Apresentação

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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Recado/Torpedo






Clara corria para não perder a aula de canto. De longe já podia imaginar a professora ao piano fiscalizando o relógio. Sempre exigia pontualidade. Clara tinha pressa, mas não devia correr. Perderia o fôlego e não poderia cantar tão bem; precisava controlar sua respiração e assegurar a calma.

No caminho o telefone tocou... O som era agradável: “Edelweiss”... A mensagem chegou através de um torpedo de celular; único, certeiro e fulminante. Ninguém por perto... Ninguém para testemunhar os repentinos traços de dor no seu rosto atônito... Clara não tinha nunca um sorriso assim, como aquele que acabava de se fazer em seu rosto independentemente de sua vontade. Sorriso até então estranhamente posto ali por engano de seus reflexos. Aliás, as faces sempre traíam suas emoções; isto desde pequena, quando a mãe podia adivinhar até seus pensamentos, pelo discreto estremecer das sobrancelhas. Agora não era aquele o sentimento que devia transparecer... Era justamente o contrário de rir... De súbito houve um estirar dos lábios para baixo num arremedado sorriso e choro que os olhos não acompanharam. Não havia prazer naquela sugerida transfiguração de felicidade. Era uma máscara macilenta, plástica, artificial. Logo ela sentiu a náusea que acompanhava a dor no peito e se dobrou ali mesmo, para não cair no meio da rua estreita e escura.

 Ouviu em silêncio o que dizia a mensagem de voz... Um míssil... Uma bomba atômica na declaração judiciosa, condenatória. Uma sentença tal como uma música melancólica de Dolores Duran que restringia o universo de Clara e eliminava qualquer hipótese de indagação e resposta. Um funesto recado enviado pelo cyber espace estilhaçava o seu peito. A calçada estava ocupada de alguns passantes indo e vindo, distraídos e taciturnos. Ignoravam aquela bala perdida que atravessava silenciosamente o peito da transeunte. Muito barulho de carros, ao longe. Nada que fizesse recordar um pub onde se ouvisse música de fossa e se sentisse o cheiro de fumaça. Clara lembrou-se em tempo que o amor asfixia, dói, fere, maltrata e mata... Lembrou-se da professora que a aguardava. Ah! Minhas aulas de piano:



"Foi sinhá moça que disse

      Pra mim lhe dizer ansim

Entre nós tudo acabou-se

O nosso amor é tulice

Não pregunte mais pro mim"



Caiu em si, diante do recado, tal a violência com que foi atingida. Não imaginava que o celular fosse mortal como um revólver, uma faca, uma navalha; uma arma municiada pronta para disparar um tiro certeiro nos miolos. Quem poderia imaginar que uma mensagem desse fim à vida, a tal sorte, capaz de aniquilar tão eficazmente, sem deixar vestígios? Clara ouviu alguém perguntar se ela precisava de ajuda. Alguém tocava seus ombros. Ouviu palavrões de pessoas que se incomodavam em vê-la estirada na calçada; deixou-se ficar, sem poder reagir. Não mais podia com o que se passava em torno de si e em volta da cabeça. Alguém sugeriu que se ligasse para os bombeiros. Ela, sem poder articular palavra ou respirar, sofria. A voz insistia em dizer que ela não poderia ficar ali, que precisavam avisar alguém da família... Clara via tudo escuro, as pernas entrando no escuro e gelando os ossos... Um túnel se abriu diante de si. A mensagem penetrou seu coração dilacerando-lhe a pele, os músculos, as artérias. Não havia mais chances para um cardiologista... Lembrou-se do anel de noivado no dedo fino. Podia distinguir no meio dos sons da rua as notas da música que estudava:



"Que adevolve este biête

Este lenço, esta lembrança

Os anel e os bracelete

Mais os brinco e a aliança."



Aos poucos as pessoas se acostumaram com o corpo estatelado na rua. Tudo muito igual... A vida foi voltando ao normal e ela foi depositada no banco da pracinha, por caridade de uns e praticidade de outros, para que aguardasse socorro sem atrapalhar tanto. Um dos passantes apressou-se em lhe retirar da mão hirta o minúsculo celular e a aliança, escondendo o achado na mochila suja. Fez, antes que outro o fizesse, defendeu-se. Era pequena peça de valor. Ganharia uns bons trocados no câmbio da feira. Pequeno, fácil de esconder... A aliança daria para a primeira mulher por quem se apaixonasse; se merecesse, é claro. O policial de plantão tocou os braços e pernas da moça estirada na rua, cogitando ser mais um drogado na pracinha. Os braços decaídos apontavam para o chão, a cabeça tombada para o lado esquerdo do peito, como se consolasse o coração ora abatido pelo golpe mortal; um corpo sem a identidade e sem os sapatos. O piano e a voz da professora Anthea soavam fraternalmente em sua cabeça, como o único consolo no fim... As aulas de canto repetem-se ao longe em seus ouvidos:



"Sinhá moça também disse

Que entonces lhe pidisse

De vorta a fita das trança...

- Que mais sinhá disse?

- Eu não se esqueci de nada

Se não estou enganada

Falou corqué coisa mais..."





Clara restava imóvel no meio da cidade que ia se apagando. O corpo foi ficando rígido, ela tombada como se dormisse....



"Ah! Que eu fosse em disparada

Pelo ataio da cancela

Pra mim dizê pra ela

Ah!Ah! Ah! Ah

A cara que sinhô faz."



De madrugada na troca de turno, outro policial vendo-a ali deitada tocou seu corpo rudemente com a ponta do cassetete. Fez cara de desprezo, tão banal era a miséria na cidade. Só então constatou que estava morta, a roupa úmida de neblina colada ao corpo pequeno. A fita das tranças desprendida dos cabelos enfeitava o chão imundo.

No atestado de óbito constou: causa da morte desconhecida ( ou ataque do coração?)

Ninguém saberá que morreu atingida por um torpedo; uma palavra disparada por um telefone celular que explodiu impiedosamente dentro do seu coração. Só ela ouviu o RECADO.





         Crônica inspirada na música O RECADO de Babi de Oliveira – Pianista e compositora brasileira.

Autora: Valéria Áureo - in Sortilégio dos signos

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Quem é ela?



Ilustração: Internet
              
           Ele olhava para ela com certo estranhamento; naquele dia acordou e vislumbrou um rosto diferente ao seu lado, na cama arrumada e muito branca. Lençóis muito alvos e esticados. Onde estavam os lençóis de estampas florais azuis? Lembrava-se de ter se deitado neles e sentido o perfume da fronha recém lavada. Era macia e aconchegante a sua cama; essa ele não sabia dizer se o agradava. Parecia mais dura e as costas se ressentiam... A mulher ele não reconhecia. Era feia, esquisita, de cara sisuda. Quem é ela, meu Deus? Como podia ser? Sempre se orgulhava de sua mulher tão bonita... Não! Não era a sua mulher, concluía. Os olhos? Os olhos não eram verdes? Agora se dava conta de um esmaecido cinza, quase opaco e triste, contornado por duas amêndoas miúdas e confusas. Que olhos tristes, pensou!... No entanto há muito tinha sido engolido, tragado por duas ondas gigantes de mar de esmeralda, que o afundaram no abismo daquela alma feminina, tão linda, tão delicada, quase infantil...

            Hoje acordava e via diante de si uma mulher tão gorda, tão diferente, de pele azeda e desbotada, de pelos grossos espalhados aqui e ali no rosto exageradamente redondo. Peitos abundantes, quadril largo, mãos miúdas e gorduchas... Quando, quando aquela menina tinha partido? E como é que ele não tinha visto aquela mulher gorda, desleixada e triste passar pela porta do quarto? Quem abrira a porta do seu quarto para ela?

            Pensou em gritar, chamar por Flávia, adocicar o dia em seus lábios matutinos, levemente rosados e carnudos, como sempre fazia ao amanhecer. Pensou na pele branca, macia, perfumada e angelical. Tentou fechar os olhos, afugentar da sua vista aquela mulher desconhecida, que insistia em ajeitar os lençóis. Ela o arrastou para a cadeira, pois precisava trocar os lençóis. Não gostou do toque e da intimidade daquela mulher estranha, respirando tão perto do seu rosto e sussurrando-lhe palavras incompreensíveis, guiando-o pelo quarto desconhecido. Quis chamar Flávia, mas a voz não saía... Tentou gritar, mas o grito morria dentro do crânio. Apenas um som seco que não saía de dentro do poço vazio, ele conseguia ouvir. A confusão fazia doer a cabeça. Os braços e as pernas não atendiam suas ordens e  era guiado pela estranha criatura que o sustentava com as mãos fortes. Tentava explorar a contradição dos seus sentidos, fazer-se claro, ao menos para si, e descobrir, ao final, quem era aquela mulher... Experimentou uma apaixonante conexão com a ilusão, na tentativa de encontrar Flávia, atrás da cortina da sala, ao lado do piano, escondida no cômodo vizinho. Gostava de se esconder atrás dele, em uma jovial perseguição de namorados, para depois ganhar um beijo. Ela dava gritinhos, fingindo-se apavorada. Ele fingia ser um leão rugindo e a alcançava depois de alguns minutos. Invariavelmente ela se escondia no mesmo lugar, agachada atrás do piano.

            Que desespero, tê-la perdido de vista. Será que se mudara para outra cidade; fora morar longe? Quem sabe um acidente? Morrera num desastre de avião? Não podia ser... Não se lembrava de ter viajado e sofrido tamanha dor. Casara-se, tivera filhos? Ah! Sempre soube que teria filhos, que ela seria boa mãe... Mas, os olhos? Onde estavam? Onde estava Flávia de olhos verdes, infinitamente verdes e florestais? Tão verdes que as folhas de samambaias se alastravam do lado deles... Ora verdes de mar, ora cor de pedra. Mas... Onde estava Flavia e as verdes folhagens de seu olhar? Quem é esta mulher que mexe em minha cama com tanta intimidade? Como vim parar aqui nesse lugar esquisito? Essa cama, a cadeira, a janela...

            _ Dona Flávia? Dona Fafá?... Pode ficar tranquila, disse o médico entrando pela porta do quarto. Seu Osório vai ficar bem... A senhora vai precisar de muita paciência. E trate de colocar uma acompanhante, dia e noite. Ele não tem mais condições de ficar sozinho em casa. Não tem mais como cuidar de si. Mas posso lhe afirmar, com toda certeza: pelos exames que eu tenho aqui, ele renasceu e terá uma nova chance!

Autora: Valéria Áureo - in Sortilégio dos Signos


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Daguerre e Paz









Diáfana fotografia à luz da lamparina /esculpida pela sombra/ na parede torta...
Meu pai assobia, o canário canta. / Olho pessegueiros cheios de flores/ e a ventarola assovia. Meus ouvidos são conchas submersas, / colhendo pérolas nas paredes. / Quero ouvir passarinhos... / Ouço a folharada seca, / espessa, posta em fantasia pelo vento. / Não conheço gardênias. / Peregrino de jardins, / ouço meu pai assobiando. / E o melro canta. / No meu coração há espaço para tanto
Difícil voltar a escrever, meu coração ainda dói muito e todos que já perderam alguém compreenderão o que falo. Eu me solidarizava com a dor das outras pessoas, mas não compreendia verdadeiramente a dor. Passei a saber agora sentindo, porque é minha e tem que ser vivida por mim.
Falava quase diariamente com meu pai ao telefone. Falávamos sobre tudo, principalmente sobre a vida e poesia. Na véspera de sua morte ligou para se despedir de mim, assim como fez com muitas pessoas que encontrou na sua última ida a Rio Pomba.
- Estou de partida, declarou. Tomou seu último sorvete e retornou a Silveirânia. Rezou, acendeu uma vela e disse à minha mãe que estava pronto. Sabia que ia morrer.
 Deu-me os mesmos conselhos, como se eu ainda fosse a pequena menina,  porque para os pais nunca crescemos: - Minha filha, se quer mesmo ser escritora continue estudando, não pare nunca; leia muito, leia tudo, principalmente filosofia. Ah! Vou lhe dar um dicionário, ele tem que ser a sua “bíblia”...
Suas últimas palavras reverberam dolorosamente no meu coração: - Leia! Leia! Leia! E desligou, interrompendo o eco que se propagava entre a sua cidade e a minha; e eu nem imaginava que era a última vez que escutava sua voz.
 Na nossa infância era assim que ele fazia. Assoviava músicas clássicas, enquanto trabalhava horas intermináveis, como se buscasse motivos para enternecer suas mãos e assim suavizar rugas, cansaço e sofrimentos dos rostos que retocava. Era uma “fraude” desejável e perdoável; ser mais desenhista que fotógrafo, para poder interferir livremente na rigidez do tempo retratado. Desenhava minimamente sobre a imagem, conferindo belezas, violando a rígida eficácia da luz sobre o filme. Maneira generosa de burlar a severidade das formas e interferir na imagem. Retirava generosamente imperfeições que a vida pudesse conferir e fazia o rosto mais jovem, mais feliz. Era arte, desenho e inspiração. Fotografar é escrever com a luz.
Desenhista, fotógrafo, pai... Bravo e bravo pai, nas duas acepções da palavra... Enérgico e valente pai... Colocava-nos em torno da mesa ampla da cozinha, onde toda a filharada se sentava. Oito filhos e a nossa mãe do lado, reunidos para ouvir suas lições. Não tínhamos televisão, ou qualquer outro apelo, capaz de desviar o sentido didático dos finais de tarde sustentados por sua brilhante retórica. Suas aulas eram bem na hora da Ave-maria, e devia ser mesmo sua forma de fazer oração, cumprindo com amor sua missão de pai. Fazia disso um ofício prazeroso, muito maior que a acadêmica responsabilidade da escola. Educar-nos era, antes de tudo, uma obrigação sua, pensava. Hoje até posso reconhecê-lo como um preceptor notável, desses que só os mais nobres tinham. Era em nossa casa que devíamos aprender e assim fomos habituados a ouvi-lo e a ler a Enciclopédia Delta Larousse, na ocasião moderníssima fonte de toda informação que precisássemos. Palavras como ética, moral, religião, verdade, justiça, honra, preconceito e tantas outras eram quase diariamente ditas por ele e digeridas minuciosamente por nós. Insistia em nos fazer compreender, ouvir, corrigir, argumentar, concluir. Sempre afirmava categórico: - Pobre tem que estudar vinte e cinco horas por dia. Se o dia só tem vinte e quatro horas, deem um jeito e arranjem mais uma.
Hoje entendemos o que é ser órfão. É o que somos agora, seus oito filhos, e nos sentimos meninos pequenos, desprotegidos, desvalidos. Não posso negar que tenha sido um homem polêmico, muitas vezes duro, severo, exigente, características muito marcantes de sua personalidade. Mas nunca se poderá dizer que foi um homem indiferente. Sua visão do mundo oscilava entre o pessimismo de Schopenhauer, e o trágico de Nietzsche, o que nos revelava aos poucos que não estávamos diante de um homem comum, que parecia prever os rumos do mundo. Não se contentava em viver, mas questionava, como o grande pensador que sempre foi, a própria existência. Chegou ao final dos seus dias com a mesma força de pensamentos de outrora; lúcido, engajado, exercendo o seu direito de voto, criticando, cobrando, questionando o sistema e indignando-se com as injustiças. Tinha sua forma peculiar de amar e respeitar seu Deus, hermeticamente escondida pela caridade, porque não suportava o sofrimento e a miséria. Embora de gênio forte, muitas vezes incompreendido, posso, todavia, enumerar mil outras qualidades, muito mais notáveis, entre as quais a sensibilidade, a lealdade aos amigos, o gosto estético, o senso de justiça e o apreço pela verdade. Daquelas características mais incompreensíveis para quem não o conhecia intimamente, talvez se pudesse concluir erroneamente pela desmedida severidade... Entretanto, nem mesmo ela, a severidade, comprometeu o exacerbado amor e respeito que sentimos por ele. Apregoou a união entre nós e ainda temos necessidade de nos reunir em torno da nossa mesa “escola”. Exigia de nós nobreza de caráter, dignidade e justiça. Quase nos exigia a perfeição e, durante a vida toda, nos esforçamos de maneira exasperada para não decepcioná-lo. Era difícil, para cada um de nós, ser filho de nosso pai, mas como foi honroso e como valeu a pena!... Acho que conseguimos não a inaccessível perfeição que ele exigia de nós, mas crescer e amadurecer com dignidade num mundo tão desprovido de valores. Teve um final tranquilo, porque pôde auferir do que plantou. Quero isto também para mim: Chegar ao final de minha vida e poder ver meus filhos vitoriosos homens de bem.
No último telefonema declarou: - Minha filha, eu acho que Deus se esqueceu de mim, numa queixa ao seu cansaço físico dos 87 anos, que ele dizia 89 e, principalmente, numa evidente inadequação aos dias de hoje. Estava muito insatisfeito com o destino da humanidade, porque nunca abandonou suas reflexões existenciais. Era um humanista. É isto, o velho Daguerre sabia que o mundo, com suas recentes concessões, permissões e inserções de “não valores”, estava cada vez mais inadequado para ele. Era mesmo melhor partir...
 Do Zoberto restarão palavras contestadoras; restarão ideias e irretocáveis fotografias, tiradas no inesquecível “Foto Daguerre” concebidas ao estilo Rembrandt, num exercício de arte e luz, onde procurava enaltecer no rosto de cada um que retratava o seu melhor atributo. Restarão pela cidade as inúmeras casas que desenhou em cujas fachadas sempre quis agregar jardins e flores e disfarçados encantamentos, onde se materializavam sonhos e arquiteturas de lares e famílias. Restarão intermináveis declarações de amor que nos fizemos ao longo de nossas vidas e ecoarão para sempre suas últimas palavras: - Leia! Leia! Leia! Estude! Principalmente filosofia. Ah! Vou lhe comprar um dicionário...
Lamentável, fiquei sem seu dicionário com dedicatória.
De bem material trouxe comigo o que penso me bastar: um par de meias de meu querido pai, que calçarei toda vez que sentir muito frio e toda vez que eu não souber por onde, nem para onde ir, na esperança de que ele possa me mostrar a direção... 
Meu pai assobia, o canário canta/ no meu coração há espaço para tanto... /
Incrível, mas seu canarinho belga, em compasso com o coração dele, na mesma semana também morreu. Quem sabe irremediavelmente saudoso de ouvir seus assovios, ou também por sentir-se inadequado para gaiolas e o mundo atual. Para compensar a dor de seus filhos, as borboletas chegaram ao meu jardim... Vou tentar prosseguir apreciando flores, ouvindo pássaros, percorrendo meu caminho sem os seus conselhos, sem as suas ideias, sem o seu amor...
É isto, velho e admirável Zoberto. Pai bravo... BRAVO pai... Vou copiar Nietzsche e dizer: “Eis o homem”...
Ah! Sabem como sempre nos despedíamos? Eu te amo. “Ne me quitte pas...” Inevitável, teve que me deixar.

Valéria Áureo – novembro de 2004

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Não fosse a poesia






          Não fosse a poesia, nada mais seria possível, apenas um dia igual: amanhecer engolindo sem sentir a pressa e o gosto, minutos e café. Engolir a própria fome. Descer barranco abaixo sob a chuva fria, contornando o vento, a pobreza, ruelas estreitas e a solidão. Ser aprisionado pela vida no compromisso do sol com a luz, do galo com o canto, enquanto o pássaro aprecia preso na gaiola, a minha solidão. Eu, do lado de fora, em declarada ousadia, invado o inevitável dia. Começo tudo de novo, teimosamente. Recomponho na aridez do meu espaço aquilo que meu coração precisa para sobreviver. Tudo, sem repetir-se na óbvia sequência do dia: estar sempre desvendando trevas e tristezas, alternando sol e lua, buscando a cada instante alguma coisa que justifique a vida. Mas, na repetição diária de escolher os grãos de arroz, o coração fugitivo da rotina dedilha sílabas, compõe poemas e versos mosaicos sobre a mesa tosca. Não importa quanto falte, não importa quanto tudo me faz falta.  Separo as pedras do arroz e da própria existência, porque só estão ali para pesar. Separo e rejeito o sofrimento como pedras recolhidas entre os grãos brancos. A água da torneira improvisada escorre pela humilde louça, delineando um rio pia abaixo no novo destino do latão. As mãos limpam o peixe para o almoço, desvencilhando-o de entranhas e de escamas madrepérolas. O coração extasiado, reflexo da alma, deslumbra os movimentos do peixe antes, inexistentes agora; não mais livre na água fria do rio que só eu vejo.
          Eu pensava: os peixes são para os rios, como eu fui feito para voar. Em minhas mãos não há anéis, senão estrelas, pedras verdes, encantamentos sob o rio que eu refaço e que contenho entre os dedos. Talvez feito de lágrimas ou águas que escorrem morro abaixo, na composição da chuva insistente e o lamaçal. Aprisiono a vida, enquanto escamo o peixe agora inerte.  Rola pela minha boca a palavra dolorida, como um anzol fisgado na guelra lacerada. Nós dois assim, mutilados, temos nos comunicado no silêncio, enquanto relâmpagos acendem violetas nos meus olhos. Ah!...Não fosse a poesia...
          Ponho a mesa, estendo a toalha, visto a ceia em linho de sacos de trigo alvejados. Brancura farta na imensidão da mesa quase vazia. No coração as escamas arrancadas são cordilheiras, envoltas em fubá dourado, dorso do peixe servido à mesa, aprisionado na imobilidade do prato. Meus olhos jorram maremotos, enquanto a espinha travada na garganta anuncia a minha fragilidade. Na minha alma o peixe ainda nada esguio, escorregadio pela minha boca, restaurando a possibilidade de todos os sonhos e viagens. Penso na casa, na pouca comida, nas crianças, na vida... Mergulho na humildade de minha mesa tentando preencher o vazio dos pratos, alcançar o último nado, o naufrágio, as frias fossas sob as grutas. Do teto escorrem goteiras, esculpidos cristais em grutas, estalactites, lustres imaginários insinuando arquitetura dos anjos ou, quem sabe, lágrimas minhas, lágrimas dos meus filhos, lágrimas de Deus.
          Seria só um dia a mais no barraco úmido, não fosse a suavidade do vento compondo com a noite uma sinfonia depois da chuva. O vento cicia nas folhas de zinco e ouço violinos... Barro, barraco, barranco, briga, barulho, berreiro de crianças. Quantos sons desencontrados e os silêncios misturados. E quando a escuridão cobre a favela depois que a chuva passa, eu posso abrir a minha caixa de joias, eternamente ao meu alcance, simplesmente olhando para o céu... A primeira estrela que eu vejo, parece minha. Parece perto, parece sim. Eu a toco com a ponta dos dedos e a faço repousar como aliança, pássaro solto na palma da mão. Meu diamante solitário, brilho de esmeralda e alguma coisa de mim. Certamente a esperança... Ignoro tudo: um desassossego, um presságio, um jeito de solitário manter-se aflito no ar, um oceano de chapéus acenando despedidas... Beijos jogados ao léu, ruídos do espatifar de um cristal, que ouço em lugar dos gritos. Mas é meu todo aquele céu cravejado de brilhos. Meu, só meu, porque o alcanço com olhos e o desvendo com o coração. Posso tê-lo e guardá-lo onde sempre soube estar. Tão livre, tão à mercê de todos e ninguém pode tirá-lo. É... Ninguém o rouba de mim, nem o percebem. Não sei se longínqua ou próxima a minha fortuna.
          Uma eternidade provável eu percorro com os olhos e vejo toda constelação absolutamente livre no ar. Não avisto tetos de papelão, paredes de compensado, lixo amontoado, água escorrendo e lamaceiro. Não ouço os tiros, não ouço choro de crianças, esqueço-me da fome. Não sinto cheiros. Não percebo as entranhas da miséria. Estão expostas em esgoto e negrume luzidio. Meus olhos alcançam além das estrelas, muito acima das casas, muito, muito acima dos homens.
          Ah!... Não fosse a poesia e o meu modo longínquo e tão próximo de estar dentro da estrela...
         Eu tenho o céu, o sonho sobre a cidade adormecida e todo o encantamento dos poemas com que alimento a minha esperança à noite e recomeço o dia.
         Ah!... Não fosse a poesia, nada, nada justificaria a minha vida...


Valéria Áureo


Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida- 2004

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Conversa além do tempo



                                                         ILUSTRAÇÃO: INTERNET


- Veja só, Normélia!... Ali, no Coreto, lendo um jornal. Aquele é o rapaz que veio me entrevistar. Chegou de longe, como ele mesmo me disse, mas não me explicou de onde veio. Falou alguma coisa sobre o intangível e o imponderável e ficou algum tempo calado... Fez algumas perguntas, algumas considerações, como se já soubesse as respostas. Comportou-se, comedido nas palavras e econômico nos gestos. Falou-me um pouco de metafísica, alguma coisa assim. Eu o convidei a passar em casa para apresentá-lo a você e tomar um cafezinho, mas não teve jeito. Arredio, de certa forma, se esquivou. Ficamos mesmo a conversar no Largo, apesar do calor. Disse-me, entre outras coisas, que tem boas recordações daqui, como se já tivesse vivido na cidade. Achei-o bem tímido e apressado, sempre olhando o relógio. Disse-me que tinha hora para partir e que precisava da entrevista, antes que os minutos se esvaíssem... Do jeito que chegou ele partiu. Pois vejo que está de volta... Será que tem alguma novidade?

E você, querida, gostou da edição de 25 de junho? Leu o que escreveram sobre o nosso jornal? Eu fiquei entusiasmado com a repercussão e o tanto que comemoraram. Linda homenagem. Fizeram bem em celebrar a data, tão importante para nós.

- Gostei muito, meu querido. Confesso que foi uma grande surpresa. Uma edição em festa, moderna, colorida. Bem ao gosto de nossa neta. Foi uma edição especial que muito me emocionou. Compensou os esforços de toda a família.

- É verdade. Muita gente boa escreveu. Apreciei cada texto. Já li, reli e não me canso. Acha que devemos falar com ele? É o único com quem podemos falar sobre esse acontecimento. Os outros nunca vêm nos ver. Gostaria de conversar com Santão, Nicolau, Roberto...

- Claro que sim. Vamos falar com ele. Tenho a impressão que vocês se tornaram amigos, irmanados pelo gosto das letras, das ideias e das boas conversas. Assunto não lhes deve faltar.

- Pois venha comigo! Vamos antes que ele se vá. Não sei se teremos outra chance.

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- Então, meu rapaz? Que surpresa agradável. Não contava em vê-lo mais uma vez. Soube que voltou porque o tempo lhe permite tudo e eu aprecio muito suas viagens. Elas me dão certo conforto, pois é o jeito que tenho de me manter informado, por obrigação de jornalista, posso assegurar. Não se perde o vício do ofício. Pois mesmo querendo ficar longe do caos em que se encontra o país, a minha obrigação é acompanhar os fatos. Sinto-me desanimado, vexado até, com os últimos episódios de corrupção. Quanta roubalheira! Não podia esperar por esta. Mas, deixemos a política de lado. Sua nova visita é bem oportuna, pois precisava lhe contar de minha alegria com a repercussão da festa do meu jornal; então, somos o terceiro jornal mais antigo do estado e o quinto mais antigo do país? Não imaginava uma coisa desta. Veja só! Eu inseguro, sem saber se deveria tentar novamente e as notícias são tão boas! Pois esta é a prova incontestável do sucesso de minha família. Devo lhe dizer que muitos deles estão aqui comigo, faz algum tempo e que todos vibraram com a edição especial dos 120 anos. Já sabe... O tempo é uma ilusão! Esses anos se misturam no antes e no depois... Não se sabe do começo e nem do fim. Bem, deixemos de filosofar!... Afinal, por que veio? Alguma matéria especial? Ou já sentiu saudades da terrinha?

- Saudades também. Para ser sincero eu relutei em vir... Temia incomodá-lo novamente neste seu afã do lançamento de O Imparcial. E, por mais confuso que possa lhe parecer, sua neta estava na azáfama da edição especial. É um ir e vir incessante no tempo, como se a minha alma habitasse o absoluto. É uma profusão de datas, de 1896 a 2016, num piscar de olhos, em que tudo se mistura em um grande livro, onde não há começo e nem fim. Eu o abro na primeira página e lá está o senhor com as suas dúvidas. Folheio e me deparo com José de Assis e suas certezas; vou mais adiante e lá está sua neta Carmen Lúcia, às voltas com as próximas edições. Um instante se passa e eu me dou conta dos cento e vinte anos passados. Vou de um extremo a outro e todos estão trabalhando, trabalhando, trabalhando. Milhares de folhas de jornal voando pelos domingos, ano a ano. O senhor sabe... O tempo é absoluto porque não varia, apesar de nos iludir com o contrário; é infinito e independente e passamos por ele afobados e distraídos. É absoluto, espacial e minha alma circula livremente encontrando quem o meu coração deseja. Gosto dessas viagens no tempo e no espaço, com a leveza de um sopro. O tempo não passa, nós é que “acontecemos” nele, escrevendo as nossas histórias. Movimento e tempo são criações da nossa consciência; são interpretações que fazemos para organizar a existência e a compreensão de nós mesmos e do universo que nos cerca. A consciência, esta sim é dinâmica, variável, expandindo-se, contraindo-se e curvando-se. Nós somos os viajantes, não acha? Diante disto está a minha facilidade de me deslocar no ontem e no amanhã. Eu estou lá e cá, sempre que minha imaginação me leva. Sei que o senhor também pode deslocar-se com facilidade, como a maioria dos escritores, ou estou enganado?

- Não, não está enganado; eu mesmo costumo visitar meus entes queridos com certa frequência.

- Então, o senhor me compreende. Fico mais à vontade em despedir-me. Desculpe-me, mas tenho pressa. Preciso deixar que tudo aconteça normalmente, porque já interferi demais.. Não posso mais atrapalhar, meu caro Francisco Vieira... Sinto muito em deixá-lo e à sua esposa, mas tenho um último pedido a lhe fazer antes de partir... Gostaria muito que todos fôssemos ao Foto Daguerre, na Domingos Inácio, para que Seu Zoberto fizesse uma fotografia de todos nós. Seria uma bela recordação de um episódio que os incrédulos acham improvável, não acha?

- Ótima ideia! Vamos lá!... A foto comprovará o nosso extraordinário encontro.



Valéria Áureo
Publicado em O Imparcial
08/07/2016