Apresentação

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domingo, 17 de novembro de 2019

O Cronista





          Eu sou uma pessoa que não chora. Ou melhor, nunca em público, só mesmo bastante longe de qualquer olhar humano, ou quando o olhar humano já deixou de existir. É que me habituei a isso, desde que fui trabalhar na agência que cuida dos últimos instantes do sujeito. Caso contrário choraria o tempo inteiro e espantaria os meus fregueses. E depois que arranjei esse trabalho, vejo esta vida assim, resumida na morte; escondido eu choro. Na frente dos outros, chorar seria a desgraça total, capaz de arruinar qualquer reputação de durão, construída durante anos a fio. Pelo visto sou eu, a princípio, o homem sensível, mais a imensurável mágoa de ver o fim tão de perto. Ver através de quem conheci e amei, é muito triste. Diante do sofrimento foi que me decidi parar de chorar na frente de outros humanos. Há coisas fantásticas, não há? Uma delas é decidir parar de chorar, ou qualquer outra coisa que nos deixe acanhados.Entretanto eu choro apenas perto dos cachorros, mas distante dos homens; não sei por que os dois me comovem tanto.
          Vai-se ao chope de final de semana, para ver a balada de moços e moças; vai-se à praia, ao cinema, ao shopping. Vai-se a todos os lugares. Pois eu prefiro estar em casa recolhido. Lá fora ouço barulhos, que põem toda a gente a saltar. A mim não, que sou tímido e sossegado. Pouco ou nada se ouve com aquela música feita para explodir o crânio. Eu não me entusiasmo e já não suporto tanto tais ruídos. Meus ouvidos padecem, quando distantes do meu local de trabalho silencioso. Lá sim, constante bem estar. Ser, ou não ser!... Tal verso tem ecoado na minha cabeça nos últimos dias. A vida é curta demais, para perdermos tempo com jogos, seduções e indecisões, ou barulhos ensurdecedores... Ou é, ou não é! Agradável ou desagradável. Diferentemente disso, não há o que fazer. Antigamente eu era capaz de falar ininterruptamente, durante eternidades, sobre tudo e sobre nada, com qualquer pessoa, inclusive aqueles com tendências esquizofrênicas. Eu gostava de falar muito... Agora que conheço os esquizofrênicos, tenho que aproveitar todas as oportunidades para mostrar que fico a ouvir silenciosamente, durante horas e horas, todos que encontro; ainda mais quando estão condoídos e enlutados. Nessa hora em que falam mais e que precisam que alguém os ouça, sem restrições, eu estou pronto para todos.
          Agora estou bem melhor; agora escuto muito mais e falo muito menos... Ouço o síndico, o porteiro, as namoradas dos amigos, a prima da tia da vizinha e todas as pessoas que a dado momento partilhem o mesmo espaço comigo. Todas precisam desabafar e eu ganharia um bom dinheiro se cobrasse para ouvir.
          No meu tempo de infância as Igrejas estavam sempre abertas. O sujeito entrava, falava diretamente com Deus, desabafava... Depois disso voltava aliviado para a vida. Agora, não! Não se vê mais uma Igreja disponível. Nem mesmo padre com tempo para ouvir. Sou o ouvinte de todos, mas poucos querem me ouvir. E isto não augura nada de bom para a minha vidinha, não augura não! Será que estou condenado a passar os restos dos meus dias com quem não tem resposta para me dar? E há dias em que tais tormentos são ainda mais verdadeiros. Dei-me ares de cronista, exatamente porque não tinha com quem falar; ninguém disposto a me ouvir. Passei a ter gosto profundo por casos de pessoas comuns; a crônica de cada um, que à minha alma chega, me faz indefeso para contestar o que falam a seu respeito. Absorvo um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano. Fico comovido; e como já disse às vezes choro escondido. Diante dos cachorros sim; jamais diante dos homens. Depois disso escrevo algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã. O motivo de certas confidências, na maioria dos casos, é o pequeno incidente; coisa de pequena monta... A notícia em que ninguém prestou atenção, o breve e insignificannte acontecimento, a discreta cena corriqueira. Nessas trivialidades, o que me surpreende é a beleza, a comicidade, os aspectos singulares dos quais eles não se dão conta. Mas eu estou atento a tudo. O tom certo de uma história surpreendente está onde menos se espera; é como "uma conversa aparentemente banal", entre uma baforada de cigarro, uma receita de remédio, a espera de um troco, a fila de idosos no Banco, um guarda-chuva que virou do avesso sob a ventania, um assovio na rua, um tiro na noite. Tudo fala aos meus ouvidos. Eu ouço. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, que me alegrasse, mas não é bem assim. Visava ao circunstancial, ao episódico, que provavelmente não se repetirá. Ou, ao contrário, repete-se em toda casa, com todas as pessoas. Nessa perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança, ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador. Mas, e eu? Onde fico se imagino que, enquanto observo a vida estou livre dela?
          O único tempo do meu dia que dedico a pensar sobre a morte é quando não ouço mais ninguém. Sempre observo o senhor tomando chope no bar em frente e me vem a ilusão de que ele também não se preocupa com ela. Ao menos com a própria morte, imagino. Pode ser até que pense em alguém que já se foi. Mas, é só e provavelmente por poucos segundos, que o faz. Caso pensasse na sua própria morte, não estaria calmamente de pé fumando e bebendo seu chope. Ele o faz todos os dias, sem se dar conta da própria finitude. Daí todos os dias não pensar em si mesmo.
          O interessante é que do meu ponto de vista ninguém deveria representar a morte pelo fim, até porque se ouve muito o fato de a morte ser a transcendência do material para o espiritual, mas ainda assim, trabalhando aqui, é o momento único do dia em que não penso nela. A partir das conversas do fim de cada um é que me vem o começo de algumas ideias. Lidando com a morte é que eu penso na vida. E eu vejo que a vida é um espetáculo, como qualquer outro encenado no palco. Cada um tem seu personagem, mas passa a vida inteira decorando o texto. Quem afinal veio para esta vida já sabendo o que fazer? Ninguém! Ninguém conhece nem o papel e nem o enredo. Por isto é que tudo tem que ser improvisado.
          Passam aqui em frente, muitas pessoas em companhia de outras. Antes de chegarem aqui elas riem e gargalham, mas quando mais próximas, elas param e olham para dentro; outras mais amedrontadas atravessam a rua. Preferem o outro lado da calçada. Muitas gargalhadas já foram interrompidas por choros e corpos, por velas e coroas, como se fosse o maior desrespeito continuar vivo depois da morte do outro. Tolice! A vida segue como se nada tivesse acontecido. Não há motivos para receios.
          O restante dos meus minutos, eu busco viver como se realmente eu não fosse morrer. Busco viver mesmo que seja diante de uma enorme conta de luz que não poderei pagar, ou andando apressado por essas bucólicas ruas que não me deixam nunca andar sozinho. Há sempre alguém vindo em minha direção, ou partindo comigo, para me fazer companhia. Busco levar sempre comigo a beleza de saber ouvir sobre a vida dos que precisam fazer confidências. Ainda assim, me pego sorrateiramente reclamando, às vezes, daquilo que pode ser consertado. No entanto, naquela funerária, as pessoas vão para resolver algo que não pode ser resolvido. Ao menos estou ali para que desabafem comigo. Se eu faço crônicas de tudo que ouço, paciência... Perdoem a minha indiscrição. Penso eternizar dessa forma os que acabam de partir. Histórias há... Muitas, para serem contadas. Há inclusive as minhas. São inúmeras no meu árduo ofício... Nunca tinha me ocorrido que eu também sou personagem bufão desse teatro. Dei-me conta disto só agora. Sempre me imaginei o crítico da peça teatral. Vendo cada encenação, analisando, fazendo revisão, dando conceito. É... Um crítico teatral era o que eu imaginava ser. Talvez o escritor da peça também eu pudesse desempenhar muito bem. Agora, vejo que não; sou figura dramática, como qualquer outro. Tenho meu papel para interpretar... Mais um pobre personagem saltimbanco desta vida.
          Uma vez fui encarregado pela família de colocar uvas no caixão de um chinês, conforme a tradição. Minha pobreza era maior que a veneração à cerimônia e o grande respeito ao meu ofício. Tenho orgulho do que faço e muita competência. Naquele dia, diante das uvas hesitei entre a responsabilidade e a curiosidade do paladar. Também me lembrei de minha mãe... Acho que pela fábula que sempre me contava: “A raposa e as uvas”. Pois eu vi as uvas, lembrei-me de minha mãe... Achava um desperdício de aquela iguaria ser levada junto com o morto. Levei para minha mãe que nunca tinha provado uvas e achou a fruta muito doce, muito refinada; declarou que uva é “uma coisa do outro mundo”. E não é que ela estava com a razão? Uvas... Quase que iam mesmo para o outro mundo... Outra vez fiquei com os sapatos novinhos do defunto cliente, porque eu mesmo só andava descalço. É que tínhamos o mesmo tamanho de pé. Também achei que aquela coincidência de número de sapatos fosse um sinal celestial. Jurei para a família que os havia colocado no falecido ( que fez a viagem de terno, mas sem os seus sapatos). Ele que me perdoasse. Tenho certeza que, para onde ele estava indo, não precisaria deles. Ademais, rezei para que seu caminhar fosse sobre nuvens. Tinha certeza que não teria pedras para pisar, pela mansidão do seu terno semblante. Dava a impressão de homem generoso e despojado. Acatei a mensagem com a certeza de que o morto já tinha chegado ao céu e nem tinha precisado dos sapatos. É nos emolumentos fúnebres que encaramos a cruel realidade (sobretudo a nossa). Concluímos que nada é eterno, que as pessoas vão e por incrível que ainda nos pareça, não levam nada consigo. Nada do que levaram a vida inteira para amealhar. Nem mesmo os sapatos...
          A verdade a que cheguei até agora é que as pessoas realmente são muito frágeis, apressadas e confusas, e eu me incluo nessa louca ciranda de emoções. Também sou um homem triste. Reservo um tempo para chorar, mas só quando não há ninguém por perto, só o meu cachorro. E, quanto àquele sujeito do chope, imagino que ele se sinta melhor que os outros, ou mais tranquilo, sei lá!... É o meu patrão! Deve pensar consigo mesmo que seu negócio é garantido; mais dia, menos dia, todos serão seus clientes nesta cidade tão pequena... Tem certeza absoluta de que vai ficar muito rico e que enterrará todos. Eu continuo como estou. Um coveiro cronista.

Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amor Líquido - Amazon



quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Os Olhos Verdes de Maiara





Os olhos verdes de Maiara desmaiaram na palma da mão do frentista, por acaso... Indiferença dela, como se nada visse, nem mesmo o trânsito pesado, enquanto as linhas das mãos dele tentavam embaraçar, enredar o olhar dela em teias de aranha. Tentava isso, movimentando-se aflito, só para comprometê-la na trama dos seus sonhos... Ele é quem acabou ficando preso, retido em aromas dos campos dos olhos tão claros e boca perfumada de anis. Depois que a viu, esbanjando olhos para todas as direções, soube que a amava sozinho, porque a beleza dela era o que ninguém podia perceber. Era tanta, que ninguém mais podia interromper aquilo tudo que ele via, enquanto Maiara estacionava o carro. Ele achou que o mar nem era tão verde assim, porque em dias de chuva, bem que ele se confundia com a cor cinza de sua solidão. Ela era toda assim, esperança instantânea tomando lugar da luz dos faróis acesos e do destino dele. Era de perder o juízo, condenado ao juízo final, porque até pecaria em companhia dela, que realmente era mulher de fazer qualquer um perder a vontade de viver. Aceitava morrer sem absolvição... O amor reprimido, inventado naquela noite de segunda-feira, improvisava uma tristeza sem explicação e o fazia ter medo de voltar para casa, perder o rumo e não ter mais ela. Ela era mesmo mais que o mar. Eram mais verdes os seus olhos, onde o frentista desesperadamente acabava de capitular... Mas o mar era mesmo bem pouco, bem pequeno diante dela. Havia um naufrágio íntimo, prestes a acontecer. Porque era certo que ele morreria naufragado em procelas, vítima dos desejos dela, se ela quisesse escravo para toda vida, sem poder dizer que não... Não podia deixar desabitada aquela praia em torno dela, porque não havia salvação, nem ele queria mesmo ser resgatado. Melhor morrer nos braços dela, que lhe daria o beijo da vida, se ela quisesse, no boca- a- boca, antes de morrer no afogamento do mergulho final.


Maiara pediu laconicamente que o frentista enchesse o tanque, calibrasse os pneus, lavasse os vidros do carro, e nem viu o rosto dele. Não pôde sentir que o coração do moço era açoitado por uma crescente aceleração, porque ela era mais linda que tudo, enquanto a água refletida escorria pelo rosto atrás do para-brisa e as gotas cintilavam nos lábios dela. O frentista quis que ela visse o que ele via, só para saber o quanto resplandecia nos milhões de células de água, repartindo os olhos em mil fragmentos de esmeralda; quis que ela visse o quanto ficava linda, adornada e dividida pelos sentimentos dele. O que a fazia linda era mais o que ele sentia nos quinze minutos do dia em que ela parava para abastecer... E ele abastecia a alma de planos e sonhos, calibrando o coração descompassado no ritmo da voz que nem ousava um cumprimento de “boa noite”. Perdia a fala, ficava bobo e mudo, imaginando um encontro... Mas eram os olhos dela, que erravam de destino, que não riam nem choravam, mas faziam calar a sua boca. Ele continuava bobo e mudo e os olhos dela não diziam o que sentiam, nem viam o que deviam ver. Eram duas incógnitas ígneas, mesmo que fosse dia, quando se escondiam nas sombras do ray-ban e tédio.
Maiara entregou para o frentista o cartão de crédito e ele ainda bobo e mudo esperava a senha do coração dela; ainda bobo e mudo acreditava que os olhos dela eram mais lindos que as violetas estampadas na íris de Lis Taylor. Ela deixou uma gorjeta e o desdém silencioso para o frentista. Ele nem queria dinheiro; queria um olhar, um sorriso ao menos, só para ter do que se lembrar no resto do dia... Mesmo assim, esmolando um olhar, estendeu a mão para devolver as chaves e o Credicard, não acreditando que ela ia embora sem ver. Foi aí que ela pôde olhar para ele e ver as unhas curtas contornadas de graxa, o macacão manchado de trabalho e óleo e a expectativa de ser avistado sem o emblema do posto, sem o suor cheirando à gasolina, sem a flanela despencando do bolso de trás. Tudo muito inapropriado para um encontro de amor...
O que ele queria mesmo era ter uma flor na lapela, ser dono do seu pensamento e poder dançar e carregar para sempre o olhar daquela moça. Ah! Se ele pudesse encontrá-la, levar um buquê de rosas...


De humanidade nela, só mesmo o seu jeito distante de tomar um café expresso, olhando para o infinito; gesto impassível de acender mecanicamente um cigarro. Ligar o motor do carro. Ajeitar indiferentemente os cabelos, no desencontro dos olhares, enquanto ele sofria.

Autora: Valéria Áureo


In: Conjugando o Amor Líquido


Prêmio UFF de Literatura- Coletânea de textos premiados.



terça-feira, 5 de novembro de 2019

Jardim de Flores Brancas






      Deu-se que o sujeito sumiu... 
Para ter exatidão na narrativa e ser positivo sobre quem falo, o nome dele é Seu Lopes. Assim evito qualquer engano de sua pessoa. Pois foi muita vez que fez isso de desaparecer quando navegava o mar, coisa com que ninguém da família se ajeitava. Mas isso não é hábito de agora, que é seu tempo de maturação e barba branca; tempo de lavrar a terra e se meter lá pelos matos dos confins de Minas, bem na profundeza do grotão, como se não quisesse mais ser avistado. É que já foi ajeitado assim, desde novo, em navio e porto que faziam o danado do marinheiro perder o rumo de casa, à custa de muitos meses sem mulher. Já maduro, abandonou o mar e dedicou-se à terra, mas não abandonou os vícios.


      Já que o sujeito sumiu nas andanças e não deixou paradeiro, não custa nada averiguar se ele foi picado por cobra jararaca ou cascavel, no sítio de Santa Bárbara, pois dizem que “tem” lá uma quantidade capaz de fazer uma desgraceira nas pernas do cabra. Seu Lopes, precavido por sinal, deu por usança andar com botas de cano longo, por questão de cuidado, temente à rastejante, cujo nome não repete, por respeito e tradição. Mas teve que largar às pressas a tal medida das botas de cavaleiro, porque os pés foram inchando, inchando, inchando, preocupando sua cabeça com dúvida da qualidade do coração. Deu receio de estar doente. Livrou-se das botas num canto do quarto e o inchaço desapareceu.


      Lá nas terras os cupinzeiros iam sinalizando as lonjuras do seu domínio, competindo com o sansão do campo; a coruja na grota do cupim, piando e fazendo ninho, vigiando os domínios do novo dono, enquanto ele metia o chinelo raso no lamaçal, só para espreitar o tapecuim e arejar os dedos. Vistoria de qualidade, vigilância de cada palmo de terra, da rama até a raiz, a cada planta pedindo que se diga: benza-a Deus, para afastar o mau-olhado. Homem cuidadoso no trato com planta e bicho, acima de tudo, por pura justeza de afeição; já com gente nem é de muita paciência, porque muito sujeito vivo nem tem serventia pra viver. O tal que não vale o prato que come ele nem atura conhecer. Tem pouca tolerância com esse tipo de cidadão.

      Talvez Seu Lopes tenha sumido lá na direção de Lima Duarte, depois de arrodear o Pomba, onde foi ver um caboclo bom de fazer móvel; o tal marceneiro Zé Mateus, engenhoso, ciente e dono de muita madeira de lei, a quem ofertou uma cafeteira italiana, para ter com ele uma amizade e boa ocasião de prosa e café de qualidade e bastante calor; isto tudo porque café frio não presta, de jeito nenhum; nem a conversa apruma e vai adiante com café frio. 
      Estreitou-se um companheirismo fraternal de instante, na encomenda da porta de jacarandá; uma para a entrada da sala, de moldura em arco, lateral de vidro e umbral de bom gosto, porque tem habilidade para escolher coisa sem nenhuma rudeza. Quem viu diz que é lindeza de fazer cobiça... E ainda mais; encomendou por muita consideração e apreço ao marceneiro as oito cadeiras de espaldar, as seis banquetas e uma prancha para o bar; uma estante e uma mesa de jantar, de mimo para a mulher com quem vive. Questão de lhe fazer um agrado; um apreço que tem só com ela, com nenhuma outra, porque aquela é a dona do lar... 

      Pode ser que tenha sido tocaiado na curva do mata-burro, por questão de peleja; coisa nascida na questão de pouca água de serventia em suas terras e escassez de boa vontade de quem lhe vendeu o terreno. O cabra diz que não tem água com fartura e a seca é grande. O tal do Seu Nego, empregado que cuida da fazenda vizinha, diz e desdiz a coisa toda, estremecendo os lábios numa evidente aflição de velho roceiro intrigado com tanto atiçamento na calmaria de criar tilápias. Água tem... E muita! Mas a água vinha da fazenda vizinha, cujo dono vendeu as terras para Seu Lopes, prometendo fartura e agora que já tinha vendido, andava emburrado. Muita água. Coisa novidadeira para quem só criava boi. O mais que Seu Nego faz é abrir e fechar a água que serve ao Seu Lopes, assim evitando embate. Pois numa infeliz carraspana, além de abrir a bica de água, também abriu o bico com a tal Marilena, assunteira das boas. Espalhou com ela e quem mais, sabe-se lá, que o patrão tem uma amante. Alastrou a conversa atrás de portas e janelas, pela fazenda, qual fogo em estopim; a empregada enredou a trama com fios de cabelo de mulher em travesseiros... Mas o que a moça visitante deixou foi aroma de rosa. Agora a criada diz que falaram, ouviram dizer e contar entre cochichos, que a Dona das ultimas sentimentalidades do patrão vai e vem de vez em quando, de visita encoberta em mantas. Pois então, a intriga se esparramou feito leite no chão... Marilena, enxerida no caso, garante que a Dona deixou pistas; que a moça veio amoitada e largou rastro na passagem. E a pendenga aumenta todo dia e se alimenta de boca em boca, aborrecendo o patrão que não tem papas na língua e muito menos paciência e juízo pra conversa fiada e diz-que-me-diz. Pode até puxar arma pra convidar o macho que tenha coragem e atrevimento de prosseguir com a narrativa do episódio de infidelidade e afeição com outra mulher. Ele, logo ele. Discreto e calado e que não  dá confiança a ninguém. Nada de divulgar suas intimidades e seus chamegos e muito menos os seus paradeiros. O patrão já estava agastado com toda essa conversa de língua de trapos. Mas que povo encrenqueiro! Suspirava...

      O sumiço pode ter ensejo na questão do caseiro, que é sujeito sonso e acabrunhado e com quem Seu Lopes se desaprumou na conversa em um dia desses. O agregado é matuto de pouca fala e obediência e de menor decisão. Cidadão de tez escurecida de sol, cara de desinfeliz quando está ocupado com sua obrigação de molhar planta. Faz de tudo, mas com desenvoltura modesta, desde que não lhe imponham coisa contrária à sua predileção: fazer do costume que sabe, conforme aprendeu vendo o pai na roça em Barbacena, sem muita ordenança na cabeça ou atenção. Indisposto para aprender do jeito que tem que ser. Sabe coisa de serventia pra planta e pro chão; mas coisa muito pouca... E nem quer aprender mais, porque isso cansa a cabeça, ele diz. Aparvalhado no trato, mas arrogante de posição, porque de humilde só tem o feitio e o falatório de cabra de pouca instrução. Diz que doutor não sabe nada, porque quem cura é Deus, no que, em muito tem razão, mas médico faz falta também. É que o sujeito fica demente na questão de saúde dos filhos, por quem morre por dedicação e zelo. Não aguenta ver ninguém maleitoso, que chora como criança abandonada pela mãe. Nessa ocasião falta ao trabalho e desorienta os sentidos. É um homem de crença. Quando está nublinando, no seu dizer caipira, ele se ajeita na foice com medo de onça que vem beber água. Depois de se benzer prefere mesmo um facão na parecença simplificada de resolver a vida com bravura, ganha-pão e reza. Certo é que para a labuta não tem muita serventia, mas por comprometimento e necessidade de todo homem honrado diz que trabalha de sol a sol e prega a palavra de Deus. No embornal vai a Bíblia, na ideia atarracada vai a foice e a devoção.
 
 
      Desinteligência houve entre o empregado e o patrão... Briga de pouca abrangência seria se não perdesse a ocupação de caseiro e homem de confiança; coisa que levantou a satisfação da cidade quando se lhe tirou a chave do casarão. Gente que não suporta a vitória alheia deu-se por muito contentada com a perda de sua ocupação. Lá se foram o bom salário, o aluguel, o dinheiro da farmácia e a disposição para sentar praça em lugar decente e ganhar a vida com honradez. Desavença com o empregador que desvendou seu caráter no soco que ele deu nos queixos da Dona Maria, quando esta lhe cuspiu na cara; aliás, muito bem merecido o murro, porque a isso ela fez jus, mesmo sendo mulher. Aquela miudinha já tinha dado cabo de peão, com malícia e fio de facão. Picou o sujeito todinho num golpe certeiro. Só anda de faca na cintura e desafia homem e mulher. Gostava de se fazer temerária. Desaforada! Valeu-se diante dele de ser uma fêmea atrevendo desafiar homem brabo e recatado nos costumes. A tal se meteu em sua vida, por gosto e malqueirança e inveja de fazer gosto. Pobre caseiro! A dona deitou falação na vida do roceiro que, daí por diante, só deu pra trás, fazendo intriga com a família, ameaça e cantilena de delação de seus erros do passado; pronta pra entregar tudo para o patrão. O tudo que ela dizia era nada... Asneira pouca, aliás, coisa pequena; apenas questão de preguiça dele, erro sem gravidade, porque honesto ele sempre foi e dava conta do serviço; no jeito dele, no tempo dele, mas dava. Se não dava conta do serviço em uma hora, dava em outra e tudo ficava pronto. Pura bisbilhotice da megera invejosa que custou ao pobre o sossego e a prosperidade. Daí por diante, a vida do caseiro só deu pra trás. 

      Depois disso o desgraçado ajuntou mulher e três filhos melequentos no velho fusca “torovão” azul e caiu no mundo. Da fartura à eira nem beira, num só baque, tudo desceu enxurrada abaixo, por conta do palavrório da Maria, que devia ter um amor enrustido pelo infeliz, a ponto de acabar com ele. Êta muié ruim... O coitado do empregado, tão temente a Deus, levou amargura e olho-gordo da inveja alheia, pesando sobre suas costelas a ira de Eva; invídia de vê-lo tão bem situado. Uma cobra! Por pouco tempo teve um trabalho proveitoso que enricou sua vida em utilidades; a mulher fazendo luxo e gosto com máquina de lavar roupa e fralda descartável. Ele mesmo, de casa boa, botina, se arranjou com bicicleta, relógio e rádio gravador, apadrinhado pelo patrão. Diz que o rádio é serventia para o ministério da religião, porque é pecado ouvir música ou ver televisão; diz que é tudo coisa do demônio... 
Aquilo foi demais para a cobiça do populacho que crescia os olhos pra cima dele. Vida boa, prosperando no sítio... Quem diria... Aquele atoleimado... E ainda dizendo que um dia seria pastor. Pois o povo não aguentou; e o povo danado a falar, falar, falar. Imaginem... Pastor! Até alarde de recreio no campo, um besta... Pois é, repetiam aqui e ali que o caseiro deu de levar a molecada toda, o pai, a sogra, o cachorro e a mulher; tudo enfiado no velho fusca, para fazer uma galinhada no domingo, coisa, aliás, que contrariava Seu Lopes e despertava a inveja da inconformada Maria e o resto da cidade. Vinha tudo empoleirado no “torovão” azul, fazendo algazarra pela poeira da estrada, mesmo a muito contragosto do coitado do patrão. É que não tinha sustentação a reclamação do senhor de não querer o povo todo embocado no sítio, porque o cabra nem era dono do seu querer. Tudo cabia na decisão da sua mulher... Eta muié mandona! A dona insistia em dia de domingo e lazer na preguiça, como fazem as patroas. Mas só depois da reza no templo, porque homem que se preza é respeitoso a Deus. E o homem obedecia.


      Foi-se afinal o caseiro, tão pobre quanto veio depois da celeuma instaurada. Chamado pra briga no braço, ou do jeito que tivesse valentia, o dito recuou de prosseguir na provocação da Maria, armada com muito ódio e um facão. Foi-se desaprumado, humilhado no desalinho da calça amarrada com um fio de pobreza. Maria finalmente sorriu. Maria riu. Gargalhou! Não teve jeito; conversa vai, conversa não vai,  o dia chegou e, para sua desgraça, o matuto foi trocado pelo primo do patrão. Largou o rádio, a bicicleta e a ilusão. Eta povo de língua grande!

      O caseiro foi embora, mas antes fez questão de apertar a mão de Seu Lopes e lhe prestar fidelidade para o resto da vida. Tinha suas razões para gostar do homem. Se precisasse, para qualquer coisa, era só chamar. Disse que  procurasse por ele lá em Dores do Turvo, no sítio do Matias. Matias ia dar conta de seu paradeiro. Foi-se o caseiro e chegou o primo. 
O primo era um sujeito maneirado de trejeitos e falatório apressado, mas vagaroso no pensar e no agir. Isto pode ter dado causa à intolerância de Seu Lopes, que já estava muito cansado de falatórios e confusão no sítio. Era uma coisa, era outra e não davam descanso. O homem não tinha mais paz na vida e já começava a sentir a falta do mar. E assim ele despediu o caseiro e acolheu o primo que escondia sua natureza no sorriso ardiloso... 

      Pois não é que o fulano de cidade grande, ruivo e de sardas no corpo inteiro, desarticulado no baixo porte e nos movimentos, desalinhado nos dentes, não se ajeitou na roça? Pois é! Não se ajeitou, nem por insistência, nem por destinação de conforto que o parente ofertou a ele. Pura misericórdia de quem o acolhia, mas o danado do cabra era de vontade curta para trabalhar. Não tinha esforço para enfrentar o chão. Só via rede e viola. O senhor Lopes, com quem o primo nunca teve parecença, deu-se por pai do indivíduo, só para ajeitar a vida do infeliz, por devoção à família e caridade aos parentes mais desvalidos. Deu salário, moradia, conforto de cidade pequena e tranquila e uns por fora pro camarada se distrair... Mas o cara foi arranjar desafeto naquelas cercanias, achando que a vida estava muito sem graça, parada e morna naquelas distâncias de mato alto. A mão do sujeito era lisa feito mão de moça e secava tudo o que ele tocava. Morria o mato, morriam as plantas, esturricavam as flores, definhava a cerca viva. Nem o capim do pasto aguentava. E o danado não se ajeitou de jeito nenhum na roça. Enfiou-se na Igreja, pois muito pouco se dava com as terras e suas exigências de trato. Porque terra demanda cuidados, mãos grossas, apego e devoção e o citadino não tinha uma coisa nem outra. Sofria de indolência e dores no corpo e não tinha a mão benta para acarinhar o solo e as plantas. O engano foi ter ido para a roça com intenção de plantar buchas para negociar em São Paulo. É que o rapaz não tinha nenhuma dedicação ao serviço e nem boa vontade em ser grato ao parente. Depois de mês e pouco rematar que a terra não era jeitosa pra tal espécie de planta, o fulano se desafeiçoou da obrigação, dando graças a Deus e abanando o chapéu de palha. Pois é, enfiou-se na igreja, mas não foi por devoção ou temor a Deus. Muito fervor mesmo foi por preguiça. Preferiu reza e violão na cidade o dia inteiro, deixando a terra do primo Lopes ao abandono, enfraquecendo as ideias do empenho de acordar cedo, regar, cuidar, ajeitar, capinar... Deu-se por satisfeito com a vida de cantador, rezador e andarilho.

      Para Seu Lopes foi grande a decepção de ver o sujeito encostado, tocando viola, bebendo como um gambá e promovendo maledicência com satisfação na cidade, enquanto as plantas secavam e morriam na roça. O jardim da frente do sítio estava acabado. Nem um talo verde brotado no chão. Nem uma flor, nem grama, nem mato, nem capim; não sobrou nada. Nada mais nascia naquele chão. Tudo esturricado. Eta, primo! Pior que tudo era o parentesco que unia os dois na mesma raiz de família. Vai que o povo acha que é tudo farinha do mesmo saco... Para agravar o desmando, bem aleitado na cachaça, o primo deu de querer alisar uma dona respeitosa que nunca conheceu homem. Partiu pra cima das virtudes da moça querendo invadir as intimidades da donzela e profanar sua pureza na reclusão da sacristia. Cometia dois crimes num só desaforo de desrespeito a Deus e aos homens. Era isso mesmo, tudo errado em um desatino. Fato impuro, sórdido e pecaminoso, dobrado no grande atrevimento do forasteiro, que ofendeu Deus, a cidade e todas as mulheres decentes. Evento que não merece tolerância e indecisão da parte de ninguém. Era uma questão urgente de se ajuntar todos os homens do lugar e lhe arrancar fora as partes com bastante vagareza, para ver o cabra pagar e chorar, antes de morrer... E que o padre não ficasse sabendo do justiçamento! O sujeito tinha se atrevido com coisa séria. Só lhe restava escapulir no meio da noite, para não amanhecer morrido de foice ou facão. Era o que o primo de Seu Lopes pensava fazer...

      Por conta de tanta contrariedade no sítio, Seu Lopes, do jeito silencioso que sumiu por quinze dias, também deu remédio na sua desaparição e voltou... Calado, arredio, sem gosto para muita conversa. Não se conformava em saber que um parente seu tinha violado a castidade de Dona Mocinha. Retornou sem qualquer aclaração dos ocorridos nas suas terras, acompanhado de um cachorro que vive guardado na sua mais alta consideração e nas suas confidências... Coisa amorosa de repartir com o cachorro o mesmo prato, a afeição, as conversas, os segredos e o mesmo canto para dormir. No mais, anda mudo e taciturno.


      Dizem que ele mesmo deu solução no assunto, porque não aguentava mais tanta falação e porque nessa vida ele admite quase tudo, menos desrespeito à mulher moça virgem. Ainda mais ofensa de gente do seu sangue e dentro da igreja. Não! Não era farinha do mesmo saco! Não podia se misturar com um sujeito vil, como o primo. Só se sabe que antes de voltar para casa, depois do inexplicável sumiço, Seu Lopes deu um pulinho no Pomba, procurando por Dona Petrina, uma boa rezadeira de desmanchar quebranto e mal agouro; diz que foi lá fechar o corpo. Depois, em Dona Eusébia, cidade vizinha, passou pra comprar umas plantas novas de sua mais nova estima. Tudo mudinha tenra e promissora de muito bom viço, já brotando em botão. Resolveu refazer de uma hora para outra, sem nenhuma explicação, os canteiros do jardim, com novas flores. Levou as plantas, mas não precisou de adubo. E no novo jardim Seu Lopes só plantou flores brancas... Muitas espécies de flores brancas, sua nova predileção. Flores de luz, flores de paz, tão alvas, tão claras e virginais...
O tempo foi passando, passando e o jardim floresceu; de morto passou finalmente ao verde reverberante de lindas flores. Seu Lopes repetia invariavelmente a quem fosse curioso e viesse perguntar pelo viçoso jardim... Bonito, não é? Gabava-se. E dizia de suas crenças nas flores, no que afirmava estar bem certo: melhor planta e cachorro que certo tipo de gente!... Tem sujeito que não  presta nem mesmo para viver; não vale mesmo a comida que come. 

      Estranhamente todas as flores brancas nasciam com uma nódoa vermelha, parecendo uma pequena mancha de sangue. Nenhuma delas era totalmente branca. Mas, isso pouco importava. Seu Lopes dizia que a réstia vermelha até deixava as flores mais bonitas e raras. 
      O caseiro, para espanto e inveja de alguns, também voltou. Seu Lopes afirma que é o único em quem pode confiar de olhos fechados e o mantém dia e noite ao seu lado. A ele compete levar as angélicas para Dona Mocinha enfeitar o altar da Igreja.
      Pois então. Deu-se que o sujeito sumiu!...




Análise a cada Sessão


Ilustração Fonte : Internet



- Enfim, o que traz você aqui?

- Vim mesmo por recomendação médica. Não deixa de ser interessante: ter uma pessoa para conversar, mesmo que se pague por isto. Perdoe o meu comentário. É para descontrair um pouco. A senhora tem com quem conversar?

- Tem razão, é importante ter com quem falar. Mas vamos ao seu caso... O que mais o aflige?

- Eu não sei bem. Eu perco as pessoas.

- Como assim? Como perde as pessoas?

- Não sei bem dizer. Aliás, meu problema sempre foi com as palavras. Sempre achei que as conhecia, que as dominava, que as usava bem e, no entanto, acabei falando sozinho...

- Seu problema é com as palavras? Fala sozinho?

- Não! Meu problema é com as pessoas. Com as palavras eu me saio muito bem. Eu sempre acredito no que as pessoas me dizem. Confio nelas. Talvez eu seja um inocente útil...

- Sente-se mal a esse respeito?

-Talvez!Estou tentando compreender a transitoriedade. A transitoriedade das coisas, das pessoas... Confiava na eternidade dos sentimentos. E na permanência das pessoas.

- E isto o incomoda?

- Muito.

- E o que espera com a sua vinda aqui?

- Sei lá!... Ao menos descarregar esta dor no coração. Parece que vou explodir. Meu peito dói.

- Dor no peito? Tem problema no coração? Tem pressão alta? Toma algum remédio?

- Não se preocupe; não é uma dor física. É uma dor da alma. Uma mágoa, uma nódoa.

- Tem dormido bem?

- Não! À noite é a pior hora da solidão. A cidade silenciosa. As janelas fechadas dos apartamentos... Tudo apagado. Um som ecoando lá longe. Um abismo no tempo, um gato notívago... Também ele se arrasta nos miados que vibram na noite. Tenho pena dos gatos. Ou será pena de mim mesmo? Acho que é autopiedade.

- E toma algum remédio para dormir?

- Atualmente não! Já tomei. Não quero mais. Não quero depender dos medicamentos, mesmo porque eles me fazem dormir na hora errada. Eles me atrapalham quando eu tenho que ficar acordado. Os remédios são uma ilusão, não acha?

- Depende. Cada caso é um caso.

- Sim. Cada caso é um caso. O meu caso é perder as pessoas. Já lhe disse, não é? Sempre perco as pessoas.

- Sim, disse. Mas aonde é que você perde as pessoas?

- Não se trata de um lugar; trata-se de uma condição. A perda das pessoas é uma condição subjetiva. Não sei para onde vão. Sei que elas se perdem, ou melhor, elas vão se soltando.

- E você? Tem ideia de onde está, ou para onde quer ir?

- Estou sempre em casa. A vida é muito complicada. Difícil viver, não acha?

- E como pensava que seria a vida? Que sonho existiu de verdade?

- A princípio não pensava nada. Ia vivendo um dia depois do outro. Não pensava muito sobre a minha existência, até que me dei conta de que nada era tão simples, como era a vida dos bichos e das plantas, que pareciam perfeitamente ajustados ao meu olhar contemplativo... Havia paz no horizonte e na alma. Tudo era muito perfeito.

- E você? O que pensa de si mesmo?

- Já lhe disse, eu perco as pessoas.

- Sim. Você as perde assim que elas se soltam.

- Pois é! Eu não desejo que se soltem, mas elas se vão. Sempre tive muitas coisas para dizer e achava que isto seria o bastante: preencher a vida das pessoas com as histórias, as palavras, as novidades. Tinha sempre muita coisa para dizer e nada, nada passava despercebido nesta vida. A mim não bastava saber, conhecer; precisava compartilhar. As palavras se chegando ao meu ser, dando-me uma aflição. Eu tinha que esvaziar a cabeça, o coração. Eu me inteirava com avidez de tudo o que havia para ser conhecido. Devo confessar que havia muita facilidade em transitar entre os universos. Nada me parecia difícil ou incompreensível. Havia um momento de transbordar. E, para demonstrar a alegria de saber eu precisava das pessoas. Nunca pude existir sozinho.

- Sim, precisava das pessoas.

- É!Pessoas com quem pudesse compartilhar. Pessoas dispostas a ouvir. Com a maturidade percebemos o quanto acumulamos. Eu precisava falar. E, afinal, para que serve tudo o que acumulamos? Acaba se transformando num fardo a nossa história. Eu imaginava que as pessoas pudessem me ouvir, por puro prazer. Mas, ao contrário do que eu imaginava, elas chegavam tão incomunicáveis, a princípio, que eu precisava me desvencilhar de minha necessidade de falar, de minha história... Eu tinha que ouvi-las. Era visceral a minha necessidade de ouvir, de me envolver, de me emocionar. Sempre gostei muito de ouvir, essa é a verdade. Para elas tudo era prisão e sufocante engano. Como poderia saber o que sentiam, o que temiam, o que queriam? Eu tinha que ouvi-las toda vez que me procuravam. Todas elas eram silêncios pesadíssimos que vinham eclodir nos meus ombros. Pareciam máquinas emperradas... Eu começava a copiar os sinais que emitiam, com atenção, carinho, ternura. A cabeça, o coração, os braços, as pernas... Tudo era uma máquina emperrada. Eu era um aparelho a decifrar as suas verdades, os seus medos. Eu decifrava neles o esforço para viver, o esforço para não sofrer e para não morrer. Eu via neles as consequências dos seus atos, os arrependimentos e as renúncias. Muitas renúncias para não pecar e que levavam ao sofrimento. O amor que tomamos, tomamos sem saber... Eu juntava os cacos das pessoas despedaçadas... Eu as ouvia por horas, dias, meses, anos, até que chegava um dia e elas partiam, sem mais nem menos. Quando a máquina finalmente voltava a funcionar, as pessoas voltavam a sorrir, a cantar, a assoviar. Elas se libertavam. Eu as curava. E eu, que havia me afeiçoado a elas, que chegava a amar muito era friamente abandonado. Quando partiam eu ficava novamente sozinho, apenas acompanhado das lembranças delas. Já lhe disse, eu perco as pessoas. Este é o meu problema.

- Seu tempo acabou. Por hoje é tudo. Na próxima semana continuaremos de onde paramos, está certo? Então, não falte. E, por favor, assine o recibo com a secretária lá na recepção. Pode ir. Até quinta-feira.


Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amor Líquido

Estrela Solitária




         

          Ela nem sabe mais o dia em que colocou aquele vestido azul; sapatos de salto fino, prontos para dançar... Taças de vinho, aniversário de casamento. Perfume e batom de suave brilho e sabor. Alice foi ao salão e cuidou-se de maneira graciosa. Tinha uma sensação promissora de aflições, embora houvesse estrelas cintilantes dentro dos olhos. Ah! A esperança é a última que morre... Alice permaneceu quieta no sofá, pensando no tempo em que não sofria. Nesse tempo o amor era sempre tão quente. Ela sonhava e sonhava... Muitos passos encadeados, dedos entrelaçados, cabeça repousando no ombro dele, para sentir o cheiro da pele quente, logo depois da “pelada”. O braço dele contornava a sua cintura fina e a rodopiava no pátio do colégio, pela avenida, pelo estacionamento, pelo corredor, pela sala até o sofá. Todo lugar era bom para estreitá-la nos braços vigorosos e seguros e girar, girar, girar... Dançar... Um Fogo. Que fogo! Sim! Quanto tempo não o via ir-se, depois da horinha de namoro sob o olhar atento da mãe de Alice. O namoro tinha hora marcada, mas ele e Alice prorrogavam os encontros. Na hora de ir embora, ele saía acelerando o carro, queimando pneu, depois de uma longa despedida; Alice ainda sentindo o mais recente beijo de labaredas e o calor da camisa listrada de preto e branco. Os dois eram tão jovens. Dois estudantes guiados por uma brilhante estrela emoldurada no tempo em que bastava um pequeno aceno suplicante dela, para ele voltar voando. Um fogo!... O hábito de dar marcha ré, só para dizer novamente, mil vezes: meu amor, eu te adoro, eu te quero para sempre, volto logo, não me esqueça, I Love you e me espere minha vida, senão eu morro; minha estrela da vida inteira!... Ah! Quanto tempo o telefone não fica ocupado, arrastando o: desliga você, eu não tenho coragem, vou morrer de saudades, não me deixe um segundo, vamos desligar juntinhos, dorme bem meu amor, está quente, sonhe comigo, até amanhã; beijos queimando em brasas, num gestual de românticas criaturas que temem se perder... Ah! Quanto tempo ele não a olha pelo espelho retrovisor do carro, só para enquadrar o balanço das suas coxas, o volteio da cintura fina e a inspiração para viver feliz o dia inteiro... Ah! “O amor é fogo que arde...” Para onde aponta o seu amor, agora tão distante, que deixou de ser amante, que deixou de amar e o transformou num homem ausente, sem o fulgor da estrela?
          Agora Alice só fala, fala e fala. E ele se cala, cala e cala. Ela quente. Ele gelo. Mas, que pena; ela acordou com pensamentos inoportunos, dizendo para si mesma que hoje é difícil viver com ele. Mudou tanto! Para ele o mundo se resume a: sim, não, talvez. Para Alice, o mundo é um labirinto de palavras labaredas, que não se apagam. Alice se queixa de segunda a segunda, porque ele não cumpre as promessas que faz: ele jura para ela que na segunda-feira termina o trabalho demasiadamente árduo, a tempo de ter o divertimento com ela, que está sempre pronta a amar. E ela espera que ele chegue, até cair adormecida. E ela aguarda, enquanto o coração acorda e ele nem contempla a beleza desnudada nos lençóis. Do mesmo jeito ele promete que verão um filme a cada terça-feira, mas é incapaz de cumprir essa jura também. Depois destas desaprovações que seu coração denuncia, ele explica que na quarta-feira virá jantar e vai fugir da rotina do escritório. Na quinta, com toda certeza, deixará o chope e o “Comida di Boteco” depois do expediente, só para ter com ela aquele tempo passado de namoro. Na sexta-feira, quem sabe, será um dia especial; ele tenta se justificar.
         No entanto, a rotina de seu relacionamento é demasiada para ela, estrela solitária e apagada no amor com ele, há tanto tempo, que o romance perdeu o destino de sua casa. Nem sexta-feira. Nem sábado. Nem domingo... Esfriou. O coro de anjos na sua cabeça alerta para a desafinação e desarmonia da sua vida; a tristeza continua, tornando-se aparente no rosto brasa. Ela queima, queima.
          Alice, mais dia, menos dia, vai deixar de... Vai deixar de... Vai deixar de... É uma questão só de definir o dia da semana.
          Ele não se dá conta de nada... Nunca a vê do jeito que Alice queria ser vista. Nunca a ouve como gostaria de ser ouvida. E, se ouvisse, não adiantaria, porque ele não entende o que ela quer. Não entende uma só palavra do que ela diz... Porque ela fala tanto? Não a vê, nem escuta e nem sente o seu perfume. Sim, não se dá conta de nada, porque a vida é mesmo uma droga, uma porcaria, um inferno: o trânsito, o chefe, o salário, o cartão de crédito, a rotina, a hora extra, a crise, as passeatas, a confusão, os filhos, a política, o governo. E por que ainda não prenderam aquele corrupto e safado? O que está faltando?Política! Filhos! Ah! Os filhos!... Tem mais: os blás, blás, blás de Alice. Insuportáveis!
      - Estou morto! Entra em casa, monossilábico e sem entusiasmo. Passos de autômato. Músculos enferrujados. Calva... Barriga. Impaciência. Cansaço. Morno. Larga os sapatos na entrada. Liga a televisão. Vai ao banheiro. Chuveiro! Água gelada. Toalha. Bermuda. Chinelos. Cigarro. Volta à sala. Joga-se no sofá. Grita para ela: - Minha cerveja!... Deixa claro que não vai jantar; já comeu qualquer coisa na rua. Uma paradinha no Caneco Gelado. Azia, má digestão. Boca amarga. Grita: - Pega o controle remoto! Alice guarda a comida feita com cuidado para tratar da dor de estômago do marido; agora o avental esconde o vestido azul. Ela arruma a cozinha e a pele perfumada vai se perdendo no aroma do detergente. A maquiagem desliza arrastada pelas lágrimas, descompondo a esperança de uma noite diferente. Perde-se na água que escorre em redemoinhos pelo ralo. Perde-se na solidão morna. Perde-se nas bolhas coloridas de sabão.
          Ele se acomoda no sofá, moldado com as suas formas e suor. Agora sim... Um profundo suspiro e a entrega solene ao futebol. Ternura em seu olhar, só quando seu time entra em campo e a bola rola no gramado... O coração esquenta. Põe a mão no peito e canta o hino do time. Sente-se bem, sorri. A bola em campo traz a mesma alegria e vigor da juventude.
          - Juiz ladrão! Safado! Foi falta! Está cego? Marca! Marca! Seu corno! Vagabundo! Segura! Passa a bola! Falta! Chuta, passa a bola! Fecha a retaguarda! Corre atrás da bola! É pênalti! Juiz ladrão!... Cartão vermelho! Cartão vermelho! Expulsa este perna-de-pau!... Está cego? Vai, vai, vai! É gol... É gol... É gol! E o grito vibra na sala. FOOO GOOO!... Fooo Gooo!... Fooo Gooo! Fooo Gooo! Hoje ele vai dormir feliz. Ela não.     Alice chora.
          O futebol é a verdadeira prorrogação da vida e da esperança. Alegria e prazer, só mesmo quando ele liga a televisão. No campo não tem patrão, não tem horário, não tem pressa. Não tem cobrança e falatório. Ah! Não tem os blás, blás, blás de Alice. Se a vida é um jogo, quem sabe ela melhora no segundo tempo? Prazer?... Só com o Botafogo e a sua imorredoura Estrela Solitária. Ah! O amor é eterno. O amor é fogo...
          Vai chegar o dia em que ela...
      Entre outros desatinos que passam pela cabeça de Alice ela pensa em botar fogo na televisão, na sala, na casa, na rua, na cidade inteira. Ela, mais dia, menos dia, vai deixar de... Vai deixar de... É uma questão só de definir o dia da semana.
  Domingo: sirene, bombeiros, gritos... Socorro!... Fogo! Fogo! Fogo! 

          “O amor é fogo que arde”...


Autora: Valéria Áureo
In. Conjugando o Amor Líquido
  
           




segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Por conta da terra a semente



                                     
          Sempre aconteciam coisas com todo mundo e a toda hora, não importava nada que se fizesse: o país e sua política; as pessoas e o quanto tinham comido; o tempo e se chovia, ou que estação do ano era perfeita para se viver melhor. Aconteciam coisas, simplesmente. Com Anna não seria diferente, porque a vida tem seus feitiços, seus contragostos e esquisitices. Só para se tornar tão importante, a vida, depois de apagados os anos na memória ávida, se faria recordar, toda importante, sob um holofote de luz azul. Então ela poderia dizer: sim, se me recordo bem, foi naquele ano...
          Ontem era o dia em que a menina acordava esquisita, prestes a... Não sabia a que. Prestes a ter um treco, um troço... As costelas arriadas para frente só para acomodar os dois pequenos peitos em duas gavetas de ossos. Pura cautela para que não vissem as novidades que se anunciavam aos olhos. Beleza de menina nascendo nas estações das chuvas, para dar um tom de narciso naqueles olhos cinza d’água. Beleza aflorando de duas caixetas de carnes minguadas... Achava estranho aquilo que nascia dando-lhe condição de animal  feminino de espécie mamífera. Fera, como todos os animais desde que notou o motorista apalpando-lhe as tímidas formas nascentes com olhos tendenciosos e perdidos naquela inocência de ainda brincar com os meninos sem os pais se afligirem. Pois era mesmo criança, de querer doces fora de hora e fazer muito barulho e inconveniências ( para ela algazarras tão lindas e leves como embalos das gangorras e para os mais velhos zoeiras desagradáveis). Ia assim se fazendo corpo inteiro em meio às dúvidas da avó e das tias... Mas quando será mesmo que ela vai crescer?
          Anna não sabia quando iria crescer; nem mesmo queria, porque não podia comandar aquilo que acontecia com os ossos das faces, deixando distantes as formas arredondadas para imagens de antigos espelhos estrategicamente pendurados na parede e onde se via de relance, só de vez em quando. Ia adquirindo ângulos. A menina resvalava os olhos um pouco pelos espelhos, para apreciar o que via; outro tanto para lamentar o desgosto que lhe davam os brinquedos e as conversas dos meninos. Tinham ficado bobos, tão infantis que queria era fugir para casa e deixar as brincadeiras de lado. No espelho, de soslaio, porque não queria se ver plenamente, ela pressentia: os amigos se distanciariam aos gritos da mãe já muito aflita com as meninas maiores que não podiam mais sair. Deixava-se por conta do destino dar pelos claríssimos às minúcias mais impensadas e recônditas do corpo; fazia-se numa exatidão de curvas delicadas e alvas, um molejo nas cadeiras, que agora sabiam dançar quando ela andava. Nascia apesar de ela desejar o contrário, uma atrevida escultura na arquitetura até então vazia de ondas, sempre atada ao quadrilátero exato de braços paralelos ao tronco. Irrompia pelos limites das linhas uma demarcação de formas novas e alvoroços, que saíam de dentro da alma outrora tão quieta. Nem se reconhecia mais nas antigas alegrias de amanhecer pensando em seus brinquedos e livros de histórias. Para onde mesmo tinham ido as fadas?...
          A mãe aflita de uns tempos para cá, a saber, onde e com quem estava, guardando os passos de Anna que dizia não querer crescer, mas mesmo assim ia, ia, ia... Ia se fazendo parte por parte. Mas quem podia com a vida? Ela e os seus desatinos de comandar tudo que vai pela frente e fazer da pedra o pó, da fruta a semente, do novo o velho, do alimento o que se expele. Nada, nada como era antes... Era assim mesmo a vida. Anna se encantava com o que via na natureza e dizia que folhas eram cabelos desarranjados de árvores despenteadas. Anna que deixava vazios os galhos da goiabeira, devolvendo aos passarinhos o que suas invenções roubaram. Anna que tirava os pobrezinhos dos ninhos pelo prazer de atiçar as mães, ou colaborar com elas, enfiando-lhes goela abaixo miolos de pão com leite. Agora a árvore, os pássaros, as folhas ressentiam-se das ausências dela, porque a infância ia ficando sem graça. Onde mesmo foi aquela menina?
           Anna engendrou-se enigmática no hábito de deixar as coisas como estavam e como eram. Isso desde o dia em que morreu em suas mãos a andorinha coberta de piolhos que tentava alimentar. Enfiava-lhe, em vão, pão e leite na desproporcional goela entre seus dedos que tendiam a apertar, embora ela desejasse afagar. Salvar e estrangular eram duas disposições simultâneas e incontroláveis que se misturavam no gesto franciscano de recolher os animais aos seus cuidados. Não houve jeito e a ave acabou-se inerte depois de devolver a papa embutida no afã de salvação. Daí em diante sabia que semente era para ser semente, já que era para isto que tinha sido feita. Tudo, enfim, era para o que tinha sido feito, apesar dela. E, apesar dela, dali por diante, o que acontecesse seria por conta da terra, caso se considerasse a semente. Era destino se fazer brotar em vida ou extinguir-se em infertilidade, mas nada que dissesse respeito à menina. Nada mais teria sua ajudazinha; nem mesmo jogar a semente na cova, pois isto era já coisa de Deus e, “se Deus quisesse.” Se Ele quisesse que ela, a semente, brotasse planta. Se não quisesse, aquela semente de laranja iria direto do prato para a sacola de lixo. O caminho dali por diante de encontrar leito ou cova, já não era da sua conta; não era para Anna interferir, a menos que quisesse uma laranjeira plantada no xaxim de samambaia, bem no canto da janela que dá para a rua. Por conta da morte do passarinho, sem sua vontade, tinha perdido por completo as aventuranças de interferir, fazendo coisas que não eram de seu domínio. Não podia, nem mesmo em benefício próprio, continuar menina no mesmo corpo, pois nada mais obedecia a seus desígnios; nem o corpo e nem a alma...
          Com o coração fazia o mesmo. Deixava pra lá... Deixava-o posto dentro do peito, que é seu lugar e onde devia estar. Se quisesse alguma coisa, ela não interferia, não escolhia, não dava palpites... É... Não palpitava o coração... Ele que se aventurasse entre conhecidos e desconhecidos, porque a razão não dava sinais de vida nessas horas. Assim mesmo, nunca aconteceu de ela se apaixonar. Mesmo assim ela esperava ansiosamente por surpresas, pois estranhamente começou a apreciar os meninos.
          Hoje cresceu como tudo cresce nesta vida Crescer foi um salto no tempo de cinquenta anos, recheado de escolas, matemáticas, línguas, piano, namoro, promessas e muitos desencontros. Casou-se, porque a ela cabia seguir a fortuna das moças... Nem escolheu muito, ocupada que estava em ler seus livros de culinária e o de inteligência emocional. Os primeiros para sustentarem o corpo e o segundo para estabilizar a cabeça. Escapava da falta de amor e do acre destino de servir mesa, como bem podia; mas a fatalidade podia mais. Assim, sem que pudesse muito interferir, lá estava ela na bifurcação Rio-Juiz de Fora, de duas cidades da zona da mata mineira, gerenciando os negócios e a vida, sem o encantamento e o prazer de estar na sua sala.
          Anna engendrou-se novamente enigmática no hábito de tentar descobrir o prazer da vida. Com o tempo acostumou-se ao homem calvo, gordo e estrábico que fazia companhia à sua solidão. Com ele pouco ria. Era melhor imaginar que a vida pudesse ser muito diferente. Era melhor deixar tudo correr na BR 101, sem intrometer-se na destinação do que veio para ser comum e pequeno, fosse à ida ou na vinda dos automóveis. É... O horizonte acabava bem ali, entre Juiz de Fora e a estrada cheia de possibilidades. Se ousasse, seria capricho e fuga; retirada estratégica pelo mar... Mar de Espanha!
          Anna tinha perdido por completo as aventuranças de interferir aqui e ali, fazendo coisas que não eram de seu domínio. Que se dedicasse às empadas, aos sorrisos pálidos dos clientes em trânsito. Estaria bom assim, para o marido... Que contivesse seus devaneios e plantasse os pés no bar à beira da estrada. Sim... Enquanto milhares de carros corriam dia e noite diante de seus olhos, melhor ficar com os pés fincados no chão, à espreita do que ia em direção ao Rio de Janeiro. Era preciso deixar-se estar, para sobreviver, quando perdidas as ilusões... Fera, como todos os animais, desde que notou o motorista apalpando-lhe as formas poentes com olhos tendenciosos e perdidos naquela maturidade de amargura. Que fosse assim absurdo. Vivia, morria, mas salvava-se amealhando esparsos galanteios, enquanto servia para o esbelto moço um café colonial. Com certeza ela  teria a lembrança dos sorrisos, ao final do dia para sonhar...
 
          Seria bem mais feliz sim, a bordo de um navio, ou no coração de certo rapaz que a viu com mais ternura que os outros. Oh! Uma viagem a Cancun, ou a Paris... Quantas possibilidades! Não importaria muito o destino. Qualquer lugar poderia salvar sua vida do balcão daquele restaurante à beira da estrada, onde preparava o café uma dezena de vezes! Mas, apesar dela, dali por diante, o que acontecesse seria por conta da terra, caso se considerasse a semente.
          A felicidade poderia salvar a Terra. Salvar-se... Mas, quem pode com o destino daquilo que veio para ser tão pequeno? Pois ela decidiu tomar o primeiro ônibus, rumo à liberdade, considerando que podia ter outro mundo em sua vida.




sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Coisa de Afeição ou Amor à Primeira Vista


Era apenas um menino da fazenda vizinha, visto aqui e ali, numa aprumação franzina, escanelado por falta de apreço aos doces e resistência à comida. Falta de apetite e aspiração. Perna fina. Porte de menino que ia crescendo desjeitado no prumo de duas vigas inclinadas para frente feito bambu, arqueado de peso e responsabilidade. Foi sempre miúdo no crescimento; assim mesmo era sujeito bom de tarefas. Difícil explicar a força que saía daqueles dois braços quebradiços de gravetos. É que já se tinha por chefe da casa desde que o pai se embrenhou mundo afora, deixando a mãe e a roça pra Deus cuidar. Dizem que foi coisa de amor desconsiderado por uma mulher casada e que disso só recolheu estrago pra vida. Deixou pra trás a casa e os filhos sem qualquer consideração ou piedade. Declarava que o amor havia corrompido os sentimentos pela família e precisou seguir seu destino. O menino, até então, não podia compreender tal sentimento. Sobrou ódio pelo pai. De tão pequeno, de tão sem pai, virou Zé Dadaia; Zé, filho da Dária, embora também fosse filho do Dirceu. Decidiu pela orfandade paterna, de tanto rancor que guardou.
          De repente o moleque miúdo deu uns volteios, uns rodopios no tamanho das pernas, os braços estirando a pele e os ossos num arrebatamento só. O pescoço encompridando para cima, o queixo alargando e arrastando os dentes; e do nada se deu arrancado no crescimento. Ficou moço de traços esguios. Já rapaz foi se empregar na fazenda do Seu Teixeira, por consideração ao padrinho e afeição à menina que, de soslaio acompanhava crescer como flor de manacá. Deu de sonhar acordado, acometido de mal que afeta os desavisados... O amor o perturbou tanto que de dia se perdia em devaneios e à noite não dormia. Ficou cativo das nuvens e tormentos que pontilhavam a alma que não era dela; não sendo dela, doía tanto que de mais ninguém seria. A alma ora ficava, ora fugia, meio sofrer, meio esperar. Mais que o amor, a alma morria... Iniciado rapaz já se perdia em dançar com a moça de cintura fina; ao menos em sonhos, quando se estirava no capinzal seco. Deu também de contar as estrelas, hábito que tinha com a rês no pasto. Uma, duas, dez... Cem, mil... Com as estrelas se perdia em número e ordenamento no céu, tentando alinhar os distantes pontos emaranhados no infinito, como se fosse o rebanho. Ora para a esquerda, ora para a direita, os olhos não tinham destino certo, nem sabia ele a que distância a vista teria que ir... Dos números fugia para as palavras, os cheiros, o vento. Quem procura estrelas sempre está perto do céu; mas não era ali que a moça vivia. O rapaz, no baile da festa de Reis, tencionava tomar tento pra vigilância daquela formosura, como se houvesse destinação de ela ser sua e de mais ninguém... Na imaginação deu-se por avexado diante do vestido rosa dela, graça cheia de fitas nos cabelos. Ele tão simples; ela, capricho e cabedal! Viu pelo salão gente embesteirada de manias, muitos empertigados em roupa de qualidade. Ele tímido, reduzido no orgulho e vaidade, sempre de olho nela. Pensava muito pouco de si: muita sela para pouca montaria. Desavisado do destino, não custava nada sonhar...
          Zé Dadaia dormiu no mormaço do dia, no intervalo da refeição e o eito, estirado no capinzal... Na imaginação desenvolveu a dança, respeitoso, aprumando o pescoço para cima dos ombros dela, só para sentir o aroma de flor nos cabelos. Eta devaneio presunçoso, meu Deus! Acordado tinha conta de que era ninguém perto dela e nem em sonho a alcançava...
          De longe, agachado na estrada, um caboclo toma pinga, as pernas leves e a consciência pesada, porque bebe demais, peca em pensamento e espicha os olhos pra moça que anda toda levezinha no chão batido de terra. Outro, agarrado na viola, consola uma lua de parto de madrugada quase perdida e suspira só por conta da solidão. Outro ainda olha para todas que vêm do campo e não se perde em nenhuma. Lá longe, onde antes se ouviu a toada de bois, segue a vida na rotina, na luta no campo, no corte do capim; e mais um dia se encaixou no crepúsculo.
          Agora é noite nascente de poucos sons. Um caboclo acocorado repousa nas pernas dobradas por canseira e desilusão. Canseira, copo e golada de bagaceira. E vai chegando de olhos perdidos nos olhos e pernas de todas elas que voltam para casa. O rosto reflete uma cor cinza fumarenta no luminar do candeeiro e elas arriando as pestanas pra encobrir a vergonha e pra noite alumiar o sonho. A noite encobre a passagem e leva cada um ao seu destino...

          A velha gaita choraminga fazendo a moça dormir. O pai percebe os suspiros e o perigo de se ter donzela em casa com tanto caboclo rondando. Ele envelheceu viúvo, cuidando da brasa na fornalha, fazendo às vezes da mãe; atento com a filha.  Paciente... Cuida para o alimento ir chegando ao sabor do frango com quiabo. Apaga a chama e deixa a brasa para a panela não queimar. Dia sim, outro também manda tirar o cisco da tapera velha, cuida de ajeitar a lenha. Pouco tem que fazer quando a solidão se acomoda junto do coração. O que pode é se embalar com as cantorias do rádio na voz de Nelson Gonçalves e algumas recordações da mocidade. Toda manhã repete a vidinha assim: vê o padrão das vacas novas, decide o que matar e o que vender; o que plantar e o que colher. Dá direção da lida... Opina, atende, responsabiliza, reforça e cobra.
          Na roça o rapagão que conta as estrelas é quem trabalha, enquanto o velho decide. Solta os bezerros no barracão. Cuida dos matos, ajeita a lavoura: roça, capina, cavouca, colhe, seca, bate, recolhe, queima, amontoa. O velho não aguenta mais a tirança de leite. No mais é conversar e pensar na filha que vai ficar sozinha naquelas lonjuras; preocupa porque Deus não lhe deu filho homem. Deus também foi lhe tirando os dias de vida devagarzinho, devagarzinho, um segundo depois do outro... Foi também lhe definhando os músculos como se esvaziasse um latão de leite. Foi lhe retirando os dentes, os cabelos, a alegria... Ficou desenhado em magreza de pele e osso quase, quando Deus lhe tirou a mulher.
          De longe o velho vislumbra o fogo que come todas as matas das cercanias. Queimada consumindo tudo. Conclui que o cabra que faz isso com o mundo não é humano.
          Um dia surge um mancebo engravatado. Chegando mansinho de curioso, conversinha e bigodinho fino ocupando a boca ardilosa. O pai arreliado com aquela chegança de forasteiro não se mostra satisfeito. É que a moça da vizinhança já sentia a dor de menino novo apontando pra nascer e confirmando a desonra. O sujeito autor da desgraceira nem era das redondezas. Pois fugiu a passos largos pra se afastar ligeiro da justiça de garrucha. Coitado do compadre Setembrino! Queria isso não!

          O velho queria isso pra filha não! Melhor abreviar com a situação arriscada de dar tempo ao tempo e deixar moça em casa, encadeirada  e de boniteza crescente. Flor exposta ao enxame, ele pensava.
          Zeloso sabia que honra de donzela carece de constante sentinela. Uma piscadela e a desonra entravam pela porta ou pela janela. Porta, janela, tudo carece de tramela. Ainda mais... A garrucha sempre debaixo do travesseiro era meio de prevenção e cuidado que podia ter. O dado mais relevante é que já se sentia vivido demais pra tanta prevenção, sabendo que não ia durar para sempre. Deu de ficar cansado no peito e pouca respiração. Não aguentava escada e nem latão de leite.
          Tudo passava pela cabeça do velho enquanto livrava a filha dos moços que chegavam de mansinho. Vinham rasteiros que nem cobra peçonhenta.
  
Do seu lado o sujeito de fala mansa, doutor, de própria declaração pensava: - vai ser do jeitinho que estou com vontade! Mas a menina é arisca, meio pra aqui, meio pra ali; parte criança, parte moça. E nem se deixa avistar na varanda. Resguarda no quarto a boniteza da idade. O doutorzinho arredou até a Igreja, assuntando, tirando uma olhada de longe, nas formas, na boca com o desenho do riso dela sob o véu. Tocaiou na hora da missa, sondou aqui e ali e decidiu confiscado de fome e desejo falar com o pai dela. Era bonita demais... Precisão de ser conquistada com muito jeitinho e astúcia.
          Criou coragem e por isto foi derrubar a resistência do velho: - Quero a mão dela, Seu Teixeira... Levo daqui engatada no lombo do cavalo, mas antes trato de casamento. Garanto na papelada o nome, família, abastança. As diferenças “têm”, é verdade, mas faz mal não, que eu cuido de fazer ela feliz!
          O pai já encanecido foi logo desarmado na iniciativa da proposta; de pronto assuntou com o sujeito conversa séria e de muita clareza, duração e honestidade e nem argumentou com a menina para conhecer do seu querer. Ao jovem jeitoso no falatório declarou:- Garrou na minha mão pro aperto é mais valioso que juramento; já que do documento de papel assinado o senhor cuida! Leva a “fia” consigo!... Pra mim oceis tá casado. Cuida da moça, que já tô véio e fatigado; leva com o senhor antes que o caso ganhe grandiosidade!
          Ela se foi, casadinha de novo, sem lamúria ou riso, porque tinha os pés fincados no chão e não tinha querer. Nunca deu de saber a ninguém seus desejos e sentimentos. Acatou com frieza e boca calada a sua destinação de seguir o tal doutor, no lombo do burro. Levou pouca roupa e sonho nenhum. Mesmo porque nunca se deu conta de olhar para o lado, onde pudesse perceber que o rapaz sonhava e sofria. Também nunca olhou para o firmamento e jamais contou estrelas...
          Zé Dadaia, o rapaz que cuidava da roça e sonhava com a moça, deu-se por agastado. Olhos entristecidos de quem ama sem ser amado. Emagreceu, definhou, sofreu e quase morreu. Disso compreendeu o arrebatamento a que o homem está sujeito e perdoou o abandono do pai. Sentiu-se um pouco Zé do Dirceu... Do seu mal nunca teve cura; viveu a vida inteirinha a olhar para o céu a contar estrelas. No chão contava os bois todos os dias. Ê boi... Ê boi. Ê boi na estrada.



          
Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amor Líquido




Beijo Na Boca


                                   Ilustração: Internet


         Ivan Ferreira da Silva, mas o povo me conhece por Tico, por causa da minha miudeza de ossos e músculos. Um tico de gente, dizia minha avó. Mas meu nome é Ivan, confirmado pelo Espírito Santo na pia batismal. Cidadão de tez escura, atualmente chamado de afrodescendente pelos intelectuais. Sou negro, neguinho, negão e não me envergonho quando me chamam assim. Acho até bonito quando a moça me chama de meu neguinho, ou de meu negão, porque para mim é elogio. Sou o nego, para os meus amigos. Portelense enquanto fui liberado para aquele arrocho na Escola de Samba; mas depois deu ciúmes na minha neguinha e deixei de frequentar, para não cair em tentação. Carioca, do Rio Comprido, por nascimento e aptidão; nasci com a veia de sambista e bom de bico, pois uma conversa boa eu sempre tive. É que Deus compensa uma coisa com outra: tira a beleza, mas dá a astúcia. Botafoguense, porque a gente tem que amar incondicionalmente alguma coisa nesta vida, custe o que custar. Tem que ter uma paixão! Eu tenho a estrela solitária no meu peito. E eu amo aquela estrela, ali sozinha, da camisa de meu time. Sou do sexo masculino, com muita segurança e definição disso; não tenho meio termo, sou nascido, criado e conservado macho. Para mim não há nada mais acertado no mundo que mulher. Também não recrimino quem não goste. O amor cabe em todo lugar. A pintura da vida perfeita que me impingem no carnaval não me comove nem um pouco. Não vou virar alegoria para turista que vem visitar favela... Já não tenho nem mais os meus dentes e nem me iludo com mais nada nesta vida. Perdi a inocência.
 
          Insensíveis! Eu dou essa conta do estrago em minha boca aos governantes, já que não tive chance de me defender; já nasci em desvantagem no afeto e no leite. Já nasci devendo. Por que eu não sei, mas já vim devendo. Sem pai para me defender, sem mãe para me criar. Uns já nascem sem sorte; é o meu caso. Sem astúcia e resignados, muitos dos meus vizinhos se consolam em novelas; a ironia é que, no intervalo delas há propagandas de comida e de cremes dentais branqueadores. Tenho muito pouco do primeiro e não me serve de nada o segundo. Em resumo, barriga e boca vazias... Ainda me mandam sorrir para a câmera, porque estou sendo filmado, os covardes.
 
          Milhões de olhos mortos diante da TV habitam meu país e não veem o que se passa bem aqui. Sou de pouco estudo, mas observo. Não nasci burro, não. Quanta coisa por fazer e milhares de homens acomodados no sofá da sala e nos gabinetes em Brasília. O livre arbítrio deles está num comando portátil que os controla e no painel de votação secreta. Cultivam uma apatia de consciência tranquila e se consolam com o final feliz. Onde já se viu?... Final feliz!... Quando querem mais emoções, costumam mudar de canal que é igual no passado, no presente, no futuro. Tudo no controle remoto, para não desgastar o corpo.

          Hoje ouvi que para fazer concurso para policial é preciso ter, ao menos, vinte dentes na boca. Ri, ri muito até passar mal... Já viu uma boca sem dentes rindo? Pois não tem graça. Ah! Concurso público para policial. Ah!... Se eu tivesse vinte dentes... Primeiro iria tirar um retrato 3x4 para fazer uma nova identidade:- Tico com vinte dentes, sorrindo... Foto de frente e de perfil. Depois iria comer rapadura, chupar cana, morder um pedaço de carne. Fazia uma extravagância e comprava meio quilo de alcatra. Improvisava um churrasco. E, finalmente, iria beijar minha namorada na boca, que nem isso eu faço. Ah! Se eu tivesse vinte dentes, seu moço!...


Autora: Valéria Áureo
In: Conjugando o Amos Líquido






segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A Praça



Novo dia! A vida girando na cabeça encanecida dele, como um caleidoscópio quebrado, de cores vivas. Os passinhos e a fala dele são imprecisos e cansados. O lugar, em que vai todas as manhãs, é sempre uma surpresa. Uma surpresa, uma surpresa!... Na sua mente, aquele homem estranho o leva a passear em um lugar diferente todas as manhãs. Diferente! Diferente!... A mão firme em seu braço o mantém de pé e em segurança, até que possa se assentar no banco da praça. Ele só não entende porque todos os dias tem que ir a um lugar novo, acompanhado de um homem desconhecido. Por que não podem deixá-lo com aquele rapaz de ontem? Sim, aquele rapaz de ontem, tão engraçado e espirituoso, de quem gostou muito e com quem pôde conversar tudo, até mesmo falar de seus segredos mais íntimos? Ah! O rapaz de ontem sim, era feliz e divertido! O rapaz de ontem, de ontem, de ontem...
Tudo no parque é novidade para um pai idoso, ao lado de um homem estranho e tão triste, tão triste, tão triste, (que bem poderia ser o seu filho).
O rapaz de ontem, esse sim, era tão alegre e feliz!
Autora Valéria Áureo

In: Entre Mentes e Corações