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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Coisa de afeição ou amor à primeira vista




Fonte: Internet


Era apenas um menino da fazenda vizinha, visto aqui e ali, numa aprumação franzina, escanelado por falta de apreço aos doces e resistência à comida. Falta de apetite e aspiração. Perna fina. Porte de menino que ia crescendo desjeitado no prumo de duas vigas inclinadas para frente feito bambu, arqueado de peso e responsabilidade. Foi sempre miúdo no crescimento; assim mesmo era sujeito bom de tarefas. Difícil explicar a força que saía daqueles dois braços quebradiços de gravetos. É que já se tinha por chefe da casa desde que o pai se embrenhou mundo afora, deixando a mãe e a roça pra Deus cuidar. Dizem que foi coisa de amor desconsiderado por uma mulher casada e que disso só recolheu estrago pra vida. Deixou pra trás a casa e os filhos sem qualquer consideração ou piedade. Declarava que o amor havia corrompido os sentimentos pela família e precisou seguir seu destino. O menino, até então, não podia compreender tal sentimento. Sobrou ódio pelo pai. De tão pequeno, de tão sem pai, virou Zé Dadaia; Zé, filho da Dária, embora também fosse filho do Dirceu. Decidiu pela orfandade paterna, de tanto rancor que guardou.

 De repente o moleque miúdo deu uns volteios, uns rodopios no tamanho das pernas, os braços estirando a pele e os ossos num arrebatamento só. O pescoço encompridando para cima, o queixo alargando e arrastando os dentes; e do nada se deu arrancado no crescimento. Ficou moço de traços esguios. Já rapaz foi se empregar na fazenda do Seu Teixeira, por consideração ao padrinho e afeição à menina que, de soslaio acompanhava crescer como flor de manacá. Deu de sonhar acordado, acometido de mal que afeta os desavisados... O amor o perturbou tanto que de dia se perdia em devaneios e à noite não dormia. Ficou cativo das nuvens e tormentos que pontilhavam a alma que não era dela; não sendo dela, doía tanto que de mais ninguém seria. A alma ora ficava, ora fugia, meio sofrer, meio esperar. Mais que o amor, a alma morria... Iniciado rapaz já se perdia em dançar com a moça de cintura fina; ao menos em sonhos, quando se estirava no capinzal seco. Deu também de contar as estrelas, hábito que tinha com a rês no pasto. Uma, duas, dez... Cem, mil... Com as estrelas se perdia em número e ordenamento no céu, tentando alinhar os distantes pontos emaranhados no infinito, como se fosse o rebanho. Ora para a esquerda, ora para a direita, os olhos não tinham destino certo, nem sabia ele a que distância a vista teria que ir... Dos números fugia para as palavras, os cheiros, o vento. Quem procura estrelas sempre está perto do céu; mas não era ali que a moça vivia. O rapaz, no baile da festa de Reis, tencionava tomar tento pra vigilância daquela formosura, como se houvesse destinação de ela ser sua e de mais ninguém... Na imaginação deu-se por avexado diante do vestido rosa dela, graça cheia de fitas nos cabelos. Ele tão simples; ela, capricho e cabedal! Viu pelo salão gente embesteirada de manias, muitos empertigados em roupa de qualidade. Ele tímido, reduzido no orgulho e vaidade, sempre de olho nela. Pensava muito pouco de si: muita sela para pouca montaria. Desavisado do destino, não custava nada sonhar...

Zé Dadaia dormiu no mormaço do dia, no intervalo da refeição e o eito, estirado no capinzal... Na imaginação desenvolveu a dança, respeitoso, aprumando o pescoço para cima dos ombros dela, só para sentir o aroma de flor nos cabelos. Eta devaneio presunçoso, meu Deus! Acordado tinha conta de que era ninguém perto dela e nem em sonho a alcançava...

De longe, agachado na estrada, um caboclo toma pinga, as pernas leves e a consciência pesada, porque bebe demais, peca em pensamento e espicha os olhos pra moça que anda toda levezinha no chão batido de terra. Um outro agarrado na viola consola uma lua de parto de madrugada quase perdida e suspira só por conta da solidão. Um outro ainda olha para todas que vêm do campo e não se perde em nenhuma. Lá longe, onde antes se ouviu a toada de bois, segue a vida na rotina, na luta no campo, no corte do capim; e mais um dia se encaixou no crepúsculo.

Agora é noite nascente de poucos sons. Um caboclo acocorado repousa nas pernas dobradas por canseira e desilusão. Canseira, copo e golada de bagaceira. E vai chegando de olhos perdidos nos olhos e pernas de todas elas que voltam para casa. O rosto reflete um cinza fumacento no luminar do candeeiro e elas arriando as pestanas pra encobrir a vergonha e pra noite alumiar o sonho. A noite encobre a passagem e leva cada um ao seu destino...

A velha gaita choraminga fazendo a moça dormir. O pai percebe os suspiros e o perigo de se ter donzela em casa com tanto caboclo rondando. Ele envelheceu viúvo, cuidando da brasa na fornalha, fazendo as vezes da mãe; atento com a filha.  Paciente... Cuida para o alimento ir chegando ao sabor do frango com quiabo. Apaga a chama e deixa a brasa para a panela não queimar. Dia sim, outro também manda tirar o cisco da tapera velha, cuida de ajeitar a lenha. Pouco tem que fazer quando a solidão se acomoda junto do coração. O que pode é se embalar com as cantorias do rádio na voz de Nelson Gonçalves e algumas recordações da mocidade. Toda manhã repete a vidinha assim: vê o padrão das vacas novas, decide o que matar e o que vender; o que plantar e o que colher. Dá direção da lida... Opina, atende, responsabiliza, reforça e cobra.

Na roça o rapagão que conta as estrelas é quem trabalha, enquanto o velho decide. Solta os bezerros no barracão. Cuida dos matos, ajeita a lavoura: roça, capina, cavouca, colhe, seca, bate, recolhe, queima, amontoa. O velho não aguenta mais a tirança de leite. No mais é conversar e pensar na filha que vai ficar sozinha naquelas lonjuras; preocupa porque Deus não lhe deu filho homem. Deus também foi lhe tirando os dias de vida devagarinho, devagarinho, um segundo depois do outro... Foi também lhe definhando os músculos como se esvaziasse um latão de leite. Foi lhe retirando os dentes, os cabelos, a alegria... Ficou desenhado em magreza de pele e osso quase, quando Deus lhe tirou a mulher.

De longe o velho vislumbra o fogo que come todas as matas das cercanias. Queimada consumindo tudo. Conclui que o cabra que faz isso com a Terra não é humano...

Um dia surge um mancebo engravatado. Chegando mansinho de curioso, conversinha e bigodinho fino ocupando a boca ardilosa. O pai arreliado com aquela chegança de forasteiro não se mostra satisfeito. É que a moça da vizinhança já sentia a dor de menino novo apontando pra nascer e confirmando a desonra. O sujeito autor da desgraceira nem era das redondezas. Pois fugiu a passos largos pra se afastar ligeiro da justiça de garrucha. Coitado do compadre Setembrino! Queria isso não!

O velho queria isso pra filha não! Melhor abreviar com a situação arriscada de dar tempo ao tempo e deixar moça em casa, encadeirada  e de boniteza crescente. Flor exposta ao enxame, pensava.

Zeloso sabia que honra de donzela carece de constante sentinela. Uma piscadela e a desonra entrava pela porta ou pela janela. Porta, janela, tudo carece de tramela. Ainda mais... A garrucha sempre debaixo do travesseiro era prevenção e cuidado que podia ter. O dado mais relevante é que já se sentia vivido demais pra tanta prevenção, sabendo que não ia durar para sempre. Deu de ficar cansado no peito e pouca respiração. Não aguentava escada e nem latão de leite. 
Tudo passava pela cabeça do velho enquanto livrava a filha dos moços que chegavam de mansinho. Vinham rasteiros que nem cobra peçonhenta.  
Do seu lado o sujeito de fala mansa, doutor, de própria declaração pensava: - vai ser do jeitinho que estou com vontade! Mas a menina é arisca, meio pra aqui, meio pra ali; parte criança, parte moça. E nem se deixa avistar na varanda. Resguarda no quarto a boniteza da idade. O doutorzinho arredou até a Igreja, assuntando, tirando uma olhada de longe, nas formas, na boca com o desenho do riso dela sob o véu. Tocaiou na hora da missa, sondou aqui e ali e decidiu, confiscado de fome e desejo falar com o pai dela. Era bonita demais... Precisão de ser conquistada com muito jeitinho e astúcia.

Criou coragem e por isto foi derrubar a resistência do velho: - Quero a mão dela, Seu Teixeira... Levo daqui engatada no lombo do cavalo, mas antes trato de casamento. Garanto na papelada o nome, família, abastança. As diferenças “tem”, é verdade, mas faz mal não, que eu cuido de fazer ela feliz!

O pai já encanecido foi logo desarmado na iniciativa da proposta; de pronto assuntou com o sujeito conversa séria e de muita clareza, duração e honestidade e nem argumentou com a menina para conhecer do seu querer. Ao jovem jeitoso no falatório declarou:- Garrou na minha mão pro aperto é mais valioso que juramento; já que do documento de papel assinado o senhor cuida! Leva a “fia” consigo!... Pra mim oceis tá casado. Cuida da moça, que já tô véio e fatigado; leva consigo antes que o caso ganhe grandiosidade!

Ela se foi, casadinha de novo, sem lamúria ou riso, porque tinha os pés fincados no chão e não tinha querer. Nunca deu de saber a ninguém seus desejos e sentimentos. Acatou com frieza e boca calada a sua destinação de seguir o tal doutor, no lombo do burro. Levou pouca roupa e sonho nenhum. Mesmo porque nunca se deu conta de olhar para o lado, onde pudesse perceber que o rapaz sonhava e sofria. Também nunca olhou para o firmamento e jamais contou estrelas...

Zé Dadaia, o rapaz que cuidava da roça e sonhava com a moça, deu-se por agastado. Olhos entristecidos de quem ama sem ser amado. Emagreceu, definhou, sofreu e quase morreu. Disso compreendeu o arrebatamento a que o homem está sujeito e perdoou o abandono do pai. Sentiu-se um pouco Zé do Dirceu... Do seu mal nunca teve cura; viveu a vida inteirinha a olhar para o céu a contar estrelas. No chão contava os bois todos os dias. Ê boi... Ê boi.. Ê boi na estrada.



Autora: Valéria Áureo



05/05/2008

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O Cronista

                                      Ilustração: Internet



        Eu sou uma pessoa que não chora. Ou melhor, nunca em público, só mesmo bastante longe de qualquer olhar humano. Ou quando o olhar humano já deixou de existir. É que me habituei a isso, desde que fui trabalhar na agência que cuida dos últimos instantes do sujeito. Caso contrário choraria o tempo inteiro e espantaria os meus fregueses. E depois que arranjei esse trabalho, vejo esta vida assim, resumida na morte; escondido eu choro. Na frente dos outro seria a desgraça total, capaz de arruinar qualquer reputação de durão, construída durante anos a fio. Pelo visto sou eu, a princípio, mais a imensurável mágoa de ver o fim tão de perto. Ver através de quem conheci e amei. Diante do sofrimento foi que me decidi parar de chorar na frente de outros humanos. Há coisas fantásticas, não há? Uma delas é decidir parar de chorar. Entretanto choro perto dos cachorros, mas distante dos homens; não sei por que os dois me comovem tanto.

       Vai-se ao chope de final de semana, para ver a balada de moços e moças; vai-se à praia, ao cinema, ao shopping. Vai-se a todos os lugares. Pois eu prefiro estar em casa recolhido. Lá fora ouço barulhos, que põem toda a gente a saltar. A mim não, que sou tímido. Pouco ou nada se ouve com aquela música feita para explodir o crânio.. Eu não me entusiasmo, já não suporto tanto tais ruídos. Meus ouvidos padecem, quando distantes do meu local de trabalho. Lá, sim, constante bem estar. Ser, ou não ser... Este verso tem ecoado na minha cabeça nos últimos dias. A vida é curta demais, para perdermos tempo com jogos e indecisões, ou barulhos ensurdecedores... Ou é, ou não é. Agradável ou desagradável. Diferentemente disso, não há o que fazer. Antigamente eu era capaz de falar ininterruptamente, durante eternidades, sobre tudo e sobre nada, com qualquer pessoa, inclusive aqueles com tendências esquizofrênicas. Eu gostava de falar muito... Agora que conheço os esquizofrênicos, tenho que aproveitar todas as oportunidades para mostrar que fico sempre a ouvir silenciosamente, durante horas e horas, todos que encontro; ainda mais quando estão condoídos e enlutados. Hora em que falam mais e que precisam que alguém os ouça, sem restrições.

       Agora estou bem melhor; agora escuto muito mais, falo muito menos... Ouço o síndico, o porteiro, as namoradas dos amigos, a prima da tia da vizinha e todas as pessoas que a dado momento partilhem o mesmo espaço comigo. Todas precisam desabafar e eu ganharia um bom dinheiro se cobrasse para ouvir.

       No meu tempo de infância as Igrejas estavam sempre abertas. O sujeito entrava, falava diretamente com Deus, desabafava... Depois disso voltava aliviado para a vida. Agora, não! Não se vê mais uma Igreja disponível. Nem mesmo padre com tempo para ouvir. Sou o ouvinte de todos, mas poucos querem me ouvir. E isto não augura nada de bom para a minha vidinha, não augura não. Será que estou condenado a passar os restos dos meus dias com quem não tem resposta para me dar? E há dias em que tais tormentos são ainda mais verdadeiros. Dei-me ares de cronista, exatamente porque não tinha com quem falar; ninguém disposto a me ouvir. Passei a ter gosto profundo por casos de pessoas comuns; a crônica de cada um, que à minha alma chega, me faz indefeso para contestar o que falam a seu respeito. Absorvo um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano. Fico comovido; e como já disse às vezes choro escondido. Diante dos cachorros sim; jamais diante dos homens. Depois disso escrevo algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã. O motivo de certas confidências, na maioria dos casos, é o pequeno incidente; coisa de pequena monta... A notícia em que ninguém prestou atenção, o acontecimento insignificante, a cena corriqueira. Nessas trivialidades, o que me surpreende é a beleza, a comicidade, os aspectos singulares dos quais eles não se dão conta. Mas eu estou atento a tudo. O tom certo de uma história surpreendente está onde menos se espera; é como "uma conversa aparentemente banal", entre uma baforada de cigarro, uma receita de remédio, a espera de um troco, a fila de idosos no Banco, um guarda-chuva que virou do avesso sob a ventania, um assovio na rua, um tiro na noite. Tudo fala aos meus ouvidos. Eu ouço. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano. Visava ao circunstancial, ao episódico, que provavelmente não se repetirá. Ou, ao contrário, repete-se em toda casa, com todas as pessoas. Nessa perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança, ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador. Mas, e eu? Onde fico se imagino que, enquanto observo a vida estou livre dela?

        O único tempo do meu dia que dedico a pensar sobre a morte é quando não ouço mais ninguém. Sempre observo o senhor tomando chope no bar em frente e me vem a ilusão de que ele também não se preocupa com ela. Ao menos com a própria morte. Pode ser até que pense em alguém que já se foi. Mas, é só e provavelmente por poucos segundos. Caso pensasse na sua própria morte, não estaria calmamente de pé fumando e bebendo seu chope. Ele o faz todos os dias. Daí todos os dias não pensar em si mesmo.

        O interessante é que do meu ponto de vista ninguém deveria representar a morte pelo fim, até porque se ouve muito o fato de a morte ser a transcendência do material para o espiritual, mas ainda assim, trabalhando aqui, é o momento único do dia em que não penso nela. A partir das conversas do fim de cada um é que me vem o começo de algumas idéias. Lidando com a morte é que eu penso na vida. E eu vejo que a vida é um espetáculo, como qualquer outro encenado no palco. Cada um tem seu personagem, mas passa a vida inteira decorando o texto. Quem afinal veio para esta vida já sabendo o que fazer? Ninguém! Ninguém conhece nem o papel e nem o enredo. Por isto é que tudo tem que ser improvisado.

          Passam aqui em frente, muitas pessoas em companhia de outras. Antes de chegarem aqui perto elas riem e gargalham, mas quando mais próximas, todas param e olham para dentro; outras mais amedrontadas atravessam a rua. Preferem o outro lado da calçada. Muitas gargalhadas já foram interrompidas por choros e corpos, por velas e coroas, como se fosse o maior desrespeito continuar vivo depois da morte do outro. Tolice! A vida segue como se nada tivesse acontecido. Não há motivos para receios.

         O restante dos meus minutos, eu busco viver como se realmente eu não fosse morrer. Busco viver mesmo que seja diante de uma enorme conta de luz que não poderei pagar, ou andando apressado por essas bucólicas ruas que não me deixam nunca andar sozinho. Há sempre alguém vindo em minha direção, ou partindo comigo, para me fazer companhia. Busco levar sempre comigo a beleza de saber ouvir sobre a vida dos que precisam fazer confidências. Ainda assim, me pego sorrateiramente reclamando, às vezes, daquilo que pode ser consertado. No entanto, naquela funerária, as pessoas vão para resolver algo que não pode ser resolvido. Ao menos estou ali para que desabafem comigo. Se eu faço crônicas de tudo que ouço, paciência... Perdoem a minha indiscrição. Penso eternizar dessa forma os que acabam de partir. Histórias há... Muitas, para serem contadas. Há inclusive as minhas. São inúmeras no meu ofício... Nunca tinha me ocorrido que eu também sou personagem bufão desse teatro. Dei-me conta disto só agora. Sempre me imaginei o crítico da peça teatral. Vendo cada encenação, analisando, fazendo revisão, dando conceito. É... Um crítico teatral era o que eu imaginava ser. Talvez o escritor da peça também eu pudesse desempenhar muito bem. Agora, vejo que não; sou figura dramática, como qualquer outro. Tenho meu papel para interpretar. Mais um pobre personagem saltimbanco desta vida.

       Uma vez fui encarregado pela família de colocar uvas no caixão de um chinês, conforme a tradição. Minha pobreza era maior que a veneração à cerimônia e o grande respeito ao meu ofício. Tenho orgulho do que faço e muita competência. Naquele dia, diante das uvas hesitei entre a responsabilidade e a curiosidade do paladar. Também me lembrei de minha mãe... Acho que pela fábula que sempre me contava: “A raposa e as uvas”. Pois eu vi as uvas, lembrei-me de minha mãe... Achava um desperdício de aquela iguaria ser levada junto com o morto. Levei para minha mãe que nunca tinha provado uvas e achou a fruta muito doce, muito refinada; declarou que uva é “uma coisa do outro mundo”. E não é que ela estava com a razão? Uvas... Quase que iam mesmo para o outro mundo... Outra vez fiquei com os sapatos novinhos do defunto cliente, porque eu mesmo só andava descalço. É que tínhamos o mesmo tamanho de pé. Também achei que aquela coincidência de número de sapatos fosse um sinal celestial. Jurei para a família que os havia colocado no falecido que fez a viagem sem os seus sapatos. Ele que me perdoasse. Tenho certeza que, para onde ele estava indo, não precisaria deles. Ademais, rezei para que seu caminhar fosse sobre nuvens. Tinha certeza que não teria pedras para pisar, pela mansidão do seu semblante. Dava a impressão de homem generoso e despojado. Acatei a mensagem com a certeza de que o morto já tinha chegado ao céu e nem tinha precisado dos sapatos. É nos emolumentos fúnebres que encaramos a cruel realidade (sobretudo a nossa). Concluímos que nada é eterno, que as pessoas vão e por incrível que ainda nos pareça, não levam nada consigo. Nada do que levaram a vida inteira para amealhar. Nem mesmo os sapatos...

        A verdade a que cheguei até agora é que as pessoas realmente são muito frágeis, apressadas e confusas, e eu me incluo nessa louca ciranda de emoções. Também sou um homem triste. Reservo um tempo para chorar, mas só quando não há ninguém por perto, só o meu cachorro. E, quanto àquele sujeito do chope, imagino que ele se sinta melhor que os outros, ou mais tranquilo, sei lá!... É o meu patrão! Deve pensar consigo mesmo que seu negócio é garantido; mais dia, menos dia, todos serão seus clientes nesta cidade tão pequena... Tem certeza absoluta de que vai ficar muito rico e que enterrará todos. Eu continuo como estou. Um coveiro cronista.


Autora: Valéria Áureo
Publicado em: Entrelinhas Literárias - 2011-
Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O gato elege o seu amor





                                                                 Fonte: Internet



Lembrei-me de dizer dos gatos, os que rolaram nos meus braços infantis, juntamente com sete irmãos, como uma coisa só. Falar o que a observação de sentimentos pueris e alguns anos de maturidade me deram. Gato é só coração. Domesticado... Coração tímido, escondido, mormente num cantinho exclusivo da casa, onde possa estar em paz, com suas reflexões. Os homens deveriam observar mais os felinos. Poderiam aprender muitas coisas. Quem sabe, talvez ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem não ama os gatos não sabe o que é entrega absoluta.

Gatos... Sábios para ficarem horas a fio num fio de novelo de lã. Não sei se lã, ou se pelo de gato, ali, acolá... Possibilidade de reflexão ou tédio é o gato que se embola na bola de linha, de jornal, de pelúcia. O gato e o brincar formam uma coisa só. Gatos, apesar disto, são inquilinos inquietantes, talvez por isso mesmo; pela indefinição do ser. Ora é bicho, ora é brinquedo que se mexe de um lado a outro se arrastando manhosamente. 
Gato vive a sua vida e deixa viver, sem exigir nada de ninguém. Por isto pode ser mesmo inquietante; sim, nada é mais incômodo que a autossuficiência dos gatos; o silencioso bastar-se do gato. Vai e vem, entra e sai, sem importunar ninguém. O só pedir a quem amam um amor sem promessas e dívidas. O só amar a quem os merece já é o bastante.

O gato não satisfaz as necessidades do amor possessivo que domina e estabelece regras de convivência humana. Gato coexiste pacificamente; não disputa com o humano, não ameaça, não domina, apenas conquista tudo o que deseja. Compartilha simplesmente o amor. Compartilha a casa; compartilha o sofá, a cama, o banheiro e tudo o mais. Discretamente, como quem não ocupa espaço algum, torna-se o dono. Às vezes flutua, porque não há passos. Passa leve brisa pelos cantos que elege como os seus preferidos... O gato é vento... E não se deixa ser amestrado, nem acata ordens de quem vive dependente e à custa de animais. Não! Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. O mais puro, o mais sincero sentimento expresso no respeito à individualidade. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, ou falso, o que não é verdade. Mesmo porque ele nem se incomoda com isso, porque não aceita a falsidade. Gato só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser e a quem acha que deve dar. Ama determinadas pessoas e ignora outras... O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele recebe. Sábio e espelho. Nada pede a quem não o quer. Melhor dizendo, nem perde seu tempo com quem não o quer...  Passa bem longe.

Ele é exigente com quem ama, mas só depois de muito se certificar de quem se trata. Se a pessoa merece mesmo o seu amor ele se entrega ao toque, ronrona e explode em dança de enroscar-se nas pernas da pessoa amada, buscando carinho. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige com insinuado disfarce de poder sobreviver sem aquele amor...

Sim, o gato não pede amor, mas o conquista. Nem depende dele para sobreviver. Quando não o tem, ele se basta. Vive num canto qualquer, vagueia pela noite e caça sua comida. Mas, quando sente e reconhece o amor, então ele é capaz de amar e amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. Não é melodramático, exagerado e histérico; é discreto. Se puder passar imperceptível, tanto melhor. Dá o amor na justa medida, com o cuidado de não ultrapassar o espaço de quem o ama. O gato estabelece limites de cordialidade e respeito; não é intruso. Acomoda-se e espera a sua vez.

O gato é o mistério... Leva o homem a se ver... O gato não se relaciona com a aparência do homem. Não com aquilo que está do lado de fora do homem.  Ele vê além do que representa o homem, por dentro e pelo avesso, além do que o homem finge ser. Relaciona-se com a essência. Vê além dos olhos e hospeda-se na alma. Aí é que se dá a conquista, o entregar-se até o fim de seus dias. Entregar-se, conquistar o objeto do amor é que leva tempo. Há que conhecer o seu dono; estudá-lo intimamente, para se assegurar se vale a pena enamorar-se dele. Porque, depois do enamorar-se, não há mais retorno. O compromisso ultrapassará as barreiras da existência. Seu compromisso vai além do tempo... É definitivo; fulminante!

O gato sabe quem o ama... Sabe quem o despreza. Paga na mesma moeda... E se defende do afago amedrontado ou falso esquivando-se. Rejeita aquele que não merece ser amado. A relação dele é com o que está camuflado na alma. O gato vê! Seleciona, julga, elege e sabe quem é merecedor e quem não é. Por isso, quando surge nele um ato de entrega absoluta, de procura pelo colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desprezado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento. É como se dissesse. Você merece o meu amor! É aprovação.

O homem imagina que conhece o gato, mas não conhece. O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou oculta, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele, que enfrenta a própria solidão). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Por pura intuição. Entrega-se a uns, afasta-se de outros. Só ele decodifica o mistério da alma.

Gato não dá trabalho... Nada diz, não reclama e não cobra nem exige nada. Afasta-se, simplesmente. Quem não sabe "ler" a alma do gato, pensa que é um animal egoísta; não é. É discreto e sabe ser mais conveniente que muitos de nós. Gato é consistente em regras de etiqueta. Sabe a hora certa de se recolher, de sumir e de reaparecer...  É um animal respeitoso. De compostura britânica. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo que não percebemos. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que quase nunca sabemos compreender.

O gato é enigma sim... Vê mais do que vemos... E vê dentro e além de nós. Ele relaciona-se com fluidos, auras, divindades, espíritos e todo o invisível aos nossos olhos. Protege-nos daquilo que nem damos conta existir. O gato é mediúnico, bruxo, alquimista, feiticeiro, guardião e analista. É um exemplo de meditação, sempre estável ao nosso lado, a ensinar calma, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge tibetano à disposição de quem o saiba perceber. Monge, sim, refinado, taciturno, contemplativo e circunspecto, a nos devolver as indagações temerosas, cujas respostas temos medo de descobrir. O gato sempre responde com uma nova questão, pelo simples modo de olhar, remetendo-nos à observação permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de obter respostas e descobrir soluções...

O gato é um exemplo diário de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exige recolhimento, entrega, atenção, simplesmente por se deixar ficar aos nossos pés. Gatos deixam-se amar... Pessoas desatentas e indiferentes não agradam os gatos. Pessoas barulhentas e egoístas os irritam... Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Não se deixa enganar por nada e por ninguém. Gato dorme o sono dos justos, dos que vivem em paz e harmonia com a Terra e as outras criaturas. Ensina a espreguiçar-se e a ter prontidão para a ação imediata. Um perfeito professor de Pilates. O gato sai do sono para o máximo de combate; tensão e elasticidade num segundo... Gato é sensualidade. Salto, sono, silêncio, descanso, prontidão e ação. Gato é introversão. Gato é contato com o mistério, com a sapiência, com a escuridão, com a sombra e finalmente com a luz!..

Autora: Valéria Áureo

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Dos Arcos à Travessa dos Poetas de Calçada






Travessa dos Poetas de calçada. Hoje eu estive lá... Verdade. Estive lá! Não, melhor dizendo, outrora vivi tantas noites ali, em horas aproveitadas nas incontáveis luaradas, bêbado tremulando pernas e ideias noviças em minha juventude. O corpo naquela ocasião pedia todas essas irresponsabilidades que acometem os rapazes. Não sei muito bem por quantos anos seguidos andei alvoroçado atrás de belas mulheres, porque era ali que elas povoavam de fascínios as janelas e meus desejos; elas atrevidas, trazidas de todos os cantos da Terra.

Travessa dos Poetas de Calçada, bem composta à Rua Senador Dantas, junto com as mil lembranças misturadas dentro da cabeça que não mais sabia qual esquina habitar. Não sei ao certo o lugar da cidade, quando distante dela, de olhos fechados... Do outro lado a Lapa! Tantos lugares... Sei que eu me sentia bem naquele encontro da esquina com a alma da Cinelândia e um remoto adocicado de uvas. Sim, ali mesmo, onde tanto percorri até me doerem as pernas... Eu amo essa rua batizada pelos milhares de canecos de vinhos e cervejas que emanavam das inspirações das penas e das longas noites de orgias... Saudáveis noites de contemplação divina. Um copo meu, ao menos, um poema meu, ao menos. Um amor, ao menos, pensava que era meu... Quem não se abatia mortalmente satisfeito na cidade enluarada, voltando-se sensual para os Arcos? Eu sonhando servi também para dar nome à rua com minhas carraspanas justificadas nas incontáveis paixões. Ora uma, ora outra a me arrebatar os sentidos. Servi ao beco, à Travessa dos loucos com meus arroubos e gargalhadas com iguais amigos, por onde devíamos nos esconder. Tudo juvenil e permitido.

É íntima esta infidelidade do beco dos poetas ora comigo, ora com outros, traindo-nos a todos como uma volúvel cortesã. Também o traí, devo confessar, porque o deixei há certo tempo, depois que os idílicos poéticos se afastaram de minha cabeça. Infelizmente fui me tornando com a maturidade um homem sem sonhos, sério, apático... Eu me mudei de lugares e mudei minha rotina Tudo por culpa de uma ilusão, que eu cri mortal e do remédio do tempo. Depois de muitos anos acabei sucumbindo aos apelos das noites enluaradas e violões.

Mais um Zé eu sabia que era. Tinha nascido assim: José, nascido em Viana do Castelo, em uma cidade que fica ao norte de Portugal e que se chama Minho; torrão também encravado na memória e eu chorando a infância, pois se tratava mesmo de um minhoto nato, apaixonado de Portugal, nascido um Cerqueira Lima por raiz da mãe, avós, bisavós. E o que eu fazia aqui então?... A mãe da minha mãe era Aninha; era o nome famoso dela. Aninha era Ana, mas o sobrenome dos mais antigos suspeita-se Carvalho; não se sabe ao certo. Donana, Donaninha... Branquinha, clarinha, pequenininha, dos olhos muito azuis. Vieram todos para cá e eu já fora da barriga, carregado pelos braços dela. A família não era famosa, era humilde da qual as pessoas falam muito bem, que tinha o nome a zelar, por causa da honestidade, mas que não tinha muitos bens materiais; eram pessoas simples e eu realmente só vim a conhecer pelo que falaram os mais antigos. Tantas terras eu deixei por lá sem percorrer, para me entregar aos prazeres das ruas daqui, pelo prazer de correr a cidade, na esquina do Beco e à sombra dos Arcos... Tantos foram os lenitivos do álcool e favores que consolaram meu coração e hoje a rua não me reconhece. Devo confessar que eu também não a vislumbro com os mesmos olhos. Agora o que me toma é uma dolorosa nostalgia, lembrando-me o quanto estou velho, o quanto a vida fez o que bem quis em mim. Um apaixonado, certamente. Também vejo a rua cercada por construções esquisitas, contrastando com sua arquitetura de meu tempo de risco só de navalha e soco na cara, nada mais. Tudo em torno emoldura a Travessa; atravessa a minha memória como se contivesse na mão aquele último copo de vinho, a mesa recoberta pela toalha branca de linho desfiada nas pontas manchadas de azeite e brumas. No centro o prato de fiambre e minhas mãos ainda firmes em torno do garrafão do vinho tinto, enquanto eu não ficasse bêbado. Mágoas... Verdadeiras feridas mal cicatrizadas em torno dele; é... Feridas do meu machucado coração. Confundiam-se as nódoas de vinho, as queixas que serpenteavam os adornos das mulheres da mesa ao lado. Fiteiras, todas elas... Nunca pude confiar. Alcoviteiras! Minha rua mudou-se quase de lugar entre estranhas edificações... Veio toda ela para dentro de mim, se cá fora não a encontro mais. Não era assim no meu tempo; quase não a reconheço tão afrontada por arquiteturas indiferentes ao seu glamour. Esse sentimento de natureza toda íntima não seria revelado por mim se não julgasse que fosse fazer muita diferença, mas faz. Puro amor pela cidade! E razão eu não tenho para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado ao antigo lugar é partilhado por todos os que perambularam perdidos pelas pedras daquele canto da cidade... Tanto caminhei sob os Arcos da Lapa, que acabei sem saber onde fui parar. Por certo não diviso os meus amigos. Tantos mortos eu tenho amealhado nesta maldita vida. Nós somos irmãos nisto, habituados a nos perder... Mas nos reencontraremos na Lapa, tenho certeza. Vamos morrendo pelo caminho, mas... Nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, confusos com a lei e a polícia, as gangues e as quadrilhas, mas porque nos une a vida em certo tempo, nivela e agremia o amor daquela antiga rua dos poetas. Batizamo-nos nas luaradas em plena nudez exposta aos olhos no meio da noite, no meio da rua. Ela nos aleita indistinta e ternamente, dias sem fim, feito uma mãe carinhosa que expõe o seio farto. Ela nos irmana... Depois, de uma hora para outra, nos atira a todos em direções opostas e assim nos perdemos uns dos outros. Nem tivemos tempos para as lágrimas de despedidas e o conforto de braços nos apertando num derradeiro contato. Quando nos damos conta estamos a milhas e milhas de distâncias dela e uns dos outros. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma. Tudo varia; mesmo os sentimentos como o amor, o ódio, o egoísmo, o ciúme. Hoje é mais amargo o riso, é mais doloroso suportar a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Alguns persistem nas folhas amarelas de jornais e em detalhes de alguma fachada de casarão no centro da cidade. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua antiga, da cidade antiga e seu aqueduto. Não saberia dizer como as coisas começam, apenas quando se vê, elas cá estão dentro da alma. Eternos Arcos da Lapa. Não se pode mais conceber a vida sem aquele prazer de andar pela cidade e suas sombras. Onde foi parar o paladar daquela bebida suave aromatizada pelo prazer da juventude? Onde foram parar todos aqueles que estiveram comigo, os meus amigos, nas vesperais nuas pela cidade? Antes da Travessa, do beco de bêbados inocentes ou patéticos, de meninos buscando a noite. Onde foram todas aquelas mulheres sorridentes?

A rua nem é a mesma, agora me dou conta de que tudo acabou! Nem é mais minha... Nem eu sou o mesmo. Mas os Arcos da Lapa estão lá!

Qual é a rua que me consola, mesmo sem seus vinhos e suas jovens mulheres? Qual rua me entristece, mesmo sob a lua? Qual rua me comove agora? Qual a rua do meu entendimento ou do meu esquecimento se é o que me dói mais fundo na alma?

A rua é um punhal afiado que me degola a garganta, eu sinto... E me dá vontade de chorar.

- Eu já lhe disse que a Travessa dos Poetas de Calçada tem a minha alma?


Autora: Valéria Áureo


To: Hubert Áureo Fonseca  
In: Pretextos Para Tomar Vinho