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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Não fosse a poesia






          Não fosse a poesia, nada mais seria possível, apenas um dia igual: amanhecer engolindo sem sentir a pressa e o gosto, minutos e café. Engolir a própria fome. Descer barranco abaixo sob a chuva fria, contornando o vento, a pobreza, ruelas estreitas e a solidão. Ser aprisionado pela vida no compromisso do sol com a luz, do galo com o canto, enquanto o pássaro aprecia preso na gaiola, a minha solidão. Eu, do lado de fora, em declarada ousadia, invado o inevitável dia. Começo tudo de novo, teimosamente. Recomponho na aridez do meu espaço aquilo que meu coração precisa para sobreviver. Tudo, sem repetir-se na óbvia sequência do dia: estar sempre desvendando trevas e tristezas, alternando sol e lua, buscando a cada instante alguma coisa que justifique a vida. Mas, na repetição diária de escolher os grãos de arroz, o coração fugitivo da rotina dedilha sílabas, compõe poemas e versos mosaicos sobre a mesa tosca. Não importa quanto falte, não importa quanto tudo me faz falta.  Separo as pedras do arroz e da própria existência, porque só estão ali para pesar. Separo e rejeito o sofrimento como pedras recolhidas entre os grãos brancos. A água da torneira improvisada escorre pela humilde louça, delineando um rio pia abaixo no novo destino do latão. As mãos limpam o peixe para o almoço, desvencilhando-o de entranhas e de escamas madrepérolas. O coração extasiado, reflexo da alma, deslumbra os movimentos do peixe antes, inexistentes agora; não mais livre na água fria do rio que só eu vejo.
          Eu pensava: os peixes são para os rios, como eu fui feito para voar. Em minhas mãos não há anéis, senão estrelas, pedras verdes, encantamentos sob o rio que eu refaço e que contenho entre os dedos. Talvez feito de lágrimas ou águas que escorrem morro abaixo, na composição da chuva insistente e o lamaçal. Aprisiono a vida, enquanto escamo o peixe agora inerte.  Rola pela minha boca a palavra dolorida, como um anzol fisgado na guelra lacerada. Nós dois assim, mutilados, temos nos comunicado no silêncio, enquanto relâmpagos acendem violetas nos meus olhos. Ah!...Não fosse a poesia...
          Ponho a mesa, estendo a toalha, visto a ceia em linho de sacos de trigo alvejados. Brancura farta na imensidão da mesa quase vazia. No coração as escamas arrancadas são cordilheiras, envoltas em fubá dourado, dorso do peixe servido à mesa, aprisionado na imobilidade do prato. Meus olhos jorram maremotos, enquanto a espinha travada na garganta anuncia a minha fragilidade. Na minha alma o peixe ainda nada esguio, escorregadio pela minha boca, restaurando a possibilidade de todos os sonhos e viagens. Penso na casa, na pouca comida, nas crianças, na vida... Mergulho na humildade de minha mesa tentando preencher o vazio dos pratos, alcançar o último nado, o naufrágio, as frias fossas sob as grutas. Do teto escorrem goteiras, esculpidos cristais em grutas, estalactites, lustres imaginários insinuando arquitetura dos anjos ou, quem sabe, lágrimas minhas, lágrimas dos meus filhos, lágrimas de Deus.
          Seria só um dia a mais no barraco úmido, não fosse a suavidade do vento compondo com a noite uma sinfonia depois da chuva. O vento cicia nas folhas de zinco e ouço violinos... Barro, barraco, barranco, briga, barulho, berreiro de crianças. Quantos sons desencontrados e os silêncios misturados. E quando a escuridão cobre a favela depois que a chuva passa, eu posso abrir a minha caixa de joias, eternamente ao meu alcance, simplesmente olhando para o céu... A primeira estrela que eu vejo, parece minha. Parece perto, parece sim. Eu a toco com a ponta dos dedos e a faço repousar como aliança, pássaro solto na palma da mão. Meu diamante solitário, brilho de esmeralda e alguma coisa de mim. Certamente a esperança... Ignoro tudo: um desassossego, um presságio, um jeito de solitário manter-se aflito no ar, um oceano de chapéus acenando despedidas... Beijos jogados ao léu, ruídos do espatifar de um cristal, que ouço em lugar dos gritos. Mas é meu todo aquele céu cravejado de brilhos. Meu, só meu, porque o alcanço com olhos e o desvendo com o coração. Posso tê-lo e guardá-lo onde sempre soube estar. Tão livre, tão à mercê de todos e ninguém pode tirá-lo. É... Ninguém o rouba de mim, nem o percebem. Não sei se longínqua ou próxima a minha fortuna.
          Uma eternidade provável eu percorro com os olhos e vejo toda constelação absolutamente livre no ar. Não avisto tetos de papelão, paredes de compensado, lixo amontoado, água escorrendo e lamaceiro. Não ouço os tiros, não ouço choro de crianças, esqueço-me da fome. Não sinto cheiros. Não percebo as entranhas da miséria. Estão expostas em esgoto e negrume luzidio. Meus olhos alcançam além das estrelas, muito acima das casas, muito, muito acima dos homens.
          Ah!... Não fosse a poesia e o meu modo longínquo e tão próximo de estar dentro da estrela...
         Eu tenho o céu, o sonho sobre a cidade adormecida e todo o encantamento dos poemas com que alimento a minha esperança à noite e recomeço o dia.
         Ah!... Não fosse a poesia, nada, nada justificaria a minha vida...


Valéria Áureo


Prêmio Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida- 2004

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Conversa além do tempo



                                                         ILUSTRAÇÃO: INTERNET


- Veja só, Normélia!... Ali, no Coreto, lendo um jornal. Aquele é o rapaz que veio me entrevistar. Chegou de longe, como ele mesmo me disse, mas não me explicou de onde veio. Falou alguma coisa sobre o intangível e o imponderável e ficou algum tempo calado... Fez algumas perguntas, algumas considerações, como se já soubesse as respostas. Comportou-se, comedido nas palavras e econômico nos gestos. Falou-me um pouco de metafísica, alguma coisa assim. Eu o convidei a passar em casa para apresentá-lo a você e tomar um cafezinho, mas não teve jeito. Arredio, de certa forma, se esquivou. Ficamos mesmo a conversar no Largo, apesar do calor. Disse-me, entre outras coisas, que tem boas recordações daqui, como se já tivesse vivido na cidade. Achei-o bem tímido e apressado, sempre olhando o relógio. Disse-me que tinha hora para partir e que precisava da entrevista, antes que os minutos se esvaíssem... Do jeito que chegou ele partiu. Pois vejo que está de volta... Será que tem alguma novidade?

E você, querida, gostou da edição de 25 de junho? Leu o que escreveram sobre o nosso jornal? Eu fiquei entusiasmado com a repercussão e o tanto que comemoraram. Linda homenagem. Fizeram bem em celebrar a data, tão importante para nós.

- Gostei muito, meu querido. Confesso que foi uma grande surpresa. Uma edição em festa, moderna, colorida. Bem ao gosto de nossa neta. Foi uma edição especial que muito me emocionou. Compensou os esforços de toda a família.

- É verdade. Muita gente boa escreveu. Apreciei cada texto. Já li, reli e não me canso. Acha que devemos falar com ele? É o único com quem podemos falar sobre esse acontecimento. Os outros nunca vêm nos ver. Gostaria de conversar com Santão, Nicolau, Roberto...

- Claro que sim. Vamos falar com ele. Tenho a impressão que vocês se tornaram amigos, irmanados pelo gosto das letras, das ideias e das boas conversas. Assunto não lhes deve faltar.

- Pois venha comigo! Vamos antes que ele se vá. Não sei se teremos outra chance.

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- Então, meu rapaz? Que surpresa agradável. Não contava em vê-lo mais uma vez. Soube que voltou porque o tempo lhe permite tudo e eu aprecio muito suas viagens. Elas me dão certo conforto, pois é o jeito que tenho de me manter informado, por obrigação de jornalista, posso assegurar. Não se perde o vício do ofício. Pois mesmo querendo ficar longe do caos em que se encontra o país, a minha obrigação é acompanhar os fatos. Sinto-me desanimado, vexado até, com os últimos episódios de corrupção. Quanta roubalheira! Não podia esperar por esta. Mas, deixemos a política de lado. Sua nova visita é bem oportuna, pois precisava lhe contar de minha alegria com a repercussão da festa do meu jornal; então, somos o terceiro jornal mais antigo do estado e o quinto mais antigo do país? Não imaginava uma coisa desta. Veja só! Eu inseguro, sem saber se deveria tentar novamente e as notícias são tão boas! Pois esta é a prova incontestável do sucesso de minha família. Devo lhe dizer que muitos deles estão aqui comigo, faz algum tempo e que todos vibraram com a edição especial dos 120 anos. Já sabe... O tempo é uma ilusão! Esses anos se misturam no antes e no depois... Não se sabe do começo e nem do fim. Bem, deixemos de filosofar!... Afinal, por que veio? Alguma matéria especial? Ou já sentiu saudades da terrinha?

- Saudades também. Para ser sincero eu relutei em vir... Temia incomodá-lo novamente neste seu afã do lançamento de O Imparcial. E, por mais confuso que possa lhe parecer, sua neta estava na azáfama da edição especial. É um ir e vir incessante no tempo, como se a minha alma habitasse o absoluto. É uma profusão de datas, de 1896 a 2016, num piscar de olhos, em que tudo se mistura em um grande livro, onde não há começo e nem fim. Eu o abro na primeira página e lá está o senhor com as suas dúvidas. Folheio e me deparo com José de Assis e suas certezas; vou mais adiante e lá está sua neta Carmen Lúcia, às voltas com as próximas edições. Um instante se passa e eu me dou conta dos cento e vinte anos passados. Vou de um extremo a outro e todos estão trabalhando, trabalhando, trabalhando. Milhares de folhas de jornal voando pelos domingos, ano a ano. O senhor sabe... O tempo é absoluto porque não varia, apesar de nos iludir com o contrário; é infinito e independente e passamos por ele afobados e distraídos. É absoluto, espacial e minha alma circula livremente encontrando quem o meu coração deseja. Gosto dessas viagens no tempo e no espaço, com a leveza de um sopro. O tempo não passa, nós é que “acontecemos” nele, escrevendo as nossas histórias. Movimento e tempo são criações da nossa consciência; são interpretações que fazemos para organizar a existência e a compreensão de nós mesmos e do universo que nos cerca. A consciência, esta sim é dinâmica, variável, expandindo-se, contraindo-se e curvando-se. Nós somos os viajantes, não acha? Diante disto está a minha facilidade de me deslocar no ontem e no amanhã. Eu estou lá e cá, sempre que minha imaginação me leva. Sei que o senhor também pode deslocar-se com facilidade, como a maioria dos escritores, ou estou enganado?

- Não, não está enganado; eu mesmo costumo visitar meus entes queridos com certa frequência.

- Então, o senhor me compreende. Fico mais à vontade em despedir-me. Desculpe-me, mas tenho pressa. Preciso deixar que tudo aconteça normalmente, porque já interferi demais.. Não posso mais atrapalhar, meu caro Francisco Vieira... Sinto muito em deixá-lo e à sua esposa, mas tenho um último pedido a lhe fazer antes de partir... Gostaria muito que todos fôssemos ao Foto Daguerre, na Domingos Inácio, para que Seu Zoberto fizesse uma fotografia de todos nós. Seria uma bela recordação de um episódio que os incrédulos acham improvável, não acha?

- Ótima ideia! Vamos lá!... A foto comprovará o nosso extraordinário encontro.



Valéria Áureo
Publicado em O Imparcial
08/07/2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pequeno conto anacrônico






- Então, meu jovem? Cá estás! Foste recomendado pelo Olimpio Correa Netto, não é? Um ótimo cronista, meu jovem. Pois siga os passos dele e terás muito sucesso... Então! Demoraste. Vieste de longe, é verdade? O que desejas, afinal?Tenho pouco tempo livre.


- Vim de bem longe, com certeza. Longe no tempo e no espaço, com a cabeça no futuro. Vim ter contigo, à sombra do Coreto do Largo, pois 1918 é mesmo um ano bem quente. Foi só o tempo de um copo de água na Confeitaria do Camilo Dias e já estou aqui. A questão é a seguinte, Sr. Francisco Vieira de Siqueira, eu estou ocupado em fazer uma resenha sobre ti, meu amigo. Pena que me limitaram em lauda e meia, a estourar... Acho tão pouco; há tanto ouço falar de ti! Incomoda-me ver-te aí sozinho, tão preocupado, pensativo e vendo o tempo passar. São inquietações do espírito, não são? Está inseguro com a tua decisão? É isto que te absorve os ânimos? Não deixas de ter razão.


- Eu compreendo tua observação... Muitas preocupações sim. Mas não estou assim tão só; minha esposa Normélia tem sido muito compreensiva na minha decisão de tentar mais uma vez. Será a terceira e última vez que tento, posso te assegurar. Mas, escrever sobre mim? Queres fazer-me elogios? Eu cá cheio de dúvidas e medo de recomeçar com o Jornal. Sabes que já tentei outras vezes e  ele não vingou. Agora nem tenho assim tanta certeza se este sonho vai dar certo. Um Jornal, em uma cidadezinha de poucos leitores. Tenho que agarrá-los à força. Não sei como fazer...


- Pois tenho cá uma ideia: Coloca aí, bem na frente: “- ficarão considerados assignantes desta folha os cavalheiros que não devolverem o primeiro número até o dia dez deste mez”*. Coloca já na primeira publicação e vais ter uma ótima repercussão. Muitos haverão de assinar. O povo haverá de gostar do teu jornal, tenho certeza. As questões municipais e a administração pública interessam muito.


- E como podes saber? És um adivinho, por acaso? Não sei se é conveniente.


- Não sou adivinho, mas conheço bem o tempo e o que ele trará a ti.... Ora, o tempo é meu aliado... Começa pelo começo... E não te preocupes com o futuro. O povo haverá de entender o teu apelo. Posso te adiantar que tudo dará certo. Vai ser difícil, mas dará certo. Se tu soubesses o que eu sei iria ficar muito satisfeito e não titubearias um só instante. Mas, o que me aborrece é o limite do tempo e do espaço.O que poderei falar de ti em tão poucas linhas? Conto das dúvidas de recomeçar? Falo do retrato social em tuas reportagens? Falo da sempre efervescente política do Pomba? Não quero fazer uma biografia. Quero dizer dos teus sonhos e do que tu esperas com teu Jornal. Preciso me reorganizar e saber o que dizer nesta matéria. Que tal falar da esperança? Sem acreditar no sonho nada é possível.


- Dize que tentei depois de perder algumas vezes!Que tentei em junho de 1896, e em fevereiro de 1901. Agora em 1918 estou pensando em reabrir ao lado do meu filho Agenor. Dize que me tornei um arguto observador e analista psicológico das pessoas, para escrever sobre elas! Tornei-me um crítico social e político, sempre em busca da verdade dos fatos. Aos cronistas, colunistas e poetas eu deixei o espaço da ilusão. A utopia do tempo e o sonho... O tempo foi uma brincadeira... Uma ilusão! Como é agora. Não estamos cá nós dois a conversar?Eu acreditando na história de que tu vieste do futuro para me incentivar? Pois não vens ao passado, só para ter comigo uma prosa e me encher de esperança? Dize então, o que vai acontecer com o meu Jornal?Pode me dizer se vou ter êxito?


- Não sei se tu mereces um escritor tão sem prestígio quanto eu, para alentar a tua alma inquieta.... Queria ser um cronista de imaginação inesgotável para declarar à cidade a tua importância e a de teus filhos e netos. Mereces um autor de espírito e mais estudioso e com mais tempo para a pesquisa de tua vida tão empreendedora!....


- Anima-te, escreve como sabes! Hás de saber como fazer. Não deixes de arriscar. A vida é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, já dizia Machado de Assis.


- Mas, escrever em tão poucas linhas? Sou um sujeito prolixo, dado a muitas ideias. Poderia dizer muito. Levaria meses escrevendo... Há particularidades que gostaria de compartilhar contigo. Há matérias fantásticas no teu Jornal: coisas fantasiosas como o petróleo em Rio Pomba... O Pomba, ou Rio Pomba... Como discutiram por causa do nome da cidade!... Fatos bizarros da administração municipal, o barulho dos carros de boi proibido por decreto, um possível campo de aviação de José Ferreira; o homem-antena, surdo-mudo e telepata; personagens das ruas, vendedores em suas carroças e o fim dos lampiões. O jornal dando conta da chegada da luz elétrica, do primeiro automóvel, dos serviços de táxi, do primeiro caminhão e do ônibus; a chegada do telefone, da televisão. Noticiará fatos que te deixarão triste, como a Segunda Grande Guerra Mundial e o racionamento de combustível em nosso município; a guerra fria entre os Estados Unidos e União Soviética, os conflitos mundiais, as crises econômicas; Getúlio... a política, os prefeitos, os times de futebol, as rixas... os presidentes, os regimes de governo. A sucessão em O imparcial: José de Assis e Carmen Lúcia; Padre Calixto... a chegada do Padre Gallo, a Santa Lola, o homem na Lua. O progresso com as inúmeras fábricas, os anunciantes, os reclames; os Bancos, os Colégios, a Santa Cabrini; o Clube dos Trinta, o Ginásio e o Torneio de Férias; as alianças políticas, os partidos, a Escola Agrícola, os Cinemas, o Pombense, o América, a Ponte; as misses, os carnavais, o asfalto, as enchentes, os bairros, a televisão, os estudantes, as Igrejas, o Papa; os nascimentos, formaturas, casamentos, óbitos... Tanta coisa para te contar em pouco espaço. Mas o pouco tempo e o espaço me intimidam a imaginação e me desordenam as ideias... Temo me perder, extrapolar o limite da lógica dos acontecimentos e das sessenta linhas... Podes me compreender? Deixo de falar do editor, colunistas, cronistas, articulistas, comentaristas, colaboradores... Tanta gente! Não tenho espaço para falar deles.






- Limita-te, portanto aos fatos! A ordem deles já não me importa mais. Respeita as exigências da editora! Dize simplesmente que rumos tomou O Imparcial. Afinal, vai dar certo? Não suportaria um novo fracasso. Nem eu e nem minha esposa, que me apoia em tudo, poderíamos suportar.


- Ora, tu e tuas indagações. Pois posso te assegurar: não tenhas medo de fracasso e vá em frente! É difícil falar de ti e de teu Jornal, estando na tua presença, mas as notícias que te trago são muito boas. O ano de 1918 será o teu grande passo. Uma coisa eu te asseguro: O Imparcial completará cento e vinte anos, sob a direção de sua neta Carmen Lúcia. Tem alguma dúvida de que dará certo? Pois então, trata de dar prosseguimento ao projeto! O ano de 2016 te espera. Ao trabalho e mãos à obra!


- Pois se vai dar certo fico muito feliz e vou em frente. Conta a ela de minha alegria e dou-me por satisfeito; Fiz o que pude. Não te preocupes, meu caro rapaz, a respeito de tua resenha. Fala somente a verdade. E termina logo essa narrativa, pois já estás a estourar os limites da folha!... Não te alongues tanto; assim não te consideram o trabalho, nem te publicam.


Valéria Áureo

22 de maio de 2016 

 *Conforme a ortografia da publicação original.


· Fonte: Cem Anos-luz. O Imparcial 1896-1996 de Roberto Nogueira Ferreira


Texto publicado em O Imparcial em 25 de junho de 2016. Edição comemorativa dos 120 anos de O Imparcial

domingo, 22 de maio de 2016

Segunda Sessão









- Voltei , doutor...

- E passou pela sua cabeça não voltar mais?

- Sei lá. São tantas as adversidades. Eu poderia não poder vir, não querer vir, ser impedido de vir, não gostar de vir... Eu ficar com preguiça, chover forte, ficar sem dinheiro para pagar a consulta!... Sim, falta de dinheiro, é um grande motivo, não é? Entendeu?

- Bom, onde paramos?...

- A melancia. Tenho pensado na melancia.

- A fruta, certamente.

- Talvez! Para cada situação, uma possibilidade. Estou fazendo novas conexões para lidar com cada circunstância. O bom é sempre diminuir o senso crítico, como dar uma pirueta no meio do escritório, por exemplo e, para complicar, carregando uma melancia. Não tenha medo do ridículo é o que penso. Todo mundo, em algum momento é ridículo. Todo mundo carrega uma melancia; visível ou invisível aos outros, sempre há uma melancia. Já imaginou?... Uma professora fazendo striptease em uma aula de filosofia, matemática?Ela e a sua melancia...

- Aonde o senhor quer chegar?

-A lugar nenhum. Estou ainda na questão da melancia, ou do improvável, ou do absurdo; já lhe disse que a minha cabeça é cheia de ideias e não para. Hoje estou detido na melancia de cada um. Da melancia eu passo ao abacaxi em um minuto. Ou melhor; o problema da melancia é como um abacaxi. É tão complicado carregar a melancia quanto descascar o abacaxi. Bom, o abacaxi eu até descasco muito rapidamente. Acho bem mais fácil. Já a melancia é maior e mais pesada...

- De certa forma. Continue!

- Pois é. O sujeito carregando uma melancia já é um problema. Se estiver descendo uma escada com a melancia? Também imagino que possa pegar fogo no prédio. Se tiver um incêndio, enquanto se desce a escada carregando a melancia...

Não pode descartar a melancia?

- Depende! E se a melancia não for só para o sujeito aparecer, mas uma questão de sobrevivência? Não é uma melancia que o sujeito pendure no pescoço, entende?Esta é a metáfora mais banal para a melancia. Eu falo de uma melancia que pesa dentro da cabeça, no coração, nos braços. É uma melancia que não se pode descartar. Ninguém também pode ajudá-lo a carregar, porque ele tem que fazer isto sozinho.Cada um carrega a sua.

Sim. Compreendo. E tem que levar a melancia para onde?

-Aí é que está! Se o sujeito não sabe nem para onde vai, como vai saber para onde levar a melancia? Não se sabe como e nem onde. Já lhe disse: pode ser que ele tenha que descer uma escada, doze andares, porque há um incêndio no prédio... E carregando a melancia.

- Bom. Tem que decidir se leva ou não a melancia!

-A melancia vai. Onde ele for a melancia vai!Ele poderia improvisar e imaginar várias possibilidades, como é necessário na vida: carregar a melancia, partir a melancia, esconder a melancia, guardar a melancia, jogar fora a melancia. Só não pode passar adiante a melancia...

-Então? O que resta fazer?

-Acho melhor ele partir e comer a melancia.

- Pois vamos tratar disto aqui. Aqui é o lugar certo.
- Como?Vai fatiá-la, por acaso?

- Tem outra sugestão? Pode engolir a melancia inteira? Não é possível, não é? Nem inteira e nem toda de uma vez. É preciso ter paciência, pois essas coisas demoram. Está disposto a resolver esse problema? Vamos partir a melancia para se comer uma fatia a cada vez da semana. Só assim vai se dar conta, ao final, de que ela é doce, refrescante e agradável.

- Pior para mim, que não suporto melancias! Prefiro descascar abacaxis. Estou me sentindo ridículo!

sábado, 11 de julho de 2015

Onde estão as borboletas ou A leveza da Inspiração







 Bem tarde da noite, minha mãe me liga de casa e, entre muitas saudades me pergunta: onde foram parar as borboletas, minha filha? É que a cidade está coberta de flores nas acácias, quaresmas, flamboyants. Tudo aberto em primavera,  mas não vi mais borboletas. Na hora até me assustei e senti-me responsável pelo desaparecimento delas. Teria eu aprisionado todas, como já fizera no passado?...
Formigas, moscas, borboletas e o que mais há no mundo para se ver. O que eu pudesse pegar eu colecionava com a avidez dos meus olhos e a agilidade das mãos, com pressa de quem quer guardar tudo para si. Um dia aprisionei muitas borboletas em uma caixa de tela fina, querendo guardar e eternizar o voo e a beleza delas. Não compreendia a fragilidade da vida e desconhecia a fugacidade da existência. Só pensava em guardá-las ao montes, da mesma forma que colecionava papéis, pontas de lápis de cor, botões e tudo que despertasse brilho nos meus olhos. Com o mesmo ímpeto aprisionei borboletas, distanciando-as das flores, do ar, da liberdade e voo, para retê-las para sempre. Jamais imaginei que se perderiam; ao contrário, pensava perpetuá-las como num quadro vivo. Só fui compreender que não se pode reter a beleza, nem a juventude, quando as encontrei caídas como pétalas no fundo da caixa. Antes lagarta repulsiva e crisálida, depois o leve inseto. 
Borboletas se comunicam por sons oriundos de suas asas, eu aprendi. Falam-se num tímido farfalhar inaudível, percebido recentemente por pesquisadores. Um som brisa na seda fina de suas asas coloridas. Mas era óbvio que deviam se falar. Nunca imaginei que qualquer criatura deste universo pudesse não falar... Ainda mais as borboletas, que têm tanto o que dizer sobre os campos e as flores e os voos sobre as cercanias e sobre meninas que correm para alcançá-las... Os homens se falam por palavras ou por ausência delas. Gestos, silêncios, olhos e lágrimas...
São muitas borboletas, oriundas de toda parte... Aprendi, depois de grande, sobre uma viajante borboleta, vinda das longas migrações do continente americano, num bater de asas que suporta três mil quilômetros. Incansável maratonista que vem do Canadá, em setembro, até as florestas de Pinheiros do México, onde chega, em novembro, exatamente no dia dos Mortos. Para os habitantes da região as borboletas representam a alma dos entes queridos, que retornam em revoada. Pois agora elas invadiram Portugal e se deixam ficar nas zonas de várzeas das ribeiras de Algarves, e sua presença já é suficiente para tornar a região mais bonita, onde se  confundem o inseto e a flor. Linda forma de eternizar as pessoas que amamos, imaginar que vêm nos rever, ao menos uma vez, disfarçadas em mágicas criaturas. Alguns as concebem estrelas perdidas na dimensão infinita do céu; assim são mais distantes. Prefiro imaginá-las borboletas, mais ao alcance dos olhos e das mãos..
 Tive uma caixa de borboletas amarelas, das que voavam numa tarde distante, no quintal de minha casa, sem saber do sentimento de aprisionamento e solidão. Não soube pensar nelas, só em mim. Eu era ainda menina e meninas só sonham, brincam, riem e algumas, como eu, aprisionam borboletas, observam formigas, dançam com moscas, se iluminam com vaga-lumes e se enternecem com joaninhas ... Hoje fico mais tranquila com minha forma de prestar atenção em tudo. Damien Hirst foi mais sábio e pintou diáfanas borboletas. Salvador Dali foi mais genial, pintou e eternizou borboletas em uma tela suave, leve que faz o coração alçar, perdido na transparência delas. Também eu desenhei tantas, e colori, e imaginei pousar em muitas cores e perceber tantos perfumes. Meu pueril fascínio pelo pequeno ser não me permitiu guardá-las para sempre, como os pintores souberam fazer. Eu, infantilmente, ainda tenho aprisionadas as borboletas que peguei. Embora não possam ser apreciadas como uma valiosa tela num museu, elas me permitem voar, voar, voar...
Bem mãe, já sei... as borboletas estão livres, voando nos azuis dos seus olhos.

Valéria Áureo   -  O Imparcial
31/09/2004