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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Mar flat

Ilustração: Internet







Candice que:
-Tirando a saudade
Terremoto,
Sobra
O abraço no ar,
Ondas sem mar
Dentro do copo?

Candice que:
-Tirando a saudade
Maremoto,
Sobra o mar flat,
Beijo luar
Com chocolate?...

Valéria Áureo
09/10/2014

To: Candice A.C.L da Fonseca

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sabedoria


                                               Ilustração - Fonte Internet




De repente

Encontrei no caminho filhos crescidos,


No espanto do tempo acontecido.

(como voa!)

E minha sabedoria ficou ultrapassada

-Além do Flamengo-

No Leme, no Cosme Velho: a maturidade.

Hoje

-falam por si-

Não os convenço mais.

E, quando me falam,

Resta-me adotar hábitos de caminhar

Pelos silêncios.

Assim os compreendo

E os encontro novamente
Na sobriedade.


Valéria Áureo
To Hubert e Candice                                                              
                              
28/08/2014

domingo, 20 de julho de 2014

Ops... É gol! Como se sente?



                                                             Foto: Internet

          





Ops... É gol! Como se sente?



           Gol da Alemanha! Meu Deus, já? Não acredito!... A voz do Galvão Bueno não sai mais da minha cabeça. Mas vamos lá!... Muitos estrangeiros chegaram esperando encontrar coisas muito interessantes neste país abaixo da linha do Equador. Claro, vieram ver o melhor do futebol. Mas, de futebol eu não falo e me recuso a comentar o fatídico e inexplicável. Nada a declarar! Gol! Dois a zero!... Mal liguei a televisão?Como foi isto?... E, devo confessar, houve mesmo bizarrices que fazem deste país um paraíso ou um inferno. Depende do ponto de vista. Para os moradores de Copacabana e Leme, o inferno foi obra dos argentinos que agiam como vândalos durante o dia e a noite, promovendo gritarias, panelaços, sujeira e arruaça. Gol! Três para a Alemanha. O quê? Fala sério! Continuando... Eu falava dos argentinos. Foram deslocados para um camping improvisado no Terreirão do Samba e no Sambódromo, quando a permanência deles na Atlântica se tornou incontrolável. Alguns deles acreditavam que poderiam vir para cá, sem dinheiro, sem ingresso e que ficariam nas areias da praia. Sem lenço e sem documento, caminhando contra o vento... Céu, mar, caipirinha...  Foi o que aconteceu e a cidade não estava preparada para tanto. Mas, já se foram com a graça de Deus, levando consigo uma deliciosa lembrança do Maracanã... (Maracanazo?). Ganhar um título aqui na nossa casa já seria demais.

          Houve todo tipo de torcedor... Foi bom apreciar tamanha diversidade de povos. Muita alegria nas ruas: muitas cores, muitos idiomas, trajes, bandeiras e camisas de seleções. Gol! Quatro para a Alemanha. O que está acontecendo? O que deu nos jogadores? Cadê nosso time? Não vejo mais este jogo! Acabou a copa! Continuando... Alguns jogadores vieram assustados com mosquitos e possíveis febres tropicais. Difícil para eles também se adaptarem à variação de clima, conforme a região em que atuavam. De um jogo para outro eles experimentavam calor, umidade, chuva, frio. Outros, já alocados nos quatro cantos do Brasil postaram no Instagram fotos de camas infestadas de formigas, de aranhas caranguejeiras nas paredes dos quartos, para comprovar o inusitado. Nada de formiga, ou aranha surreal, porque este é um país de flora e fauna abundantes... Não sabiam? Posso garantir que tudo faz parte do nosso contexto; surreal? Não! Deixemos isto para os preços. Surreal mesmo foi o futebol com a derrocada das grandes campeãs.

          Por falar em coisas típicas, vale lembrar algumas delas. A série começou com um ator salvando um turista de um ladrão de praia, acertando-lhe a cabeça com um coco. Sei que foi por instinto, por reflexo do ator, mas bem eficiente e belo desempenho. Nada mais natural (tribal?)e apropriado do que um coco como arma. Mas cairiam bem os tacapes, as flechas e bodoques dos pataxós, que estavam em alta e aproveitaram para reivindicar a demarcação de suas terras. Os alemães lhes deram voz. Muito se viu de tangas e cocares, mulheres e colares... Por falar nisto, a água de coco fez muito sucesso. Realmente, um país tropical, carnavalesco, solar... Um mês de carnaval, de Fanfest na praia e estrangeiro acreditando que o brasileiro é muito feliz... O tempo todo feliz. Como já se cantou: não existe pecado abaixo da linha do Equador. Se para eles foi um paraíso, para o morador a Copa em Copacabana foi um inferno. O jeito foi ficar em casa, vendo tudo pela televisão, indo ao mercado em horários estratégicos, para estocar alimentos. A cidade foi tomada por eles, durante muitos dias... Entre tantas coisas, o mais interessante foi ver a seleção da Alemanha integrada a uma tribo de índios pataxós. Isto era autenticidade. Descobriram o Brasil desembarcando em Cabrália. Creio que ela já chegou vencedora, sem temer as formigas, as aranhas, as febres típicas de um país tropical e tudo que viesse da terra. Viveram como os nativos. Integraram-se. Enquanto alguns se queixavam do que consideravam extraordinário no nosso país, a Alemanha se concentrou no melhor do Brasil natural, sem maquiagem, longe das mídias, das entrevistas, das selfies e dos fanáticos. Concentração, natureza e paz já lhes bastavam. Os alemães deram um show, em todos os sentidos. Aproveitaram o que há de melhor aqui. Eles construíram seu centro de treinamento, sua estrada, sua unidade medica, em um terreno comprado por eles e doado para a comunidade. Foi a seleção que melhor se agregou ao povo e que fez o melhor futebol... Ops... Fizeram mais um... Gol! Cinco a zero para a Alemanha! Não acredito no que estou vendo!...

          Na Copa das Copas houve de tudo; quanta bizarrice: mordida do uruguaio Suarez no ombro do italiano Chielini (não é beijinho no ombro, viu?); joelhada na coluna, que eliminou a grande promessa brasileira e quebrou a coluna da Seleção consequentemente. O inexplicável desaparecimento do Tatu Bola (como é mesmo o nome dele?), símbolo da copa, inclusive na cerimônia de abertura (sem comentários). Está certo... Justifica-se uma vez que o tatu estava mesmo em extinção. Que fim levou? Ouvi dizer que a FIFA não pagou o valor para o uso do símbolo da fauna nacional.  O Tatu Bola foi tão ignorado e desprezado quanto o chute do exoesqueleto, aguardado pela comunidade científica de neurocientistas e por nós brasileiros. Uma pena! Passemos para situações mais amenas: fisioterapeuta inglês que foi comemorar um gol e torceu o pé; o sucesso do feijão tropeiro durante as partidas no Mineirão; gringo querendo chegar a salvador e desembarcando em El Salvador; camelo, polvo, galinha, burro e gente vidente, dando os vaticínios dos jogos; latinhas de ar enlatado das cidades brasileiras, souvenir para turistas; Papas torcedores da Argentina, desfilando em Copacabana à moda da Jornada Mundial da Juventude. Nisto foram espirituosos; ou seria “espirituais”?... Se o Papa é argentino, Deus continua sendo brasileiro, apesar de tudo. Mexicanos vestidos de Chapolim Colorado, gregos vestidos de Yogurte, suíços vestidos de queijo, holandeses vestidos de vaquinhas... Muito pão de queijo, muita coxinha, muito açaí, muita caipirinha e arroz com feijão... Copa dos memes e do bom humor, mesmo na derrota. Nada melhor que rir de si mesmo: abriu a gaveta, é gol... Bateu o joelho, é gol; estacionou o carro, é gol; tomou café, é gol; deu um espirro, é gol; tocou o telefone, é gol; abriu a geladeira, é gol...  Gol! Seis para a Alemanha!... Meu Deus! O que é isso? Não acredito em uma coisa destas! Continuando... Desvendada a máfia de venda de ingressos pela polícia brasileira; Maradona sem a credencial de jornalista é barrado. Chilenos tentando entrar no estádio com ingresso de Carnaval. É... Até poderia ser... O estético gol de peixinho do Van Persie; a cara do Davi Luiz ao comemorar o gol contra a Colômbia; as comemorações acrobáticas do técnico do México; os erros de arbitragem; a batalha de gritos de guerra entre argentinos e chilenos (meu Deus, insuportável). Leonardo Di Caprio e a festa no mega iate de luxo para quarenta garotas; Mick Jagger nos estádios, o grande pé frio... Torcendo para quem?... Datena de cueca pagando promessa depois da derrota do Brasil; Gol, é gol, é gol da Alemanha! Sete... A Alemanha faz sete gols e põe o pé no freio em respeito aos anfitriões.

          Minha nossa!... O Brasil fez um gol.

Valéria Áureo
20 de julho de 2014

sábado, 24 de maio de 2014

Análise a cada sessão - O Analista



    
                                                     Ilustração: Internet

-Enfim, o que traz você aqui?

-Vim mesmo por recomendação médica. Não deixa de ser interessante: ter uma pessoa para conversar, mesmo que se pague por isto. Perdoe o meu comentário. É para descontrair um pouco. A senhora tem com quem conversar?

-Tem razão, é importante ter com quem falar. Mas vamos ao seu caso... O que mais o aflige?

-Eu não sei bem. Eu perco as pessoas.

-Como assim? Como perde as pessoas?

-Não sei bem dizer. Aliás, meu problema sempre foi com as palavras. Sempre achei que as conhecia, que as dominava, que as usava bem e, no entanto, acabei falando sozinho...

- Seu problema é com as palavras? Fala sozinho?

-Não! Meu problema é com as pessoas. Com as palavras eu me saio muito bem. Eu sempre acredito no que as pessoas me dizem. Confio nelas. Talvez eu seja um inocente útil...

- Sente-se mal a esse respeito?

-Talvez!Estou tentando compreender a transitoriedade. A transitoriedade das coisas, das pessoas... Confiava na eternidade dos sentimentos. E na permanência das pessoas.

-E isto o incomoda?

-Muito.

- E o que espera com a sua vinda aqui?

- Sei lá!... Ao menos descarregar esta dor no coração. Parece que vou explodir. Meu peito dói.

-Dor no peito? Tem problema no coração? Tem pressão alta? Toma algum remédio?

- Não se preocupe; não é uma dor física. É uma dor da alma. Uma mágoa, uma nódoa.

-Tem dormido bem?

-Não! À noite é a pior hora da solidão. A cidade silenciosa. As janelas fechadas dos apartamentos... Tudo apagado. Um som ecoando lá longe. Um abismo no tempo, um gato notívago... Também ele se arrasta nos miados que vibram na noite. Tenho pena dos gatos. Ou será pena de mim mesmo? Acho que é autopiedade.

-E toma algum remédio para dormir?

-Atualmente não! Já tomei. Não quero mais. Não quero depender dos medicamentos, mesmo porque eles me fazem dormir na hora errada. Eles me atrapalham quando eu tenho que ficar acordado. Os remédios são uma ilusão, não acha?

- Depende. Cada caso é um caso.

- Sim. Cada caso é um caso. O meu caso é perder as pessoas. Já lhe disse, não é? Sempre perco as pessoas.

-Sim, disse. Mas aonde é que você perde as pessoas?

-Não se trata de um lugar; trata-se de uma condição. A perda das pessoas é uma condição subjetiva. Não sei para onde vão. Sei que elas se perdem, ou melhor, elas vão se soltando.

-E você? Tem ideia de onde está, ou para onde quer ir?

-Estou sempre em casa. A vida é muito complicada. Difícil viver, não acha?

-E como pensava que seria a vida? Que sonho existiu de verdade?

-A princípio não pensava nada. Ia vivendo um dia depois do outro. Não pensava muito sobre a minha existência, até que me dei conta de que nada era tão simples, como era a vida dos bichos e das plantas, que pareciam perfeitamente ajustados ao meu olhar contemplativo... Havia paz no horizonte e na alma. Tudo era muito perfeito.

- E você? O que pensa de si mesmo?

- Já lhe disse, eu perco as pessoas.

- Sim. Você as perde assim que elas se soltam.

-Pois é! Eu não desejo que se soltem, mas elas se vão. Sempre tive muitas coisas para dizer e achava que isto seria o bastante: preencher a vida das pessoas com as histórias, as palavras, as novidades. Tinha sempre muita coisa para dizer e nada, nada passava despercebido nesta vida. A mim não bastava saber, conhecer; precisava compartilhar. As palavras se chegando ao meu ser, dando-me uma aflição. Eu tinha que esvaziar a cabeça, o coração. Eu me inteirava com avidez de tudo o que havia para ser conhecido. Devo confessar que havia muita facilidade em transitar entre os universos. Nada me parecia difícil ou incompreensível. Havia um momento de transbordar. E, para demonstrar a alegria de saber eu precisava das pessoas. Nunca pude existir sozinho.

- Sim, precisava das pessoas.

- É!Pessoas com quem pudesse compartilhar. Pessoas dispostas a ouvir. Com a maturidade percebemos o quanto acumulamos. Eu precisava falar.  E, afinal, para que serve tudo o que acumulamos? Acaba se transformando num fardo a nossa história. Eu imaginava que as pessoas pudessem me ouvir, por puro prazer. Mas, ao contrário do que eu imaginava, elas chegavam tão incomunicáveis, a princípio, que eu precisava me desvencilhar de minha necessidade de falar, de minha história... Eu tinha que ouvi-las. Era visceral a minha necessidade de ouvir, de me envolver, de me emocionar. Sempre gostei muito de ouvir, esta é a verdade. Para elas tudo era prisão e sufocante engano. Como poderia saber o que sentiam, o que temiam, o que queriam? Eu tinha que ouvi-las toda vez que me procuravam. Todas elas eram silêncios pesadíssimos que vinham eclodir nos meus ombros. Pareciam máquinas emperradas... Eu começava a copiar os sinais que emitiam, com atenção, carinho, ternura. A cabeça, o coração, os braços, as pernas... Tudo era uma máquina emperrada. Eu era um aparelho a decifrar as suas verdades, os seus medos. Eu decifrava neles o esforço para viver, o esforço para não sofrer e para não morrer. Eu via neles as consequências dos seus atos, os arrependimentos e as renúncias. Muitas renúncias para não pecar e que levavam ao sofrimento. O amor que tomamos, tomamos sem saber... Eu juntava os cacos das pessoas despedaçadas... Eu as ouvia por horas, dias, meses, anos, até que chegava um dia e elas partiam, sem mais nem menos. Quando a máquina finalmente voltava a funcionar, as pessoas voltavam a sorrir, a cantar, a assoviar. Elas se libertavam. Eu as curava. E eu, que havia me afeiçoado a elas, que chegava a amar muito era friamente abandonado. Quando partiam eu ficava novamente sozinho, apenas acompanhado das lembranças delas. Já lhe disse, eu perco as pessoas. Este é o meu problema.

-Seu tempo acabou. Por hoje é tudo. Na próxima semana continuaremos. E, por favor, assine o recibo com a secretária lá na recepção. Pode ir. Até quinta-feira.
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Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amor Líquido