fujo para me esconder de minha mãe na mata Matisse de todas as cores. Ele está ali há um bom tempo e pede para eu não atrapalhar; ilustra e me faz um ramalhete de Fleurs du Mal de Baudelaire e lembra-me que é tarde e que preciso me arrumar para sair. Disse Picasso que Matisse tinha um "sol na barriga", cujas cenas brilhavam com a luz radiante do Mediterrâneo. Achei muito engraçado; já tinha ouvido falar em rei na barriga; já minha mãe diz que não tenho nada na cabeça e nem na barriga, porque não me lembro nem de comer.... Eu olho, investigo, escondida atrás da porta, para que ela não me veja vestida com a Blusa Romena; seria um escândalo. Ela me diz que não tenho idade nem para me preocupar ou usar batom... Miró- me no espelho assim mesmo, vaidosa e tão sozinha como o Cão latindo para a lua. Oh!... Esqueci-me por completo d'A lição de piano. Amanhã à noite no Claire de Lune eu me dedico mais e me debruço nos braços de Debussy
            Windows aberto para os olhos nunca me deixam parar de ler ou escrever! Minha mãe reclama que vivo trancada no meu quarto, não solto um pio sequer... Não percebe que estou a compartilhar dos gorjeios e não sinto fome... Já voo com a matinal Ave, Palavra! Pássaro libertado de Guimarães Rosa e todas as outras flores; Florbela Espanca-me... Com doçura, palavra por palavra e imagem. Estas todas que se encontram, se fundam, confundem, explicam, complicam, celebram interação perfeita, varando as veredas da linguagem e alcançando novo universo, terceira margem do rio na varanda. Terceira dimensão, flash, vocabulário, poeta e Kodak do "retrato-relâmpago" no porta-retratos estático, feito de luz sobre o móvel. Imóvel, diante do computador, faço a imagem dançar com palavras sob o encanto do cursor imaginário em busca do universo paralelo... Depois, quando tiver fome, posso muito bem comer Maçãs e Biscoitos de Cézanne.
            Imagina!... Presa eu?... Se com Pedro Nava navego à Beira Mar com o coração juiz-forano em seu Balão Cativo, enquanto ele ilustra Macunaíma de Mário só para me encantar.  Imagina!.. Como posso estar só no meu quarto se o Galo-das-Trevas canta e eu aprecio?!...
             Já é quase manhã, eu ainda nem dormi... E minha mãe achando que estou perdendo a infância, sem saber brincar... Faço brinquedos de palavras e cores, enquanto Bandeira tremula nas telas de Volpi. Vou pisando em chão de estrelas, Estrela da Vida Inteira, hasteada no céu só para recuperar o tempo perdido de Proust, tempo perdido diante do computador, diz minha mãe! Mal sabe ela que Proust me empresta todo o tempo diante das velas de regata, porque os vestidos das moças não atrapalham, aos olhos de um pintor impressionista, o espetáculo do mar eterno. A imagem é uma caixa fechada que Edgar Allan Poe põe na minha mão e eu gosto de abrir... Não, melhor, talvez a imagem seja um papel, um bilhete, uma carta, um Manuscrito encontrado em uma garrafa nos tantos mares que navego, enquanto eu cresço. Eu queria dizer para minha mãe que eu saio mesmo é para brincar nos quintais de Quintana, n'A Rua dos Cata-ventos, onde ando calmamente com meu Sapato Florido, só pisando nuvens, porque sou também O Aprendiz de Feiticeiro e tenho atrás de mim, ao meu encalço O Batalhão de Letras.
            Se eu me cansar de escrever, porque ainda aprendo como uma menina treinando  em caderno de caligrafia, descanso um pouco recostada na Pedra do Sono que João Cabral erigiu com projeto d'O Engenheiro. Muito mais cansado estava ele de ver a Morte e Vida Severina terra-cota dor, que todos os dias  eu vejo na caixa televisiva; eu introspectiva, e a vida internética, explosiva me fazendo sofrer. Morro do que há no mundo, disse-me Cecília e a circunferência fica, em redor de mim, fechada...
            Minha mãe diz que tenho que sair para brincar, exercitar as pernas. Já expliquei que não estou trancada no quadro na parede, na tela de plasma... Se Sangue e areia é mais uma novela que se espalha na minha sala, no meu quarto e no Iraque, eu fujo porque não suporto o sofrimento da humanidade. Não se espante... Melhor que eu Solte os Cachorros no Prado de Adélia, porque lá poderei recolher Cacos para um vitral. É isto, meninas como eu passam o Verão no Aquário ou n'A estrutura da bolha de sabão, procurando peixes e caçando borboletas, assim me disse a Lygia.
            Tenha à mão, assim como eu faço, um Cursor Virtual de palavras penduradas nas paredes, como os quadros de Dalí; Dalí em diante Salvador, enquanto o inconsciente fala e ele planta a Rosa Meditativa no meu coração... Eu me salvo enquanto escrevo... Estranho ferreiro que sou, ainda Noviço, tentando fazer pinturas de letras... Muito distante do que Martins só com a Pena soube escrever. Estou aprendendo... Outros escrevem fácil, fácil, brincando, derretendo... Derretendo metais; Ferreira diz que vai me ensinar a moldar a imagem na palavra, mais ainda... estranGULLAR, desde que eu não faça Barulhos nem pise n'O formigueiro... Meninas metidas com poesias e sonhos acham que podem mexer em tudo que encontram. Toda menina fará isso Por você por mim... Sim, por mim, por ti, Portinari!...  Quanta coisa eu contaria se pudesse e se soubesse ao menos a língua, como a cor”.

Autora: Valéria Áureo
Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida - 2005. 
[ In: Antologia - A Palavra na Era da Imagem]

quarta-feira, 15 de março de 2017

En attendant Godot ( Esperando Godot)


Ilustração: Internet


     Trim. Ouço o telefone. Trim. "Droga!" Trim. Largo o leite fervendo. Trim. Tropeço no tapete. Trim. Derrubo o telefone. Trim. 
Alô? Era engano... Mais uma vez, engano.
Trim. Mais uma vez. Não tenho tempo de atender. Isto é uma gravação. Por favor, aguarde na linha. Este telefone mudou; aqui é da casa de Anna, Carlos e Luís. Deixe sua gravação. Quando puder eu retornarei. Obrigada!”
Tudo questão de operadoras... Reflexo das agruras da globalização... Por isso atualmente tenho um número novo de telefone; foi impossível transferir o meu número para o novo endereço, apesar dos meus apelos. Apesar dos celulares, ainda insisto em ter minha linha de telefone fixo. Tinha a sensação de mais conforto. Qual!... Mil horas ouvindo músicas da operadora.  Mil chamadas nas horas mais inoportunas. Estão cada dia mais insuportáveis! Tédio da moça que me atendia. Gravações. Irritação minha de imaginarem que quero ouvir mil vezes a mesma música. Antevia a série de problemas que teria por conta da alteração. Acabava de me mudar e não me cansava de atender ligações para o antigo titular da conta telefônica, que agora era minha. Também eu tinha perdido o meu número original. Ele me serviu durante anos e tinha acompanhado todos os acontecimentos mais expressivos da minha vida, intimamente narrados via satélite. Centenas de cartões com meu número antigo foram jogados fora. A máquina da existência global girando, girando e jogando meus cartões fora... Nem quis imaginar para onde iriam, agora dispersados...
          Seu Godofredo era o titular da linha antiga, que agora era minha. Não me incomodei com a ajuda que daria a Seu Godofredo, a quem nunca vi; comprometi-me a repassar os recados, conforme um bilhete  com o pedido deixado com o porteiro chefe, caso entrasse em contato comigo. Não imaginava o que estava por vir...
          Meu telefone não parava de chamar. O dia inteiro era por conta das ligações. Você ligou para o senhor Godofredo? Não! Não, este número mudou. deixe o seu recado! Pelo número de ligações para ele, pude compor em minha cabeça um escopo de quem se tratava. O homem, que devia viver só, era um sedutor, imaginei. Expliquei o caso da troca de números, incontáveis vezes, sempre para vozes femininas melosas, ardentes,  ansiosas, desejosas, apaixonadas ou chorosas. Elas não entendiam direito como tudo acontecera. Eu explicava sobre a mudança de número, feita pela operadora... Principalmente à noite, em que eu precisava dormir o telefone não parava. Eu, tão exausta, assim mesmo atendia, sempre pensando na possibilidade de uma emergência real. Mas não me deixavam concluir. Gritavam exasperadas: - Quem era essa operadora, afinal? Algumas histéricas pensavam tratar-se de alguma mulher, o que me assustava mais ainda. Eu tinha comprado aquele linha que vinha com o vício de uns cem números de conquistas e confidências.  Um  rol de desastres afetivo. Um telefone afeito a todo tipo de sentimento e humor feminino: ciúmes, traições, mágoas, saudades, rancores, vingança, vingança, vingança... Muitas vozes de mulheres diferentes... Uma delas deixou um recado bem humorado (coisa bem rara), na secretária eletrônica: - Meu Deus... Da última vez que nos falamos seu nome era Godot e não tinha nenhuma mulher em sua casa... E você não tinha esse embrulho inteiro aí... “o embrulho, suponho, sou eu e os dois filhos, cujos nomes também constam na mensagem da secretária eletrônica, dando ciência da troca”. Outra ligou às seis da manhã, de uma noite em claro, como ela mesma disse e vociferou alguma coisa como “não acredito que você está fugindo de mim, eu esperei a noite inteira, seu desgraçado”! E me deixou esperando a noite inteira, infeliz! ”E bateu o telefone na cara de Godot”. Ou seja: na cara da minha secretária eletrônica! Nunca poderia imaginar: Seu Godofredo era Godot.
           Mas a que me deu trabalho, porque me antecipei à secretária, por irritação, foi Ana. Já estava cansada de ligações para o tal Godofredo. Eu tinha me tornado uma base de recados do sujeito. Meu tempo em casa era quase todo para atender ligações...
           Tocou, mais uma vez... Imediatamente atendi como se pressentisse a presença de mais uma mulher histérica, apreensiva, maluca. Havia lágrimas do outro lado da linha, senti pelo nariz fungando. Ela não deve ser fácil, a notar pelo tom da voz, pensei. Parecia aflita, nervosa e imagino em que palpos de aranha o sujeito se meteu...
             - Alô? Atendi a milésima ligação do dia.
          - Quem fala? - Perguntou a moça desconfiada, com uma voz quase infantil. Eu percebi que ela estava à beira do pranto.
            - Sim... Quer falar com quem?
            - É da casa do Godot? Porque você está com o número do Godot? Quem é você, afinal? Eu quero falar com o Godot!... E a voz só ia aumentando, alimentada pelo desespero.
         - Era isto que eu queria explicar, minha senhora... Estou em minha casa e este número não é mais...
        - E você acha que vou ficar ouvindo explicações de uma mulher que nem conheço? Chama o Godot, por favor!
       - Minha senhora, aqui é a minha casa, não é a casa de Godot. A operadora trocou os números...
         - Que operadora é essa? E qual é o número do Godot, então?
      - Não tenho o número atual dele, mas assim que ele ligar, para desvendar toda esta confusão de troca de linhas, eu repasso o seu recado, está bem?Agora ela estava realmente furiosa com as minhas tentativas de explicação:
       - E você quer que eu acredite que você não sabe o número dele e nem o conhece? Você quer me despistar, livrar-se de mim... Agora deixa eu te explicar uma coisa: meu nome é Ana e Godot sabe muito bem quem eu sou. Chama ele, por favor!... Chama aquele desgraçado, pelo amor de Deus!... Aquele, “por favor," da moça era uma ordem e não mais uma súplica.
       - Olha!... Eu vou ter que desligar; já tentei explicar o que aconteceu... Já me dispus a anotar o seu recado. Caso ele tenha a inteligência de ligar para o número antigo dele... Se a senhora não entende, problema seu, eu preciso trabalhar e a senhora me atrapalha... Vou desligar!
      - Desliga mesmo! Está inventando. Está fingindo que é a empregada? Foge! Mas me diz: - O que você é dele, afinal? A última conquista? Uma amante? Você é o último brinquedinho dele? Pois saiba que é isto mesmo que você é: um brinquedinho! Vai enjoar e jogar fora... Vai deixar você esperando, esperando... Ele “te” contou de mim? Que temos planos? Vou contar... E começou uma narrativa em meio ao pranto que me deixou confusa e, de certa forma, penalizada... Eu sempre fui uma mulher prática, emancipada e não acreditava existirem mais mulheres tão ingênuas e românticas.
      - Godot entrou na minha vida assim, sem pedir licença e sem saber mesmo que entrava. Ele invadiu a minha vida, com desenvoltura depois de uma observação que eu fiz sobre sua voz. Ele era uma voz; a perfeição da voz. Tudo se resumia naquela voz estrondosa, arrepiante. Foi uma ligação errada que atendi; era dele e, no instante que ouvi a voz dele, perdi a razão e o ar... Admirável voz... Não acha? Dá arrepios... Então, está me ouvindo?
         - Sim, estou prestando atenção, mas nunca ouvi a voz desse tal senhor Godot... Não sei de que isto vai adiantar; não posso fazer nada para resolver seu problema. Melhor tentar se acalmar... Mas como era tola a pobre moça, pensei.
          - Acalmar como, se você está enfiada na casa dele?... Eu e ele estamos juntos há quatro anos, temos planos... Temos uma vida...
          - Mas eu não tenho nada com isso. Nem conheço esse tal Godot, minha senhora. Preciso desligar!...
      - Não, por favor, não desligue. Preciso contar como nos conhecemos... Agora ela pedia, desesperadamente, com a voz diminuindo, diminuindo.
      - Desde que fale bem rapidinho; tenho um trabalho para entregar ainda hoje...  Sim... Não pode resumir? Conclui que a explicação seria muito longa. A pobre era detalhista... Uma tola romântica e prolixa.
       - Eu tinha pensamentos péssimos sobre o que fazer com aquilo que chamavam vida. Não havia mais aspirações. Queria qualquer coisa para preencher minha desesperada expectativa e para iludir o tédio dos dias vazios e sempre iguais. Mas então, eis que surge Godot! Uma ligação errada. Eu procurava um cardiologista; pois uma confusão de ligações e acabei “trombando” com ele. Fiz uma ligação para o cardiologista... Creio que me enganei com a numeração. Alguém atendeu e prendeu o telefone sem falar nada. Achei estranho e fiquei desconcertada com a abrupta reação de respirarem no outro lado da linha, em silêncio. Uma espera longa no telefone. Depois de  minutos, sem ninguém falar, entrou uma voz forte, do outro lado. Assim que ouvi a voz gelei. Assustadoramente linda... Se é que não há contradição entre o medo e o prazer que senti ao mesmo tempo, ao ouvi-lo. A partir da primeira ligação, por engano, passamos a nos falar regularmente pelo telefone...  Nunca sem antes me deixar esperando. Ele respirando do outro lado da linha. Dizia que estava ocupado, em outra ligação. Eu esperava. Ele sempre muito ocupado. Não era sonho, era muito real. Eu ligava para esse número que a senhora está usando. Entende por que não posso ficar sem o número dele?
             - Sim, agora entendi, mas deixa-me desligar... Se ele tiver a boa vontade e a inteligência de ligar para cá, dou o seu recado. Deixa o seu nome, o seu telefone; eu repasso. Eu precisava acabar com aquela lamúria.
             - Não, por favor, preciso contar como foi...      
          - Entendo, sinto muito mesmo... Mas não tenho mesmo como ajudá-la. Não conheço esse sujeito, juro! E passei a imaginar o que teria de especial o tal Godofredo, o Godot!... O que o fazia ser procurado, perseguido, por tantas mulheres?
         Está me ouvindo? Godot entrou em minha vida... Finalmente eu me sentia feliz. Alguém me ouvindo do outro lado. Eu sentindo a respiração dele. Havia vida. Era muito real! Entende agora, porque preciso desesperadamente encontrá-lo?
        - Entendo... Poderia me dar seu nome e seu número? Darei seu recado com o máximo prazer. Mas agora me desculpe, preciso desligar...
       Eu estava curiosa, mas eu não tinha tempo para ouvir os planos dela... Mesmo porque eu estava tão nervosa que poderia soltar uma gargalhada, ou mesmo chorar sem qualquer explicação e ia magoar a moça sem que isto fizesse sentido para mim. Não me faria bem. A ligação conseguiu me emocionar e fiquei atribulada entre duas sensações distintas. Melhor desligar... E depois, eu estava realmente penalizada com a aflição dela. Não sabia dizer por qual razão eu me comovia com a situação da mulher do outro lado da linha.
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         Trim. Ouço a campainha e saio correndo. Trim. "Droga!" Trim. Largo o leite fervendo. Trim. Tropeço no tapete. Trim. Derrubo o telefone. Trim. "Alô?" Droga. É engano. Mas isto é o dia inteiro, que inferno! O mais estranho é que, a partir da ligação de Anna, toda vez que o meu telefone toca, o meu coração dá um sobressalto, acelera e me deixa sem fôlego. Perco a razão e o ar.
Não tenho mais paz... 
Também eu vivo esperando Godot.
Autora: Valéria Áureo

sexta-feira, 10 de março de 2017

Madrugada





                                                                       Fonte: YouTube

 


A madrugada de sábado inquietava o coração de Anna, só porque tinha inscrito uma história diferente nos tediosos dias regulares... Na noite de sexta, ainda rolava na cama. Devia ser uma hora, já na virada da noite em dia e uma explosão detonou alguma coisa na portaria do seu prédio. O estrondo acordou todos e as luzes de cada apartamento foram se acendendo, acompanhadas de vozes arrastadas num refrão de sobressaltos. Imprimiam uma iluminação sincronizada de uma cordilheira crescente na escuridão e angústias pontilhadas em janelas procurando explicações... O que houve? Ouviram? Que barulho é esse? Uma estrondosa batida de carro, compacta e seca, limitada em segundos nos dois extremos e pronto. Novamente o vazio de muitas horas no quarto escuro. Anna vestiu-se às pressas e pelo interfone falou com o porteiro que confirmou:
- Foi isso mesmo, Dona Anna, bem aqui na portaria. O morador do nº. 702 ia entrar na garagem e uma moto com um casal apareceu do nada no escuro e eles se chocaram. Vi tudo, confirmava satisfeito, dando-se maior importância que ao caso. A moça da moto voou e caiu em cima do carro estacionado, bem na nossa entrada... O rapaz está no meio da rua. O porteiro investiu-se da vivacidade do repórter e inteirou-se dos detalhes, para contar a quem quisesse ouvir, afastando de si o papel inexpressivo de passar a noite na portaria sempre vazia. De certa forma se inscrevia no acontecimento com a volúpia de celebridade e ia mais longe, na história que ardilosamente criava. Tinha prazer nisso.
Anna nem esperou que ele terminasse a deliciada narrativa, que fazia dele um protagonista atento a minúcias, pensando já em confirmar a dor da desgraçada mãe da vítima. Anna desceu e ficou surpresa com a multidão em torno do acidente, que parecia deixar de ser um infortúnio. Parecia, para sua surpresa, uma improvisada confraternização de final de ano. Tudo muito claro, envolto em muita luz, apesar da noite... Havia muito movimento na rua. Alunos que matavam aula da Universidade Bennette, outros tantos migrando para o Armazém do Chope, porque era sexta-feira virando sábado. Muitos entrando no metrô, na habitual correria de voltar para casa, ou mesmo para um programa em qualquer lugar da zona Sul. Outros se amontoando parando para ver.
O que se via? A moto retorcida na calçada e a moça esparramada no meio fio, gritando alucinada com a perna quebrada, uma desencontrada da outra, e ela inteira envolta em sangue... O rapaz jazia inerte e as pessoas davam conta, em nervoso falatório, do que tinham visto ou imaginado ver. Versões iam surgindo conforme a capacidade inventiva do narrador que via aquilo que queria ver. As mulheres recém saídas de seus apartamentos, de suas camas quentes, tinham os cabelos desfeitos, roupão de chambre e sono manchando os olhos de rímel Elas quase não falavam, absortas na movimentação dos bombeiros emendando os feridos, diante de suas olheiras incrédulas. Os mais velhos concluíam pela irresponsabilidade dos moços, pela bebida, pela droga, velocidade e todos os "vícios" da idade, sem deixar de atentar para uma massa branca e acinzentada no chão que, asseguravam peremptórios, serem os miolos do casal. Tinham certeza... Eram miolos dos desmiolados, resmungavam os mais velhos em solúvel babugem na barra do pijama. Tudo num único pacote de final de semana: juventude, piercing, chope, cabelos lisos de chapinha, tatuagem, cinema, coca, sexo, preservativos, motos e miolos esparramados... Bem que mereciam, sentenciava um carrasco em pijama e chinelos. Parecia cansado de arrastar o tempo e o descaso, coçando a cabeça calva, poucos restos de fios espetados para a cidade, sob os dedos nodosos, os olhos apertados, pouco vendo, na pressa que o fez esquecer os óculos... A esta altura da idade, nada mais importava para ele, nem mesmo a loucura dos jovens e o movimento de quadris que eles faziam na madrugada. 

Ao lado do velho rabugento estava um homem de bermuda, aborrecido com o sono perdido àquela hora e a insônia comprometendo o humor e os olhos arregalados. Mas por que mesmo tinha inventado de sair da cama?... Antes que amanhecesse, ou que fosse muito tarde, ele precisava mesmo era só de dormir. O acidente não estava previsto, mas... Que se danassem os motoqueiros malucos!...
Sexta-feira e muito tarde, quando Anna deveria estar dormindo. Há corpos no chão, entre o asfalto e o trânsito invertido, como também se inverteu a ordem de sorrir e de prazer dentro do coração dos dois amantes agora estirados... Ela vê partes de paredes cimentadas e muros e prédios a encobrir dos seus olhos o mar. O mar distante apenas em duas paralelas ao Aterro. Anna percebe uma luz bem mais distante, onde nasce o verão na Praia do Flamengo e nadam sereias, antes que amanheça e os faróis se apaguem. Jamais se vestirá com as cores do inverno, esta paisagem noturna, urbana, clara de luzes artificiais acesas ao mesmo tempo; exageradamente clareada pelo neon das fachadas das choperias, que afasta as pessoas dessa praia, levando-as a naufragar em terra.
- Quer uma água? Perguntou a senhora pronta para servir com uma garrafa, sorrisos e copos descartáveis, enquanto fazia tudo para sua solidão desfragmentar-se naquela noite diferente. Estimulava detalhes e ideias nas minúcias do ocorrido, para que todos permanecessem horas e horas, plantados no cenário do acidente. Precisava de companhia, mesmo que fosse brevemente naquela calçada de notívagos desconfortáveis e os dois feridos no chão... E bem na minha porta, a senhora da garrafa declarava quase feliz... E bem na minha porta, estão vendo?... E o que ela mais temia, nem era a provável morte dos acidentados. Era retornar solitária para sua casa vazia e enfrentar sua homeopática morte, ainda dentro do elevador; coisa que aguardava todos os dias.
- Não... Obrigado, agora não... Bebo muitas garrafas durante o dia. É bom para os rins e para tudo. Litros e litros... É a resposta do homem rabugento, que vai a caminho de casa, já cambaleando de sono e de ficar tanto tempo de pé, sem se entregar à velhice inevitável e à aposentadoria assassina. Mas foi afirmando, sem pensar ou se incomodar com a delicadeza dela, que vira miolos no asfalto, uma pasta de cérebro dos jovens desmiolados. Era ali que foram parar suas ideias... Ofereceu água a mais outro... E foi outro homem, o de bermudas, que prendeu a atenção dela, que queria alguém para falar, mesmo que de assuntos mórbidos. Foi com trechos de conversas esquisitas de doenças e esquizofrenias que eles se prenderam por muitos minutos. Ele deixou claro para ela que gostaria realmente era de seguir com os bombeiros, só para confirmar com os paramédicos se aquilo tão esquisito e pegajoso no chão era ou não partícula dos miolos, como assegurava o velhote que tinha ido embora. Depois de alguns minutos decidiu, imprevisível para si mesmo, entrar no Armazém do Chope atraído pela claridade, vozerio e uma conversa nova... Antes virou-se para a dona da garrafa e perguntou, só por perguntar, tão desacostumado que estava à sedução e à companhia das mulheres:
- Vem comigo, não vem?... A noite está perdida mesmo, não está? Nem vai dar mais para pegar no sono... Que adianta ficar na cama, rolando sem conseguir dormir, lembrando-se do que viu?...
E ela foi meio desajeitada, tão desacostumada a ser seduzida, deixando os copos e a garrafa nas mãos do porteiro... E, pensando que a noite não estava tão perdida, o seguiu, embora desacostumada da companhia de um homem.
Anna, a que sempre tem um sorriso apaixonante, percebe detalhes expressionistas em tudo que consegue olhar. Também segue para o Armazém. Esmiúça, reflete, aprecia a escuridão desvencilhada pela novidade do acidente, pela luz tíbia e pelo trenzinho correndo nos trilhos, bem lá no alto do restaurante. Mas que mania de prestar atenção em tudo, congelar fotografias instantâneas na cabeça sempre e fulgurantemente ocupada com pensamentos!...
Agora ela vê o sujeito que está sentado  à uma mesa, a abraçar a senhora da garrafa de água, enamorada, enquanto um homem de barba branca, óculos e nariz ligeiramente curvado, a observa também e bebe sozinho... Perto dele está mais um casal; mais dois, mais três casais improvisados de quarentões e cinquentões recém-descobertos na portaria do 88 da Rua Marquês de Abrantes. Uns combinam até muito bem, outros não...  Muitos não fazem o menor sentido. Fazem pares por acaso, organizados pela excentricidade do ocorrido na experiente noite, por conta do trágico e da lua costumeiramente alcoviteira. Enquanto isto Juarez, o prestativo garçom, passa de mesa em mesa, atento aos pedidos e às gorjetas, pronto a distribuir a sua simpatia diluída em chope…
Depois que os bombeiros se foram, as ruas ficaram desertas e o vento assobiou como se fosse uma pessoa vagando na escuridão, contornando todas as esquinas e ultrapassando o tempo; mas não conseguiu proibir que amanhecesse nem mesmo na Paissandu, na Senador Vergueiro e nas imediações da Praia do Flamengo.
O homem de bermuda tira, para surpresa da mulher, uma agenda do bolso da camisa e se exibe...
- Tenho todos os domingos ocupados... Mas anota o telefone da mulher da garrafa de água, intempestivamente apaixonada e jura que vai ligar ainda hoje, porque já está quase amanhecendo. Tudo dando muito certo, porque ambos moram no mesmo prédio, no mesmo bloco; ele no andar de cima do dela, vizinhos na vertical... E vai mesmo, porque a achou bela e jovial e bem humorada e ele já está enjoado de não ter mais mulher em casa, e mais enjoado ainda de estórias macabras, nomes de doenças, bulas de remédios e dietas sem fim; enjoado de ver filmes sem ter com quem comentar... Vai arrastá-la para todos os cinemas e, com mais tempo, vai alojá-la em sua cama, para sempre, porque também não aguenta mais viver sem amor, controlando a pressão arterial com Naprix... Todos os filmes, todas as ilusões quer compartilhar com ela, é isto. É certo que ela vai querer seguir junto, toda feliz em se ajeitar muito bem com ele, até mesmo só para comer uma pizza enquanto repartem entre si a vida e uma taça de vinho. Ela é romântica, acredita no amor e em horóscopo e adora cinema, como ele... Cuidadosa, ficará feliz em viver um novo romance e se apaixonará novamente... Quem sabe agora, definitivamente. Tão real e tão perfeito como no cinema, ela constata que o amor mora ao lado. Também não quer mais só ter solidão, trabalho e amarguras. Prefere ter uma nova história para escrever daqui por diante e um homem carinhoso na cama... Talvez seja apropriado ver Charles Chaplin, Charles Chaplin, Charles Chaplin… repete com pequenos pulinhos e palmas toda animada, como uma menina.
- Onde é que vamos ver isso? Eles já planejam preencher os sábados e a vida, daí para frente de maneira diferente... "Tempos Modernos". É isso. Tempos Modernos e seremos “ficantes”, o que acha?
O incansável garçom Juarez enche o copo de vidro, coloca-o sobre o balcão e desenha no ar um gesto enigmático: um misto de golpe marcial com elegância da bênção sacerdotal. Sinaliza com sua mímica artesanal para alguém sentado sozinho, avisando que está servido. O gesto que parecia uma bênção afinaria mais com um vinho, mas não faz mal, pensa Anna que se vira e vê um grupo de adolescentes com roupas ousadas; uma delas enverga um boné branco e uma minúscula saia…
Muitos já saem do Armazém... Sim! Alguns bêbados acreditam que estão flutuando no Passeio da Fama, pisando em estrelas que refletem a luz dos postes. Caminham cambaleando, como se sustentando um barril de chope, ou talvez um barril de pólvora nas pontas dos pés, equilibrando mil borbulhas subindo pela goela... Aonde vão? Perguntou o garçom, percebendo que saiam sem pagar... Mas não conseguiu alcançá-los.
Da mesa ao lado Anna ouviu: vou a caminho de casa, estou muito, muito… cansado. Ah! Espera! Gritou o vizinho do apartamento de Anna, que ela mal conhecia e que bebia sozinho e usava o celular. Escuta... Gritava no aparelho, a nossa vizinha vai te mandar beijos... Pelo celular... Querida!... Alô!
- Vem, Anna, manda um beijo para a minha mu... Mas Anna desvia o sorriso mudo, para bem longe do bêbado e da sua amada que ela nem sabe muito bem quem é.
O Bêbado vizinho insiste e volta a tentar uma conexão entre a esposa ao telefone e Anna; talvez quisesse que ela desse o testemunho de seu paradeiro para a mulher que tinha ficado em casa... Querida... Estou no Armazém do Chope, aqui na Marquês e Anna vai falar, insiste o bêbado... Anna vai te mandar um bei… mas ela bloqueia a investida do vizinho quase desconhecido, que pairava num fio invisível esticado entre ele e o celular. Ela apenas sorri para os outros, envergonhada, e se afasta dos casais recém-formados depois do acidente de moto.
Uma jovem sai do Armazém como se saísse do Club a Paris Hilton vestida de Britney Spears, equilibrando-se em incomensurável salto, altura artificial e olhos de cílios alongados, e boca e seios de expectativas de elegância e certeza de distorção da coluna... Mas os homens, principalmente os mais velhos, não tiram os olhos dela… A delicada Anna ri-se da invasão dos olhos dos homens. Invasões febris, incandescentes memórias joviais... Acha natural, humano, divertido, perceber como homens maduros se ressentem em envelhecer... Sente-se a falta dos comentários de palavras, mas o silêncio eloquente das bocas salivando, o olhar constante através de uma lente, com a espessura de outra representação da vida, falam bem mais. Velhos que se sentem meninos nessas audácias, confortando-se, uns com os outros, contam mentiras de conquistas, temendo na verdade conferir suas virilidades decadentes. Eles olham para as partes mais encantadoras da "Britney" equilibrista... Assim, comungando um olhar invasivo e obsceno, asseguram-se de seus desejos e a vitalidade do sexo em declínio... Mas teimam em continuar desejando mulheres tão jovens, ignorando a sabedoria e a capacidade de amar das mulheres mais maduras.
O vento vindo da praia passa mais quente  no arremedo longilíneo das coxas da equilibrista de saltos gigantescos. Uma mulher oxigenada, com os cabelos lisos até os ombros, veste um top azul. Também quer retardar a morte em moda pueril de minissaias e namorados adolescentes. Dança como se todo o seu corpo contivesse a fórmula perfeita do prazer; à sua volta estão duas mulheres de recorte mais clássico, de calça e camisa, que se abraçam e se beijam formando um casal… "Tempos Modernos"... A noite está a perder os seus contornos, a lua está a dar o seu lugar ao sol. A cidade a ganhar sombras e formas novas e o mar é fustigado com riscos de luz… E os que só costumavam ver a noite de seus quartos, através das persianas, descobriram que ela é clara e a cidade fervilha em qualquer hora e lugar e os encontros são bem possíveis...
A mulher que ofereceu água ao homem de bermudas formou com ele um casal provisório que seguiu junto para casa.
No meu apartamento, ou no seu? Ele perguntou mais sorridente do que nunca. Ela nada respondeu, mas o abraçou.Tomaram o mesmo elevador, de mãos dadas desceram no mesmo andar. Tempos Modernos...
O homem rabugento ainda está dormindo, apesar de o dia ir bem adiante à beira da praia. Alguns ingênuos pensam que tudo é como antes, na Marquês de Abrantes.

Autora: Valéria Áureo