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sábado, 6 de julho de 2013

Fofoca cibernética... Salve Jorge!





        Em um momento tão delicado em que o mundo sofre o impacto de atentados, de ameaças de explosões, de ataques de bombas atômicas e armas químicas, ainda somos levados e poderemos até ser destruídos pela mais "inocente" das armas: a fofoca. E, parecendo inofensiva, ela é levada pelo vento e se propaga como labareda. Difícil é apagar a chama da mentira.
        A mensagem de hackers no  Twitter de que o presidente americano Barack Obama havia sido ferido na explosão de bombas na Casa Branca, fez com que por alguns minutos as ações nas Bolsas de Valores dos Estados Unidos caíssem drasticamente, o que gerou um efeito cascata em Bolsas do mundo todo. O fato serve como advertência para os perigos de usar como meio de informação as mídias sociais, seja para quem investe na Bolsa, seja para a vida pessoal, do cidadão mais simples ao mais famoso. Estamos falando em prejuízo econômico e até em conflitos políticos e sociais, decorrentes de informações inverídicas e imprecisas. Mas, há outros prejuízos que não podem ser compensados.
         Fofoca e maledicência, falsas informações e boataria sempre fizeram mal  e, desde que o mundo existe, esta prática é constante e perniciosa. Por acreditar em uma informação inverídica,  cochichada discretamente em sibilantes notas e veneno mortal, dada pela serpente, Eva perdeu o Paraíso. Pior, além de acreditar no "disse me disse" levou consigo Adão. E devemos considerar que o mundo era habitado apenas por duas criaturas, o suficiente para a desavença no Genesis. Foi a primeira intriga que gerou danos irreparáveis, pelos quais pagamos até hoje. Por causa disto carregamos a nódoa do pecado original. E, além do mais, isto se deu tão logo o homem foi criado. Nem houve muito tempo para grandes conjecturas e especulações. Mal havia se instalado e Adão  já foi levado pelo boato de que poderia levar vantagem, caso comesse a maçã. Nascia a cobiça, a insatisfação com aquilo que já tinha e que deveria ser o bastante,  afinal, o homem estava  no Paraíso. O prêmio  por acreditar na fofoqueira serpente foi a  perda dos privilégios de uma vida plena e sossegada no Jardim do Éden.
        Hoje o que vemos é a terceirização do pensamento, quando não se pensa mais pela própria cabeça, mas apenas pelo que se espalha na rede. Cuidado com tudo o que se lê na Internet, pois podem ser informações imprecisas e perigosas. A terceirização do pensamento humano gera o que ouso chamar de fofoca cibernética, em que a pessoa se deixa levar por aquilo que ouviu dizer e espalha em segundos, apenas retuitando, nas pontinhas dos dedos,  nem sempre tão inocentes; muitas vezes é mesmo com muito veneno. A mais recente intriga diz respeito ao suposto comportamento desrespeitoso do ator Rodrigo Lombardi, o protagonista de Salve Jorge, a uma reporter. Boato desmentido pelo artista e seus advogados. Infelizmente ele sofre os efeitos da mentira e a imagem está manchada. Para reverter isto, só mesmo o tempo e exaustivo trabalho de reconstrução.
        Os consumidores de notícias tem que diversificar a fonte... Buscar a verdade dos fatos e das informações, o que Eva não tinha como fazer, pois só contava com a versão da víbora... Com bom humor, podemos dizer que a primeira terceirização do pensamento foi provocada pela serpente, contando com a volubilidade da mulher. No entanto o assunto é sério. Atualmente as mais recentes intrigas e falsas informações são levadas em segundos  nas redes sociais, provocando o que os especialistas chamam " efeito borboleta ". A informação voando e arrastando tudo que vem pela frente, como fogo em palha. Assim se tornou prática comum e irrefletida a destruição da imagem alheia, a credibilidade e o carater de uma pessoa. Isto é obra da  irresponsabilidade e falta de escrúpulos daquele que propaga a informação de forma inconsequente. Seja pela Internet, seja pela fofoca na praça da cidade, ou sentado no banco da igreja, enquanto se espera a missa, as falácias se espalham. Só tem um jeito: Salve - nos, São Jorge, do dragão da mentira!... Resta saber se São Jorge poderá apagar o fogo que queima a imagem do ator.
Valéria Áureo
23/05/2013
Texto publicado em O Imparcial de Rio Pomba



terça-feira, 2 de julho de 2013

Onde foi parar o futuro?

                                                          Ilustração: Internet






Todos imaginavam que Rita Cândida estava no fim, desde que apareceram os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer; ficou alheia ao mundo, costumavam dizer... Coitada, dá até pena ver. Às vezes fica fora do ar. Antigamente lia tanto, tocava piano, era tão culta e não parava um instante. Ah! O idioma... como se orgulhava de falar tão bem o idioma. E como falava bem e como declamava. Tinha uma memória privilegiada para os poemas. Agora mais essa; deu para ficar calada, triste, sempre absorta, abandonada na cadeira de balanço. Isso é o que a família pensava. Realmente, tinha seus momentos de isolamento sim, mas...
            Que pouco enxergava, isso lá é verdade, mas nada que óculos não pudessem resolver. No entanto não tinha ficado surda como acreditavam... Ouvia e ouvia muito bem; pra seu governo, dizia... Nem surda, nem caduca e muito menos burra; só um pouco mais lenta, um pouco esquecida e desanimada. Arrastava seus noventa e três anos com paciência e sobriedade e até delicadeza, porque não adiantava se revoltar contra a vida e nem mais correr. Cansada, sim... Não era pra menos; tinha atravessado o século, mas com as próprias pernas, dizia orgulhosa. Não se servia nem mesmo de bengala. De uns tempos para cá começou a se perguntar:- para onde foi o futuro? Sim, repetia, andando sozinha pela casa:- o futuro, onde está?
Ninguém tinha muita paciência para explicar. Talvez o neto mais novo, mais chegado a ela pudesse esclarecer.
- Vó, gritava o menino, o futuro já chegou. Antigamente era o passado e hoje é o seu futuro e o meu presente. Não vê na televisão? Realidade aumentada e inteligência artificial, 4G, facebook, redes sociais, câmeras por todo lado, como se a vida fosse um grande Big Brother? Pois é, vó, o futuro já chegou... É tudo muito diferente do seu tempo. Lembra-se no seu tempo como era? Pois então, tudo mudou. Agora é muita informação em poucos segundos, todos conectados com o mundo inteiro. O fato “ vai estar acontecendo” lá na Austrália e em pouco tempo a notícia “ vai estar se espalhando” como um vírus. O celular “vai estar mostrando” onde eu estou agora. Veja só, que legal! “Vou estar arrastando” o ícone aqui no Google Earth, para a senhora ver. Está vendo? Isto é o futuro. Já imaginou os carros? A senhora nem imagina, vó... Em muito pouco tempo os donos de veículos em vez de guiar, “vão estar sendo guiados”, enquanto “vão estar vendo” televisão, “vão estar falando” ao telefone… Esses carros “vão estar sendo orientados” pelo GPS e pelas placas de trânsito, para reduzir a velocidade e pelos sinais luminosos, para  estacionar. O carro do futuro “vai estar sendo conectado” a uma espécie de internet das estradas. Vai ser tão inteligente que “vai estar conversando” com os outros veículos para decidir quando e por onde “vão estar  ultrapassando”, diminuindo o número de acidentes nas estradas. Sem contar, vó, que os carros têm a capacidade de estacionar sozinhos. Não “vão estar precisando” nem de motorista. Viu aquele carro que derrubou a Ana Maria Braga? Acho que era dirigido por comando mental... A vó olhava em silêncio...
Coitada da vovó... Parou no tempo, concluiu o menino, já desanimado... E o neto saiu sem paciência, acreditando que a avó não compreendia nada do que ele falava. A vó “tá” longe, no passado. Mas a vó ainda insistia nas suas elucubrações solitariamente: - onde está o futuro? O futuro... O futuro, meu Deus?... O futuro do presente do indicativo dos verbos: eu amarei, eu andarei, eu viajarei, eu escreverei, eu sorrirei, eu agradecerei, eu acreditarei... Por que todos falam: eu vou estar escrevendo, eu vou estar fazendo, eu vou estar lendo, eu vou estar comendo? Afinal, onde está o bendito futuro do presente do indicativo?... E depois dizem que eu estou ficando gagá e que vivo no passado. Quero saber é do futuro! O que aconteceu com o futuro?.... Qual, meu Deus do céu. E ainda acham que eu sou surda, coitados!

Valéria Áureo
23/04/2013

Publicado em O Imparcial


sábado, 29 de junho de 2013

Foi tudo para o vinagre - Povo e ditos populares

                                                                    Ilustração: Internet




          Quando eu era menina pequena lá em Rio Pomba, parodiando Joselino Barbacena,* eu sempre prestava muita atenção nos provérbios e ditos populares que sintetizavam uma sabedoria natural e deliciosa.  Entre eles, eu me recordo bem de: "foi tudo para o vinagre ", a vaca foi para o brejo", " danou-se a nega do doce" ou " levou o aio"... Nesses casos, expressões que queriam refletir o fracasso de alguma empreitada a qual se dedicou tempo e trabalho. No caso de "levou o aio..." a chuva caía desafortunadamente na sexta-feira da paixão, dia do plantio do alho. Choveu, levou o aio!... E o alho ia enxurrada abaixo.
          Temos expressões divertidas, que nascem da inspiração do povo, para definir  muitos sentimentos e situações, onde a espontaneidade é mais eloquente que muitas palavras.  A coisa  vai, vai, vai até que " a porteira que deixa passar um boi, deixa passar uma boiada" e, "depois da porta  arrombada, coloca-se a tranca"... Se o sujeito se esquece que "antes que o mal cresça, corta-se-lhe a cabeça", aí não tem jeito e chega a hora  de "a onça beber água". Bons conselhos, boa inspiração e luz acesa antes que o mal aconteça. É como o candeeiro bem colocado, porque " candeia que vai à frente alumia duas vezes."
          O vinagre nunca esteve tão em alta. Nas guerras, o vinagre era recomendado aos soldados, principalmente quando atuavam em ambientes úmidos, para prevenção de possíveis contaminações microbiológicas, bem como para desinfetar e temperar os alimentos. Pois vinagre está na moda, mais do que nunca, debutando nas passeatas. Alta de preços - coisas de mercado, questão entre a demanda e a oferta. Alta na busca do produto para a limpeza  e para as saladas: vinagre de uva, de maçã, de cereais, de álcool, a escolher. Vinagre nas saladas de verduras, saladas do vilão da era tomate e alface. Aliás, alface é remédio natural que cura a insônia e noites mal dormidas e deixa o cidadão mais calmo, no meio das saladas urbanas de gás lacrimogêneo, de bombas de efeito moral, balas de borracha e convocações virtuais para os protestos nas recentes reivindicações, já que " a fome faz sair o lobo do mato." E,  se a questão é fome " em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão". A Cristo deram fel e vinagre na sua fome e sede... Sim, ao mais pacífico dos homens.
          Vinagre está em alta, usado para emagrecer, inclusive. Isto serve para a dieta  de  quem come muito doce e engorda sem querer... Ora, "com vinagre não se apanham moscas." Agora o vinagre foi às ruas, como já esteve nos fronts, deixando os restaurantes e as salas de jantar.
         Povo, tal qual o vinagre, está em alta e reconhece a sua força. Torço para que "Povo", entidade organizada pelo espírito de luta e nacionalismo, não se transforme em massa de manobra. Torço para que "Povo" preserve os anseios dos jovens da classe média  que se reuniram e foram às ruas em passeatas pacíficas, para reivindicar direitos. Desejo que "Povo" não se deixe manipular pelos argutos abutres de plantão. Que "Povo" erga somente a bandeira da paz. Pois é... A coisa começa de um jeito e depois  fica incontrolável, confusa... E os oportunistas  assumem a paternidade, quando o filho "parece" bonito, porque ninguém é pai de filho feio. Tem mais; “quem ama o feio, bonito lhe parece.” Se "quem conversa muito dá bom dia a cavalo", "falar é prata e calar é ouro". Se, "em boca calada não entra mosca, " "cala-te boca!"
          "Ainda que sejas prudente e velho, não desprezes o conselho". Os problemas aparecem quando se desfazem as alianças  e juras políticas, ou juras de amor." É quando se separa que se conhece o cônjuge". Em síntese: - "zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. "
          O momento é propício para se entender que: "Com direito do teu lado nunca receies dar brado" Para isto, meus amigos, há os meios legais. Sou pela Ordem e Progresso. Não há lugar para distúrbios sociais e guerrilhas urbanas, porque todos pagaremos o preço do caos. O mundo não absorve mais a violência. Evoluímos e o caminho a  perseguir é o da Paz  pela Lei.
Valéria Áureo    - 17/06/2013
* Personagem de Antonio Carlos Pires e seus divertidos bordões, na Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anísio

Publicada em O Imparcial 30/06/2013